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Um cadáver insepulto

27 de dezembro de 2009 - 2:07:09

Acontece que suicidar-se por afogamento nas águas calmas do Paranoá não é tarefa simples e óbvia. Um mergulho da Ponte JK, às 14:00 horas de um domingo, não passaria despercebido da multidão de pescadores, freqüentadores, namorados e vendedores ambulantes que estão ali permanentemente, em um dia de sol. Ninguém viu Marcelo pular e nem mesmo a agonia cruel do afogar-se. Tudo que li de especialistas em suicídio indica que esse método é dos mais ineficazes, pois a natureza fala mais alto e o instinto de sobrevivência faria com que o suicida se debatesse, chamando a atenção dos presentes. O resgate viria em minutos.

Mas ninguém viu Marcelo mergulhar. É como se tivesse pulado direto para a morte, sem se debater. Estranhamente o laudo do IML foi inconclusivo na determinação da causa da morte. Outro laudo foi pedido, mas o resultado ainda não foi divulgado. Especialistas asseguram que a determinação da morte por afogamento é das tarefas mais simples em medicina legal. Se um suicídio de um homem adulto nessas condições é algo estranhíssimo e improvável, o laudo inconclusivo produzido pelo IML de Brasília, um dos melhor aparelhados do país, é ainda mais estranho. Qualquer investigador experiente partiria imediatamente para a hipótese alternativa de assassinato.

Matar-se por afogamento é como suicidar-se com um tiro nas costas, algo bastante improvável. Um suicídio dessa natureza será sempre suspeito. Um laudo inconclusivo faria uma investigação séria caminhar para a hipótese mais provável – assassinato com tentativa de camuflar o crime. O problema é que trabalhar com essa hipótese teria que mobilizar a polícia para os complexos arranjos de poder que Marcelo acabou por testemunhar. Teria que desvendar o eixo Luciana Genro/Paulo Feijó e a maligna mão de membros do PT que está ligada a casos tão estranhos quanto, como Celso Daniel, Toninho do PT e as muitas testemunhas desaparecidas convenientemente para impedir a conclusão dos casos.

O tumulto político em torno do assunto seria imenso e poderia levar a conclusões assombrosas. Marcos Cavalcante me assegurou que o governo Yeda Crusius nada teve a ver com a morte do irmão, que sempre foi leal à governadora e seu grupo político. Essa simples declaração do irmão da vítima me levou à conclusão de que coisas muito mais podres tentaram sepultar sob as águas plácidas do lago Paranoá.

Vários delegados e promotores passaram pelo caso, que nunca saiu da 10ª Delegacia. Um caso dessa envergadura deveria ter ido para alguma delegacia especializada. Estranhamente Marcos Cavalcante não consegue ser ouvido pelos que estão presidindo o inquérito. Ninguém quer saber de sua verdade inconveniente. Nem mesmo os órgãos de mídia se prontificaram a entrevistá-lo e a ouvir seus argumento e ver os seus papéis, a relatar a sua história.

Um corpo boiando nas águas plácidas do Paranoá sugere automaticamente que não poderia ter sido suicídio. Toda a gente fala que “suicidaram-no”. É isso que Marcos Cavalcante me disse com todas as letras. É isso que a viúva de Marcelo, Magda Koenigkan, uma mulher bela e fotogênica, também me disse ao telefone. (Falarei dela nos próximos artigos).

Diante de mim esteve Marcos Cavalcante, em um bar da Capital Federal. Marcos é um homem na faixa dos trinta anos, visivelmente angustiado e amedrontado. Uma pessoa simples, sócio de pequenas lanchonetes, atividade que lhe garante a sobrevivência. Com ele uma pilha de papéis sobre o irmão falecido. Como se eu fosse um promotor público narrou para mim, por mais de três horas, os detalhes do caso inusitado do seu irmão. Os detalhes dariam material para um romance policial do estilo de Truman Capote (A Sangue Frio). Perguntei: “Qual o seu interesse, Marcos?” Respondeu: “A verdade“.

Nos próximos dias, caro leitor, escreverei sobre o assunto. Os leitores têm o direito de saber que pode estar a se consumar em Brasília mais um caso de absurdo policial, atendendo a espúrios interesses políticos.

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