1. Arquivos
  2. O Estado de São Paulo

Quero uma ideologia para viver…

10 de fevereiro de 2010 - 6:53:23

O problema central de um texto deste naipe é o de ver o mundo pelos prismas ideológicos – vícios dos quais o jornalista brasileiro parece padecer como se fossem virtudes. Talvez a pessoa nem perceba isso, mas eles estão lá o tempo todo e é muito difícil tirá-los do seu organismo. Trata-se de um peculiar mecanismo de sobrevivência psíquica; o jornalista precisa fazer isso senão ele morre – não só profissionalmente como também existencialmente.

O detalhe que chama a atenção para o serviço de desinformação apresentado pelo texto é que a resistência dos tea-parties não é, em hipótese nenhuma, uma resistência da “direita” ou da “esquerda” e sim de pessoas que, como bem observa o relato, divergem em muitas coisas, mas também estão unidas por um interesse em comum: o desejo de que o Estado não se meta mais na sua vida. Da mesma forma que o Nelson Mandela de Clint Eastwood fez no filme Invictus, uma parcela do povo americano decidiu se unir através de um problema concreto apresentado pelas exigências do real – e não através de uma retórica populista que, a propósito, o próprio Obama percebeu que terá de se afastar se quiser governar decentemente pelos próximos três anos (além de, claro, ganhar as eleições do Congresso de 2010 e as presidenciais de 2012).

Além disso, a jornalista em questão quer embelezar o seu relato com uma sofisiticação acadêmica, ao citar justamente o ensaio de Richard Hofstadter entitulado The Paranoid Style in American Politics. Ora, pois, este é um dos ensaios mais superestimados já escritos; Hofstadter argumenta que a política americana é uma forma mentis que sempre apela para a culpa do outro – ou seja, a responsabilidade do político não ter dado certo na realização de seus projetos é sempre do “comunista”, do “conservador”, do “reacionário”, do “extremista”, do “radical”. Em outras palavras, trata-se do princípio do bode expiatório explicado para dummies. A ironia do artigo é que a própria jornalista cai na retórica deste raciocínio distorcido ao apelar para o termo – olhem só! – “paranóica” para classificar a existência dos tea-parties. Ou seja, a culpa de quem impede a concretização das políticas de Obama cai nos ombros de um movimento a-partidário, já rotulado como “oposição organizada”, quando não passa de uma resistência informal de pessoas que simplesmente querem ser deixadas em paz (E, a propósito, o dia em que os tea-parties virarem uma espécie de “terceira via” tenham certeza de que fracassou – e talvez seja por isso que o apoio de pessoas como Glenn Beck e Sarah Palin pode ser muito mais prejudicial do que vantajoso).

Sugiro à jornalista que não cite mais o ensaio de Hofstadter (Se quiser algo parecido e mais honesto, leia Patriotic Gore, de Edmund Wilson, em especial a sua introdução, uma perfeita amostra de como um intelectual da esquerda pode se soltar das amarras da ideologia política quando necessário); além de datado, mostra uma incompreensão básica de um detalhe essencial da verdadeira política americana: ela é feita através de intimações da vida e não através de slogans ideológicos. Provas destas intimações? Só lembrarmos de 1776, dos Founding Fathers, do Federalista, de Alexander Stephens, de Martin Luther King e Ronald Reagan. E toda vez que o governo americano partiu para a última alternativa se deu mal – vejam os casos de Lincoln, Roosevelt, Kennedy, Nixon, Bush, Jr. e agora Barack Obama.

Pena que não existem possibilidades de se realizarem tea-parties aqui no Brasil – aliás, todas devidamente sufocadas não só por textos como os que são publicados no site do Estadão e outros órgãos supostamente “plurais” da nossa imprensa, como também por uma soi-disant oposição “liberal e conservadora”, que escolheu a apatia como meio de vida.

Publicado originalmente no blog da revista Dicta & Contradicta.

{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}