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Uruguai: Frente Ampla, eleições presidenciais e “mujiquização”

26 de junho de 2009 - 21:52:43

2. Atualmente, o Uruguai é governado por uma coalizão de esquerda denominada Frente Ampla, que em janeiro de 2005 assumiu o governo do país pela primeira vez na história, superando 50% dos votos válidos por uma estreita margem. Influíram nessa vitória amplas promessas, várias delas com tonalidades “centristas”, de renovação política, moral e social, de bem-estar e de segurança que não pôde cumprir. Com isso, a Frente Ampla foi se desgastando politicamente e corre o sério risco de perder as eleições nacionais de outubro, frente ao tradicional Partido Nacional e seu possível candidato, o ex-presidente Dr. Luis Alberto Lacalle, um centrista com tonalidades conservadoras.

3. Na perspectiva das próximas eleições internas, é particularmente interessante estudar o que acontece no interior da governante Frente Ampla. O candidato com mais possibilidades de triunfo é o senador José Mujica, um ex-guerrilheiro Tupamaro que parece haver deixado para trás as velhas e desacreditadas teorias marxistas-leninistas, partidárias da violência, para se transformar em uma figura não propriamente multifacetada senão literalmente “caos facetada”, que se caracteriza por emitir aos borbotões as declarações e atitudes mais contraditórias possíveis, condimentadas com ditos populares qual Martín Ferro do século 21, e com abundantes más palavras e insultos de baixo calão a seus opositores políticos, que são amplamente reproduzidos pela imprensa televisada, oral e escrita.

4. Segundo o analista político e jurista uruguaio, Rodolfo Sienra Roosen, a trajetória política de Mujica é muito pobre. Estreou na justiça penal com um processo por tentativa de roubo com tentativa de violência como se fosse um delinqüente comum, quando ia de bicicleta com outro colega tupamaro, dizem que para assaltar a empresa têxtil Sudamtex. Investigações históricas, documentadas em livros de recente aparição como o do jornalista Rodolfo Haberkorn, que contribuem para desmistificar os Hobin Hoods tupamaros, mostram que Mujica desempenhou um papel secundário na organização guerrilheira.

Posteriormente o ex-tupamaro se reciclou e entrou para a política, resultando eleito senador. Não obstante, de acordo com Sienra, não contribuiu com praticamente nada, a não ser alvoroços, gritos e insultos durante as sessões legislativas. No atual governo foi nomeado ministro da Pecuária e sua atuação é considerada pelos especialistas como um desastre para o campo e para o país.

Mujica conseguiu se fazer conhecido graças a seu record de aparições midiáticas e à sua linguagem vulgar e ordinária que, sempre segundo Sienra, “apedreja a cultura nacional”.

5. O senador Mujica fala a três por quatro do “homem novo”, porém, como já se destacou, incorrendo em constantes contradições e em exemplos quase kafkianos. Recentemente, o candidato frenteamplista declarou sua admiração pela tribo nômade africana dos Kung San, a quem colocou como o “ideal” do homem “que trabalha duas horas por dia”, e rematou dizendo que essa gente, que na realidade está perdida no atraso e na semi-barbárie, “tem uma vida esplêndida”. No começo do ano de 2009, em declarações ao semanário “Búsqueda”, o pré-candidato frenteamplista já havia defendido a tese de que o Uruguai tinha que ser um país de pobres, embora em outras ocasiões tenha defendido o modelo sueco ou o neozelandês. Por respeito a nossos leitores preferimos não transcrever aqui exemplos de insultos de baixo calão que o possível futuro presidente do Uruguai empregou contra seus adversários políticos, inclusive, dentro de sua própria coalizão frentista.

6. Um aspecto que chama a atenção no fenômeno Mujica, no qual primam doses de irracionalidade é que, a julgar pelas pesquisas, até o momento ele conta com o apoio da maioria dos frenteamplistas, substituindo figuras de esquerda consideradas mais racionais, como o até há pouco tempo ministro da Economia Dr. Danilo Astori, um professor universitário que foi decano da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Uruguai.

7. O mais preocupante é que, tal como observa o analista político uruguaio Tomás Linn, por um lado “muita gente compra estas mensagens” irracionais e, por outro lado, quando seus adversários, tanto internos da Frente quanto externos de outros partidos, o criticam com argumentos sensatos e óbvios, essas críticas parecem resvalar e misteriosamente não têm quase “nenhum efeito”. É como se as pessoas fossem se acostumando a ouvir afirmações que “beiram o cantinflesco” ou que simplesmente “não têm sustentação nem rigor” intelectual, comenta Linn.

8. É difícil crer que o fenômeno Mujica seja meramente espontâneo. O mais provável é que, a seu modo, e com as devidas adaptações à personalidade do pré-candidato presidencial, seja um produto estudado em “laboratórios psicossociais” das novas esquerdas, com o objetivo de impulsionar no Uruguai um processo psicológico e mental de “mujiquização” coletiva, de “desconstrução” de uma nação que se distinguiu durante décadas por seu alto nível cultural, intelectual e social. Uma nação que majoritariamente rechaçou plenamente a antiga ideologia marxista-leninista, a cubanização do Uruguai e a violência tupamara, a qual, segundo mostram documentados estudos recentes, teve uma responsabilidade fundamental, decisiva e até agora pouco realçada na posterior quebra institucional.

9. Dentro desse panorama preocupante, é interessante a recente declaração do próprio senador Mujica, que não tem um pingo de bobo, reconhecendo que “o Uruguai é conservador” e que, para chegar à presidência terá que se cuidar mais, porque “p’ra melhor se me sai às vezes algum disparate”. Por esse motivo, acaba de anunciar que fará “uma manobra de entrada o máximo possível que possa à direita, tipo Lula quando chegou”, para “não assustar os bons burgueses que estão por aí” e não correr “o risco de desestabilizar tudo logo na entrada”.

10. As presentes considerações não devem ser interpretadas como um ataque pessoal ao senador Mujica, senão como a análise de um estilo político pós-moderno, pós-revolucionário clássico, desestruturante do ponto de vista mental, psicológico e cultural de uma nação. Diante do fracasso do comunismo clássico de convencer os uruguaios por meio de argumentos, se trataria agora de simplesmente decompor e caotizar as estruturas psicológicas de um país que o próprio Mujica reconhece como “conservador”.

11. O tema da “desconstrução” e da “reinvenção” do homem e da sociedade é um contexto adequado para analisar o fenômeno Mujica enquanto possível produto de laboratórios psicossociais pós-gramscianos. Esse tema da “desconstrução” foi especialmente abordado por intelectuais das novas esquerdas durante as sucessivas edições do Fórum Social Mundial, realizadas em Porto Alegre, como uma saída ante o fracasso estrepitoso do chamado “socialismo real”. A prioridade do comunismo clássico estava no convencimento através das idéias e na transformação das estruturas sociais. Hoje, ante as dificuldades encontradas para persuadir através do raciocínio, a ênfase parece estar no campo da “desconstrução” das tendências e das mentalidades, para afastá-las o máximo possível, de uma maneira quase inadvertida, dos princípios da civilização cristã.

Destaque Internacional dedicou dezenas de artigos a este tema específico, abordado no Fórum Social Mundial, e os oferece gratuitamente a seus leitores pela utilidade que possam ter para compreender a atual realidade uruguaia.

12. Uma pergunta final que se impõe: nas considerações, desconfianças e hipóteses precedentes, exageramos, fiando demasiado fino ou demasiado grosso? São nossos leitores, especialmente os uruguaios, os que têm a última palavra, que aguardamos com especial interesse e com ânimo de sã, construtiva e leal colaboração em favor do futuro dessa pequena grande nação oriental.

(Fontes: Brecha, Búsqueda, El País, El Observador e La República, todos de Montevidéu).

Destaque Internacional – Informes de Conjuntura – Ano XII – Nº 277 – San José – Santiago do Chile – Madri, 1º de junho de 2009.

Responsável: Javier González.

Tradução: Graça Salgueiro

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