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Quando o Brasil começou a se ferrar

14 de dezembro de 2009 - 7:14:34

Logo me lembrei que o historiador inglês Paul Johnson, em seu livro “Tempos Modernos” (Instituto Liberal/Rio/1990), afirma que o fatídico século XX, dominado pela desgraça totalitária, começou no Brasil, quando um eclipse solar foi fotografado na cidade de Sobral, no Ceará, revelando o imprevisto desvio de movimento do planeta Mercúrio em exatos 43 segundos no transcorrer de todo século XIX.

O singular fenômeno do desvio do corpo celeste, detectado por possantes telescópios, abalava fundo a cosmologia de Newton (baseada nas linhas retas da geometria euclidiana e nas noções do tempo absoluto de Galileu), que tinha servido como pano de fundo para o Iluminismo europeu, a Revolução Industrial e a vasta expansão do conhecimento humano. Segundo Johnson, o desvio de meros 43 segundos flagrado a partir da foto do eclipse solar em Sobral, deu margem a criação de uma nova – e fragmentada – teoria do universo: a Teoria da Relatividade Restrita (e depois “Geral”), criada e consagrada por Albert Einstein.

Fiquei matutando durante tempo considerável se o tal desvio não estaria na raiz do nosso sinistro presente, mas logo me dei conta de que as observações teóricas do físico alemão em torno da relatividade do tempo e do espaço, tidas como superadas, me levariam à funesta equação de que “toda massa pode ser transformada em energia”, vale dizer, na Bomba Atômica – e então, adotando a postura de Mercúrio, desviei de rota.

Em seguida, pensei: talvez a resposta sobre como e quando o Brasil começou a entrar pelo cano demande esforço em outra direção. Então, em vez de queimar a mufa com a ciência relativista, por que não procurar resposta no Google, ou consultar o Nivaldo Cordeiro, que tem resposta para tudo, ou, quem sabe, examinar os velhos alfarrábios? Como a madrugada avançava célere, eliminei as duas hipóteses iniciais e parti para a terceira. Fui à biblioteca, e da estante de obras raras retirei o grosso volume de “Notícia do Brasil”, escrito em 1587 por Gabriel Soares de Sousa, um colono que durante 17 anos percorreu todo o país para revelar em prosa honesta o que éramos nos nossos primórdios.

No vasto levantamento que fez do Brasil, Gabriel Soares nos leva a acreditar que, de fato, seriamos o “país do futuro”. Sua visão do que tínhamos e éramos pode ser considerada mais do que positiva. Por exemplo: escrevendo ao primeiro editor do livro, o nobre Cristóvão de Moura, residente em Madrid, o autor não contém o entusiasmo com as “grandezas e estranhezas” que tomam conta do lugar, ressaltando que, nele, a “terra é quase toda muito fértil, mui sadia, fresca e levada de bons ares, e regada de frescas e frias águas”.

No que se refere às nossas riquezas naturais, ele diz que “A província é abastada de mantimentos de muita substância e menos trabalhosos que os de Espanha”. E especifica: “Dão-se nelas muitas carnes, assim naturais, como das de Portugal, e maravilhosos pescados; onde se dão também melhores algodões que em outra parte sabida, e muitos açucares tão bom como na ilha da Madeira”.

E prossegue Gabriel Soares no seu encantamento: “Tem muito pau de que se fazem as tintas. Em algumas partes dela se dá trigo, cevada, e vinho muito bom, e em todas todos os frutos e sementes de Espanha. E há que se descobrir os metais que nesta terra há; porque lhe não faltam ferro, aço, cobre, ouro. esmeraldas, cristal e muito salitre, e em cuja costa sai do mar todos os anos muito e bom âmbar; e de todas estas e outras podiam vir todos os anos a estes reinos em tanta abastança”;

No capítulo em se reporta ao gentio, o autor de “Notícia do Brasil” não se mostra menos efusivo, embora com crua ressalva: “São grandes lavradores dos seus mantimentos, de que estão sempre mui providos, e são caçadores bons e tais flecheiros que não erram nunca flechadas que atirem. São grandes pescadores de linha, assim no mar como nos rios de água doce. Cantam, bailam, comem e bebem pela ordem dos tupinambás, onde se declara miudamente sua vida e costumes, que é quase o geral de todo o gentio da costa do Brasil”. No entanto, ressalva: “Eles não costumam perdoarem a nenhum dos contrários que cativam, porque os matam e comem logo”.

Ele próprio colono, proprietário de engenho na Bahia, Gabriel Soares via os pares, vindos de Portugal ou Espanha, como “gente de constância e valor, de muita fé em Deus e no trabalho”, todos “prudentes e de boa paz”, mas “experimentados” quando enfrentam “os franceses, invasores e ladrões”.

A crer no que diz o primeiro cronista do Brasil, a coisa aqui era bastante promissora. Havia riqueza, o gentio era destro e o colono, de valor, acreditava nos preceitos divinos. Bem, cabe então indagar: se os nossos primórdios eram tão auspiciosos, e os habitantes dotados de tantas e notáveis distinções, por qual razão o País mergulhou no mar de degradação ética, política e social que a todos afoga neste início de milênio?

No histórico, deixando a Colonização e o Império de lado, a proclamação da República foi um episódio esquisito: o marechal Deodoro, amigo de confiança do Imperador, de súbito viu-se envolvido por mexericos contra D. Pedro II e terminou por proclamá-la (a despeito da vontade popular). A “consolidação”, por sua vez, foi problemática: tivemos na República Velha uma sucessão de governos ineptos, depois duas revoluções ditatoriais (uma civil e outra militar) consideradas “modernizadoras”, o suicídio de Vargas e a ascensão democrática de Juscelino, o presidente que fez da construção de Brasília (“a mãe de todos os escândalos”) instrumento programático da corrupção oficial.

No parecer de bons observadores o país começou a degringolar com a permissiva figura de Juscelino Kubstchek, enquanto presidente, entre 1956/1960. De fato, para impor o seu populismo estróina, o antigo presidente arrombou os cofres da nação, imprimiu dinheiro sem fundo, pediu empréstimos aos borbotões, deu calotes, abriu espaço para os comunistas da Sudene e sumidouros idênticos, enriqueceu banqueiros (com a instalação do processo inflacionário premeditado), empreiteiros (com o superfaturamento de obras) e políticos (com a instituição de nomeações, vantagens e propinas como armas de cooptação política). De fato, depois da era JK, em que se ampliou vertiginosamente o processo de decomposição da ética na política, a idéia de um Estado comprometido com a decência virou fenômeno de fata morgana, ou seja: uma miragem.

Por sua vez, posteriormente aos militares, não se pode negar as extraordinárias contribuições de figuras como o “Honorável” Sarney, Collor de Mello, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso no curso da desintegração (e apodrecimento) das instituições legais do país. Sem dúvida que todos eles, cada um a seu modo, em maior ou menor proporção, drenaram fundo o mar de lama que hoje sufoca a vida da nação.

De minha parte, para responder a pergunta que na certa todo brasileiro consciente já se fez, ou se faz, eu respondo, sem mais delongas: o Brasil entrou pelo cano irreversível quando Lula da Silva tomou assento no Palácio do Planalto, em 1º de Janeiro de 2003.

Coisa que trataremos de comprovar, com detalhes, no nosso próximo escrito.

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