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Resposta a um focolarino

16 de maio de 2009 - 0:40:50

“Prezado Conde e editores do MSM, Li com atenção o artigo “Os focolarinos e sua economia de “comunhão” comunista” e devo dizer que nem tudo é verdade no que vai escrito ali. Meus pais resolveram aderir a Economia de Comunhão formando uma empresa, isto é, livremente resolveram aplicar tempo e capital num empreendimento que serve aos fins da EdC. Isso pode até ser uma espécie de socialismo utópico, mas comunismo não é, uma vez que aderiram livremente ao projeto, dando os lucros segundo o julgamento pessoal de cada um deles”.

Conde- Eu não nego o direito dos focolarinos de divulgarem ou mesmo criarem seu modelo utópico para si mesmos. Entretanto, a minha crítica é a maneira distorcida com que o movimento adere a esse projeto utópico e usa do arcabouço católico para fazer a promoção dessa utopia. Ele lembra as esquisitas engenharias sociais pautadas nas ideologias socialistas, já que nega a importância do indivíduo, a propriedade privada e criminaliza o lucro como algo culpável e que precisa ter um retorno dito “social”. Isso porque esse “social” parte da idéia de que a coletividade é suprema em relação ao indivíduo. E não se está falando de um movimento isolado, e sim, com certo endosso da Igreja Católica, que pela sua doutrina, zela pela propriedade privada, pelos direitos naturais e pela economia de livre mercado. Há quem diga que muitos focolarinos são maçônicos, em particular, uma história contada da boca dos católicos tradicionalistas. Bem, eu não posso confirmar essa fonte até porque não tenho fundamento para afirmá-la. Mas que há certa semelhança ao projeto revolucionário socialista, isso é notório. E o caráter “ecumenista” de diluir a religião católica em outras religiões lembra muito o pensamento da maçonaria. Não deixa de ser uma forma perigosa de relativismo.

“Devo lembrar que liberdade é, inclusive, liberdade para doar o que se possui. Se tal comportamento econômico é realmente próspero, bem, tenho lá minhas dúvidas, mas isso não invalida a experiência como um todo, não enquanto não se fizer uma análise mais detalhada da EdC, pois há entre as empresas da EdC aquelas que vão muito bem e aquelas que vão muito mal, como sói acontecer no capitalismo”.

Conde- Veja uma coisa: se alguém quiser doar seus lucros para os pobres, tem todo esse direito. O que não é aceitável é que um movimento católico seja aliado dos socialistas, tanto num projeto político, como mesmo num encontro de esquerdas, como foi o caso do FSM.

“Devo lembrar que Chiara nunca disse que deveria haver uma ruptura com o modelo capitalista de produção. Há que se destacar, além disso, a distância que há entre o discurso de alguns membros do Movimento dos Focolares e a orientação legal do Movimento, presente nos estatutos que foram, aliás, aprovados pela igreja. Que há comunistas enrustidos no Movimento dos Focolares, sim, os há, mas dizer que o Movimento é comunista é balela”.

Conde- No entanto, se os Focolares não se declaram comunistas, ao menos, comungam de certos valores comunistas. Isso está muito explícito no raciocínio deles. A própria Chiara faz concessão a este raciocínio, já que ela acha que vê algo cristão no socialismo. E isso é incoerente com a Tradição Católica e mesmo com o bom senso. O que há de entender é que o projeto socialista parasita o cristianismo. Daí a linguagem da igualdade ser distorcida, na idéia primaz de que o indivíduo, para ser “igual”, deve ser um padrão da coletividade. Até o termo comunhão, utilizado pelo movimento, é distorcido. No sentido católico do termo, comunhão não significa bens comuns, falta de individualidade e coletivismo. Significa valores comuns de irmandade, no ponto de vista da religião, da fé, da moral e do reconhecimento da igualdade de direitos. Só que nesta comunidade, cada um é senhor de si mesmo e dono de seus bens.

“Para ilustrar permito-me dizer que o Movimento foi uma das principais ferramentas da igreja na extinta cortina de ferro. O cardeal Miloslav Vlk, por exemplo, só pode continuar exercendo seu ministério em Praga pois se abrigou em uma casa focolarina, dado que os focolarinos eram leigos e não despertavam tantas suspeitas por parte da KGB. A EdC não é comunista, pode não ser viável, mas isso só o tempo provará”.

Conde- Meu caro amigo: tivemos 80 anos de história soviética para provar que a destruição do indivíduo pela coletividade é uma balela. Ainda que por meios mais suaves e linguagem mais adocicada, os focolarinos partem dos mesmos raciocínios coletivistas dos socialistas. Será que é precisamente pelo fato de serem tão parecidos com os socialistas nas idéias é que a KGB tenha sido tolerante com esse grupo? A questão é: uma coisa é a caridade, a idéia de que um empresário pode doar parte de seus lucros para ajudar os pobres, sem a devida condenação aos ganhos pelo suor de seu trabalho. Outra coisa é a engenharia social de negar o direito de apropriação privada em favor de uma coletividade abstrata, que na prática, é perfeitamente concreta, no domínio pleno dos socialistas como proprietários, através do Estado ou de qualquer outra entidade política. A propriedade, mesmo no socialismo, jamais é abolida: ela simplesmente se torna propriedade de quem controla os bens, em nome da coletividade.

“Não é dito que aos capitalistas seja proibido disporem livremente de seus lucros. Um empresário pode guardar seu dinheiro na poupança ou pode ajudar algumas pessoas mais necessitadas, mas esta decisão é sempre mais complexa do que parece, e creio que somente a consciência individual do empresário pode decidir o que fazer. O que permanece como constante na EdC e no capitalismo é busca do lucro, o que só pode vir pela busca de excelência em produtos e serviços, bem como pela sorte. Há uma confusão de fundo presente no discurso de alguns membros do Movimento. Eles não conseguem ver que o capitalismo é próspero em si, mas isso porque eles acabam vendo o capitalismo apenas em sua dimensão técnica, não vendo a base cultural que deu sustento e promoveu o crescimento capitalista”.

Conde- É correto dizer que o capitalismo gera prosperidade, mas a pergunta que não quer calar é: por que os focolarinos partem de premissas anticapitalistas para gerenciar seu movimento? Por uma razão simples: os focolarinos são socialistas. Eles se utilizam dos esquemas mentais marxistas para criticar o capitalismo. Os vícios de raciocínio dos focolarinos possuem os mesmos pecados intelectuais da Teologia da Libertação. Eles caem numa terrível esparrela gnosticista dos materialistas históricos e dos milenaristas messiânicos.

“Mas devo lembrar que isso acontece hoje em dia na igreja católica como um todo. Nem todos os mercados são legítimos, e a China prova isso”.

Conde- A ilegitimidade do mercado não está na busca de acumulação individual em si, mas no quesito moral da atividade ser honesta ou não. O problema é que o focolarino médio coloca o acúmulo de riquezas como algo essencialmente ruim. Isso entra em contradição com a história intelectual da Igreja: ninguém pode fazer a caridade sendo pobre. Uma pessoa só pode ajudar a outra, se tiver meios para isso. A Igreja não condena o acúmulo de riquezas; condena a supremacia dos bens materiais sobre os valores espirituais, ou seja, a avareza e o materialismo. Porém, nem por isso a valorização dos aspectos espirituais implica ser imprudente e insensato no uso das riquezas. E um adendo: o mercado “legítmo” de Chiara Lubich não é a da democracia liberal, que gera riqueza e prosperidade. Ela prega como legítimo, justamente o mercado com viés socialista, o mercado hoje vigente na China.

“Mutatis mutandis, as várias intervenções que o Olavo de Carvalho tem feito contra o grau-zero do liberalismo, ou seja, contra os liberais apenas e tão somente ligados a liberdade sem freios, mostra que é estupidez intelectual crer na supremacia do elemento econômico como gerador de todas as liberdades”.

Conde- A questão é: o estigma antiliberal que fala de um liberalismo sem freios é muito mais um mito socialista do que uma realidade. Essa sociedade liberal sem freios, na prática, dificilmente existiu, salvo quando virou um movimento revolucionário. É possível que haja liberais amorais, toscos, que presumem a liberdade como um fim em si mesmo e não como um meio para a prática virtuosa. E que dentro das sociedades liberais haja o perigo do relativismo moral, que pode minar as instituições e os valores cristãos necessários para coibir os abusos da liberdade licenciosa. Daí que a condenação católica ao liberalismo é relacionada ao subjetivismo moral de alguns autores liberais, que transformam a liberdade, a verdade, a moral e a religião num mero capricho da vontade particular e não como obra da objetividade, razão e sensatez. O papa Pio XI afirmou que o liberalismo preparou o caminho para o socialismo. Embora ele possa ter cometido alguma generalização, o mero fato de tornar as reservas morais e éticas em fatores subjetivos da vontade não é tão diferente da chamada “vontade coletiva”, tão apregoada pelos socialistas. A diferença entre a vontade individual e coletiva é apenas uma questão numérica. Esse é, por assim dizer, o mal do liberalismo revolucionário de vocação francesa. A vontade compreende uma gama de fatores ilimitados, que levam as mais completas arbitrariedades. E neste ponto, o papa estava correto.

No entanto, as democracias liberais, dentro dos valores cristãos arraigados (e neste caso, cito as democracias anglo-saxônicas), conseguiram, até o dado momento, mostrar certa eficiência em coibir os abusos desse relativismo, já que essa liberdade é, substancialmente, arraigada de consciência moral cristã. Não vemos essa “concorrência desenfreada”, essa cupidez pelo lucro, em países liberais ricos. Pelo contrário, os direitos individuais são francamente respeitados e os empresários desonestos vão pra cadeia. Cupidez, lucro fácil, selvageria nas relações de trabalho, vemos justamente nos países socialistas, onde a sociedade civil é serva do Estado e não opina sobre nada. O mesmíssimo modelo admirado por Chiara Lubich, a despeito de suas supostas reservas às ditaduras marxistas. Os focolarinos aderem aos mesmíssimos preconceitos das idéias socialistas. Eles partem dos mesmos vícios materialistas, negando que haja, por trás das relações de mercado, uma eticidade que legitima o lucro, o ganho individual e mesmo o direito de propriedade, que aos olhos da própria Igreja, é de direito natural.

“A EdC se propõe ser um meio de partilha de recursos, sejam eles materiais ou imateriais. À diferença do comunismo, a EdC não é uma teoria, e muito da sua prática foi se formando ao longo dos anos”.

Conde- Diferente do comunismo marxista, a tal economia de “comunhão” só não é mais opressiva, porque supostamente é voluntária. Como modelo socialmente aceito, o projeto focolarino seria um desastre. Do ponto de vista intelectual da Igreja, eu diria que, além de contrário aos seus princípios, é, inclusive, antinatural e visivelmente revolucionário. Se o projeto focolarino se tornasse um projeto real de poder político, ele seria tão tirânico como qualquer regime socialista. Como ele não tem caráter político explícito, logo, ele é aparentemente inofensivo, porque está inserido numa sociedade capitalista. Mas eu reitero, só aparente. Porque o projeto utópico focolarino confunde os fiéis da Igreja Católica, deturpa os postulados morais e políticos de fé cristã e dá ganho de causa ao movimento marxista que quer destruir a Igreja. Na prática, os focolarinos, pregando suas idéias utópicas e inconseqüentes, abrem portas aos inimigos do catolicismo, mesmo dentro da Igreja.

“Ressalto também que as empresas da EdC pagam seus impostos e vivem na mais perfeita legalidade. Lembro aliás que um corte generoso em todo atual sistema de tributação (como nós liberais conservadores desejamos) muito ajudaria as empresas da EdC. Por fim, quanto a ONU e ao ecumenismo, responderei mais tarde. Agora tenho um compromisso. Deixo, enquanto isso, para introduzir o próximo debate, um trecho da carta que o atual papa enviou quando nas exéquias de Chiara Lubich: “(…) Gostaria, sobretudo, de agradecer a Deus o serviço que Chiara prestou à Igreja: um serviço silencioso e incisivo; sempre em sintonia com o magistério da Igreja”.

Conde- Eu tenho lá minhas dúvidas, a despeito da opinião do papa, que ao que me parece, soa infeliz. Ainda me convenço da certeza das incongruências do movimento focolarino, em particular, sua participação patética no FSM, o que já revela notória simpatia pelos modelos revolucionários esquerdistas. Um católico, por definição, não tem direito de se associar aos bolchevistas, aos movimentos de revolução cultural gay, abortista, feminista e outras demais porcarias totalitárias e promovê-las, sob pena de prostituir sua fé. Pior é o movimento focolarino sonhar com uma burocracia mundial (quer coisa mais socialista do que isso?). O Focolares é muito claro: sonha com a destruição das nações, com a supremacia da ONU sobre todos os povos e com a com a transformação dos Estados nacionais em meros organismos de um poder central. A mesma ONU que prega a agenda do politicamente correto, da destruição dos valores cristãos e da família e do controle estatal dos meios de produção pelo Estado, além da defesa criminosa dos países comunistas e islâmicos despóticos. Não está claro demais que a ideologia focolarina é comunista? Você, como católico que deve ser, também deve se questionar sobre isso. Será que o movimento Focolares serve realmente à Igreja? Já dizia a Palavra do Senhor: não se pode servir a dois senhores. E da árvore, conhecereis os frutos. Quais frutos os focolarinos estão espalhando à nossa sociedade, quando vão ao Fórum Social Mundial?

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