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Richard Dawkins: a evolução de um crente

25 de fevereiro de 2010 - 22:01:45

Não há nada que afete mais o prestígio de um cientista do que a arrogância. Há meses venho observando os vídeos de Richard Dawkins contra a religião. Em especial, a virulência de seus ataques contra a religião cristã, contra a qual se ira como faria um islamita. Também posso dizer que me surpreendeu sua conferência na Universidade da Califórnia. Nessa palestra, intitulada “Estou ofendido”, este oportunista filho de colonialistas no Kênia, comporta-se como um comunista do primeiro mundo ante um público que em Berkeley não podia ser mais liberal.

O vídeo exposto em “YouTube” mostra todo o cinismo e a vaidade de um homem interrompido pelos aplausos ao final de cada frase: “Devemos nos sentir ofendidos quando se diz às crianças que passarão uma vida nos fogos do inferno”, diz uma das palavras de ordem dirigidas a uma massa de idiotas hipnotizados pela sapiência do grande predicador. Porque Dawkins, que se considera um ateu puro e duro, quer de qualquer maneira se converter no Martinho Lutero de uma nova bíblia, intitulada “A origem das espécies”.

Muitos dos meus amigos (cientistas, alguns deles) são pessoas de fé. Trata-se de seres humanos com alguns princípios morais e uma tolerância que Dawkins não chega a assimilar. São pessoas honestas que amam as festas natalinas porque são parte da cultura na qual cresceram. Muitos (eu, entre os primeiros) admiram a obra de Darwin, um homem fora de época e extremamente modesto, cujas idéias deram coesão à nossa vocação científica em uma Cuba na qual o adorado devia ser Federico Engels, porque o ateísmo ou o agnosticismo de Darwin não se igualavam ao ateísmo fundamentalista que hoje nos quer vender o Sr. Dawkins.

O primeiro Bulldog de Darwin foi Thomas Henry Huxley [1]. Este brilhante intelectual defendeu a teoria da evolução como ninguém fez. Além disso, fez quando fazia falta. Seu primeiro trabalho em defesa da teoria da evolução foi publicado já em novembro de 1859, um mês depois de ter sido publicado “A origem das espécies”. Porém, para defender as idéias científicas dista muito de tentar convertê-las em textos sagrados, e a intenção de Dawkins é a de converter Darwin em um novo Profeta, e a sua obra sobre a evolução em “O último testamento” para o século XXI.

Que contraditório: Dawkins foi o único cientista que melhor me convenceu do grande valor utilitário que implica crer em Deus e Deus, ao que parece, segue seu caminho de maneira silente, alheio à existência do evolucionista e seus discursos populistas pelas universidades do planeta. Talvez tenha sido pela importância cotidiana que a religião oferece ao homem mais simples, que Darwin dizia: “tão bela como é a moral do Novo Testamento, que apenas pode-se negar que sua perfeição depende em grande parte da interpretação que nós lhe demos agora às suas metáforas e alegorias”.

Pouco importa quem seja o personagem (um minúsculo detalhe no universo da vida), este sempre será prisioneiro de suas próprias palavras. Imaginem quão cativo não serão os cientistas arrogantes. Ao finalizar a cúpula sobre a mudança climática em Copenhague, o senhor Dawkins publicou um editorial em “The Guardian” no qual dizia: “Não importa o que você pense acerca do aquecimento global ou se você pensa que os humanos são os responsáveis por isso eu penso que devemos saudar este notável logro de cooperação internacional”. Ou seja, qualquer que sejam suas crenças sobre o Aquecimento Global, lutar contra ele até arruinar a economia mundial é um sacrifício do qual todos devemos nos sentir felizes e orgulhosos.

Quem poderia imaginar? Richard Dawkins: outro crente do culto do carbono!

O disparate me obriga a responder-lhe então de uma forma parecida a como Huxley respondeu ao Arcebispo Willberforce: “Preferiria ser descendente de dois crentes que ser um ateu e temer enfrentar a verdade”. Sobretudo, porque há uma grande diferença entre crer em Deus e crer no Aquecimento Global. Deus, qualquer que seja o grau de credibilidade que você lhe outorgue, oferece esperanças, guia moral e conforta milhões de pessoas neste mundo. O Aquecimento Global, pelo contrario, é a religião do castigo eterno, da culpabilidade humana ante a natureza tornada deidade: os humanos somos todos pecadores no novo Culto do Carbono.

Porém, não era este Richard Dawkins, agora crente da falácia do aquecimento global, o mesmo que dizia em suas arrogantes palestras universitárias que os crentes não eram outra coisa senão “cabeças-duras” e “ignorantes”? O ser humano não deve apoiar somente aquilo que é “verdade” graças às evidências? Como pode então Richard Dawkins crer no culto do apocalipse climático quando ele mesmo afirmava que: “Eu não sou bem versado no clima?” Por acaso Phil Jones, Rajendra Pachauri, Michael Mann ou Al Gore, são cientistas que respeitam as evidências?

A cultura científica, como disse Ed Wilson, pode ser definida “como um conhecimento novo verificável, assegurado e distribuído com um crédito justa e meticulosamente dado”. Como Dawkins chamaria a cultura do obstáculo editorial, das mentiras e da falta de crédito de todos os cientistas envolvidos e beneficiados por este negócio lucrativo do Aquecimento Global? Como pode o pomposo evolucionista converter-se em apologista de milhares de dados truncados, dos impedimentos editoriais politizados, ou do vergonhoso lucro dos cientistas implicados no IPCC e a Unidade de Investigações Climáticas da Universidade de East Anglia?

Ele mesmo dizia em 2008: “Eu sou bem versado em evolução… e por isso me dá alegria poder tomá-la com os criacionistas”. Porém, Dawkins, não é puro criacionismo inventar-se uma teoria “científica” e sustentá-la com dados falsos? Por acaso você não leu os e-mails tornados públicos antes da conferência de Copenhague? Não é uma obrigação científica se informar amplamente antes de opinar sobre um tema científico? Por que Dawkins ignorou então certa literatura no controverso assunto da mudança climática? Por que acreditar então que teria que empreendê-la contra os céticos? Mc Cornmack [2] tinha muita razão quando lembrou-lhes que: “a ciência sem integridade é má religião”.

Considerar como um fato destacado de cooperação internacional os esforços inúteis das Nações Unidas para lutar contra o aquecimento global, é o mesmo que apoiar a criação de um governo mundial que ninguém necessita é ignorar que se trata de uma “realidade” envernizada de ciência produzida por cientistas emprenhados de agendas políticas e interesses econômicos. Para consegui-lo, não duvidam sequer em destruir a imagem de outros cientistas que opinam parcialmente o contrário. A ciência não é um templo onde tudo é evidência racional e imparcial, senhor Dawkins? Ao menos isso, me parece ter escutado.

O ódio cego de Dawkins contra os crentes o converteu em um fervoroso crente, ele também. Falar dos horrores das cruzadas religiosas (sem ter em conta os perigos políticos da época), é como desaprovar o presidente Bush em sua cruzada no Afeganistão e votar depois em Barack Hussein Obama. Dawkins esquece que os mais destacados cientistas são os que sempre construíram as armas mais letais. Ou talvez ele acredite, como acreditava Isidor I. Rabi, que as armas atômicas são benéficas para a evolução porque geram mutações genéticas em todas as espécies irradiadas.

Chega assim o momento de mencionar a inquestionável culpabilidade do ser humano na mudança climática. Como se fôssemos uma espécie de Deus onipresente, onipotente e capaz de modificar tudo com nossos atos, Dawkins acredita que somos culpados do que a olhos vistos é um processo natural no qual o sol, as mudanças dinâmicas na atmosfera e a evolução do planeta são os principais protagonistas. Se esse tipo de ciência é a ideologia a que devemos nos submeter para sobreviver como espécies, prefiro a extinção. A ciência do clima é hoje em dia a disciplina mais desonesta que existe e terminará colapsada um dia pela evidência.

Da mesma forma que os fanáticos religiosos são a vergonha da fé, os fanáticos do aquecimento global são a sem-vergonhice da comunidade científica mundial. Entre estes, Dawkins merece uma menção especial, não só por acreditar nela, como pela arrogância que demonstra ao crer somente em um grupo de cientistas. Quanto Dawkins cobra por cada uma de suas conferências? Ganha o mesmo que Al Gore? Mesmo que assim fosse, as frases de desprezo que Dawkins lança nos inúmeros vídeos de YouTube contra seus gentis interlocutores demonstra que seu método científico, como seus disparates políticos, são “algorianos”.

Que Deus o perdoe! A ciência climática de Dawkins começa a soar como os discursos litúrgicos da religião muçulmana! Só que no culto do dióxido de carbono são dois os profetas adorados (Al Gore e Hussein Obama), porém a ameaça de morte se somos infiéis é a mesma, o apocalipse com altas temperaturas idem e a promessa de salvação se seguimos os “suras e aleias” de Gore e Pachauri não mudam. Aos infiéis, a mais absoluta intolerância e a estrita proibição a todo indício de liberdade de expressão. Quem critique o novo dogma não poderá encontrar emprego nem nas ciências do espaço.

Voltemos aqui então, às razões que me convenceram a não comprar o livro “The God Delusion”. Se vocês dispuserem de um tempo para ver a entrevista que o autor fez à BBC (disponível em YouTube e dividida em três partes), verão um Dawkins politicamente correto assegurando em mais de 5 ocasiões que ele seria incapaz de dizer frases extremas contra os cristãos. Entretanto, é o entrevistador quem lhe recorda que essas mesmas frases, carregadas de intolerância, foram tomadas de seu livro. É patético ver o guru do ateísmo evolucionista reconhecer o extremismo de sua própria cruzada!

Darwin dizia: “Alguns escritores estão, sem dúvida, tão impressionados pelo tamanho do sofrimento do mundo, que duvidam se temos em conta todos os seres sensíveis, e se há mais miséria que felicidade. Em meu conceito, a felicidade decididamente prevalece, mesmo quando isto seja difícil de provar… Se todos os indivíduos de uma espécie tivessem que sofrer habitualmente a um grau extremo, se negariam a propagar sua espécie porém, não temos razões para crer que isto nunca tenha, ou ao menos freqüentemente, ocorrido. Mais ainda: muitas outras considerações nos inclinam a crer que todos os seres sensíveis foram formados para desfrutar, como regra geral, da felicidade”.

Não creio equivocar-me ao afirmar que Darwin sempre esteve consciente de que o cérebro humano necessitava da fé. Já velho, ele escrevia: “Outra fonte da convicção na existência de Deus, conectada com a razão e não com os sentimentos, me impressiona por ter muito mais peso. Esta se baseia na extrema dificuldade ou melhor, impossibilidade de conceber este imenso e maravilhoso universo… como resultado de um fato ao acaso ou uma necessidade. Ao refletir me sinto inclinado a ver uma Causa Primeira como uma mente inteligente, de certo modo similar à do homem, e neste caso mereço ser chamado Teísta”.

Quando eu estudava comportamento animal pelos livros de Tinbergen, Alcock e Wilson, acreditei entender que as aves não necessitavam da experiência para sobreviver, senão da obediência. Obedecer ao instinto de seus genes e aos repertórios da espécie. Ninguém ensinava ao Gavião do Monte como construir seu ninho e, entretanto, este era quase idêntico em forma e tamanho ao dos outros gaviões da mesma espécie. Então eu me perguntava se a religião não seria parte de nossa própria condição operativa, outro evento biológico de nossos genes e não uma expressão psicológica. Nem todos os homens tinham deuses idênticos mas todos tinham rituais.

Não serão nossas crenças religiosas obedientes repertórios ditados por genes particulares? Não apareceram em nossa existência e evoluíram segundo a espécie foi evoluindo ela mesma? Por que quer então Dawkins, o evolucionista, separar de nossa anatomia o que é na realidade um comportamento biológico e natural? Estou quase certo de que o valor utilitário que as crenças religiosas produzem na busca da felicidade, favoreceram nossa sobrevivência e, portanto, nossa evolução. Por que então aborrece tanto a Dawkins que acreditemos em Deus?

Darwin estava consciente do valor da fé como mecanismo de sobrevivência e embora seu lado agnóstico o chacoalhasse frente à sociedade, sua educação e suas próprias vivências sempre o encheram de dúvidas. Em um de seus últimos textos o grande cientista concluía: “Eu não posso pretender oferecer a mais mínima luz a esses problemas incompreensíveis. O mistério do início das coisas é insolúvel para nós e eu desta vez me sentirei satisfeito em permanecer como Agnóstico. Não há nada mais destacado que a disseminação do ceticismo ou do racionalismo nesta última metade da minha vida”.

Dawkins, pelo contrário, nos dizia em Berkeley: “Devemos nos sentir ofendidos quando se diz às crianças que passarão uma vida nos fogos do inferno”. Viram o vídeo de abertura criado pelos cientistas do aquecimento global para a conferência do clima em Copenhague? Depois de fazê-lo, seguramente se perguntarão: quão ofendidos deveríamos nos sentir se se diz as crianças que se afogarão em desastres de inundações se não atuarem como crentes do aquecimento global? Essa é o tipo de educação que Richard Dawkins quer para nossos filhos. Essa é a tática de terror utilizada pelos cientistas do clima e nos quais o grande evolucionista deposita sua confiança.

Por isso recomendo a todos os leitores e a todos os meus amigos lerem “A Origem das Espécies” de Charles Darwin. É uma obra maravilhosa e inteligente que todos devemos conhecer e não essa “bíblia” que um arrogante e oportunista britânico quer nos vender como único guia para a salvação. Dawkins se faria um imenso favor voltando ao campo de estudos ao qual dedicou sua vida e abandonado sua guerra contra as crenças de seus semelhantes. Diria como disserem à cantora do Dixie Chicks quando criticou George W. Bush em um de seus concertos: “Cala-te e canta!”.

Como corolário, quero agregar uma notícia que não faz muito foi manchete nos tele-jornais de todo o mundo: as brigadas de salvamento norte-americanos no Haiti acabavam de tirar uma anciã de entre as ruínas de sua casa destruída pelo terremoto. Quando lhe perguntaram como havia podido sobreviver sem beber e sem comer sete dias sepultada entre os escombros, a mulher apontou para o céu e disse que rezando, porque ela estava segura de que Deus a ajudaria. Dawkins seguramente nos dirá que essa orações não têm mais efeito que o placebo, porém, a realidade é que seu ateísmo não produz esse tipo de milagres e não teria podido salvá-la.

Por essa simples e única razão, digo: Deus abençoe o placebo da fé!

 

Notas:

[1] Huxley T. H. Time and Life: Mr. Darwin’s “Origin of Species” in Macmillan’s Magazine and The Darwinian Hypothesis in The Times.

[2] Mc Cormack P. An open letter to Richard Dawkins: man-made climate change or is science subjective? www.petemccormack.com. 11 pages.

Tradução: Graça Salgueiro

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