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Pogroms anti-colombianos na Venezuela

4 de novembro de 2009 - 20:29:59

O governo venezuelano se opõe a que uma comissão binacional investigue esse massacre. Por algum motivo o fará. Teria algo a esconder? Caracas esboçou a teoria de que esses jovens eram “paramilitares” que foram abatidos por outros “paramilitares”. Caracas não apresenta prova alguma do que diz. Entretanto, um detalhe chama a atenção. O presidente Hugo Chávez parece saber bastante acerca do assunto. Em 28 de outubro disse que “ninguém sabe” o que ocorreu, porém que tinha “evidências” que não podia entregar por ser parte de um “sumário legal”. E acrescentou:
“Eram colombianos que não tinham documentação oficial, como a que tem a grande maioria dos colombianos que vivem conosco. Passaram para cá, estamos investigando suas atividades, alguém os financiava”.

Para quem não sabe nada, Caracas sabe além da conta. Como sabe que “não tinham documentação oficial” e que “alguém os financiava”? A investigação desses rapazes que viviam da venda ambulante de amendoim, começou quando? Antes de seu assassinato?

O vice-presidente da Venezuela, Ramón Carrizales, assegura que os jovens “treinavam na zona para depois infiltrar-se em Caracas e outras cidades como parte de um plano desestabilizador” e que morreram em um “ajuste de contas entre autodefesas”. Desde quando os seguiam para saber que eram essas suas intenções? Como Carrizales soube disso tudo? Interrogando as vítimas antes que se convertessem em cadáveres?

Algum dia se saberá a verdade do ocorrido em Chururú. Há um jovem que sobreviveu ao ataque. Por que não pôde sair da Venezuela?

Segundo Jairo Martínez, o cônsul colombiano no estado Barinas, em agosto passado os cadáveres de outros cinco colombianos foram encontrados no rio Jaguar, perto do município de Socopó.

Esse fato e a matança dos nove rapazes põe na ordem do dia um novo fenômeno: há um ambiente de pogrom anti-colombiano na Venezuela, pois não só alguém os está assassinando, como agora alguns estão perdendo suas propriedades e fugindo da Venezuela. É o que ocorreu à pereirana* Sonia Restrepo que em 15 de maio de 2009 teve que abandonar sua fábrica de tecidos estampados e fugir de Guarenas, perto de Caracas. Umas 40 pessoas armadas irromperam em sua casa em nome de um “círculo bolivariano” e a acusaram de ser uma “estrangeira exploradora”. Sem que nenhuma autoridade a protegesse, ela perdeu assim a empresa que havia construído durante 30 anos.

Quem é o responsável pela grave degradação do clima social e político nas zonas de fronteira entre Venezuela e Colômbia?

Os estados de Zulia, Táchira, Barinas e Apure são os mais afetados por essa tensão difusa. Isso se agravou nos últimos meses até o ponto em que nessas regiões começa a haver um clima de pânico surdo na minoria colombiana. As constantes arengas anti-colombianas do presidente Chávez, suas ordens de enviar “dez batalhões” à fronteira com a Colômbia, o auge simultâneo das “milícias bolivarianas” e da misteriosa “força bolivariana de libertação”, coincidem com essa degradação.

A razão de fundo é, antes de tudo, a consolidação nessas regiões de destacamentos das FARC e do ELN as quais fazem o que querem e geram inquietação entre a população. Muita gente está se queixando disso.

Não se pode esquecer outro elemento: Caracas anunciou em novembro de 2008 que estava instalando cinco bases militares na Sierra de Perijá, no estado Zulia, “para intensificar a luta contra o narco-tráfico, os paramilitares e os seqüestros”. Tarek El Aissami, o ministro do Interior venezuelano, dirige esse projeto e foi ele quem saiu a dizer que a matança de Chururú havia sido obra de “paramilitares” colombianos. Desde quando essas supostas estruturas operam livremente nas barbas de Aissami?

A verdade deve ser buscada em outra parte. O coquetel chavista consistente em ameaçar a Colômbia, mentir e proteger os bandos terroristas FARC e ELN nessas áreas de fronteira, somado ao declínio social da zona pela sabotagem ao comércio binacional, acabou no que devia acabar: na criação de uma podridão humana onde tudo pode ocorrer. A histeria bolivariana que acredita ver uma invasão “imperialista” a curto prazo, apoiada pelos “neogranadinos”, fez o resto e talvez tenha impulsionado o braço dos assassinos.

Como aceitar então o que dizem os chavistas no sentido de que o ocorrido em Chururú é porque “o conflito colombiano interno transborda sobre nós?” Não. Esses jovens foram ultimados provavelmente por hostes armadas locais em formação, as quais tratam de “limpar” e aterrorizar a região para se criar um espaço de acumulação de forças e de impunidade, no marco de uma política de ofensiva com relação à Colômbia.

Ante a negativa dos juízes venezuelanos para encontrar os responsáveis pelos pogroms anti-colombianos e castigá-los, estes vão se repetir e as autoridades apelarão à mesma explicação capenga: a culpa é da Colômbia. A Corte Penal Internacional, que nunca se inquietou pelo que ocorre na Venezuela, faria bem em tomar conhecimento do assunto.

* Natural de Pereira

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Nota da tradutora: No citado massacre recentemente descoberto, 12 jovens foram metralhados enquanto jogavam futebol. Dez deles eram colombianos, um peruano e um venezuelano. Um desses colombianos sobreviveu, fingindo que estava morto, sendo resgatado por um camponês local que o levou para o hospital.

Este rapaz pede insistentemente para voltar à Colômbia, entretanto, as autoridades de Caracas não permitem que ele volte ao seu país, tampouco que as autoridades colombianas se comuniquem com ele. Insistentemente, ele e a irmã que o acompanha, pedem para que o retirem de lá com urgência, pois teme ser assassinado.

A desculpa de que esses jovens eram “paramilitares” é pratica antiga de Chávez, tendo feito o mesmo no caso que ficou conhecido como os “paracachitos” (porque não tinham armas nem comida, sobrevivendo a custa de uma espécie de croisant chamado “cachito”), onde um grupo de jovens colombianos fora contratado pelo governo chavista com a promessa de emprego. Esses jovens foram colocados na fazenda Daktari, do opositor jornalista cubano-venezuelano Robert Alonso, para incriminá-lo de planejar um “magnicídio”, como retaliação por suas contundentes denúncias contra Chávez. Perseguido sob acusação falsa, Alonso fugiu para os Estados Unidos onde conseguiu asilo político. Sua fazenda foi saqueada e completamente destruída pelas hordas chavistas.

Tradução: Graça Salgueiro

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