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O fechamento da consciência brasileira

10 de junho de 2017 - 22:30:09

Infelizmente, a frônese aristotélica parece não existir na esfera pública brasileira: normalmente, ou se adota a postura engessada de um true believer ou se adota um pragmatismo oportunista e completamente destituído de considerações de ordem moral.

O problema é que, por um lado, valores que predeterminam inflexivelmente as ações e as escolhas não são valores, mas sim fetiches, e, por outro, que o tal do pragmatismo oportunista amortece as sensibilidades, conduz à total atomização do comportamento e acarreta na dissolução dos padrões morais mais elementares, resultando num cinismo que trata com normalidade e indiferença as atitudes e as opiniões mais desprezíveis e repugnantes.

Nos dois casos, a raiz do problema é a inépcia, a falta de prudência, a completa ausência de sabedoria prática. O true believer nunca é capaz de analisar um fato concreto objetivamente e, diante de qualquer evento, parte para discussões abstratas e formalistas sobre os ideais, os princípios, as normas e os direitos, sem jamais buscar entender efetivamente o que aconteceu (ou está acontecendo) e o que está de fato em jogo; sua ambição é sempre a de transformar a realidade, jamais a de compreendê-la. O adepto do pragmatismo oportunista, por sua vez, nunca é realmente pragmático, já que, incapaz de atinar com a forma geral dos fenômenos e de compreender a relevância dos valores morais e das mentalidades, acaba aprisionado numa ilusão de poder que sempre se desmancha no ar.

No Brasil de hoje, a maioria das pessoas se encaixa em um desses dois grupos. O utopismo irresponsável, ante-sala da mente revolucionária, explica a revolta contra a realidade dos que desejam transformar um mundo que não compreendem: cabe aí toda uma gama de pessoas, indo dos idiotas úteis aos intelectuais orgânicos e aos ideólogos de alguma proposta abstrata de mundo melhor. O falso realismo, expressão do hedonismo materialista e da carnalidade, explica a mediocridade dos carreiristas e dos dinheirtas: cabe aí toda uma gama de pessoas, indo dos que colocam a subsistência no topo das suas preocupações aos mafiosos que acreditam poder controlar tudo e todos apenas com dinheiro e influência.

A crise e a miséria que vivemos no momento atual refletem, de alguma maneira, o fechamento do nosso horizonte de consciência, de modo que somos falsamente induzidos a acreditar que não há uma terceira opção: ou escolhemos o utopismo jacobino e destruidor dos true believers; ou escolhemos o cinismo do pragmatismo oportunista, aceitando a corrupção e o aparelhamento estatal como situações permanentes e insuperáveis.

É verdade que hoje não temos uma terceira alternativa, mas se formos capazes de reconhecer o estado atual das coisas, de refletir sobre nossos erros e de recorrer à nossa inventividade, poderemos encontrá-la ou mesmo criá-la. Em 2015, essa terceira alternativa existia, ainda que em germe, nas ruas. Ela foi sacrificada em nome da falsa esperteza e da mesquinharia, quando a hegemonia da capacidade de iniciativa foi devolvida à classe política e aos operadores da máquina estatal, que agora se digladiam em uma luta fratricida que tem tudo para acabar da pior maneira possível para nós, seja lá qual for o seu desfecho.

O Brasil chegou a uma situação insustentável. Aqueles que não são parte do conflito levaram um xeque-mate dos que são. A permanência do Temer no governo é imoral e politicamente ruim, sua saída também. A perspectiva de eleições indiretas não é nada animadora, a perspectiva de eleições diretas menos ainda. A manutenção da propinocracia é insustentável, a total destruição do esquema, por sua vez, criaria um vácuo extremamente perigoso. Não há soluções e os problemas se multiplicam dia após dia. Sem o resgate do que se perdeu em 2015 (e, mais ainda, do que está perdido há algumas décadas), esse ciclo vai continuar se repetindo por muitos e muitos anos e as principais vítimas serão as pessoas comuns, com sonhos e aspirações comuns, que desejam tocar a sua vida sem se preocupar excessivamente com a política e com a politicagem. É deprimente, mas esta é a situação em que nos encontramos.


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  • Em 2015 havia 2 milhões de pessoas nas ruas com bandeiras deveras díspares. Ainda que fossem 20 milhões de intervencionistas convictos reunidos em Brasília não haveria nenhuma mudança substancial e possivelmente haveriam prisões de lideranças e até mesmo assassinatos destes.

    Basta ver como o establishment está reagindo por todos os meios legais e ilegais, partindo mesmo para o uso desavergonhado de capangas na “justiça” a seu favor. Não há solução fácil para problemas difíceis: ou nos organizarmos ou pereceremos.

    • WLUIZ TRI

      Pedro, como podemos nos organizar? Vejo essa frase sempre, porem na pratica não vejo nenhum movimento para tentar organizar algo.
      Fico pensando por exemplo se conseguíssemos reunir umas 2000 pessoa e invadir o congresso e o senado, isso seria algo proveitoso? Não sei, mas sinto que precisamos fazer alguma coisa, agir por conta própria para derrubar esse caos que está no poder, pois não temos mais ninguém lá para confiar.

      • Eu faço parte do Partido Militar Brasileiro e estou ajudando em seu processo de homologação perante o TSE coletando assinaturas em fichas de apoiamento. É o grupo direitista mais organizado no Brasil, com mais de 17000 integrantes e diretórios em mais de 1200 municípios.
        Creio que é o melhor a se fazer no momento: termos nosso próprio partido político para termos representantes no Legislativo (principalmente) e Executivo.
        http://www.partidomilitar.com.br

        • K.Salles

          Com um nome desses, o partido não vai decolar. Vai sair do papel para ser um eterno micro partido. Eu tentei fazer esse pessoal entender isso e só recebi como respostas um monte de baboseira patriótica e sem conteúdo nenhum. A direita no Brasil é ridícula.

          • Conservador

            Sua fala é perfeita para um esquerdista.

          • Bem-vindo à Política.

            Se acha a direita “ridícula”, pior é não fazer nada e sermos um país ridículo como o que temos hoje, dominado pela estratégia das tesouras.

            Pelo menos metemos a mão na massa em vez de ridicularizar a desorganização da direita brasileira, o que é um fato. Além disso, mesmo não homologado não podemos ser considerados um partido “nanico”, dado a nossa atual abrangência.

  • Robson La Luna Di Cola

    O maior perigo, agora, é o establishment político tentar controlar ou destruir as instituições da Justiça que estão mandando um monte de políticos e empresários para a cadeia. A maior virtude da democracia – tripartição de poderes – não pode enfraquecer!

    • Marcos

      O maior perigo, agora, é juízes e procuradores conseguirem impor a sua tirania. Políticos ao menos se submetem ao voto. Juízes e procuradores não. Empresários na cadeia? Desde quando cobertura de luxo em NY, com vista para o Central Park, é cadeia? As instituições da “justiça” objetivam, sim, destruir os agentes do processo político para se imporem como novos tiranos.

      • Robson La Luna Di Cola

        E os barões das empreiteiras que estão na cadeia? Vivemos ainda uma democracia vagabunda, mas existe a independência de poderes. Se um Juiz ou Procurador atropelar uma pessoa e não parar para prestar socorro, um oficial da PM (poder Executivo) pode mandar prendê-lo. Se um desses semideuses mexer com a minha filha de 16 anos, EU posso processá-lo.

  • Conservador

    A lava jato está sendo ferozmente atacada por Gilmar Mendes, o amoral, e seus colegas marxistas do PT e PSDB, além dos corruptos chinfrins de outras siglas de aluguel. Bolsonaro esta fazendo bem em andar pelo país fazendo palestras, dando entrevistas, participando de debates e encontrando seus futuros eleitores. Mas ainda percebo muito amadorismo na organização não só de seus eventos, como principalmente de suas propostas para o país. Ele deve amadurecer e aprofundar seu discurso, precisa de colaboradores experientes, e não quero dizer marqueteiros, mas especialistas em temas como economia e relações exteriores, para fazer um programa, por mais que isso seja meio abstrato, mas é necessário apresentar algo ao público. Bolsonaro deveria separar parte de seu tempo para um intensivão nestas duas áreas. Nos outros temas, como moral, ética, segurança pública, defesa da nação, é só ele ser Bolsonaro que dá um baile nos demais amorais, corruptos, pervertidos, criminosos e entreguistas. O principal agora, além disso, é começar a levantar nomes alinhados com Bolsonaro, conservadores de verdade, jamais marxistas fabianos, para o parlamento. Porque Jair Messias Bolsonaro vai explodir nas pesquisas, e quem ele indicar, ou estiver a seu lado, vai ser catapultado junto. Por isso a importância de já começar a garimpar nomes íntegros agora, porque tenham certeza, surgirão centenas de oportunistas se dizendo de direita desde criancinha para surfar na onda Bolsonaro. Esses não darão apoio real na hora de mudar as leis que devem ser mudadas, aprovar as emendas à constituição necessárias, ou mesmo convocar nova constituinte. Podem ter certeza que a mídia de massas esquerdista vai partir para a guerra, como nos EUA onde a CNN já está pedindo o impeachment de Trump. Só que Trump tem maioria conservadora tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado. De nada adiantará eleger Bolsonaro e não lhe dermos maioria nas duas casas parlamentares. E a partir dessa maioria conservadora, e da falência total dos partidos atuais, poderemos criar um verdadeiro e estruturado partido conservador, uma Democracia Cristã do Brasil, forte e enraizada nacionalmente. Levada adiante por católicos, evangélicos, ruralistas, industriais cristãos, empresários e comerciantes cristãos, militares, policiais,educadores e artistas cristãos e povo trabalhador do campo e da cidade, que em sua maioria é gente de bem, gente de moral, de família, conservadora. Vamos então começar a selecionar, convidar, até diria convocar os conservadores verdadeiros do Brasil e com capacidade e dom para a vida pública, para essa irrecusável e patriótica missão.

  • ricardo

    O Brasil sofre de uma total falta de tudo… principalmente lideranças.

  • Marcos

    Pelo que entendi do texto (se é que entendi certo), a solução do problema começaria pelas ruas (aquilo que se iniciou em 2015, e se perdeu). Nas ruas? Quando as ruas produzem algo de bom? O que as ruas costumam produzir é selvageria e cortes de cabeças.

  • Deivy Leão

    Texto curto e denso, uma síntese dos tempos atuais. Se eu fosse escolher um ditado seria este – ” Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” – continua difícil uma terceira via, rs.