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Tudo sobre a KGB

29 de julho de 2010 - 20:06:10

No que o sr. diria que as pessoas mais se equivocam a respeito dos ilegais acusados nos EUA?

Como a maioria das pessoas, incluindo alguns jornalistas que escrevem longos artigos comentando as prisões, não tem nenhum conhecimento sobre as técnicas de espionagem da inteligência russa, ou sobre a história da inteligência em geral, as atividades dos membros deste grupo parecem uma coleção bizarra de ações esquisitas, parecendo um filme ruim sobre os malditos russos. Mas muitas coisas que aparecem até em filmes ruins infelizmente são verdade. Sim, os russos gostam de usar chapéus de peles, beber vodka, comer caviar, levar garotas bonitas para a sauna. E, fora algumas inovações modernas, como redes ad hoc, transimssões oscilantes e a esteganografia, as velhas técnicas batidas de espionagem, em grande parte, permanecem as mesmas. São boas e normalmente funcionam bem (exceto em casos em que já se está sendo monitorado – então nada funciona).

Nem o público nem os escritores percebem que isto NÃO é um filme – um grupo muito grande de agentes e observadores bastante experientes do FBI gastou uma soma bastante considerável de dinheiro dos contribuintes e bastante tempo para expor um grupo VERDADEIRO de operadores russos disfarçados, operando descaradamente nos Estados Unidos, com a certeza absoluta de que ninguém nunca os pegaria, por causa de sua educação, treinamento, da tradição de seu serviço inteligência, e a crença de que a riqueza do país por trás deles é muito superior ao FBI. Eles se esqueceram de que o FBI de 2010 é muito diferente da Agência de 1950. Todos os 11 acusados (com Christopher Metsos – sem dúvida um oficial do Diretório S – desaparecido) são profissionais treinados, cuja tarefa era penetrar na sociedade americana. É a primeira vez que um grupo tão grande de ilegais foi posto a descoberto. Normalmente havia um ou dois, no máximo, embora eu tenha o registro de um grande número de operações ilegais documentadas nos Estados Unidos, durante pelo menos os último 80 anos. Deve-se acrescentar que muito poucos deles, como Fisher/Abel e Molody/Lonsdale, foram bem-sucedidos. Mas nós provavelmente só conhecemos 50 por cento das operações que foram montadas e das pessoas empregadas.

É possível que esta seja simplesmente uma operação de araque de alguém em Moscou que, como alguns comentaristas têm sugerido, não entende qual tipo de informação está abertamente disponível? Em outras palavras, os ilegais são coisa do passado, ou continua havendo algo de valor real a ser ganho com os ilegais hoje?

Esta não é, de jeito nenhum, uma operação de araque. Ela consumiu muito tempo, esforço e dinheiro e foi toda feita seguindo uma cartilha. Ela sempre é feita deste jeito. Repito, eu poderia listar várias dúzias de exemplos em que, depois do treinamento, os ilegais soviéticos foram mandados primeiro para a Europa, depois quase sempre para o Canadá, e depois realocados para os Estados Unidos.

A respeito da informação. Em primeiro lugar, os ilegais não estão aqui para coletar dados de inteligência. O papel deles é monitorar importantes agentes já recrutados nas estruturas do governo, aqueles que tem acesso a informações secretas (CIA, FBI, outros serviços de inteligência, forças armadas, cientistas, pessoal da Pesquisa e Desenvolvimento, especialistas de Institutos Tecnológicos, etc), ou eles podem exercer influência (sobre jornalistas ou políticos). O serviço de inteligência externa russo (SVR) tem TODA a informação que está disponível a partir de fontes abertas. A coisa sempre foi assim, mas nunca é o bastante. O que a inteligência russa está lutando para conseguir são informações secretas (políticas, econômicas, industriais, militares, etc.) e para ter a chance de influenciar tomadas de decisões e a opinião pública a favor da Rússia. É por isto que os agentes são recrutados ou infiltrados em alvos sensíveis ou politicamente importantes.

O papel dos ilegais é triplo: agir como “interruptores” entre fontes importantes e o Centro (diretamente ou pela estação SVR); servir como caça-talentos, encontrando candidatos em potencial para um cultivo posterior de inteligência e um possível recrutamento (um processo bastante longo e complexo onde os ilegais só agem no estágio inicial); e para estabelecer os contatos certos que possibilitariam a outros operadores de inteligência (membros da estação SVR) ou ao Centro (visitando funcionários da inteligência sob diferentes disfarces, jornalistas, diplomatas ou cientistas encarregados pelo SVR) conseguir dados de inteligência e/ou receber favores em que o Centro tenha interesse. Os ilegais também têm várias tarefas técnicas, como alugar alojamentos que poderiam ser usados como bases seguras, encontrar lugares para desova e coleta de materiais de informação, planejar operações de ataque, como assassinatos, que também serão executadas por outros ilegais (mas de um departamento diferente do mesmo diretório). Eles também coletam amostras de documentos que poderiam ser usados em outras operações secretas, e mantêm Moscou atualizada sobre alguns procedimentos padrões (comprar uma casa, arranjar um emprego, registrar uma empresa, e assim por diante).

Os ilegais não são coisa do passado, eles sempre foram usados em larga escala. O último caso conhecido foi no Canadá, quando ‘Paul William Hampel’ foi preso em meio ao caso Alexander Litvinenko (novembro de 2006). Como eu procuro provar em The KGB Poison Factory, a própria operação Litvinenko foi obra de um ilegal russo. Seguramente, os ilegais são usados em outros países com ambientes difíceis de contra-inteliência, como a Grã-Bretanha, por exemplo, mas raramente em países “dóceis”, como a Austrália ou a Finlândia.

Os ilegais podem ser usados tanto para infiltração comercial e institucional quanto para infiltração governamental ou militar, correto?

Como mencionei acima, muito raramente, pois, normalmente, esta não é a tarefa deles. Mas, em muitos casos, seus filhos, cidadãos americanos natos, são preparados para infiltrações. Neste grupo, somente Mikhail Semenko parece ter feito tentativas de infiltrar instituições sensíveis, tentando conseguir um emprego lá (o Conselho Americano de Política Externa, por exemplo). Mas houve um caso em que um ilegal soviético serviu como embaixador da Costa-Rica na Itália. Sua história detalhada está em
The Orlov KGB File, meu próximo livro. Em tese, uma infiltração institucional ou comercial pelos ilegais é possível – na década de 1960, “Rudi Herrmann” foi incumbido de se infiltrar no “Hudson Institute”.

Os ilegais também podem estar presentes em outras nações, como na Guerra Fria?

Certamente, e outras nacionalidades podem ser usadas, não somente os russos. Há muitos exemplos, especialmente com os Alemães Orientais.

Em sua opinião, por que eles foram presos neste momento?

Duas razões óbvias: em primeiro lugar, Anna Kuschenko-Chapman sentiu que estava lidando com um agente disfarçado do FBI, e ligou para seu mentor na comissão russa da ONU; em segundo lugar, ‘Richard Murphy’ ia partir para Moscou no domingo com, alguns acreditam, dados importantes de inteligência.

A administração Obama está numa “nova fase” com a Rússia. O Presidente Medvedev tinha acabado de deixar os EUA. Há uma nota distoante aqui?

De maneira alguma. O Serviço de Segurança funciona de acordo com a situação operacional, independente do que está acontecendo na Casa Branca e o que o Presidente pensa sobre ela.

Anna Chapman atraiu a maior parte da atenção pública, entre todos os acusados. Ela é uma espiã séria?

Tudo indica que Anna Vasilievna Kuschenko começou a colaborar com o SVR pouco depois de terminar o ensino médio, aos 16 anos, em 1998, antes de entrar na universidade. O pai dela é funcionário da KGB-SVR, possivelmente da Linha N (suporte ilegal), então esta seria uma coisa normal. Depois de um ano, ela matriculou-se em um curso na Universidade da Amizade do Povo de Moscou, que é o centro universitário de muitos agentes e funcionários da inteligência russos e soviéticos. Durante seu segundo ano, em 2001, ela foi para Londres (extremamente atípico) e rapidamente pegou um jovem inglês ingênuo em uma boate. Ela o levou para cama em seu segundo encontro, e, pelo relato dele de outra fonte sobre o seu uso de brinquedos sexuais, parece ter sido especificamente treinada na arte do amor. Ela lhe disse o quanto o amava, derramou-se em lágrimas ao partir para Moscou e rapidamente arrumou um convite, então ele veio e eles se casaram em março de 2002 sem as formalidades de praxe.

Depois de se estabelecer em Londres (mesmo sendo estudante em tempo integral em Moscou), ela trabalhou em vários lugares por pouco tempo e em pequenos empregos, servindo de assistente pessoal em um fundo especulativo, e como secretária em uma empresa aérea particular. Ela descartou o marido depois de três anos, tendo ido morar com um jovem playboy francês que a levava para clubes privados caros em Londres, onde ela conseguiu os contatos certos. Ele também a aconselhou a abrir uma empresa imobiliária na internet. Em 2004, ela se graduou magicamente na universidade(sem estudar lá e ainda vivendo em Londres), voltou para Moscou em 2007, abriu lá uma empresa de internet daquelas, depois abriu uma empresa similar em Nova Iorque, em fevereiro de 2010, usando $1 milhão que ela recebeu de um fundo de investimento do Kremlin. Quase que imediatamente ela começou a mandar relatórios para seu mentor de Nova Iorque, usando seu laptop. É uma baita de uma história interessante, digna de se escrever muito mais.

 

Tradução: Dextra.

 

Para a revista Foreign Policy, edição de 6 julho de 2010.


http://oilandglory.foreignpolicy.com/posts/2010/07/06/everything_you_wanted_to_know_about_the_kgb_but_were_afraid_to_ask

 

 

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