1. Arquivos
  2. Globalismo

Um “governo mundial” em gestação?

17 de dezembro de 2009 - 10:03:51

Em 2003, precisamente dois anos após o “11 de Setembro”, publicou um livro intrigante, mas notavelmente perspicaz: “Al-Qaeda e o significado de ser moderno”. Nesta obra, vertiginosa e altamente bem documentada, Gray acaba por concluir que a Al-Qaeda, ao contrário do que se tem dito por aí,
não é um projecto arcaico, medieval ou “primitivo”.

Ela é, pelo contrário, um subproduto da modernidade e do Iluminismo ocidental.

A “rede” islâmica, responsável pelos espectaculares ataques de Nova Iorque (11 de Setembro de 2001), aparece, então, como um actor globalizado que pretende, à semelhança dos anarquistas russos do século XIX e dos totalitarismos europeus (nazismo, comunismo) do século XX, criar um “mundo novo” a partir do terror. O islamismo fundamentalista defende, à sua maneira, a globalização; não a globalização de inspiração liberal capitaneada pelas instituições de Bretton Woods, mas um “califado universal“, imposto pela força dos mujahedines. Há, sem dúvida, várias ideias sobre a globalização.

Gray tem toda a razão. Neste ponto, Al-Qaeda é, de facto, um produto acabado da modernidade. Não temos notícia de algo parecido nas cidades-Estado da antiguidade ou nos modestos Principados medievais.

Essa formidável capacidade de projectar violência ao nível mundial/planetário, numa espécie de “Internacional do Terror”, é realmente, quer gostemos ou não do argumento do pensador britânico, um acquis sombrio da modernidade.

Trata-se, pois, de uma criação demencial do Iluminismo e dos seus profetas mais radicais, empenhados na “reconstrução” da condição humana e na utopia “libertária”. Karl Popper denominaria esses indivíduos “inimigos da sociedade aberta”.

Tanto a União Soviética (mediante uma teoria “científica” da classe) como a Alemanha nazi (mediante uma teoria “científica” da raça), antecedentes “vitais”, naquele sentido intuído por Ortega Y Gasset, da Al-Qaeda, visavam, aliás, o mesmíssimo objectivo de base: edificar a Cidade Ideal, um mundo “liberto” do poder e dos conflitos, onde o “governo dos homens” seria simplesmente substituído pela impolítica “administração das coisas”. Como escreveu John Gray (p. 16), “Nenhuma época anterior acalentou projectos semelhantes. As câmaras de gás e os gulags são modernos. Há muitas maneiras de ser moderno, algumas delas monstruosas”.

O livro de Gray lembra-me um outro escrito por Paul Berman (“Terror and Liberalism”), no qual este autor, numa viagem empolgante entre a literatura (Baudelaire, Victor Hugo, Fichte, Dostoievsky, Camus, Saramago, etc.), a estratégia diplomática e as relações internacionais, procura, num mapeamento complexo e fascinante, as “raízes” do terror nas correntes românticas (e filosóficas) franco-alemãs e nos movimentos políticos que se inspiraram, justamente, nessas correntes místico-totalitárias. Camus e Raymond Aron foram dos poucos franceses que escaparam dessa teia imoral supostamente “progressista”.

Existe, ouso afirmar, um estranho ponto em que o romantismo toca o “disco duro” do iluminismo: a utopia da perfeição, a superação das “desigualdades” – isto é, a eterna sinfonia do utopismo revolucionário! Há uma linha que une Sayyid Qutb (o grande pensador egípcio, membro da Irmandade Muçulmana e um dos ídolos de Osama bin Laden), Foucault, Marcuse e tantos outros: a “decadência” espiritual do Ocidente e a necessidade de um pensamento renovador e mais “puro”, enquanto antídoto contra o mercado livre e o “consumismo”. J.J. Rousseau havia explorado o tema, explicando que o progresso (material, sobretudo) pode ser um factor de “corrupção” da sociedade.

John Gray vai, todavia, mais longe. Tentando “situar” a origem (precisa) da crença no progresso humano inevitável, redescobre Henri de Saint-Simon, o fundador do Positivismo, e Auguste Comte, o seu discípulo mais brilhante, que pretendia fundar, a partir do cientismo, uma nova “Religião da Humanidade”. Tanto um como outro viveram fases agudas de loucura e tiveram que receber tratamento psiquiátrico. Comte, nos dias de maior perturbação mental, assinava assim o seu nome: “Brutus Napoleon Comte”. Tinha uma paixão extrema por Clothilde, mulher casada, a ponto de declarar, após a morte da senhora, que ela deveria ser adorada como “Virgem Mãe da Igreja da Humanidade”!

Como Gray salienta, e muito bem, A Igreja Positivista exerceu uma tremenda influência em várias partes do mundo: foram construídos “Templos da Humanidade” em Paris e Londres e a bandeira do Brasil incorporou uma frase célebre de Comte: “Ordem e Progresso”. O pensamento político latino-americano incorpora uma dose forte do positivismo.

O Positivismo comteano, segundo Gray, contribuiu para “identificar o liberalismo com o humanismo laico” (p. 48).

Isso é fantástico, porque nos transporta para um tópico decisivo que muito tem preocupado Olavo de Carvalho e outros pensadores e analistas de proa: o problema do “governo mundial”. Trata-se, no fundo, e em síntese, de uma elite “tecnocrática” que, ancorada em certas fundações bilionárias, quer desenhar o futuro da humanidade a partir de uma religião laica e do “progresso” administrado para todos, abstraindo-se da história, das culturas locais, das tradições morais e religiosas (especialmente o Cristianismo), da filosofia perene (direito natural clássico, etc.) e da realidade profunda do Estado-nação.

O grande objectivo dos Positivistas – durante os séculos XVIII e XIX – era, dir-se-ia, o de formar um “Clero” permanente, pela reunião dos “cientistas” disponíveis.

O conde Saint-Simon chegou mesmo a imaginar, explica John Gray, uma fantástica “assembleia dos 21 eleitos da humanidade“, cujo nome seria emblematicamente…”o Conselho de Newton“!

Será que existe no horizonte das relações internacionais algo parecido com a sedutora parafernália Positivista?

O novo Presidente do Conselho Europeu (segundo o figurino constitucional do Tratado de Lisboa), o belga Herman van Rompuy, num recentíssimo discurso de aceitação do cargo, retomou o tema, mostrando-se favorável ao “global management” do planeta. O mistério adensa-se. A “global governance” está a caminho. Qual será, porém, o equilíbrio de poderes?

Haverá ainda, no plano jusinternacional, “remédios republicanos” para os males do governo republicano, como queriam os autores dos Federalist Papers?

Não se esqueça que o “défice democrático” é uma crítica recorrente no interior da própria União Europeia.

Para Paul Belien, um destacado analista dos assuntos europeus, “não há separação de poderes na União Europeia”. A Comissão Europeia acumula poderes executivos e legislativos.

O Parlamento Europeu não tem poderes legislativos, tendo apenas a faculdade de rejeitar o orçamento anual proposto pela Comissão. O desenho institucional da União é, assim, atípico. A Europa não é tão “kantiana” como parece. E o mundo, como será? Qual é o futuro da Liberdade? Demain, la technocratie?

{slide=Artigos Relacionados}{loadposition insidecontent}{/slide}

{slide=Artigos do Mesmo Autor}{loadposition insidecontent2}{/slide}