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O que ninguém fala sobre as “eleições” no Irã

26 de junho de 2009 - 22:00:52

Todos os analistas – e os inevitáveis chutadores – parecem ter aceitado a tese da oposição de que as eleições foram fraudadas. Francamente, não sei como podem afirmar isto só porque um candidato derrotado mobilizou movimentos populares para exigir re-contagem dos votos. O populacho saiu gritando pelas ruas e todos engoliram. Engoliram mais ainda: que existem eleições no Irã quando tudo não passa de uma farsa a ser decidida pelo Líder Supremo Ali Khamenei. Não se pode atribuir ao que se passa na velha Pérsia, conceitos de política normal, muito menos de democracia, de onde deriva o nome de Presidente, pois no Irã este título representa apenas um peão do Conselho Islâmico da Revolução controlado com mão de ferro pelo líder religioso perpétuo, que faz e desfaz Presidentes e tem a última palavra para autorizar ou não as candidaturas a todos os cargos da “República” (outro eufemismo) Islâmica. A “Constituição” imposta pelo Aiatolá Khomeini providenciou que assim fosse para todo o sempre. Os “Presidentes” são escolhidos pela visão que a teocracia tem das necessidades imediatas do país. Quando precisavam de um “moderado” e “reformista” entronizaram Mohammad Kathami. Depois precisaram de um “radical” e lá veio Ahmadinejad.

Antes das “eleições” parecia ter havido um estremecimento entre o último e Ahmadinejad, o que teria inclusive, motivado o adiamento (
http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=882) da visita ao Brasil em maio. Khamenei criticou duramente Ahmadinejad por ter transferido de jurisdição o órgão encarregado da peregrinação à Meca e da comunidade dos
haji (que já peregrinaram), removendo um aliado seu. Ahmadinejad sofreu uma séria ameaça à sua re-eleição. Mas algo ocorreu que faz com que ele seja apoiado sem reservas agora. Este algo deve estar nos bastidores, no que realmente está em jogo na política iraniana. E esta é uma matéria explosiva e mal cheirosa. Mas antes é preciso saber:

Quem é Mir-Hossein Mousavi?

O grande esperneador derrotado é descrito como uma oposição moderada e “liberal” a Ahmadinejad. Poucos se dão ao trabalho de pesquisar quem ele é e qual seu passado. O Mousavi moderado só pode ser uma “desconstrução” do verdadeiro e uma recomposição de uma imagem para inglês ver. Pois este senhor que hoje passa pela encarnação do bem no Irã já foi Primeiro-Ministro (PM) e conta no seu currículo com o título nada liberal de “Carniceiro de Beirute”.

Depois de um período confuso que durou da Revolução Islâmica de 1979 até 1981, em que o único poder era o Aiatolá (depois Imã) Ruhollah Mousavi [1] Khomeini, vários PM’s foram nomeados e renunciaram ou foram tirados de cena, Mousavi – da esquerda religiosa – foi imposto pelo próprio Imã ao recém-eleito Presidente Ali Khamenei – que preferia o direitista Ali Akbar Velayati. Mousavi exerceu o cargo até a extinção do mesmo em 1989. Logo após a posse, declarou numa entrevista sobre a crise dos reféns na Embaixada Americana em Teerã: “Foi o início do segundo estágio de nossa revolução. Foi somente então que descobrimos nossa verdadeira identidade islâmica. Depois disto sentimos que podíamos olhar os políticos Ocidentais nos olhos e analisar como eles vinham nos avaliando há muitos anos”. Se para ele a forma de “descobrir a identidade islâmica” é o terrorismo, o seqüestro e os assassinatos, estou de pleno acordo: é disto que se trata a identidade islâmica, de acordo com o que os muçulmanos vêem demonstrando há décadas. E não me venham com as balelas de um Islã “moderado”: a jihad está no Corão e nos hadditim como obrigação dos fiéis de liquidarem com todos os infiéis e tomaram o mundo para eles.

Não por outra razão Mousavi foi um dos estimuladores da criação do Hezbollah, tendo nomeado Embaixador no Líbano seu “santo padroeiro” Ali Akbar Mohtashemi-pur. Ambos estiveram envolvidos no escândalo Irã-Contras onde foi trocado o suprimento de armas para o Irã pela libertação dos americanos prisioneiros do Hezbollah em Beirute. Mohtashami, por ordem de Mousavi, comandou a campanha terrorista contra alvos americanos no Líbano, incluindo os ataques sangrentos contra a Embaixada Americana e o quartel dos Fuzileiros. O Almirante reformado James “Ace” Lyons, na época Vice-Comandante de Operações Navais da US Navy, declarou nesta segunda-feira que a Embaixada Iraniana estava grampeada e gravaram instruções recebidas por Mohtashemi do Ministério do Exterior para realizar alguma “ação espetacular” contra alvos americanos, além de permanentemente fustigar suas tropas. Lyons, tido como o “pai da unidade antiterrorista da Marinha, SEAL [2]” também indica Mousavi como responsável pela bomba que destruiu um caminhão na base americana em Nápoles, em 1988.

O que está em jogo nas “eleições”?

A plataforma de Mousavi é uma mistura de políticas contraditórias, angariando o apoio dos assim chamados reformistas de Khatami junto com os ultraconservadores do regime. Até hoje esta aliança só foi conseguida por Akbar Hashemi Rafsanjani, cognominado “Tubarão”, tanto por sua habilidade de se mover entre estas tendências quanto por sua truculência. Os interesses e a influência dele estão por trás da política de Mousavi. O núcleo desta política está em importantes interesses que se opõem à política econômica – nada contra a atitude bélica! – de Ahmadinejad que ameaça seu controle sobre setores-chave como comércio exterior, educação privada e agricultura. O clã de Rafsanjani possui enormes impérios financeiros, incluindo empresas de comércio exterior, vastas extensões de terras e a maior rede de universidades privadas do Irã, conhecida como AZAD, com 300 campi em todo o país. Vem daí a facilidade de mobilização da massa estudantil – em torno de 3 milhões – que dá às manifestações a aparência de maioria popular. Apesar disto, não conseguiram influenciar as grandes massas de pobres rurais, que têm em Ahmadinejad um líder adorado.

Rafsanjani estava entre os mais fiéis assessores nomeados pelo Imã para o primeiro Conselho Revolucionário, enquanto Khamenei só foi incluído quando houve uma expansão do número de Conselheiros. O establishment clerical em torno de Rafsanjani, que inclui os principais Aiatolás da Cidade Sagrada de Qom, é o que há de mais reacionário em matéria de controle religioso da política e defendem que o Líder Supremo não deve ser apenas uma autoridade religiosa – mujtahid – mas também um líder político a ser emulado – marja. Como Khamenei não preenche estas condições, e Rafsanjani o fazia, eles contestam a própria educação religiosa do primeiro.

Conclusões

1. O cancelamento da visita à América Latina não se deu por nenhuma divergência de Ahmadinejad com Khamenei; antes, ele deve ter sido chamado de volta para, juntos, enfrentarem a conspiração clerical comandada por Rafsanjani.

2. Possivelmente – não me atrevo a compartilhar a arrogância dos que dizem o contrário – não houve fraude alguma. A população rural em peso mais os conservadores ma non troppo das cidades votaram em massa em Ahmadinejad.

3. A desejada virada de mesa, tão cara à mídia e aos líderes políticos ocidentais, seria em direção de um maior fechamento religioso, mais repressão interna e nenhum refresco na política externa, nem recuo nas ameaças nucleares ou contra Israel.

 

Notas:

[1] Não sei o que significa esta coincidência de nomes, nada conheço das regras iranianas neste assunto; fica a coincidência. [voltar]

[2] United States Navy Sea, Air and Land, mais conhecidos como US NAVY SEALS, Força de Operações Especiais da Marinha dos Estados Unidos, especializados na guerra não convencional, ação direta, antiterrorismo e reconhecimento, criada em 1962, por ordem do presidente Kennedy. [voltar]

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