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Saco de pancadas

24 de março de 2009 - 23:41:33

Começou com o caso Williamson, bispo da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Fundada por D. Marcel Lefebvre – cujas divergências para com o Papado, e dificuldades em entender e conciliar o Vaticano II com o “Magistério anterior”, o levaram a uma crise, cujo ápice foi a sagração episcopal de Richard Williamson e mais três Bispos, em Econe, no ano de 1988, sem o devido mandato apostólico (autorização do Papa) –, a FSSPX teve retirada, por Bento XVI, a excomunhão aplicada automaticamente por conta da referida sagração fora dos trâmites canônicos e em desobediência ao Sumo Pontífice. Pois bem, a Igreja achou por bem perdoar a pena imposta para iniciar um diálogo mais aprofundado com os membros daquela fraternidade, sem esconder seu desejo de fazer com que eles aceitem o Concílio. Não mudou a Igreja; o que mudou foi a abordagem.

Ora, na ocasião, a mídia desencavou um vídeo, gravado meses antes pela TV sueca, em que D. Williamson, durante uma entrevista, negou a existência de câmaras de gás nos campos de concentração nazistas, bem como afirmou não ser na ordem de seis milhões o número de judeus mortos por Hitler, e sim, em suas palavras, “dois ou três mil.” Foi a oportunidade que setores da imprensa internacional encontraram para mover seu ódio à Igreja: acusaram o bispo de partidário do nazismo, envolveram o Papa na história toda (como se, ao reabilitar os seguidores de Lefebvre, estivesse dando aval às bobagens de um de seus bispos), e ainda deram mais destaque às desastradas declarações de Williamson do que ao grande acontecimento que foi a retirada de sua excomunhão e de seus companheiros na FSSPX. 

Apesar da polêmica de seus argumentos e mesmo de sua irrealidade histórica, temos de colocar os pingos nos is. Williamson não foi anti-semita em seus comentários, não disse que os judeus não foram vítimas. Apenas externou uma opinião – errada, é claro, mas lícita – de que não teriam sido tantos os mortos. Se uma pessoa qualquer emitisse uma opinião igualmente acerca de outro fato histórico, no máximo seria contraditada gentilmente pelos especialistas. Mas um bispo católico, falando de judeus, não tem direito a dizer o que pensa, e a ele é reservada a suprema antipatia pública. Enfim, a retirada das excomunhões nada teve a ver com o que pensa ou deixa de pensar Williamson acerca dos judeus ou do nazismo.

Em outra ocasião, foi a vez de D. José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, violentamente agredido em sua honra pelos mais variados setores da sociedade, inclusive alguns ditos católicos, simplesmente pelo fato de repetir o que a Igreja ensina: aborto é pecado e, além disso, delito canônico punido com excomunhão automática. Todos, sem sequer ter o mais básico conhecimento teológico, se arrogaram o direito de criticar o prelado. Sem embargo, não foi D. José quem excomungou os médicos e a mãe da menina de nove anos, estuprada pelo padrasto, cuja gravidez foi interrompida por um procedimento abortivo. A excomunhão é automática nesses casos. Fale ou não fale D. José, queira ou não queira o médico, a excomunhão ocorreria, pois independe do pronunciamento do arcebispo.

Não faltou quem, no episódio, teve a malícia de, mentirosamente, sustentar que para D. José o estupro da menor não era pecado, apenas o aborto. Canalhice! D. José foi claro: estupro e aborto são ambos pecados mortais. Apenas que o aborto é previsto, no Código de Direito Canônico, como delito, além de pecado. Simples. Cristalino. Só não enxerga quem está impregnado dos mais baixos pré-julgamentos em relação à Igreja Católica.

Enfim, agora em sua visita à África, foi a vez do Papa sofrer duros golpes, ao expor, mais uma vez, o ensino católico de que o uso de preservativos é pecado, pois desvincula, no sagrado ato de amor de um casal, os fins procriativo e unitivo. Clamaram esses tolerantes (que toleram tudo menos a Igreja, a qual acusam de intolerante, em um proposital paradoxo) pela culpa da religião católica pelo aumento do número de infectados pelo HIV, ao proibir a camisinha. Suprema incoerência e, ouso dizer, imbecilidade. Ora, a Igreja proíbe não só a camisinha como o sexo antes e fora do casamento. Então aqueles que não obedecem a Igreja em um ponto (fazendo sexo pré ou extra-matrimonial, ou mesmo têm relações homoeróticas), deixam de usar camisinha por obediência à mesma Igreja? Como pontificou um amigo: “Se as pessoas obedecessem à Igreja, não fariam sexo não-matrimonial em primeiro caso. Ignoraram a Igreja na hora do sexo, mas na hora de botar uma camisinha: ‘Não, a Igreja não deixa!’”

É por essas e outras que está certo Luiz Felipe Pondé, em seu artigo do dia 23/03, na Folha de São Paulo: “Outro fato que torna esse debate viciado é o preconceito contra a Igreja Católica, aliás, o único preconceito aceito pelos ‘inteligentes’. Daí o desfile de expressões banais como ‘Inquisição’, ‘Idade Média’ ou ‘trevas’’. Puro senso comum. A Igreja não é estúpida. Estúpido é quem pensa que ela o seja.” A ninguém se permite o preconceito, mas os que primeiro bradam contra ele são os mais preconceituosos em relação ao catolicismo. A ninguém se permite a intolerância, salvo quando ela é dirigida à Igreja.

Realmente, como no Império Romano, nas invasões germânicas e vikings, em certos momentos do Medievo, nas Revoluções Francesa e Russa, no absolutismo e no iluminismo, a Igreja Católica é o saco de pancadas. Contra ela tudo é permitido.

 

Rafael Vitola Brodbeck é Delegado de Polícia em Itaqui e articulista.

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