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O paradigma de Piedad Córdoba

19 de fevereiro de 2010 - 10:56:19

Piedad Córdoba nunca pediu a libertação imediata de todos os seqüestrados e reféns. Ela desempenha o papel de “mediadora” nas “libertações” que as FARC programam, segundo uma agenda sinistra. É necessário lembrar como ela freava, na sombra, junto com Raúl Reyes, em dezembro de 2007, a libertação de Ingrid Betancourt. Seu fundo de comércio se esgotaria se todos os reféns fossem libertados. Ela qualificou de “fascistas” as manifestações de milhões de colombianos contra as FARC em 4 de fevereiro de 2008, as quais exigiram isso: a libertação imediata de todos os seqüestrados.

É patético o destino de Piedad Córdoba. Sua visibilidade política depende cada vez mais da tragédia dos reféns. Porém, sua reeleição como senadora está em interdição: seu próprio partido a relegou a uma posição humilhante em suas listas. Ela relança, então, seu discurso sobre “a paz” e a promessa de libertação de reféns. Piedad Córdoba existe, porque os reféns das FARC existem. “Sem mim não há libertação”, é a mensagem extra-verbal que a faz chegar todos os dias, com a cumplicidade de certa imprensa, aos colombianos. Uma mensagem terrível.

Sem esse crime detestável, atroz e permanente, que destruiu e que continua destruindo a vida de milhares de famílias colombianas, a controvertida senadora não poderia buscar um lugar ao sol.

Sem isso Piedad Córdoba não poderia cuidar de escapar ao cerco de isolamento e esquecimento que muitos colombianos, com muita razão, vão lhe estender. Sem o bando de Alfonso Cano e Jojoy a senadora esquerdista não saberia como fazer suas contas e ficaria no limbo. Ela existe porque os seqüestrados continuam nas mãos de seus verdugos, enterrados em alguma selva. Essa é a realidade desse personagem.

Nós colombianos faríamos mal em esquecer o que Piedad Córdoba disse ao semanário comunista “Voz”, em outubro de 1998: que seu encontro com Tirofijo, durante a época da zona do Caguán, havia sido o momento mais sublime de sua vida, que Jojoy, Romaña e os outros eram homens “de diálogo”, dotados de “princípios” sãos com os quais ela “compartilha plenamente”. (Voz, 24-27 de outubro de 1998).

São critérios que ela não abandonou. O que Piedad Córdoba disse acerca da sangrenta emboscada contra o candidato conservador ao governo do Guaviare, José Pérez Restrepo, na qual as FARC mataram seis pessoas e onde Pérez foi gravemente ferido? Nada! O que disse sobre a nova diretriz de Cano, de seqüestrar candidatos para forçar a troca humanitária? Nada! A candidata “da paz” não repudiou nada disso!

Todos aqueles que pensam em votar em março no Partido Liberal, formação que não repudiou as declarações de 1998 nem expulsou a autora das mesmas, como um verdadeiro partido liberal teria feito, devem lembrar disso.

Piedad está, pois, em campanha. Diz que um “protocolo” de entrega já existe. Que está tudo pronto. Ela põe, todavia, condições: que não haja sobrevôos militares, que o helicóptero de apoio seja brasileiro. E dá autorizações: a Cruz Vermelha Internacional e a Igreja Católica poderão intervir. Não disse se está exigindo também, como da vez anterior, que tal indivíduo filme a operação, que outro dialogue com um matador das FARC, que outro entreviste os cativos sob os fuzis das FARC antes de ser libertados, como fez Holman Morris, vergonha do jornalismo, em fevereiro de 2009. Os quatro reféns desse dia estavam ameaçados de morte se não diziam o que as FARC queriam que dissessem. Morris foi cúmplice disso e tratou, depois, de vender essas imagens à Al-Jazeera, o que essa agência repudiou.

Essa é a campanha: os reféns a serviço da visibilidade das FARC. Córdoba poderia ter um cronograma para prolongar esse efeito. Em março, outra proposta de libertação de reféns e outra antes da eleição presidencial, para acusar de tudo o candidato Álvaro Uribe ou o candidato do uribismo. Tudo isso já deve estar preparado com seus amigos do Polo, de Colombianos pela Paz e com os topos das FARC.

A atividade dessa senadora não é humanitária. É o oposto disso. Ela explora a dor humana para forjar-se um destino político ao lado do pior bando criminoso da história da Colômbia. Seu sistema aponta para a abolição completa de liberdade humana.

Tradução: Graça Salgueiro

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