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O Equador e seu jogo contra a Colômbia

20 de outubro de 2009 - 5:22:39

Não há porque se enganar. O que fez o juiz de Sucumbios e o procurador quitenho que validou essa ordem (que, curiosamente tem por sobrenome Alvear, como o sinistro coletivo de “advogados” que os colombianos conhecemos), não é mais que uma jogada calculada do governo equatoriano para pôr à prova, em um contexto de falsa distensão com Bogotá, a clareza e determinação do governo colombiano e a disponibilidade de certos setores minoritários da política colombiana, ante os desafios que estabelecem ao país, não só os presidentes Rafael Correa e Hugo Chávez como a obscura galáxia extremista do Foro de São Paulo.

A prova disto foi a lavada de mãos que o chanceler equatoriano Fander Falconí deu, ao declarar cinicamente que os juízes de seu país “são autônomos” e que o governo de Correa “não tem capacidade de designar e intervir ou controlar a Procuradoria”. Falso. Durante sua cruzada autoritária contra a “partidocracia”, que culminou com a destituição de 57 congressistas da oposição, Rafael Correa utilizou certos juízes. Quem pode acreditar em Falconí? Este quer que a Colômbia faça como se não tivesse acontecido nada e continue nos pretendidos diálogos para reatar as relações bilaterais.

Se a chancelaria colombiana e o governo de Álvaro Uribe continuam apegados a uma leitura exclusivamente formal, jurídica e beata do que dizem seus vizinhos e do que está ocorrendo na esfera latino-americana, sem admitir que há uma hidra que se chama Foro de São Paulo e alguns organismos sectários e maliciosos criados pelo chavismo para impor um destino autoritário ao continente, a Colômbia seguirá atada à Unasul e se exporá a novas más surpresas.

Contra a Colômbia operam poderosas redes subversivas que manipulam, dentro e fora do país, uma agenda e uma dialética destrutiva e anti-democrática. Essas linhas prevalecem sobre os gestos hipócritas da rotina diplomática. Por que é tão difícil para o chanceler Bermúdez ver essa realidade e tomar medidas?

A seita bolivariana trabalha para instrumentalizar, por exemplo, a Interpol, e fazer valer ante esse organismo as ordens de captura que, sem nenhum freio, juízes politizados ditarão contra dirigentes colombianos. Essa gente sonha reviver o episódio de Pinochet assediado em Londres, por causa de uma ordem de captura de um juiz espanhol. Querem fazer isso mesmo com o ex-ministro Santos e com o general Padilla, tão logo eles ponham um pé no estrangeiro. E isso só será o começo.

Onde estão os esforços do governo colombiano para quebrar essa provocação, para dotar-se de uma linha que descarrilhe esses arranques sediciosos? Até hoje não há uma só reflexão a respeito, pois vivemos, parece, no melhor dos mundos. A questão é grave e exige uma atitude mais criativa. A mobilização deve envolver não só a Chancelaria e seus valentes embaixadores, mas a todos os corpos do Estado e a sociedade toda. Militares, policiais, advogados, políticos, industriais, comerciantes, jornalistas, estudantes, operários, camponeses, religiosos, todos devem ser convidados a mobilizar-se e a forjar respostas para proteger a Colômbia. A resistência contra a ofensiva “bolivariana” deve envolver o país inteiro.

Sob as ordens do Presidente Uribe e do ministro Santos, o general Freddy Padilla de León conseguiu proporcionar às FARC, aos paramilitares e aos cartéis da droga os mais demolidores golpes que eles tenham conhecido. Padilla protegeu os colombianos com a Operação Filipo, que desembocou na morte de Pedro Antonio Marín; com a Operção Fênix, que liquidou o bastião de Raúl Reyes no Equador, em 1º de março de 2008. E com a Operação Xeque que regatou, sem disparar um tiro, quinze reféns, em 2 de julho de 2008. O general Padilla passará para a História por esses gloriosos feitos de guerra. A Colômbia lhe deve imensa gratidão e respeito.

Entretanto, e embora pareça incrível, há gente em Bogotá que está disposta a aplaudir a velhacaria equatoriana. A revista Semana criticou “a fúria” e o “tom exagerado” do ministro da Defesa Gabriel Silva, que cancelou, com sobrada razão, uma reunião entre os dois países depois de declarar que ele não ia “pôr em risco nossos oficiais para que os transformem em bucha de canhão e em um espetáculo jurídico e político”.

Não agradou a Semana que o governo respaldasse o general Padilla. Disse que Uribe “saiu a defendê-lo como fizera com o ex-ministro Santos”. Para a publicação opositora tudo vai bem, pois “o impasse não foi criado pelo governo equatoriano, senão por um procurador autônomo”. A falsa ingenuidade de Semana se transforma em gesto ignominioso quando sugere, nas entrelinhas, antes de citar Antonio Navarro Wolf, que é mais importante o comércio do que a liberdade e a honra do general Padilla e do ex-ministro Juan Manuel Santos.

Que Navarro Wolf apareça citado nesse artigo não é casual. O Polo está por trás da tática de amancebar-se com Correa e sacrificar Padilla e Santos, duas cabeças que Caracas quer ver cair. Bermúdez brincará com isso por falta de vigilância?

Essa tática está sendo aplicada em outros campos, porém sempre contra os militares. Com propaganda e mentiras enormes, um grupo de agitadores conseguiu a detenção e a humilhação do coronel Plazas Vega, herói do resgate do Palácio da Justiça. Baseada em conjeturas desprezíveis, sua detenção é o espetáculo mais chocante da justiça colombiana. Essa manobra se está derrubando, porém isso dura há dois anos, em meio à indiferença da opinião pública, dos meios de comunicação e dos próprios militares e reservistas.

Resumindo: o artigo citado provou a Rafael Correa que em Bogotá ele pode contar com certos alucinados que o respaldarão no dia das novas arremetidas.

Com sua comédia de reaproximação, Quito quer se meter ao mais esperto. Trata de impor à Colômbia uma estratégia de mão dupla: por um lado, se insinua com uma cenoura (o restabelecimento das relações), e pelo outro, alardeia com um porrete (o fustigamento de altos personagens do Estado). A Colômbia se deixará esmagar por este alicate?

O presidente Uribe deveria nomear rapidamente um verdadeiro ministro da Justiça que estude os problemas e proponha saídas aos desafios da guerra jurídica. O desmame judicial atual vem do vazio criado pela fusão dos ministérios de Interior e Justiça, por razões orçamentárias. Está na hora de corrigir esse erro e de criar um escudo jurídico e político contra as sinistras intrigas que se nos vêm em cima.

Tradução: Graça Salgueiro

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