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Piedad Córdoba em viagem pela Europa

7 de abril de 2010 - 22:55:46

A senadora “liberal” viajará durante 15 dias por quatro países – Espanha, França, Suíça e Suécia -, para trabalhar, disse ela, “pela paz”. Ela anunciou que pedirá apoio “para o acordo humanitário”, e enfatizou: ”
Acima de qualquer posição eleitoral, devemos nos unir ao redor do valor supremo da paz”.

Do “valor supremo da paz”?

A viagem da parlamentar opositora ocorre, na realidade, em meio de uma brutal ofensiva do duplo caráter das FARC, destinada a obstruir a eleição de um novo presidente da República: a libertação de dois de seus reféns, o soldado Josué Daniel Calvo, em 28 de março, e o sargento Pablo Emilio Moncayo, em 30 de março, em meio a um show publicitário organizado pela chavista TeleSur com a cumplicidade da senhora Córdoba, e a entrega dos restos do Coronel da Polícia Julián Guevara, seqüestrado em 1998 e morto de esgotamento nas mãos de seus captores há quatro anos.

Ao mesmo tempo, as FARC estão em franca escalada terrorista: jogaram ao êxodo 1.500 camponeses de dois povoados de Nariño, Ituango e Peques, dias depois de haver assassinado um menino de 12 anos, Heriberto Gruesso, que foi enganado para que levasse um pacote que resultou ser uma bomba que explodiu na estação de polícia de El Charco (Nariño). A morte desse menino, e as feridas que sofreram dois policiais e três civis, enlutaram os colombianos. Dois dias antes, em 22 de março, as FARC queimaram seis tratores e um caminhão que transitavam pela estrada que vai de Buga à Buenaventura. Dois dias depois, as FARC fizeram explodir na cidade costeira de Buenaventura um carro-bomba com 40 kilos de explosivos que matou nove pessoas e feriu outras 56.

Piedad Córdoba denunciará em seu giro pela Europa as atrocidades das FARC? Pedirá às FARC que renunciem a seu plano sangrento para martirizar os colombianos e alterar as eleições legislativas e presidenciais em curso?

Isto, francamente, nos surpreenderia. Piedad Córdoba sabe muito bem do quê falará no Velho Continente. Ela não perde jamais o norte de seus giros.

Ainda não estava seco o sangue de Luis Francisco Cuéllar, governador do Caquetá, degolado pelo comando das FARC que o havia seqüestrado em 21 de dezembro de 2009 – pois ele, com seus 69 anos, negava-se a caminhar pelo monte com seus captores -, quando o cardeal Darío Castrillón anunciou, desde o Vaticano, que estava disposto a se entrevistar com o chefe das FARC para iniciar um “diálogo de paz” no país europeu que garantisse a segurança total de tal encontro. Castrillón disse que havia falado por telefone com Alfonso Cano.

A grotesca proposta foi rechaçada pelo Governo e pela opinião pública colombiana. Entretanto, os impulsionadores de tal idéia não a abandonaram. A aprazaram à espera de uma melhor conjuntura. Esta se apresentou com a entrega dos seqüestrados Calvo e Moncayo. A idéia voltou a estar sobre o tapete, no contexto do que Piedad Córdoba chama de “acordo humanitário”.

Piedad Córdoba irá à Europa provavelmente para restabelecer esse projeto, o qual é maquiado por agora (os velhos métodos não se esquecem), sob os traços de um esforço “humanitário”. Na verdade, trata-se é de explorar as possibilidades da idéia do cardeal Castrillón, que muito seguramente receberá a senadora em Roma. Outro ponto de sua agenda: criar uma nova cadeia de pressões internacionais contra o governo colombiano, para que aceite o cenário idealizado pelas FARC, força terrorista que, embora dizimada e golpeada como nunca, guarda uma grande capacidade de violência graças a seus apoios estrangeiros. Trata-se, igualmente, de relançar a propaganda contra o acordo das bases colombianas com os Estados Unidos, uma das obsessões do governo venezuelano, a favor do qual a senadora presta seus bons ofícios.

Nesse marco, a sorte dos outros reféns que continuam em poder das FARC é algo secundário, como bem o sabem os que conhecem a atitude que Córdoba teve ante o caso Ingrid Betancourt. O que motiva a parlamentar extremista é abrir as portas européias a Alfonso Cano ou a Milton Toncel (Joaquín Gómez), outro chefe desse bando. Trata-se de ver como as ordens de captura contra esses criminosos são anuladas com o pretexto de um dialogo “na Europa”. Nada é mais urgente do que tirá-los por um tempo do país antes que um deles, ou os dois, sejam abatidos em combate, ou capturados pelas autoridades.

O périplo permitirá a Piedad Córdoba reunir-se em Paris com a chamada “coordenadora francesa pela paz na Colômbia”, integrada por vários grupos de ativistas subsidiados, a qual não quis condenar o assassinato do governador Luis Francisco Cuéllar e não disse nada sobre as matanças recentes.

Também poderá se reunir com os chefes de ANNCOL, agência das FARC na Suécia, a qual não só não condenou o assassinato do governador de Caquetá como o aplaudiu.

Córdoba se reunirá com os chefes do Partido Comunista francês que negou-se a condenar o assassinato do governador Cuéllar, as bombas de Buenaventura e de El Charco?

Contrariamente, o Governo francês, o Partido Socialista francês e a União Européia, condenaram o assassinato do governador de Caquetá. Eles aceitarão falar com Piedad Córdoba, escutar suas propostas, secretas e públicas, que é do conhecimento de todos de que ela tratou de semear dúvidas acerca da responsabilidade das FARC nesse crime? Todo mundo está sabendo que ante as atrocidades mais recentes, ela não expressou uma só frase de compaixão pelas vítimas e de condenação às FARC?

Outra pergunta: quando falar com seus contatos em Madri, Paris ou Roma, Piedad Córdoba pensará um minuto em Heriberto Gruesso? Ele era um menino pobre de El Chaco. Ele tinha quatro irmãos e cursava o terceiro ano primário. Era alegre e prestativo e gostava de futebol. Para ganhar algum dinheiro para sua família ele fazia mandados no cais. Um terrorista da Frente 29 das FARC observou seus movimentos e decidiu que ele seria, sem saber, um excelente kamikaze. O abordou na saída do colégio e obteve o que queria. Piedad Córdoba pensará nisso durante suas conversações “de paz” com seus amigos europeus, os quais têm sido perfeitamente indiferentes ante o que as FARC, florão do comunismo contemporâneo, fizeram a Heriberto?

Seria prudente que os interlocutores da senadora levassem em conta estes detalhes antes de entrar em conchavos com ela. Os meios de comunicação colombianos seguirão cada gesto dessas entrevistas e a opinião pública tirará conclusões, um mês e meio antes do primeiro turno da eleição presidencial.


Tradução: Graça Salgueiro

 

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