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O que Alfonso Cano disse

2 de agosto de 2010 - 18:39:54

Quando ele intitula seu vídeo de propaganda de “conversações com a guerrilheirada”, ele utiliza uma fórmula paternalista, coloquial e até amável. Quer criar um ambiente: o de alguém que dialoga com outro ante um grupo de crianças exploradoras. Essa mensagem, onde, na realidade, não há diálogo, é outra coisa: uma série de instruções verticais do chefe terrorista das FARC a seus aparatos secretos e visíveis, no campo e na cidade, em especial a suas aguerridas milícias e a seus hábeis aparatos civis, legais e ilegais, nas cidades. Há também uma mensagem que aponta à classe política colombiana e, em particular, ao governo que se inicia.

A primeira coisa a fazer é ver os anúncios velados. Cano diz que a guerra jurídica se incrementará contra o alto governo que sai, e que para isso as FARC utilizarão suas alavancas dentro da justiça colombiana e seus cúmplices na justiça internacional.

Outro anuncio que Cano faz: o papel de seus agentes dentro da Corte Suprema de Justiça, nessa atividade conspirativa contra as instituições e contra os líderes e as personalidades políticas do país, deve se consolidar. Seu alcance deve ser ampliado. Cano faz um elogio explícito à CSJ (Corte Suprema de Justiça). Esse elemento é talvez o mais revelador dessa mensagem. Cano saúda “o que a CSJ faz”, a felicita por “vincular por crimes de lesa-humanidade um grupo muito seleto dos chamados para-políticos”. Os magistrados honestos da CSJ deveriam se preocupar, se perguntar, ao menos, o que há por trás da enigmática frase do chefe terrorista.

Nessa frase Cano fixa uma meta e designa um método: a meta é enquadrar judicialmente ao maior número de personalidades do sistema, dos partidos e das Forças Armadas. O método: mediante acusações e inculpações sobre todo tipo de crimes, inclusive os de lesa-humanidade. Acusações falsificadas, é claro, que possam acabar em absolvições, porém que durante anos podem paralisar e desmoralizar seus adversários, sobretudo destruir sua credibilidade e sua autoridade moral e política.

Ante a ordem de Alfonso Cano é bom lembrar o que disse, em 25 de maio de 2010, o ministro colombiano da Defesa, Gabriel Silva: “Desde a Venezuela coordena-se um plano de inteligência para desprestigiar o presidente Álvaro Uribe, utilizando todo tipo de artimanhas”.

Por isso Cano sugere isto ao novo governo: “recompor o regime”, quer dizer, trair os ideais e os programas do uribismo e da Segurança Democrática. Alfonso Cano diz isso sem dissimular nada: “recompor o regime político pois [esse] está empapado de ilegitimidade”, etc. O resto dos epítetos que ele emprega são sem importância.

Cano trata de inverter a ordem natural das coisas, trata de pôr o mundo para andar com a cabeça quando diz que as FARC são “opositores políticos”, e que os “terroristas” são o Estado e o governo. Cano apela para o velho truque de brincar com a realidade quando diz que a Segurança Democrática “não é uma arma contra a guerrilha revolucionária”, senão “a oposição política e até contra os indiferentes”.

Entretanto, Cano faz silêncio a respeito do estado de suas forças. Isso diz muito. Não diz, por exemplo, que a Segurança Democrática fortaleceu as FARC. Não o diz, embora pudesse dizê-lo, lançado como está à tarefa de converter o preto em branco. Não se atreve, talvez, a dizê-lo. É evidente que as FARC estão, em boa parte, aniquiladas, que sobrevivem graças a que se refugiaram na Venezuela, a que uma parte de seus chefes está fora do território colombiano. Cano não admite, porém ele mesmo se vê emaciado e fatigado. Cano está vestido de civil, como alguém que está em fuga constante. Não dá a impressão de ser um chefe militar que discursa desde um terreno seguro ou semi-estável. Ele lançou seu discurso do exterior? Por isso seu interesse em dar a impressão de que está rodeado de combatentes uniformizados e armados?

A outra mensagem que Cano envia é a do diálogo político. Ante esse ponto capital, Cano pede a sua gente, e ao governo, não só que acredite que o branco é preto, mas que diga que o branco é preto e que esqueçam que algum dia acreditaram no contrário.

Cano espera que no novo governo, cujas declarações a respeito das FARC e do narco-terrorismo são de combate resolvido, haverá ao menos um elo fraco, disposto a escutar o velho canto de sereias.

Essa proposta é absurda. Ao mesmo tempo que qualifica o governo de “criminoso”, o chefe de um movimento terrorista em debandada supõe que esse mesmo governo aceitará procurar com ele um “ponto de confluência” para “identificar as dificuldades” e chegar à paz.

Quer dizer, ele propõe que a força que domina o terreno jurídico, político e militar, o Estado colombiano, se submeta aos caprichos da força derrotada. Cano anuncia que o campo subversivo, que trata de destruir a democracia e a economia desde há 50 anos, mediante o terrorismo e a barbárie, está disposto agora a “construir um sistema democrático” com a detestada “oligarquia”.

O resto do discurso de Cano é rotineiro. É a verborréia habitual, os clichês requentados, as falsificações habituais sobre o sistema colombiano que cunharam nos anos 50 e 60 os Gilberto Vieira e os Jacobo Arenas.

 

Tradução: Graça Salgueiro

 

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