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Prefeito pilantra

29 de dezembro de 2009 - 5:36:55

Para começo de conversa, em matéria de fidelidade partidária o prefeito do Rio é um exemplo de fazer corar o próprio Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Eduardo Paes deu os primeiros passos no carreirismo político portando a bandeira do Partido Verde, a sigla que deseja destruir o capitalismo – e o bolso da população – pela fraude do aquecimento global. Logo depois, para subir na hierarquia político-partidária, ingressou no DEM (ex-PFL), tido como de direita, onde, pelas mãos do ex-prefeito César Maia, foi feito secretário do Meio Ambiente. Neste posto, devido a irregularidades, foi processado por improbidade administrativa.

Em seguida, bandeou-se para o PTB e, uma vez deputado federal, transferiu-se para o PSDB. Pela retórica empenhada, tornou-se líder do partido tucano durante o período da CPI dos Correios, sempre a procura de holofotes. Diante deles, denunciou Lula como o principal beneficiário da “quadrilha organizada” do Mensalão articulada no Palácio do Planalto, pedindo o impeachment presidencial, ao tempo em que denunciava Lulinha, o filho, transformado em milionário relâmpago.

Como em política o negócio de futuro é o poder executivo, onde a grana corre frouxa, Eduardo Paes largou os tucanos e ingressou no PMDB pelas mãos do governador Sérgio Cabral (o anfitrião de Lula nas alegres noitadas do seu Taj Mahal de Mangaratiba): queria ser prefeito. O único obstáculo era o próprio Lula, que olhava com reticência a candidatura do atrevido que ousara pedir o seu impeachment. Diante do impasse, para obter o aval de Sua Alteza, surgiu a solução milagrosa, bolada, ao que se diz, pelo antigo denunciante: o envio de uma carta ao Soberano pedindo desculpas pelas palavras impensadas, extensivas à D. Marisa e ao herdeiro (milionário) Lulinha. Como se tratava de acolher um novo assecla, D. Lula as aceitou.

A cidade do Rio de Janeiro, ou parte dela, conhecia bem o caráter de Eduardo Paes quando o elegeu prefeito. Sabia que o sujeito que troca de partido com a facilidade de quem bebe uma caipirinha não merece crédito, mas, ainda assim, o elegeu. Por que o eleitorado do Rio fez isso?

Bem, em primeiro lugar porque, em matéria de escolha, o eleitorado do Rio de Janeiro, do gênero “mulher de malandro”, é um dos piores do mundo, senão o pior. Embora metido a besta (leia-se “politizado”), na sua festividade inconseqüente, manchada de vermelho, tem colocado na prefeitura, nas últimas três décadas, uma corriola de fazer inveja ao Conde Drácula e o Vampiro de Dusseldorf, juntos.

Vejamos alguns deles:

1 – Marcelo Alencar, um dos “irmãos besteira”, foi feito prefeito duas vezes. Sua formação era a de advogado de preso político, no Rio, um passaporte para a vida pública. Colocado como presidente do Banerj por Leonel Brizola (o “Centauro dos Pampas” – metade cavalo, metade besta), levou a instituição à falência. Sua grande obra, a “Rio-Orla”, foi um projeto urbano que consistiu em substituir as pedras portuguesas (calcáreo branco e basalto negro) dos calçadões das avenidas litorâneas da cidade por uma mistura de cimento e terra que não resistiu ao primeiro chuvisco.

Não satisfeito com o desastre administrativo do prefeito Alencar, o “carioca” ainda o elegeu governador do Estado, quando descobriu, afinal, que o homem era movido por doses diárias de “Velho Barreiro”, o combustível dos alcoólatras.

2 – Logo depois, para administrar a cidade, apareceu Saturnino Braga, outro socialista, que estudou “engenharia econômica” com Celso Furtado na Cepal (a folclórica Comissão Econômica para a América Latrina, no Chile), credencial suficiente para fazê-lo decretar, como prefeito lacrimoso, a falência do município – acontecimento único na história administrativa do país e motivo de deboche nacional.

No entanto, apesar ter levado a cidade à falência, o Rio fez de Saturnino senador da República, pelo PDT, num acordo secreto (e imoral) de divisão de mandato com o brizolista Carlos Lupi – acordo que o ex-aluno da Cepal reconheceu em carta pública ter assinado, “numa boa”, mas que se negou a cumprir, como recomenda a boa ética socialista.

3 – Outro prefeito eleito pela “esperteza” carioca foi Luiz Paulo Conde, político glutão de 120 quilos que se arrastava de bengala e barbicha pelos salões e banquetes da cidade (reconhecida, de resto, como um balneário). Para se ter uma idéia de como funcionava a cabeça da figura, basta lembrar que, certa vez, num debate público, assim pontificou: “Eu minto menos do que César Maia” (seu patrono político).

A grande armação de Conde foi o “Rio-Cidade”, projeto urbanístico que durante anos fez do espaço público um inferno, levando a população, transtornada pelo caos de obras inúteis, dispendiosas e de má qualidade, ao completo desespero. Na sua gestão, o simples direito de ir e vir tornou-se impraticável. Segundo críticos, o “Rio-Cidade” foi bolado para que a Net, empresa de TV a cabo das Organizações Globo, embutisse seus fios e cabos nos buracos das obras artificiais pagas com a grana do contribuinte – coisa, claro, que ninguém conseguiu provar.

4 – O mais curioso de todos, no entanto, foi César Maia, o administrador que se vendia como um “novo Carlos Lacerda” e, ao mesmo tempo, mantinha na gaveta de trabalho um distintivo do Partido Comunista – uma traição ao eleitor democrata.

Maia, como se sabe, foi uma cria de Brizola, o caudilho gaúcho que, uma vez governador, tornou o Rio um espaço definitivamente dominado pelo crime. Antes, passou pelo Chile de Allende, onde, ao lado de Zé Serra – o “Executivo Sombrio” – iniciou-se no estruturalês cepalino do comunista Raúl Prebisch, considerado um feitiço de baixo rendimento a serviço da estatolatria.

Maia é um profissional do ramo, com noções práticas e teóricas do ofício. Enxergando a política como um espetáculo de marketing, começou a saga de prefeito varrendo o sambódromo da Márquez de Sapucaí, numa sexta-feira de Carnaval, em 1993, coisa que esqueceu na sua última gestão, entre 2005-2008, quando a cidade viu-se transformada num lixeiro a céu aberto. Tipo inquieto, muitos acham que o ex-prefeito tem um parafuso a menos: ele trocou – sem renunciar o bom salário, claro – a administração da prefeitura pela manutenção de um Blog, ou ex-blog, na Internet – por sinal bem feito.

Sua última loucura para “entrar na história”, foi a construção, ainda inacabada, da “Cidade da Música”, mamute de proporções faraônicas, no qual se investiu mais de 700 milhões de reais, mas que pode ultrapassar a cifra de R$ 1 bilhão e gerar dispendiosa burocracia cultural, lesiva aos cofres municipais.

(Detalhe: Maia foi o cara que denunciou o “escândalo da Proconsult”, manobra que se diz armada por Roberto Marinho para fraudar o resultado das eleições e impedir a posse de Brizola no Governo do Rio, em 1982. Pois bem: para puxar o saco das Organizações Globo, o então prefeito deu a sua “Cidade da Música” o nome de Roberto Marinho, no que foi desautorizado pelos filhos do jornalista morto, todos eles amestrados pelas polpudas verbas publicitárias manipuladas por Lula, o filho de Lindu, das quais a TV Globo é a principal beneficiária.)

Íamos nos debruçar sobre o prefeito Eduardo Paes, o homem que barbariza o Rio, mas acabou o espaço. Fica para a próxima semana.

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