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Quando Israel desafiou Washington

13 de abril de 2010 - 8:17:10

A série de acontecimentos começou com uma declaração do ditador sírio Hafez al-Assad de que ele não faria paz com Israel “nem mesmo em cem anos”, Begin respondeu anexando as Colinas de Golã, pondo fim à administração militar que governava o território desde a época em que as forças israelenses tomaram-na da Síria em 1967. A
legislação com esse objetivo passou facilmente no parlamento israelense em 14 de dezembro de 1981.

Contudo, essa medida foi tomada apenas duas semanas após a assinatura de um Acordo de Cooperação Estratégica, Estados Unidos – Israel, despertando muita irritação em Washington. De acordo com a iniciativa do Secretário de Estado Alexander Haig, o governo americano suspendeu o acordo recém assinado. Um dia depois, em 20 de dezembro, Begin convocou Samuel Lewis, embaixador dos Estados Unidos em Tel Aviv, para uma repreensão.

Yehuda Avner, ex-assistente de Begin, apresenta o clima e o comentário sobre esse episódio em “Quando Washington se irritou e Begin se enfureceu.” Em seu reconto, “O primeiro ministro convidou Lewis a se sentar, enrijecido, sentou-se, apanhou uma pilha de papéis em uma mesa ao seu lado, colocou-a em seu colo e [assumiu] uma expressão de pedra e uma voz de aço”. Begin começou com “uma tonitruante recitação das perfídias perpetradas pela Síria através das décadas”. Ele terminou com o que chama de “uma mensagem muito pessoal e urgente” ao Presidente Reagan (disponível no Web site do Ministério das Relações Exteriores de Israel).

“Três vezes durante os últimos seis meses, O Governo dos Estados Unidos “puniu” Israel”, disse Begin. Ele enumerou as três ocasiões: a destruição do reator nuclear iraquiano, o bombardeio do quartel general da OLP em Beirute e agora com a lei das Colinas de Golã. No decorrer da exposição, de acordo com Avner, Lewis interrompeu, mas sem sucesso: “Não é punição ao senhor, Sr. Primeiro Ministro, simplesmente a suspensão…,” “Desculpe-me , Sr. Primeiro Ministro, não se trata …,” “Sr. Primeiro Ministro, eu preciso corrigi-lo…,” e “Isso não é uma punição, Sr. Primeiro Ministro, é simplesmente uma suspensão até…”

Preparado para dar vazão a sua raiva, Begin inspirou-se em um século de sionismo:

Que tipo de termo é esse – “punir Israel”? Nós somos seus vassalos? Somos uma república de bananas? Somos jovens de quatorze anos que, se não se comportarem adequadamente, será aplicada a palmatória? Deixe me informá-lo por quem esse governo é formado. É composto por pessoas que passaram a vida na resistência, lutando e sofrendo. O senhor não irá nos amedrontar com “punições”. Aquele que nos ameaça verá que não damos ouvidos as suas ameaças. Estamos preparados apenas a ouvir argumentos racionais. Vocês não têm o direito de “punir” Israel – e eu protesto pelo simples uso desse termo.

No seu mais ardente ataque aos Estados Unidos, Begin contestou a atitude moralista dos americanos a respeito de vitimas civis durante o ataque israelense a Beirute:

Vocês não têm direito moral de nos fazer pregação sobre vítimas civis. Nós lemos a história da Segunda Guerra Mundial e nós sabemos o que acontecia aos civis quando vocês agiam contra um inimigo. Nós também lemos a história da guerra do Vietnã e a sua frase “contagem de corpos“.

Referindo-se a decisão dos americanos de suspender o acordo assinado recentemente, Begin anunciou que “O povo de Israel viveu 3700 anos sem um memorando de entendimento com os Estados Unidos – e continuará a viver por outros 3700”. Em um nível mais mundano, ele citou que Haig havia declarado, em nome de Reagan, que o governo dos Estados Unidos iria comprar armas israelenses no valor de US$ 200 milhões e outros equipamentos. “Agora você diz que não será mais assim. Isso por conseguinte é uma violação da palavra do presidente. Isso é costumeiro? Isso é correto?”

Lembrando a recente disputa no senado americano sobre a decisão de vender aviões AWACS à Arábia Saudita, Begin observou que “ela foi acompanhada por uma vergonhosa campanha de antisemitismo”. A título de ilustração, ele mencionou três peculiaridades: os slogans “Begin ou Reagan?” e “Nós não podemos deixar os judeus decidirem a política externa dos Estados Unidos”, e ainda calúnias de que senadores como Henry Jackson, Edward Kennedy, Robert Packwood e Rudy Boschwitz “não são cidadãos leais”.

Respondendo às exigências de que a lei das Colinas de Golã seja rescindida, Begin invocou o sentido de rescisão propriamente dito aos “dias da Inquisição” e lembrou a Lewis que

Nossos ancestrais preferiam ser queimados vivos a “rescindirem” a sua crença. Nós não seremos queimados vivos. Graças a Deus. Nós temos força suficiente para defender nossa independência e defender nossos direitos. … tenha a gentileza de informar ao secretário de estado que a Lei das Colinas de Golã permanecerá válida. Não há força sobre a face da terra que trará a sua rescisão.

A sessão acabou sem que Lewis respondesse. Conforme reconta Avner, “Frente a esse bombardeio inflexível, que para o embaixador parecia um tanto hiperbólico e, em parte, até paranóico, não vendo razão em continuar, deixou o recinto”.

Comentários:

(1) O fim de 1981 marcou o ponto mais baixo nas relações Estados Unidos – Israel durante a administração Reagan. De maneira especial, a cooperação estratégica avançou nos anos subsequentes.

(2) O Web site do Ministério qualifica a explosão de Begin “uma atitude sem precedentes”; à qual eu acrescento, não foi apenas sem precedentes, mas também jamais repetida.

(3) A acepção de destino de Begin, combinada a sua grandeza de oratória impulsionou-o a responder às diferenças políticas atuais invocando 3700 anos de história judaica, a Inquisição, a Guerra do Vietnã e o antisemitismo americano. No processo, ele mudou os termos da argumentação.

(4) Apesar da forte ofensa americana para com Begin, seu furioso ataque aumentou o orgulho e posicionamento israelense.

(5) Os políticos em outros países atacam os Estados Unidos com muita frequência. Na realidade, Hamid Karzai, presidente do Afeganistão o fez na semana passada. Mas o objetivo dele – de convencer seus compatriotas de que ele não é, de fato, um líder que desfruta da sua posição devido ao apoio externo – difere fundamentalmente da asserção da dignidade de Israel por parte de Begin.

(6) É difícil imaginar que outro político israelense, inclusive Benjamin Natanyahu, ousaria levar a cabo a agressão verbal de Begin.

(7) No entanto, é possível que seja exatamente isso que Israel esteja precisando.

Atualização de 6 de abril de 2009:

O leitor, Charles Gruenspan, salienta que Ariel Sharon ecoou de maneira distante a conversa da “república de bananas” de Begin em 4 de setembro de 2001, quando da sua declaração “Tchecoslováquia”:

Hoje Israel sofreu outro monstruoso ataque terrorista palestino, que nos custou muito caro – três mortos e sete feridos. Todos os esforços de se alcançar um cessar fogo foram torpedeados pelos palestinos. O fogo não parou, nem por um dia sequer.

O Gabinete então instruiu nossas forças de segurança para tomarem todas as medidas necessárias a fim de estabelecer total segurança aos cidadãos de Israel. Podemos confiar apenas em nós mesmos.

Estamos no momento no meio de uma campanha diplomática difícil e complexa, eu conclamo as democracias ocidentais e principalmente o líder do Mundo Livre – os Estados Unidos: Não repitam o terrível erro de 1938, quando as evoluídas democracias européias decidiram sacrificar a Tchecoslováquia por uma “solução temporária conveniente”. Não tentem aplacar os árabes às nossas custas – isso é inaceitável para nós.

Israel não será a Tchecoslováquia. Israel irá combater o terrorismo.

 

Publicado originalmente em FrontPageMagazine.com.
Original em inglês: When Israel Stood Up to Washington

Tradução: Joseph Skilnik

 

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