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Propaganda e guerra política no plano das FARC

21 de agosto de 2009 - 19:21:39

Dentro desse esquema, toda mentira repetida se torna uma verdade até o extremo de que, de agressoras, as FARC se convertem em agredidas com argumentos tais como a justa luta popular, a reivindicação dos direitos dos desfavorecidos, o exército do povo, as auto-denominadas retenções econômicas em lugar de dizer seqüestros extorsivos, os prisioneiros de guerra em lugar reconhecer que têm militares e políticos seqüestrados, e muitas outras características da “verdade revolucionária”.

Finalmente, as FARC uniram seu projeto terrorista (Plano Estratégico) aos planos e programas do Foro de São Paulo, organização esquerdista que pretende instaurar em toda a América Latina uma série de governos marxistas-leninistas, afins ao totalitarismo comunista e ao velho sonho ditatorial hemisférico instigado por Fidel Castro, expert em manipulação da linguagem e em passar de agressor a vítima do “imperialismo capitalista”.

Em síntese, o uso acomodado da linguagem é fundamental no desenvolvimento do Plano Estratégico das FARC. Nessa ordem de idéias, os masseiros [1] realizam um sistemático processo de “educação política” dentro da massa camponesa e no interior das frentes, enquanto que a “Frente Internacional” busca a legitimação política que conceda o status de beligerância às FARC e lhes suprima o epíteto de terroristas.

O preocupante do assunto é que os meios de comunicação, de maneira consciente ou inconsciente, fazem o jogo dos interesses estratégicos dos terroristas. Do mesmo modo como acontece com a discrepância dos comunicadores que se referem a Augusto Pinochet como ditador e Fidel Castro como presidente, os meios de comunicação se vão de dedo em riste contra a barbárie das autodefesas ilegais, porém não questionam com igual intensidade o terrorismo comunista. Nisso se parecem muitos juristas colombianos a serviço do ramo judicial, da Fiscalização Geral ou da Procuradoria Geral.

A comunicação interpessoal é a chave do recrutamento e da conspiratividade farianas [2].

Mediante elaborados argumentos, apresentados com veementes justificativas, os guerrilheiros antigos bajulam os recém incorporados e em forma progressiva os vinculam aos projetos de médio e longo prazo do grupo terrorista.

Em cumprimento do Plano Estratégico e da metodologia sistemática do marxismo-leninismo, os comissários políticos e os cabeças em geral se encarregam de lavar o cérebro dos guerrilheiros rasos e de difundir dentro da população civil os estabelecimentos programáticos do grupo terrorista.

Extensos estudos da guerra política revolucionária demonstram que os comunistas de todo o mundo têm feito guerra contra o Estado, mediante a combinação de todas as formas de luta, o uso de ações de propaganda, inteligência, organizações não-governamentais (ONGs), incursões armadas e nos tempos modernos, apoiados pela tecnologia de ponta.

Embora paradoxal e contraditória, a versão fariana do processo revolucionário é verdade revelada para os comunistas do hemisfério. Não importa que a mentira e a farsa sejam tão evidentes como aconteceu quando, por ordem de Alfonso Cano, as frentes 29 e 60 massacraram a sangue-frio e em total estado de indefesa das vítimas, onze dos doze deputados do Valle que permaneciam em cativeiro, após o cinematográfico seqüestro na sede da Assembléia estadual do Valle Del Cauca em Cali.

Após o ato macabro, Tirofijo, Cano, Reyes e os demais cabeças terroristas tiveram o cinismo de afirmar que o massacre havia sido produto de um enfrentamento com o Exército. Do mesmo modo aconteceu quando assassinaram em cativeiro vários militares, o governador de Antioquia e o ex-ministro da Defesa, Gilberto Echeverri Mejía.

Em todos estes casos, do mesmo modo que no cometimento de atos terroristas contra a população civil, as FARC “estavam se defendendo” dos ataques e agressões do Estado capitalista, imperialista, pró-yanqui.

A rígida organização celular do Partido Comunista, o aberto e o clandestino, induz os terroristas e seus difusores a discorrer ao redor do centralismo democrático, segundo o qual a tese central marxista-leninista é perfeita, totalmente verdadeira e única. Nesse sentido, todos os revolucionários devem trabalhar para enriquecê-la com a discussão dialética, porém sem sair das diretrizes extremistas.

No livro de minha autoria intitulado “En el Infierno”, Johny, o protagonista da história, um desmobilizado das FARC, relata com riqueza de detalhes as razões pelas quais foi forçado a permanecer nas FARC durante 13 anos de sua existência, tempo durante o qual recebeu persistente doutrinamento ideológico marxista-leninista, algoz de muitos inocentes, produto do terrorismo externo das FARC, porém ao mesmo tempo do sanguinário regime terrorista interno.

Sua conclusão final diz tudo: “Desertei das FARC por medo de morrer. Não nas mãos do Exército ou da Polícia que, de acordo com o código interno das FARC, eram meus inimigos de classe. Não, não, não… Desertei da guerrilha para não morrer nas mãos dos que me ensinaram a matar, a roubar, a seqüestrar e depois me tinham nos postulados da revolução armada”.

Em síntese, a linguagem interna, a auto-designação da verdade revolucionária única em assuntos políticos, as sinistras purgas contra os chamados inimigos de classe, que não são outra coisa que todos os seus inimigos ideológicos, são os fundamentos de uma linguagem obsessiva e codificada dentro de estreitos parâmetros, que converte as FARC em um grupo com amplos reflexos de fundamentalismo paralelo ao dos extremistas muçulmanos.

Milhares de documentos apreendidos pelas Forças Militares em acampamentos das FARC corroboram as asseverações anteriores. As FARC são o braço armado do Partido Comunista Colombiano, são regidas por estatutos marxistas-leininistas e estabelecem a tomada violenta do poder, mediante a combinação de todas as formas de luta, com a finalidade de implantar na Colômbia uma ditadura de corte totalitário similar à da Coréia do Norte ou de Cuba.

O acordo humanitário e a manipulação da linguagem

A acomodação calculada da linguagem para ocultar atos de barbárie cometidos pelas FARC, não é só uma trapaça consuetudinária. É parte da metódica legitimação do grupo terrorista, no interesse de convertê-lo em força beligerante com objetivos políticos.

No livro intitulado “Cessar fogo”, Jocobo Arenas descreve o plano projetivo do Partido Comunista e seu braço armado para avançar na tomada do poder. Nesse sentido, as conversações de paz, os acordos humanitários, os diálogos com os sucessivos governos, são apenas peças de uma estratégia integral e um componente a mais para facilitar o messiânico fim da existência das FARC, que é a tomada do poder e a desintegração da sociedade capitalista colombiana.

Nesse preceito radica o desdobramento midiático do acordo humanitário ajeitado e explica o vivo interesse de Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales, Daniel Ortega e Lula da Silva, em mediar e colaborar no reconhecimento do status político das FARC, assim como a transcendência estratégica da Operação Xeque, que deixou os conspiradores contra a Colômbia com todos os projetos totalitários esquecidos.

Como demonstro nos livros de minha autoria, “Complô contra a Colômbia” e “Operação Xeque”, o cérebro deste estratagema é Alfonso Cano. Alguns dirigentes políticos foram seqüestrados durante o frouxo e débil governo de Andrés Pastrana, com a finalidade de fazer-lhes um “julgamento revolucionário” e fuzilá-los por prováveis atos de imoralidade administrativa; porém, o seqüestro de Ingrid Betancourt mudou sua sorte, pois Cano impôs a teoria de que tinha que convertê-los em permutáveis por terroristas presos.

Junto com este estratagema, os representantes das FARC difundiram por diversos meios de comunicação a idéia de que as FARC não são terroristas, que os seqüestrados não eram reféns senão “prisioneiros políticos” e que a única opção era um acordo humanitário, premeditado por Hugo Chávez e Iván Márquez, que tinha como finalidade dar status de beligerância às FARC e, inclusive, abrir-lhes embaixadas na Venezuela, Equador, Bolívia, Nicarágua, Brasil, Cuba e – há até quem acredite – na França.

Porém, a Operação Xeque e a firmeza de caráter do presidente Uribe impediram a concretização desse plano desestabilizador, puseram as FARC contra a parede e mudaram a inclinação da balança do poder relativo de combate dos terroristas, alcançado durante vinte anos de relaxamento governamental e ausência de autoridade, iniciados durante a administração de Belisario Betancur em 1982 até 2002, quando terminou o fraco mandato de Andrés Pastrana Arango.

Conclusões

1. Parte do crescimento quantitativo das FARC depende da habilidade propagandística e dos conteúdos da linguagem utilizada pelos terroristas encarregados de disseminar a linha de pensamento fariano entre a população civil e no interior das frentes.

2. Cada uma das conferências guerrilheiras das FARC deu maior precisão às palavras específicas utilizadas em sua linguagem propagandística, dirigidas a buscar o reconhecimento como força beligerante como, por exemplo, a auto-denominação de “exército do povo” e a sinistra manipulação do vocábulo para denominar os seqüestrados como se fossem “prisioneiros de guerra” ou “prisioneiros políticos”.

3. O Plano Estratégico das FARC é um projeto ambicioso integrado aos postulados do Foro de São Paulo, pretende a tomada violenta do poder político, a imposição de uma ditadura comunista na Colômbia e a óbvia integração do país ao chamado Socialismo do Século XXI que encabeçam Fidel Castro, Lula da Silva e Hugo Chávez.

 

Notas:

[1] “Massero” é derivado de “massa” e é designado aos guerrilheiros encarregados de fazer proselitismo entre as massas populares.

[2] “Fariano” é como se designam os terroristas das FARC, do mesmo modo que “elenos” refere-se aos guerrilheiros do ELN.

 

Artigo escrito especialmente para a revista do DAS (Departamento Administrativo de Segurança) da Colômbia.

O autor é analista de assuntos estratégicos – www.luisvillamarin.com.nr

Tradução e notas: Graça Salgueiro

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