1. Arquivos
  2. Desinformação

Um novo e valioso livro sobre o KGB

29 de maio de 2009 - 10:04:09

O livro de Haynes, Klehr e Vassiliev é baseado nos arquivos que o ex-oficial da KGB, Vassiliev copiou e resumiu em Moscou no meio dos anos 90. Suas observações escritas à mão sobre arquivos a que teve acesso são muito importantes e enriquecem as investigações.

Em 1992, antes de Vassiliev ser escolhido pelo KGB houve uma reunião em Watergate, em Washington, D.C. O anfitrião dessa reunião foi Walter Pfozheimer, ex-conselheiro da CIA. Na reunião havia dois oficias do KGB, Oleg Tsariev e Yuri Kobaladzie, alguns americanos especialistas em história da KGB e representantes da Random House e sua subsidiária Crown Brooks. Estava em elaboração um acordo entre a Crown Brooks e a organização dos veteranos do KGB. Tzariev e Kobaladzie, mesmo ainda na ativa representavam a organização dos veteranos nas negociações.

Uma Reunião com o KGB

Eu fui um dos felizardos convidados para a reunião no Watergate. Não demorou para que Pforzheimer ficasse bravo comigo pois ele achava que eu estava sendo  “mau” com nossos convidados russos. Os dois oficiais do KGB não pensavam assim, eu conhecia ambos há tempos e mantive muito contato com os dois desde então. Kobaladze se aposentou como um general do KGB depois dele e Tsariev terem servido em várias bases internacionais. Tsariev explicou na reunião que mesmo antes do colapso da União Soviética, o líder do KGB, Vladimir Kryuchkov, já tinha decidido melhorar a imagem do Serviço de Inteligência Soviético. Materiais selecionados dos arquivos do KGB seriam entregues a um escritor russo e um estrangeiro para que escrevessem sobre a história e os sucessos do KGB.

Minha reclamação na reunião foi que o co-autor estrangeiro não veria na verdade nenhum material do KGB, considerando que em qualquer arquivo os documentos poderiam ser vistos e colocados em contexto, e isso proporcionaria uma melhor compreensão do que o KGB realmente desejava. Eu tomei conhecimento que, em muitos casos, mesmo o co-autor russo tinha acesso somente a alguns arquivos selecionados. O material era escolhido por pesquisadores do KGB. O autor russo então tinha que mostrar suas anotações para Kobaladzie, que mantinha os arquivos na gráfica do KGB em Moscou. Isso me frustrou ainda mais, pois tínhamos que confiar na honestidade do co-autor russo.

Vassiliev diz que nunca mostrou suas anotações a Kobaladzie, que tinha o poder de apagar parte delas. Na realidade Vassiliev era mais confiável do que eu pensava. Suas anotações, que agora estão no website do Cold War International History Project, se tornou a base do novo livro de Hatnes e Klehr. O mais importante é que a maior parte do material é consistente com as comunicações interceptados da Inteligência Soviética no caso Venona e com as intensas investigações do FBI e dos comitês de segurança no Congresso. O que as anotações de Vassiliev adicionam é a identidade de alguns espiões e agentes de influência. Em alguns casos tudo o que sabíamos eram seus codinomes usados internamente – mas agora temos também seus nomes. O que Vassiliev não viu foram os arquivos de outras seções do KGB e os arquivos da Inteligência Militar Soviética. Somos capazes de identificar alguns dos agentes porque os arquivos estavam tão misturados que partes de outros arquivos apareceram em arquivos que Vassilev viu.

Em 1992, eu pedi para que Tsariev encontrasse uma carta nos arquivos do KGB. Harvey Klehr haviam encontrado anotações nos arquivos da Internacional Comunista que Earl Browder, líder do Parido Comunista Americano havia enviado a George Dimitrov, líder do Comintern. Browder pedia que sua irmã, Margaret Browder, fosse liberada de suas atribuições para com a Inteligência Soviética, porque se isso fosse revelado, seria muito embaraçoso. A carta de Browder tinha sido enviada a Beria, assassino-em-chefe de Stalin, e nenhuma cópia foi deixada nos arquivos do Comintern. Tsariev encontrou essa carta para mim e a enviou junto a uma outra carta na qual pedia desculpas por ter demorado um ano para achá-la, uma vez que os arquivos do KGB estavam completamente desorganizados. Quando Harvey Klehr voltou de Moscou, ele me mostrou os documentos que havia obtido. Quando eu recebi a carta de Margaret Browder do KGB, eu a mostrei a Klehr e a Heynes. O livro deles The Secret World of American Communism seria lançado logo e meu livro sobre o caso Venona, expondo a espionagem soviética e os traidores da América (Regnery, Washington DC, 2000) ainda demoraria anos para ser lançado.

Havia dois chefes da Inteligência Soviética nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Um era Vassily Zarubin, líder da “seção” legal. O outro era Iskhak Akhmierov, líder da “seção” ilegal. A diferença era que Zarubin trabalhava na Embaixada Soviética como Terceiro e depois Segundo Secretário e gozava de imunidade diplomática. Akhmierov se passava por um cidadão americano, tinha inclusive certidão de nascimento e passaporte americanos conseguidos ilegalmente em 1934. Ele até mesmo se alistou usando o pseudônimo William Grienke, o nome que constava na sua certidão de nascimento. Tinha um negócio de roupas e peles em Baltimore como fachada. Os americanos que ele conhecia não prestavam atenção ao seu sotaque russo, mas sim a sua esposa nascida em Iowa. Ela vinha a ser sobrinha do líder do Partido Comunista Earl Browder e em 1945 retornou a Moscou com Akhmierov e a filhinha do casal.

Akhmierov tinha um filho de um casamento anterior chamado Robert Akhmierov. Quando eu telefonei para Kobaladzie em Moscou eu queria encontrar Robert. Kobaladzie perguntou se ele era um oficial do KGB. Eu respondi que sim e que havia servido na África. Algumas noites mais tarde, Kobaladzie disse que sentia muito, mas que aparentemente Robert havia morrido de alcoolismo e se eu gostaria de falar com Elena ao invés. Claro que eu gostaria Elena, que trabalhava para a KGB era a filha nascida nos Estados Unidos. Algum tempo depois, Kobaladzie disse que ela se recusava a falar comigo.

Vassiliev nunca viu os arquivos de Akhmierov e sua “seção” ilegal da KGB (rezidientura ilegal). Mas, já que Akhmierov algumas vezes usava os aparatos de comunicação de Zarubin, o nome de guerra “Yunga” (Jung) aparece nos arquivos de Zarubin. Akhmierov mantinha contato com alguns dos espiões mais secretos da KGB. O livro confidencial da KGB usado em sua escola interna em 1977 diz, “A Rezidientura ‘Yunga’ transmitiu mais de 2500 fotocópias de documentos obtidos diretamente de instituições governamentais americanas”. Vassiliev não viu sequer um desses documentos. Pelas audiências no Congresso e outras fontes nós sabemos que alguns documentos eram enviados a Moscou em microfilmes levados por comunistas americanos que trabalhavam na marinha mercante. Outros eram embalados de modo que a alfândega americana não tinha permissão para violá-los.

Ícone Jornalístico I. F. Stone

Haynes e Klehr identificaram o escritor I. F. Stone como agente da NKVD, o antigo nome da KGB. De acordo com a “Black Notebook” de Vassiliev (pág. 23), Stone, sob o codinome “pancake” entrou para “os canais normais de operação”. Em outras palavras, Stone concordou em receber ordens da Polícia Secreta Soviética. No entanto Haynes e Klehr dizem que Stone não era membro do Partido Comunista, de onde os soviéticos recrutavam a maioria dos agentes. Eles chegaram a essa conclusão porque o material de Vassiliev não mencionava Stone como membro do Partido Comunista. Por outro lado, o FBI encontrou duas fontes que revelaram a sociedade de Stone com o Partido Comunista. Conseguimos identificar uma delas como Louis Budenz, ex-editor do Daily Worker, que depois veio a se tornar um ativista anticomunista. Pelos cadernos de Vassiliev, viemos saber que o mesmo agente da NKVD, Frank Palmer, recrutou ambos Budenz e Stone para a Inteligência Soviética (“Black Notebook”, Vassiliev, págs 10 e 23). O principal trabalho de Budenz na KGB era conseguir que membros do Partido Comunista infiltrassem a organização Trotskista.

É um pouco injusto que Haynes e Klehr refiram-se àqueles controlados pela inteligência Soviética como “espiões”. Alguns realmente espionavam outros americanos, ou tentavam influenciar a polícia, agiam como agentes de informação ou trabalhavam no recrutamento de pessoal. Alguns desempenhavam mais que um papel.

Um dos defeitos do livro é que embora ele deva boa parte de sua formatação às revelações de Vassiliev e conte com algumas informações anteriores do FBI e de comitês políticos, que são mencionados em notas de rodapé, não existe um elogio às intensas investigações de Haynes e Klehr.

Acusações do senador McCarthy

Em 18 de março de 1950, o Senador Joseph McCarthy enviou uma carta a Millrad Tydings, Presidente do Subcomitê de Relações Exteriores do Senado que investigava as acusações feitas por McCarthy. Quando M. Stanton Evans escreveu seu livro (Blacklisted By History, The Untold Story of Senator Joe McCarthy and His Fight Against America’s Enemies, Crown Forum, New York, 2007), aquele documento estava sumido dos arquivos de Tydings no Arquivo Nacional. Evans finalmente o encontrou nos próprios papéis de McCarthy. Dentre várias pessoas identificadas por McCarthy e no livro de Haynes e Klehr, dois nomes sobressaiam: Stanley Graze e Franz Neumann. Ambos eram fontes da NKVD (KGB) na OSS (Office of Strategic Services), predecessor da CIA. McCarthy os tinha descoberto e identificado para o Senador Tydings 59 anos antes de eles serem expostos por Klehr e Haynes.

OSS tentou até mesmo formar uma relação de troca de informações com a NKVD. Uma carta de 10 de fevereiro de 1944 do agente do FBI J.Edgar Hoover para o Presidente Roosevelt através de Harry Hopkins reclamava que “foi estabelecida uma conexão entre o Escritório de Serviços Estratégicos (OSS) e a polícia secreta Soviética (NKVD). De acordo com o livro “White Notebook #1” de Vassiliev (pág 87), Akhmierov disse que “Hoover rejeitou o acordo entre a OSS e Moscou numa carta a Hopkins que foi repassada a Roosevelt que por sua vez a enviou ao Estado Maior Conjunto. O objetivo da URSS era penetrar nos segredos de Estado.” Porém, os americanos “que detinham o poder” disseram não enxergar bases para alterar o acordo entre a OSS e a NKVD. Assim mesmo, Akhmierov “avisa que Hoover vai interferir na cooperação”, de acordo com as anotações de Vassilev. Uma lista posterior de documentos mostravam que a OSS entregou aos soviéticos “listas de seus agentes em territórios ocupados pelo exército soviético.” (“White Notebook #1” pag 105).

Na década de 80, Oleg Gordievsky, que serviu ao KGB sob o disfarce de um agente britânico, passava notícias para seus pares ingleses. Quando ele era um jovem oficial, assistiu a uma palestra dada por Iskhak Akhmierov. De acordo com o oficial da KGB, Akhmierov disse que Hopkins “era o mais importante agente soviético em solo americano em tempos de guerra” [e] “o mais próximo e mais confiável conselheiro do Presidente Roosevelt.” Quando Gordievsky discutia esse assunto com outros oficiais do KGB, “Todos concordavam que Hopkins tinha sido um agente de muita importância”. O Serviço Secreto de Inteligência Britânico decidiu, depois que Gordievsky escapou da União Soviética, que ele escreveria um livro em conjunto com o acadêmico inglês Christopher Andrew (KGB: The Inside Story, Christopher Andrew e Oleg Gordievsky, Harper Collins, 1990, pag 287). Andrew concluiu que Hopkins era um agente “inconsciente”.

Quando eu falei com Gordievsky em 1995, concordamos que a mensagem do Caso Venona que dava conta de uma conversa entre somente Roosevelt, Truman e uma terceira pessoa tinha que ter vindo de Hopkins. Akhmierov estava certo. J. Edgar Hoover não conhecia as evidências contra Hopkins quando ele escreveu a carta.

O traidor britânico Mitrokhin

Em 1999, os britânicos ofereceram a Christopher Andrew um outro traidor do KGB. Vasiliy Mitrokhin passou 12 anos como um pesquisador do KGB e extraiu muitas anotações de seus arquivos. Ele escapou para a Inglaterra e seu material foi contrabandeado para fora da Rússia. A maior parte do material de Mitrokhin, exceto aquele que foi entregue a Christopher Andrew, não está disponível no Ocidente. Os britânicos mostraram o material relativo a cada nação aliada. Uma grande parte do material disponível ao governo italiano, foi liberada ao público. A maior parte deles diz respeito ao período pós Segunda Guerra, mas um grande número de agentes foi identificado.

Mitrokhin também tinha informações interessantes sobre Hopkins. J. Edgar Hoover disse a Hopkins a pedido de Roosevelt, “Segundo uma fonte altamente confidencial, em 10 de abril de 1943, um russo, agente da Internacional Comunista, pagou uma quantia em dinheiro a Steve Nelson, membro do Comitê Nacional do Partido Comunista Americano na casa desse último em Oakland, Califórnia. O dinheiro foi pago a Nelson com o propósito de que se infiltrassem membros do Partido Comunista e do Comintern em indústrias comprometidas com a guerra secreta para o governo dos Estados Unidos, de modo que informações pudessem ser obtidas e repassadas à União Soviética.” Encontramos agora uma cópia dessa carta de Hoover no material de Hopkins na Livraria Roosevelt em Hyde Park, New York. A carta do FBI identificava o russo como Vasili Zubilin. Sabemos agora através de investigações do Congresso que ele era Vasili Zarubin, o chefe da NKVD nos Estados Unidos. Hoover disse em sua carta a Hopkins e a Roosevelt, “Por causa da relação demonstrada pela investigação entre o Partido comunista Americano, a Internacional Comunista e o governo Soviético, eu acho que o presidente e você possam estar interessados nesses dados. Esse assunto está sendo trazido à sua atenção agora como informação confidencial enquanto durar a investigação.” A informação era muito delicada porque revelava que o FBI tinha um “grampo” (microfone) na casa do líder comunista e podiam gravar todas as suas conversas.

Segundo o relatório de Mitrokhin essa informação delicada foi imediatamente passada aos russos. Christopher Andrew concluiu que Hopkins era “um americano patriota” e que Rossevelt ordenou a Hopkins que desse a informação aos soviéticos. Não existem evidências disso. A única evidência é de que Hopkins deu a informação aos soviéticos, o que lhes possibilitou tomarem precauções para que os Estados Unidos não ficassem sabendo muito sobre a espionagem soviética.

Às vezes Vassiliev, por não entender a importância da informação, deixava de fora uma cláusula essencial num documento. Por exemplo, Vassiliev relatou que Julius Rosenberg, o espião soviético, “recomendou Ruth Greenglass a esposa de seu cunhado” para assumir um esconderijo para a NKVD. Vassiliev relatou, de acordo com Julius Rosenberg, que Ruth era “uma jovem capaz e esperta”. Nesse caso temos a própria informação via cabo interceptado no caso Venona e liberado pelo governo americano. Lá diz que Rosenberg e sua esposa recomendavam-na como uma garota inteligente e astuta”. Vassiliev deixou de fora a frase sobre a esposa de Julius Rosenberg, que foi executada com ele. Os Soviéticos aceitavam recomendações para espiões apenas de outros espiões. O erro de Vassiliev proporcionou uma oportunidade de a esquerda alegar que Ethel Rosenberg era inocente quando esse relatório revela que ela estava profundamente implicada na espionagem de seu marido.

Muitos agentes em espionagem atômica que não Julius e Ethel Rosenberg lidavam com a Inteligência Militar Soviética, ou GRU. Existem referências a algumas dessas pessoas nos arquivos de Zarubin, mas a NKVD foi avisada para deixarem esses arquivos em paz porque estavam sob os cuidados da GRU. Além dos arquivos da GRU e de Akhmerov, Vassilev também não podia ver as pastas sobre espionagem atômica. Elas eram entregues a outro oficial da KGB que fez tamanha bagunça com elas que se revelaram inúteis para identificar agentes. O livro nunca apareceu em inglês. Até agora apenas o KGB teve acesso a essas pastas.

Por todos os motivos vale a pena ler o livro de Hayne e Klehr, principalmente pelo que é dito lá. Teremos ainda que esperar um pouco para que conheçamos mais sobre o KGB. Até que os britânicos liberem a vasta coleção de material de Mitrokhin. Apesar de alguns arquivos secretos do MI5 terem sido liberados para os Arquivos Nacionais Britânicos, podemos apenas ter a esperança de que o material de Mitrokhin não leve 50 anos para ser liberado pelos britânicos, como o do Caso Venona.

 

____________________________

* – Herbert Romerstein é co-autor de “The Venona Secrets, Exposing Soviet Espionage and Americas Traitors”, Regnery, Washington DC, 2000. Ele foi por 18 anos membro do staff do Congresso Americano, servindo com investigador para o Comitê da Câmara sobre Atividades Não-Americanas. Atualmente ele é o diretor da National Security Studies for the Education & Research Institute, Washington, DC.

Publicado no Accuracy in Media: http://www.aim.org/aim-column/a-valuable-new-book-on-the-kgb/

Tradução: Frederico De Paola

{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}