1. Arquivos
  2. Oriente Médio

Palestina Traída

20 de maio de 2010 - 23:45:54

Aqueles que desejam o desaparecimento de Israel fomentam ativamente a narrativa da Nakba. Por exemplo, o Dia da Nakba tem como função ser a contrapartida palestina às festividades do Dia da Independência de Israel, anualmente anunciam publicamente os supostos crimes cometidos por Israel. Esse dia se consolidou de tal maneira que
Ban Ki-moon, secretário geral das Nações Unidas – a própria instituição que criou o Estado de Israel – transmitiu seu apoio ao “povo palestino no Dia da Nakba”. Até mesmo
Neve Shalom, uma comunidade de judeus palestinos em Israel que alega estar “comprometida com o trabalho educacional pela paz, igualdade e entendimento entre os dois povos,” obedientemente comemora o Dia da Nakba.

A ideologia da Nakba apresenta os palestinos como vítimas sem alternativas, por conseguinte sem qualquer responsabilidade pelas desgraças que caíram sobre eles. Ela culpa somente Israel pelo problema dos refugiados palestinos. Esse enfoque tem um apelo intuitivo, visto que os palestinos muçulmanos e cristãos, há muito tempo constituíram a maioria na terra que se tornou Israel, enquanto a maioria dos judeus eram relativamente recém-chegados.

Contudo, sensação intuitiva, não é o mesmo que exatidão histórica. Em sua nova obra magistral, Palestina Traída, Efraim Karsh da Universidade de Londres demonstra a citada por último. Com a sua minuciosa e habitual pesquisa de arquivos – nesse caso, baseando-se em uma abundância de documentos que deixaram de ser secretos, do período do governo britânico e da primeira guerra árabe-israelense, 1917-1949 – clara apresentação e meticulosa perspicácia histórica, Karsh sustenta o argumento contrário: de que os palestinos decidiram o seu próprio destino e arcam com praticamente a total responsabilidade de terem se tornado refugiados.

Nas palavras de Karsh: “Longe de serem as desafortunadas vítimas de uma agressão predatória sionista, foram os árabes palestinos que, a partir do começo da década de 1920 em diante e muito contrários aos desejos de seu próprio grupo de apoio, lançaram uma campanha implacável com a finalidade de apagar o renascimento nacional judaico que culminou no violento ataque a fim de anular a resolução da partilha da ONU”. De maneira geral, observa ele, “não havia nada de inevitável no que diz respeito ao confronto palestino-judaico, muito menos em relação ao conflito árabe-israelense”.

No entanto, mais contrário ainda à obviedade, Karsh demonstra que sua maneira de entendimento era a interpretação convencional, na realidade, a incontestável, no final da década de 1940. Somente com o passar do tempo “os palestinos e seus apoiadores do Ocidente gradualmente reescreveram sua narrativa nacional” com isso tornando Israel o único culpado, o condenado nas Nações Unidas, nas salas das universidades e nos editoriais.

Karsh usa o seu argumento com êxito estabelecendo dois pontos principais: que (1) o lado judaico sionista israelense perpetuamente procurou encontrar um acordo ao passo que o lado árabe palestino muçulmano rejeitou praticamente todos os acordos; e (2) a intransigência e a violência árabe causaram a “catástrofe” infligida neles próprios.

A primeira razão é mais conhecida, especialmente desde os acordos de Oslo de 1993, por continuarem o padrão no momento atual. Karsh demonstra uma consistência entre a boa vontade dos judeus e o rejeicionismo árabe que regressa à Declaração de Balfour persistindo por todo o período do governo britânico. (Para lembrar, a Declaração de Balfour de 1917 expressava a intenção de Londres de criar na Palestina um “lar nacional para o povo judeu” e a conquista da Palestina apenas 37 dias depois, dava-lhe o controle sobre a Palestina até 1948.)

Nos primeiros anos após 1917, a reação árabe foi atenuada, à medida que os líderes e o povo igualmente reconheciam os benefícios do espírito empreendedor e dinâmico sionista que ajudou a reviver uma Palestina atrasada, pobre e esparsamente povoada. Então surgiu, com a ajuda britânica, a perniciosa figura que iria dominar a política dos palestinos no decorrer das próximas três décadas, Amin al-Husseini. A partir de aproximadamente 1921 em diante, Karsh evidencia, os sionistas e os palestinos tiveram muitas opções; enquanto os primeiros optavam pelo acordo, os últimos implacavelmente decidiram pelo extermínio.

Em várias funções – mufti, dirigente de organizações islâmicas e políticas, aliado de Hitler, herói das massas árabes – Husseini conduziu seu grupo de apoio para o que Karsh chama de “inexorável curso de colisão com o movimento sionista”. Odiando os judeus de forma tão maníaca, ele chegou a se unir à máquina genocida nazista, Husseini negou-se a aceitar sua presença na Palestina, qualquer que fosse seu número, muito menos qualquer forma de soberania sionista.

Do início da década de 1920, portanto, se testemunhou um padrão ainda em vigor e conhecido nos dias de hoje: Acomodação sionista, “concessões dolorosas” e esforços construtivos para diminuir as diferenças, recebidas com o antisemitismo palestino, rejeicionismo e violência.

Complementando esse dramatis personae binário e complicando seu nítido contraste, encontravam-se as massas palestinas geralmente mais acomodadas, a indecente, antissemita autoridade mandatária britânica, um rei jordaniano ávido a governar os judeus como súditos, irresponsáveis líderes de estados árabes e um errático governo americano.

Apesar da radicalização da opinião palestina apregoada pelo mufti e apesar da ascensão do nazismo ao poder, os sionistas continuaram a procurar uma acomodação. Levou alguns anos, mas a política de ganho zero do mufti e de eliminação acabaram convencendo os relutantes líderes Trabalhistas, inclusive David Ben-Gurion, de que boas ações não iriam facilitar seus sonhos de aceitação. Não obstante, apesar dos repetidos fracassos, eles continuaram procurando um parceiro árabe moderado para fechar um acordo.

Em contrapartida, Ze’ev Jabotinsky, o precursor do partido Likud de hoje, já em 1923 sabia que “não havia a mínima esperança sequer de se obter algum dia a concordância dos árabes da Terra de Israel para que a “Palestina” se tornasse um país com maioria judaica”. No entanto, até ele rejeitava a ideia de expulsar os árabes e insistia no total direito deles à cidadania em um futuro estado judeu.

Essa dialética atingiu o ponto culminante em novembro de 1947, quando as Nações Unidas aprovou o plano de partilha que nos dias de hoje chamaríamos de solução de dois estados. Em outras palavras, ela deu de bandeja um estado aos palestinos. Os sionistas regozijaram, mas os líderes palestinos, principalmente o pernicioso Husseini, amargamente rejeitou qualquer solução que endossava a autonomia aos judeus. Eles fizeram questão de ter tudo, então não obtiveram nada. Tivessem eles aceito o plano da ONU, a Palestina estaria celebrando o seu 62º aniversário nesse mês de maio. E não teria havido nenhuma Nakba.

A parte mais original do Palestina Traída é a que contém uma revisão detalhada da fuga dos muçulmanos e dos cristãos da Palestina nos anos 1947-1949. Nela Karsh foi muito feliz na pesquisa de arquivos, permitindo a ele apresentar um quadro rico e inigualável sobre as circunstâncias específicas da fuga dos árabes. Ele passa um por um através dos vários centros populacionais árabes – Qastel, Deir Yassin, Tibérias, Haifa, Jaffa, Jerusalém e Safad – e em seguida analisa minuciosamente aquelas aldeias.

A guerra de independência de Israel se divide em duas partes. Os violentos combates começaram horas após a votação nas Nações Unidas aprovando a partilha da Palestina em 29 de novembro de 1947 e durou até a véspera da evacuação britânica em 14 de maio de 1948. O conflito internacional começou no dia 15 de maio (um dia após a criação de Israel), quando cinco exércitos de estados árabes invadiram, as hostilidades continuaram até janeiro de 1949. A primeira fase se consistiu principalmente em guerra de guerrilha, a segunda basicamente em guerra convencional. Mais da metade (entre 300.000 e 340.000) dos 600.000 refugiados árabes fugiram antes da evacuação britânica, a maioria no último mês.

Os palestinos fugiram devido a uma grande variedade de circunstâncias e por diversas razões. Os comandantes árabes ordenaram aos não combatentes que saíssem do caminho das manobras militares; ou ameaçavam retardatários com tratamento dispensado a traidores caso ficassem; ou exigiam que as aldeias fossem evacuadas a fim de melhorarem seu posicionamento no campo de batalha; ou prometiam que eles voltariam sãos e salvos em questão de dias. Algumas comunidades preferiam fugir a assinar um armistício com os sionistas; nas palavras do prefeito de Jaffa, “eu não me importo com a destruição de Jaffa desde que consigamos a destruição de Tel-Aviv”. Os agentes do mufti atacaram os judeus com o propósito de provocar hostilidades. Famílias com recursos fugiram do perigo. Quando os inquilinos agrícolas ouviram que os proprietários seriam punidos, ficaram com medo de serem expulsos e se anteciparam abandonando as terras. Hostilidades mortíferas impediram o planejamento. Escassez de alimentos e outros bens de primeira necessidade se espalhou. Serviços como estações de bombeamento de água foram abandonados. O medo de pistoleiros árabes se alastrou, assim como rumores de atrocidades dos sionistas.

Em apenas um caso (Lydda), os árabes foram forçados a sair pelas tropas israelenses. A singularidade desse evento merece ênfase. Karsh explica acerca de toda a primeira fase da batalha: “Nenhum dos 170.000-180.000 árabes que fugiram dos centros urbanos e somente um punhado dos 130.000-160.000 aldeões que deixaram seus lares, foram forçados a sair pelos judeus”.

A liderança palestina desaprovava o retorno da população, vendo nisso o reconhecimento implícito do nascimento do Estado de Israel. A princípio os israelenses estavam dispostos a aceitar o retorno dos deslocados de guerra, mas depois endureceram sua posição a medida que a guerra progredia. O Primeiro Ministro Ben-Gurion explicava seu modo de pensar em 16 de junho de 1948: “Esta será uma guerra de vida ou morte e [os deslocados de guerra] não devem retornar aos lugares abandonados. . . . Nós não começamos a guerra. Eles começaram a guerra. Jaffa começou a guerra contra nós, Haifa começou a guerra contra nós, Beisan começou a guerra contra nós. E eu não quero que eles comecem uma guerra novamente”.

Resumindo, explica Karsh, “foram as ações dos líderes árabes que condenaram centenas de milhares de palestinos ao exílio”.

Nesse livro, Karsh apresenta dois fatos importantes: que os árabes abortaram o estado palestino e que foram eles que causaram a Nakba. Nesse processo, ele confirma o seu status de ser hoje o proeminente historiador de obras literárias sobre o Oriente Médio moderno e estende os argumentos dos seus três livros anteriores. Seu magnum opus, Empires of the Sand: The Struggle for Mastery in the Middle East, 1789-1923 (com Inari Karsh, 1999), sustenta que os povos do Oriente Médio não foram, como se acredita normalmente, “vítimas desafortunadas de potências imperiais predatórias e sim ativos participantes na reestruturação da sua região”, uma guinada com enormes implicações políticas. Palestina Traída aplica a tese desse livro ao conflito árabe-israelense, destituindo os palestinos das justificativas e complexos de vítima, demonstrando que eles optaram pelo seu destino ativamente, ainda que de forma errada.

No livro Fabricating Israeli History: The “New Historians” (1997), Karsh expõe o trabalho de péssima qualidade, até mesmo a fraudulência, da escola dos historiadores israelenses que jogam a culpa do problema dos refugiados palestinos 1948-1949 sobre o estado judeu. Palestina Traída mostra o outro lado; em caso do livro anterior refutar erros, esse estabelece verdades. Por último, no livro Islamic Imperialism: A History (2006), ele mostra o cerne expansionista da religião islâmica em ação no decorrer dos séculos; aqui ele investiga essa ânsia em pequenos detalhes entre os palestinos, associando a mentalidade da supremacia islâmica com a relutância em fazer concessões práticas a respeito da soberania judaica.

Palestina Traída recompõe o debate árabe-israelense de hoje colocando-o no seu contexto histórico adequado. Provando que por 90 anos a elite política palestina optou por rejeitar “o renascimento nacional judaico e [insistir na] necessidade da sua violenta destruição,” Karsh corretamente conclui que o conflito irá terminar somente quando os palestinos desistirem de suas”esperanças genocidas”.

 

Publicado originalmente em National Review.
Original em inglês: Palestine Betrayed
Tradução: Joseph Skilnik


{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}