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Os focolarinos e sua economia de “comunhão” comunista

13 de maio de 2009 - 7:55:20

Leio no panfleto: “a lição parece ser a de que a competição não pode ser a única relação mediadora entre os homens. . .”. Aí me pergunto, desde quando a competição é a única relação existente entre os homens? O resto preconiza a divisão igualitária dos lucros, dos ganhos, dos salários, como se a administração de uma empresa fosse algum milagre de abundância coletivista e não uma realocação individualizada de recursos em vários de seus setores, regulados por uma perspectiva de preços de mercado. O texto ainda diz: “a economia de comunhão está focada na força da cultura de partilha” (grifo meu). Tudo seria simples e belo se as pessoas não poupassem e dividissem tudo aquilo que acumulam. Se a tradição da Igreja Católica não seguisse o raciocínio dos monges beneditinos ou dos escolásticos espanhóis e sim o de Dona Chiara Lubich, literalmente não teríamos desenvolvimento capitalista. Seriamos uma miséria socialista sem acumulação de capital.

Chamou-me mais atenção sobre a visão negativa do lucro. Os focolarinos, tal como os marxistas, acreditam que o lucro é uma forma indireta de apropriação. Daí a dizer que os lucros devem ser “compartilhados”. Dona Lubich solta essa pérola da ignorância econômica: “Aqui deveriam nascer indústrias, empresas cujos lucros seriam colocados livremente em comum com o mesmo objetivo da comunidade cristã: antes de tudo para ajudar aqueles que estão necessitados, oferecer a eles trabalho, fazer com que não exista nenhum indigente. Além disso, os lucros servirão também para desenvolver a empresa e as estruturas da cidadezinha, para que se possa formar homens novos: sem homens novos não se faz uma sociedade nova”. Em outras palavras, o movimento Focolarino é comunista, só que com outro rótulo: comunhão!

Analisemos melhor a frase da fundadora deste movimento católico: ela crê que o lucro não tem utilidade para os pobres. Demonstra ignorar que novos empregos só são criados justamente porque as empresas lucram. Mas Dona Lubich não parece se importar muito com a eficiência de recursos: ela quer formar “homens novos”, dentro de uma gnose revolucionária herética para qualquer católico. É pior, usa expressões que são típicas dos movimentos revolucionários de esquerda, para fazer valer seus projetos. Lubich fala de uma nova teoria econômica e uma nova práxis! Porém, Chiara Lubich nos dá uma dica dessa práxis: o utópico projeto da cidadezinha de Loppiano, na Itália, cidade fundada por ela em que os focolarinos teriam bens comuns entre si, com a abolição da propriedade e mesmo da posse dos próprios salários. Na verdade, a própria Chiara tinha raízes na esquerda, já que sua família estava ligada ao movimento socialista. Uma frase revela a dubiedade de seu pensamento: “os valores que tornaram atraente o marxismo (como a solidariedade, a justiça social e a igualdade) não devem morrer, mas devem ser refundados nas suas origens evangélicas”. Há, por trás de toda uma linguagem pseudo-cristã, uma readaptação de toda a engenharia social marxista, ainda que sob a pecha de “comunhão”. Desde que os Atos dos Apóstolos foram descritos nos Evangelhos, há segmentos que caem na tentação revolucionária de moldar a sociedade dentro de ditatoriais padrões coletivistas. Não é por acaso que a Teologia da Libertação admire todos os regimes totalitários marxistas vigentes. A história não nega: todos os padrões utópicos de coletivismo são, por sua natureza, tirânicos. Em nome de propor uma alternativa ao socialismo e ao capitalismo, o movimento Focolares nos oferece simplesmente um comunismo religioso, bem ao gosto dos gnósticos valdenses da Idade Média ou dos rebeldes protestantes milenaristas da época da Reforma. Chiara Lubich é o novo Pedro Valdo da Itália. A Teologia da Libertação é a virulência fanática e apocalíptica de Thomas Müntzer. Todos eles se acham portadores do reino de Deus na Terra.

A doutrina católica é clara em reconhecer a esfera plural da sociedade, que compreende tanto os indivíduos como as instituições. O individuo é um ser autônomo, ainda que ligado por vínculos de necessidade e voluntariedade a outros indivíduos, no sentido do bem comum. Porém, essa busca do “bem comum” não nega a natureza particular do homem, que por sua essência, não é comum. Seus direitos naturais elementares estão acima de qualquer estrutura ou organização social. O bem comum não compreende a comunhão de bens e sim a comunhão de valores orientadores do convívio social. A propriedade privada é direito natural e nenhuma sociedade pode modificá-la. A destinação universal dos bens apregoada pela Igreja diz respeito ao direito dos homens de se apropriarem dos recursos da natureza, para seu uso particular, justamente porque eles não pertencem a ninguém. Se entendermos de forma definitiva o “bem comum”, dentro da perspectiva católica, é basicamente o Direito Divino e o Direito Natural. O primeiro, como princípio ordenador do universo e o segundo, como elemento ordenador das coisas, tais como elas são. O comunismo como modelo político não somente dilui o individuo na tirania da coletividade, como destrói as instituições e hierarquias valorativas necessárias que coordenam a sociedade.

O socialismo rasteiro de Chiara Lubich não se limita apenas uma visão coletivista de sociedade. Ela mesma prega uma nova ordem mundial, calcada numa “unidade” entre nações e povos. Só que o Focolares delega esse poder de unidade à ONU, acima das autonomias nacionais. Um documento focolarino, extraído de um congresso chamado “Dialogando pela paz – experiências de liberdade, igualdade, fraternidade”, de 2004, assim o relata:

“Urge reforçar a ONU e relançar o espírito da sua Carta, fundamentada na cooperação e não na competição entre os Estados. Essa alimenta a vontade construtiva, a confiança no outro, a fidelidade aos compromissos assumidos, colaboração entre partes iguais e reciprocamente responsáveis. Tal reforço deverá ser produzido através da concessão à ONU, por parte dos Estados-membros, de porções de sua soberania, com o devido e necessário suporte financeiro.

O ONU poderá, assim, tornar-se uma autoridade mundial, com poderes em relação aos países que dela fazem parte, reforçada pelo fato de ser a única entidade que pode falar em nome de todos e representar toda a humanidade. Só uma ONU assim poderá, por exemplo, curar a eterna ferida do conflito entre Israel e Palestina, garantindo a integridade do Estado de Israel e conferindo ao povo palestino a dignidade de Estado, protegendo ao mesmo tempo sua independência em nível internacional.

A existência de atribuições centralizadas na ONU em nível mundial, com efetiva autoridade sobre os vários âmbitos relacionados à vida dos povos e dos Estados, será equilibrada pelo princípio de subsidiariedade e pelo primado do direito. A subsidiariedade valorizará, por sua vez, o papel de todas as comunidades políticas, de todas as autonomias regionais ou étnicas e organismos da sociedade civil. O direito será a garantia da convivência entre todos”.

Em outras palavras, o movimento Focolares prega, nada mais, nada menos, do que a diluição das soberanias nacionais para a sujeição a uma burocracia mundial. Ou seja, a corrupta, desmoralizada e totalitária ONU. O impressionante, contudo, é o nome do congresso: destacam-se os três slogans da famigerada revolução francesa, que tanto perseguiu a Igreja Católica. O problema é que nas tais “experiências” de liberdade, igualdade e fraternidade, ninguém se lembrou de católicos guilhotinados. Tampouco dos padres e bispos, obrigados a renunciar à fé católica pela autoridade da república francesa, sob pena de perderem suas cabeças.

Um dos sintomas da crise atual da Igreja Católica é refletido em sua linguagem. Quando o clero faz concessões ao mundo em questões que são caras a autoridade da Igreja, isso mostra sinais de decadência. O catolicismo, pela sua própria história, não pode renunciar a verdade eterna de que é depositária, em favor dos desvarios e clamores do momento. No entanto, o clero atual nos oferece a fé católica como se fosse um gosto como outro qualquer, um livro de auto-ajuda, um horóscopo de jornal, uma página de bobagens do I Ching.

Até porque o “ecumenismo” pregado dentro da Igreja rebaixou sua autoridade moral, gerou dúvidas quanto às verdades que prega e diluiu a fé católica num amálgama com outras religiões. É a típica posição focolarina, que é capaz de se associar a maconheiros socialistas do Fórum Social Mundial, para pregar sua “economia de comunhão” e seu “diálogo” com outras religiões, como se a fé católica estivesse no mesmo nível do que a Igreja Universal ou a seita do Santo Daime. Como se a fé católica pudesse conciliar seus valores com os partidos de esquerda.

A expressividade do clero é tosca, a fala é dúbia, insegura, medrosa e a autoridade é pusilânime. Quem tiver a oportunidade de comparar os textos anteriores ao Concílio Vaticano II, perceberá a falta de rigor lógico e intelectual das declarações atuais da Igreja. Perceberá uma Igreja adjetivosa nas palavras, politicamente correta, cheia de clichês e lugares comuns. Não é nem de perto o rigor lógico, a fala límpida e direta de um Catecismo do Trento ou de um papa tridentino. Até porque estes não temiam desagradar às pessoas ao seu redor. A verdade, para eles, não admitia concessões. Por mais seca, por mais arbitrária que nos possa parecer algumas posições da Igreja do Concílio do Trento, uma coisa não se pode negar: ela tinha personalidade.

Quando acabei de ler o folhetim dos Focolares do Fórum Social Mundial, percebi que, além de católicos de fama duvidosa, eles não entendem nem mesmo de economia: os escolásticos de Salamanca se remexeriam do túmulo lendo as idéias econômicas tolas de Chiara Lubich. Estão muito longe da comunhão católica e muito próximas da economia do Kampuchea. A comunhão mesma deles é com o demônio!

 

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