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O encobrimento do crime

19 de junho de 2009 - 20:01:04

Os autores perguntam se é possível identificar padrões e dinâmicas comuns ao processo de evolução das atividades criminosas, e logo respondem que, partindo do estudo de casos do Rio e outras metrópoles, podem ser identificadas algumas regularidades e detectados quatro estágios: num primeiro haveria uma lógica mais societária do que econômica, determinando uma forma anárquica, ainda não organizada; no segundo, descreveram intensa competição entre grupos com utilização em massa de armas de fogo e entrada em cena do “policial violento e corrupto”. Também seriam refeitas antigas alianças para “proteção dentro das prisões”. No terceiro estágio há o predomínio de alguns grupos sobre outros, expansão das atividades comerciais em direção a outros tipos de atividades ilegais; é o momento do ingresso das milícias no cenário. No último estágio reinaria o crime organizado globalizado e de inserção internacional, nos moldes da Máfia. Até aí, tudo bem, parece que estamos frente a um sério estudo acadêmico com o qual podemos divergir, mas reconhecer que é válido.

No entanto, esperava mais de um texto de dois acadêmicos, no mínimo o de apontar as mudanças ocorridas na estrutura política, e nas atividades criminosas que seriam responsáveis pela evolução entre as fases. Os autores apontam a década de 80 como o momento em que se iniciou a transição da fase 1 para a 2 no Rio de Janeiro, a fase de “estruturação das atividades e dos grupos criminosos”, da entrada em cena do “policial violento e corrupto” e do “upgrade no sistema prisional” (sic). Uma das características foi a formação de estruturas criminosas mais hierarquizadas como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro e o Primeiro Comando da Capital, denominados “estruturas de proteção dentro das prisões”.

Dito desta forma parece que a violência começou gratuitamente por parte dos policiais “violentos e corruptos” e autoridades carcerárias, contra as quais os bandidos, pobres vítimas indefesas, tiveram que formar quadrilhas para se defender. Mas, o que ocorreu na década anterior e no início daquela década, especificamente no Rio?

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Na década de 70 a co-habitação de presos políticos com presos comuns resultou num conluio explosivo: os primeiros ensinaram aos segundos as táticas de guerrilha aprendidas em Cuba e outros paraísos comunistas, preparando-os, portanto, como seus legítimos sucessores, o que incluía aulas de organização revolucionária para a formação de quadrilhas mais eficientes. Isto explica a transição de “uma forma anárquica” para uma estrutura organizada nos moldes das organizações revolucionárias. Certamente, como conseqüência, ocorreu o aumento da violência dentro das prisões, o que motivou o necessário “upgrade do sistema prisional”.

Na década de oitenta em todo país fervilhavam as campanhas para a anistia ampla, geral e irrestrita – como veríamos mais tarde, só para um dos lados – e das “Diretas Já”. Além disto, especificamente no Rio, assumia o Governo do Estado Leonel Brizola com seu “socialismo moreno”, os policiais viraram marginais e os bandidos viraram pobres vítimas. Os primeiros tiveram seu salário achatado, proporcionando o aumento da corrupção que, retrospectivamente, foi acusada de causa das medidas contra a polícia, precisavam complementar o combustível e pagar o conserto de viaturas decrépitas, e portavam armas enferrujadas. Estavam impedidos de subir os morros e qualquer atitude mais agressiva em relação aos bandidos dava inquérito na Comissão de Direitos Humanos e geralmente demissão. Face ao total descalabro um policial me disse em 1983, profeticamente: “moço, em pouco tempo eles (os bandidos) vão dominar toda a cidade”.

Não é natural que tenha havido a transição para o segundo estágio?

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Sem pretender esmiuçar o texto todo mencionarei apenas alguns outros pontos. Para os autores o Rio estaria hoje na transição para o terceiro. A descrição deste estágio é, mais uma vez, irrefutável: expansão das atividades comerciais para além do narcotráfico, para itens como “gatos” (ligações clandestinas de luz e água), venda informal de serviços públicos, provisão de bens e serviços, ingresso das milícias no cenário buscando a reorganização das atividades em outro patamar. E aí vem mais uma pérola: “No caso colombiano, foram os paramilitares que cumpriram este papel!”. Ou a ocultação da verdadeira pérola, as FARC? Para estes “especialistas” em criminalidade e segurança pública uma guerrilha de narcotraficantes de importância, magnitude e abrangência continental não existe! Nem lá na Colômbia, que dirá de sua influência direta no Brasil, apesar de Fernandinho Beira-Mar tê-la mencionado publicamente. Um bandido denuncia uma organização responsável pelo tráfico de drogas e de armas para o Brasil e os “especialistas” nem tomam conhecimento? Seria, no mínimo, espantoso, tamanha incompetência, se não soubéssemos claramente que sua função não é pesquisar, mas encobrir os verdadeiros criminosos!

Mais uma vez os autores dizem corretamente que “cada fase merece um tipo específico de intervenção”. O que recomendam para impedir a progressão para o último estágio (crime organizado globalizado e de inserção internacional, nos moldes da máfia ou dos cartéis internacionais)? A “adoção de estratégias visando ao restabelecimento da ordem, com a total erradicação das armas de fogo e retomada de territórios”. Claro, o desarmamento da população de bem!

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Existem textos que parecem ter vida própria e se recusam a permanecer no baú. Porém, quê fazer se a inversão da história continua a mesma? Refiro-me a um artigo já antigo de quase 8 anos, Um Dia de Chumbo (http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=29), que re-apresentei em abril de 2006 e que sugiro aos leitores novamente. Nele faço algumas observações ainda atualíssimas.

A máquina de produção de mentiras históricas precisa permanentemente falsificá-la – como no Ministério da Verdade, de Orwell – e um dos métodos mais eficientes é a inversão de causa e efeito: conta-se a história sem ocultar nenhum fato, mas ao ser invertida a origem, toda a série posterior será contada ao revés. A causa primeira para o reconto revolucionário da história brasileira, no caso em apreço, anterior a tudo isto, está em 1964.

Ensine-se a um adolescente que naquele ano, militares furibundos, sem provocação nenhuma, acabaram pelas armas a maravilhosa democracia em que vivia o país e que, por esta razão, começaram os protestos pela volta à democracia; que estes foram violentamente reprimidos em 68 e, por esta razão, começou a reação armada contra o regime; que os protestos populares contra uma ditadura cruel aumentaram de intensidade e, por esta razão, ocorreu a democratização à revelia dos militares. Dadas estas premissas, delas decorre automaticamente que a população carcerária era constituída de vítimas de policiais “violentos e corruptos” oriundos dos “porões da ditadura”.

Não conheço os autores e, portanto, duas hipóteses me ocorrem: ou são jovens que desde os primeiros cursos, passando pelo segundo grau aprenderam esta história invertida e, obviamente, é natural que ao realizarem suas pesquisas completem a série ao revés automaticamente, pois é tudo o que conhecem; ou então, sabem bem que estão mentindo e funcionam plenamente dentro do duplipensar revolucionário e, por via de dissonância cognitiva, acreditam nas duas versões e utilizam a que melhor preenche as diretivas revolucionárias explícitas ou implícitas na universidade e na mídia. Sabem que se não repetirem a versão oficial falsa serão relegados ao ostracismo acadêmico e midiático e perderão seus empregos, prestígio e arruinarão suas vidas. É claro que isto não os exime de culpa pelo que deveria ser o verdadeiro título de seu artigo: O Encobrimento do Crime!

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