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O falastrão das folhas de domingo

12 de março de 2010 - 19:50:29

Não bastasse o senador compor uma comissão de 12 pessoas contra 28, por cuja desigualdade numérica explícita o STF ainda teve a tranquilidade de desprezar, vem ainda a mídia engajada a fazer coro do lado de fora, com Gaspari a lhe imputar caluniosamente a pecha de “racista”.

Seu argumento de que os brancos são mais criminosos do que os próprios negros por terem potencializado o fenômeno da escravidão por meio do comércio internacional é uma daquelas ilustrações cabais do conceito de “guerra assimétrica”. Gaspari pressupõe com isto que o fato de negros capturarem outros negros e colocá-los à venda a traficantes brancos torna-os santos, face à capacidade destes últimos de saber construir barcos, navegar e praticar o comércio com terceiros povos d’além-mar.

Necessário se faz salientar o que defendeu corretamente o senador democrata: jamais houve algum lugar no mundo em que a escravidão não tenha existido, quaisquer que tenham sido as raças, opressora e oprimida. Ainda que em algum canto remoto algum povo não a tenha conhecido, atribuamos este fato à lista das excêntricas exceções da história.

Isto, sem dizer que a escravidão, de per se, já constituiu um importante salto civilizatório, sabido que o que havia antes era o extermínio total do inimigo. Os tártaros tinham por procedimento de conquista matar todos os indivíduos do sexo masculino que ultrapassassem a altura de uma roda de carroça.

Não obstante, em que pese o discurso consciencioso ter acertado neste quesito, venho salientar o que é mais importante e que foi olvidado: toda a humanidade praticou a escravidão, mas, se houve alguma raça ou cor a primeiramente entender o significado da liberdade e a lutar por ela, esta foi a raça ou a cor branca. Certa vez, li de uma intelectual dissidente chinesa, que a palavra “liberdade” nem sequer existe ainda hoje no idioma mandarim. Pasmem, mas os chineses simplesmente não sabem o que significa o conceito filosófico de liberdade: desconhecem o que venha a ser e para que serve. O máximo que conseguem entender, quando recebem alguma explicação ou fazem uso de um termo aproximado é “não estar preso”.

É certo que os povos das colônias americanas de ambos os hemisférios lutaram primeiramente pela própria liberdade, mas tão logo ela foi por eles conquistada, os olhos da população começaram a se voltar para a situação dos negros. Nos Estados Unidos, um comovente livro, “A Cabana do Pai Tomás”, escrito por uma autora branca, Harriet Beecher Stowe, contribuiu fortemente para a sensibilização do público norte-americano e para a abolição da escravatura naquele país. Abraham Lincoln chegou a lhe fazer a seguinte homenagem, que aqui serve de modo contundente: “foi a senhora que, com seu livro, causou esta grande guerra”.

No Brasil, as gradativas restrições à manutenção dos escravos, culminadas pela Lei Áurea, acenderam o estopim para a queda da monarquia, e foram os escritores brancos como Castro Alves, que militaram entusiasticamente pela sua extinção.

Aqueles que hoje reivindicam uma alegada dívida histórica omitem o fato de que foram os brancos que não só descobriram o conceito e o valor da liberdade, tendo-a desenvolvido no decorrer dos séculos, mas que morreram por ela em diversas guerras para salvar e libertar pessoas negras. Os séculos XVIII e XIX são recheados de casos de destruição de entrepostos de vendas de escravos na África e de captura de navios negreiros para libertação dos cativos.

Portanto, talvez seja mais correto afirmar que não são os brancos que devem aos negros, mas estes que devem a eles. Na África, a escravidão ainda corre solta.

Peço ainda permissão para trazer outro argumento, que para mim é indispensável: como quase todo sulista, meus ancestrais somente vieram ao Brasil após a Lei Áurea. Hoje, milhões de brasileiros brancos, asiáticos, árabes, judeus e até negros somam-se ao meu caso. Muitos destes nossos ancestrais eram servos em seus países de origem. Nem eles, nem nós, seus descendentes, possuímos qualquer dívida histórica a ser paga.

Não tenho absolutamente nenhum orgulho de ser branco. Na verdade, embora não pareça muito, sou caboclo, eis que também sou fruto da mestiçagem com índios. Mas isto não vem ao caso: não teria orgulho de ser branco, nem de ser asiático, índio ou africano, tanto como não tenho orgulho de ser homem quando poderia ter nascido mulher. Isto porque simplesmente não posso me sentir orgulhoso por algo de que não tenho mérito. Tenho o corpo que Deus me deu e O agradeço por ele.

Conseqüentemente, quero deixar bem claro para que sejam bem entendidas as colocações sobre “brancos” e “negros” que fiz neste artigo. Para ser mais esclarecedor, refiro-me aos méritos daqueles homens e mulheres brancos, específica e individualmente, que lutaram pelo fim da escravidão, bem como daqueles homens e mulheres negros que também participaram daqueles esforços. Cumpra-se, porém, que este argumento individualista reforça mais ainda a idéia da inexistência de uma alegada dívida histórica.

Gaspari tem o sobrenome dos italianos, talvez daqueles que pela primeira vez entraram num cafezal logo depois, imagine(!), da abolição. Se nem isto o faz pensar no assunto, é porque a sua caneta só vive a soldo de interesses ongueiros inconfessáveis. Gaspari é um falastrão.

 

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