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Zé Celso – o falso louco

12 de maio de 2010 - 8:44:17

Vivia-se, então, o auge dos anos da contracultura, quando qualquer tipo de esculhambação (tal como, por exemplo, lambuzar-se de merda num palco) poderia passar por chocante manifestação estética ou inusitada forma de contestação artística. Se bem me lembro, a roqueira Janis Joplin, que morreu de overdose, e Julian Beck, guru do mencionado The Living Theater, foram os desesperados contestadores da cena internacional que pintaram e bordaram no Brasil daquela fase.

(Em tempo: a “pop star”, depois de se atirar nua na piscina do Copacabana Palace, dopada de cocaína até os ossos, foi despejada do hotel em rito sumaríssimo. Já com o guru Julian Beck e sua trupe performática, o caso ganhou manchetes internacionais. O cultor do “teatro vivo” – gênero em que os atores e espectadores, compartilhando o mesmo “transe” criativo, gozariam da mais “arrebatada liberdade sensorial” – terminou trancafiado em Ouro Preto, MG. Ao cabo de alguns meses de esbórnia e consumo de maconha, numa “república” da cidade histórica, ele e sua trupe foram expulsos do país, entre outros delitos, por posse de droga, libertinagem pública e suspeita de pedofilia).

Por espírito de curiosidade, vi o happening de Zé Celso, à época. Foi um tremendo fiasco. Desde logo, a inadvertida platéia tomou-se de completa aversão pela sessão de “te-ato”, que consistia, entre outras práticas vanguardeiras, na ação de um bando hostil atirar bolas de repolhos sobre indefesos espectadores.

Sim, amigos. Parece incrível, mas foi real: naquela alucinada sessão do “te-ato”, entre relinchos, miados, latidos e loucas correrias, o escasso público presente, que havia comprado ingresso para assistir um espetáculo de teatro, teve como especial desfrute estético o esforço físico de se desviar do arremesso intermitente de repolhos. Como a “mise-en-scène” do espetáculo dispensava o palco tradicional, os “atuadores” andavam por entre os assentos da platéia, ora encarando ora provocando os espectadores – um rito obrigatório do teatro de agressão.

Para Zé Celso, que atuava de olhos esbugalhados e braços em permanente agitação, tal como um possesso saído das páginas de Fiodor Dostoievski, a “sessão de te-ato” deveria ser encarada (soube depois) como uma “aula de esquizofrenia”, cujo objetivo, didático, seria justamente o de obrigar o público a pensar o mundo de uma maneira “nova e diferente”.

– “Reprimindo a platéia, Zé estava querendo arrancá-la da inércia burguesa” – disse-me, mais tarde, um eufórico teórico da contracultura.

Na segunda parte do “te-ato”, o babalorixá do grupo Oficina atuava menos histérico. Desta feita, pelo que se intuía daquela codificada vesânia cênica, o encenador e os “atuadores” do espetáculo davam por encerrada a opressiva “aula de esquizofrenia”, antes administrada, e propunham uma “re-volição” – isto é, o ato de “querer de novo”.

Neste contexto, depois de agarrar com força o pulso dos presentes (a fim de transmitir “novas energias”), a trupe de Zé Celso culminava a pantomima com o repasse de um bastão (símbolo fálico) que, passado de mão em mão, pretendia restabelecer, em “novas bases”, uma reconciliação (“tomada de consciência”) entre público e “atuadores”. No final, sem se saber ao certo por qual razão, dava-se a apoteose e Zé e seu grupo caiam na orgia carnavalesca.

O embuste do Grupo Oficina, que se tinha por revolucionário, pretendia “épater le bourgeois” – uma proposta absolutamente inviável, senão ridícula, pois, como estamos fartos de saber, o burguês freqüentador de teatro de há muito já não se espanta com coisa alguma.

Dado curioso: naquela noite, quem apareceu para ver “Gracias, Señor”, no Terezão, foi Nelson Rodrigues. Espírito prevenido, na hora em que começou a catequese “te-atal” pelo arremesso de repolhos em cima dos espectadores, o dramaturgo correu para o saguão do teatro. Lá, testemunhou a cena capital: vez por outra, quase desnudo, suado e arfante, Zé Celso largava o espetáculo em andamento e aparecia na bilheteria, perguntando ao bilheteiro, em tom sôfrego : – “Quanto rendeu?… Quando rendeu?… Quero ver o ver o borderô!.. Quero ver o borderô, rápido!”.

(No outro dia, em “O Globo”, o criador de “Vestido de Noiva”, descrevia em detalhes a cena patética e advertia aos leitores: “José Celso é o falso louco”. No texto, NR chegava à conclusão de que o revolucionário encenador, longe de rasgar, adorava dinheiro).

Foi o cínico Rousseau, num ensaio célebre, quem despertou a atenção sobre a capacidade do teatro corromper a moral pública (chegou a escrever uma peça sobre o mito de Narciso, nesta linha). O próprio Marx, na onda iluminista, escreveu um drama pífio, “Ulanem” (anagrama de Emanuel, nome bíblico de Cristo), cujo objetivo era destruir a fé religiosa e “expulsar Deus de sua morada”.

Já Bertolt Brecht, dramaturgo cujo caráter dispensa comentários e do qual Zé Celso tirou sua lasquinha, laborou com afinco a idéia de corroer o senso comum da moralidade pública, com a pretensão inglória de quebrar os vínculos emocionais da platéia pela adoção de um teatro “distanciado, didático e crítico”, bolado para inocular o vírus do comunismo “urbe et orbi”.

(Nota: o nosso Brecht, em vida, não tinha o menor compromisso com a decência humana. Viciado em sexo, obrigava a atriz Helene Weigel, sua mulher e secretária, a selecionar “carne fresca” para sua “coletividade sexual” – o Berliner Ensamble. O dinheiro era o seu fraco. Embora fosse stalinista fanático, para lograr o governo comunista, arranjou um passaporte na Áustria, país onde mandava depositar os direitos autorais de suas peças encenadas no exterior, transferindo-os, em seguida, para contas bancárias na Suíça. Pulha nato e hereditário, embora fosse comunista de carteirinha, jurou de mãos postas, diante da Comissão de Atividades Antiamericanas do Congresso que investigava a comprovada infiltração comunista em Hollywood, “que nunca fora sequer de esquerda”, protestando veementemente contra tal acusação. Brecht mentiu com tanta firmeza diante da Comissão que esta o considerou uma “testemunha excepcionalmente cooperadora”. Ademais, vale lembrar, Brecht, enquanto dramaturgo, nunca possuiu idéias próprias: todas as suas peças – sem exceção – foram sacadas, ou mesmo roubadas, de outros autores, chegando a ser processado por isso).

Voltando à vaca fria: quase quarenta anos depois da experiência de “Gracias, Señor”, Zé Celso, caindo os dentes de velho, ainda vive de explorar a pegadinha do “novo”. Nos últimos anos, dentro do mesmíssimo esquema vanguardeiro, de corte irracional, ele parece ter deixado de lado – espera-se – a exaurida fórmula antropofágica de Oswald de Andrade para sugar, como um vampiro insaciável, as cordoveias de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, que, se vivo fosse, na certa se insurgiria contra a usurpação daninha.

Euclides da Cunha fez uma obra clássica, que se impôs pela força do que Zé Celso jamais possuiu: seriedade. Mas o “guru da Rua Joceguai” não se liga nessas minudências. Travestido de Antonio Conselheiro, repete os mesmos truques, agitando os braços para abarcar o mundo, preconizando utopias incertas e pouco sabidas. Contudo, embora delirante, não larga o vezo de pôr o olho na bilheteria ou em qualquer outro tipo de patrocínio, público ou privado, que alimente a sua trajetória de Falso Louco.

Sua faceta mais recente, cultivada sem a menor cerimônia, é a de “bufão eletrônico”. Vez por outra, a figura aparece em canais alternativos de televisão saltitante como uma gata em telhado de zinco quente, ocasião em que se vende como agitador cultural comprometido com a destruição do “teatro burguês”, com suas idéias e comportamentos “caretas”. Madrugada alta, diante dos holofotes, ele se apresenta como a “uzyna” do desequilíbrio do mundo. Em recente especial da TV-SESC, o velho bufão, depois de tecer loas ao “corredor polonês” do Teatro Oficina, aproveita para anunciar a sua mais nova tentação: formar crianças e adolescentes longe dos códigos e deveres da moral tradicional – o que, em si, já é uma temeridade.

Sim, é fato: o Brasil transformou-se num campo aberto para o cultivo da mistificação e do logro, especialmente nas atividades políticas e culturais. Num país que se desse ao respeito, figuras que nem Zé Celso, Gilberto Gil e Caetano Veloso (“intelectual de miolo mole”, no dizer de Merquior) seriam tratados pelo que realmente são: meras figuras do showbizz, circunscritas ao mundo da diversão.

Aqui, não. Eles passam por intelectuais respeitáveis com direito ao trombetear da mídia esquerdista e dos “pensadores” da famigerada USP.

Só no inverno.

 

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