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O Neoliberalismo – Crônica do Quinho

5 de maio de 2009 - 1:05:36


– Boa tarde, Quinho. O Antonio você já conhece. Este é o Paulo. Paulo, meu amigo filósofo, o Quinho.

Trocaram os cumprimentos de praxe e eu fui logo perguntado:

 – Quinho, que achou da decisão do Copom, de ontem?

 – Ah, doutor, a redução dos juros foi tímida, né? Banqueiro aliado a petista dá nisso. Esses caras é que pagaram o mensalão. Os juros precisam ficar nas alturas para ter caixa para todo mundo, que não me enganam, não. Era assim também no governo anterior. Quem é o dono daquela empresa de cartão de crédito que pagava as notas frias do caraquinha do mensalão? O Banco do Brasil é lá minoritário. Os outros, os verdadeiros donos, os grandes banqueiros privados, nem foram chamados na CPI. E por quê? Por causa desses juros altos nos quais todos os políticos mamam. Esses caras pagam a conta de todo mundo, até do mensalão. São os banqueiros que financiam as campanhas políticas, logo ficam acima do bem e do mal.

Silêncio. Todo mundo olhando espantado para o meu amigo Quinho, que não se fez de rogado e continuou:

Depois ficam nesse lero lero tecnicista tentando justificar o injustificável. Fazem até modelos matemáticos. No mundo todo estão praticando juros negativos, aqui essa desordem, essa injustiça com as empresas produtivas. E com os consumidores. Se não fosse a ganância dos banqueiros e dos políticos o Brasil teria uma grande prosperidade. Não é uma questão meramente técnica, doutores, a taxa de juros. É política. E essa associação dos banqueiros com os petistas é um desastre para o Brasil. Viram que nunca mais o PT falou em auditoria da dívida pública? São uns canalhas, a petelhada, mentem demais para se eleger.

 – Mas se abaixar muito os juros a inflação sobe, replicou Paulo.

Doutor Paulo, a inflação no momento deveria ser deflação. Só não é porque o governo gasta demais e a única variável sistêmica de ajuste é o câmbio. Empobrece todo mundo para deixar o Estado grande, intacto, rico. Tivemos uma das maiores maxidesvalorizações do câmbio nos últimos meses, felizmente neutralizada pela queda dos preços das mercadorias importadas. Mudança forte nos preços relativos. A verdadeira causa da inflação é a exorbitância do gasto público, Doutor Paulo. Como a turma do PT está gastando a rodo é questão de tempo explodir de novo.

Paulo virou para mim e falou, com cara amarrada: “Esse seu amigo é um neoliberal”. Quinho sorriu e replicou:

Não, Doutor Paulo, não sou. Sou o que se poderia chamar de liberal-conservador. Defendo a economia de mercado e os valores tradicionais, o mesmo que fizeram os formuladores da doutrina liberal clássica. Defendo o Estado mínimo, o único compatível com a liberdade e a boa moral. Neoliberalismo é um termo fugidio, mas eu consegui finalmente decifrá-lo. É o seguinte. Neoliberais são aquelas pessoas que aceitam o Estado gigante, previdenciário e regulador de tudo, em resumo, socialista, mas que sabem que as leis de mercado não podem ser abolidas. Gente como FHC e a social-democracia européia, como Angela Merkel. Essa gente sabe que precisa administrar a moeda e as finanças públicas respeitando as leis econômicas, mas querem fazer do Estado um instrumento de  distribuição de renda. O problema é que a inércia dos gastos públicos é inadministrável. Chega uma hora que o edifício desaba. Estamos vendo isso acontecer agora. A crise atual é a falência do neoliberalismo socialista. O PT não é neoliberal porque desacredita nas leis de mercado, achando que pode fazer o que quiser com a moeda e o gasto publico. Nesse sentido, Obama também não é neoliberal. Como o PT, Obama é um socialista radical.

– Obama socialista? Indagou Paulo, incrédulo.

Quinho tem razão, emendou Antonio, se olharmos do ponto de vista da doutrina e das políticas adotadas.

O problema, doutores, é que não existe mais a alternativa liberal em nenhum lugar do mundo. Nenhuma força política ousa mais enfrentar o status quo, que tem nos aposentados uma grande força eleitoral. Outros interesses podem ser questionados, mas o sistema de aposentadoria cristalizou-se de tal forma que só uma falência geral do Estado para permitir pôr ordem às coisas. Acho que a doutrina liberal foi esmagada pelos aposentados, completou Quim. Vejam a GM. Estão quebrando a empresa para salvar os fundos de pensão. Isso é uma perfeita loucura.

O que fazer então. Quinho? Perguntei.

Doutor, tem que militar politicamente, escrever nos jornais, divulgar a verdade dos fatos. Convencer a população que esse sistema é iníquo e irracional, que precisa ser reformado. Que o Estado precisa ser reduzido. E, veja, isso será feito de qualquer maneira. A crise tocou as trombetas da grande mudança.

Não será fácil, falou Antonio, haverá choro e ranger de dentes.

Despedimo-nos. Todos nós saímos preocupados. São tempos de grandes perigos.

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