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Por que as esquerdas odeiam as privatizações?

9 de junho de 2017 - 14:15:59


Encontrei, num blog, matéria contrária às privatizações ilustrada com cartaz onde se lê: ”Privatizem as vossas mães!”. Pretendo, aqui, explicar o que está implícito nessa frase.

Parto de uma experiência local. Há vários anos, em caráter preventivo, a Assembleia gaúcha aprovou uma emenda à Constituição Estadual determinando que a venda de empresas estatais seja antecedida de aprovação em plebiscito realizado na forma da lei. Tal despropósito legislativo fornece boa régua para aferir o tamanho do amor que as esquerdas em geral e a esquerda gaúcha em particular dedicam ao Estado. É de comover corações empedernidos. Só muitas horas em divã, relato de sonhos eróticos e boas técnicas de regressão podem explicar razoavelmente esse fenômeno próprio da mente esquerdista.

Caracterizá-lo exige abandonar a vida real e mergulhar numa relação filial, numa espécie de vida política intrauterina, no aconchego do líquido amniótico proporcionado pelo Estado e suas facilidades. É o que está implícito na frase referida no primeiro parágrafo deste artigo. Então, apontar malefícios do setor público para um esquerdista equivale a colocar a mãe no meio. É ofensa que não devem levar para casa. Com devoção filial exigem plebiscito para alienação de empresas que prestam maus serviços, tecnologicamente defasadas e de presença desnecessária ou, mesmo, perturbadora na vida da comunidade. Os mesmos objetos dessa devoção suscitam as piores animosidades em meio àqueles que vivem sob o sol e a chuva do mercado, como empreendedores, profissionais liberais e trabalhadores que optaram pelo setor privado.

O governo gaúcho tentou aprovar uma proposta de emenda constitucional para revogar o tal plebiscito, mas abandonou a idéia por sentir que não obteria maioria parlamentar suficiente para sua aprovação. Vai buscar, então, o voto popular, tentando algo inédito: convencer a maioria da sociedade gaúcha de que privatizar pode ser uma conduta benéfica.

A situação me faz lembrar o ambiente político do Rio Grande do Sul à época em que o governador Antônio Britto Filho privatizou a Companhia Riograndense de Telecomunicações e outras empresas estatais menores. Os porta-vozes da esquerda acorreram aos meios de comunicação em verdadeiro desespero, como se o lar materno estivesse sendo incendiado, destruído, trocado por bananas. “Estão vendendo tudo!”, exclamavam onde houvesse um microfone. E essa campanha ideológica difamatória do vocábulo “privatização” acabou com boas oportunidades de modernizar a infraestrutura e a gestão do Rio Grande do Sul. Era como se vender significasse empacotar um bem público existente e entregá-lo ao comprador para que este lhe desse um destino qualquer de sua conveniência. Ficando com o exemplo da estatal de telecomunicações: a velharia foi vendida, o patrimônio ampliado, os serviços melhorados e, de deficitários, se converteram em inesgotável fonte de recursos tributários para o Estado.

Não se subestime, porém, a resistência que a proposta do governo gaúcho vai enfrentar. Afinal, para a esquerda, o Estado é, na sua estatura moral mais alta, uma devoção; na mais rasteira, um grande negócio.


http://www.puggina.org

 

 

  • Paulo Damasceno

    Mais um texto magistral cuja a reflexão equilibrada e certeira nos encanta, mestre Percival Puggina!

  • Sheila Prass

    Perfeito!

  • Robson La Luna Di Cola

    Isso mesmo. Mas os extremos se encontram. A abordagem Dórica está sendo um desastre. Se deixarem, ele privatizará ruas e calçadas. E até o oxigênio atmosférico. E teremos que pagar taxas para empresas privadas para podermos andar nas calçadas, dirigir pelas ruas, e respirarmos…

  • Leonardo Silva

    O modelo de pseudoprivatizações feitas pelo governo PSDB via FHC, já é, por si só, um trauma para grande parte do povo, que nasceu nesse Brasil de (capitalismo de estado) e nunca sentiu a atmosfera do livre mercado. A República controlada por esse capitalismo oligarca é o respaldo dos esquerdopatas e, em consequência, dos idiotas úteis que nunca ouviram outra opinião.

  • Marco

    Conversa!

    Esquerdista adora estatais e empregos públicos via CCs porque não gosta de trabalhar.

    Se fosse laborar na iniciativa privada, não durariam uma semana em cada emprego, por total incompatibilidade com qualquer ofício que os afaste do desejado ócio.

    Tudo vagabundo, sem exceção.

  • Rodrigo Ribeiro

    Esquerdistas odeiam a privatização pelo simples fato de que o funcionalismo público é um dos maiores currais eleitorais das esquerdas. Simples. Aqui no RS, é o funcionalismo público quem elege os governos, geralmente.

    Além de que, de lambuja, alguns [esquerdistas] ganham cargos de CC ou até mesmo de diretorias em certas estatais.

    Entretanto, convém notar que o modelo de “privatização” adotado por Britto nos anos 90 só resultou em mais monopólio, pois a área das telecomunicações jamais conseguiu se livrar das mãos do governo por completo. O resultado é que, hoje, somente 3 grandes players controlam a telefonia no Brasil: Telefônica da Espanha, Telmex e a Oi (falida).

    Assim sendo, se for para “privatizar” e manter uma regulamentação governamental pesada sobre o setor, garantido ao privatizador seguir sozinho no mercado, de nada vai adiantar.

  • Luiz F Moran

    “ECONOMES”
    Keynesiano: come o bolo todo antes de começar a festa.
    Heterodoxo: come o bolo todo antes do parabéns e acusa outra pessoa.
    Ortodoxo: come o bolo durante a festa, diz que não gostou e ensina a sua própria receita.
    Liberal: não vai a festa.

  • EDUARDO CARREIRO MACHADO

    Por favor comecem privatizando as empresas que prestam serviços sem qualidade e as empresas atoladas em corrupção. O mais importante, não emprestem dinheiro do povo pelo BNDS, para espertalhões comprarem as estatais. Por fim vendam pelo valor real e não na bacia das almas.

  • Charles Reis

    “Privatizem as vossas mães!”
    Piada pronta essa. A minha é privada.
    Esquerdistas socializam suas mães???

  • Julio Cesar

    Se a questão fosse passada por um filtro simplificador, veríamos que a esquerda abomina a privatização de uma empresa porque, quando isto acontece, o lucro da mesma vai para um reduzido número de empresários particulares, enquanto a empresa estatal reverte os seus lucros para o estado, ou seja, para que seja redistribuído a todos os cidadãos sob a forma de obras públicas. Trata-se, portanto, de uma questão ideológica ligada à teoria política. A princípio não há nada de “malévolo” nessa ideia esquerdista, muito pelo contrário. Porém, da mesma forma que a direita parece não entender o “altruísmo democrático” da ideia não-estatizante, a esquerda fecha os olhos para o lado negativo que comumente assola as empresas públicas: se mal administradas -o que comumente acontece em países de governos corrompidos como o do Brasil-, em vez de lucro estas geram prejuízo ao estado. Aí retornamos ao início da questão. A privatização pode ser benéfica se for bem negociada e se com ela vier a possibilidade de alavancar a expansão econômica e geração de empregos -o que, em países assolados pela corrupção como o nosso dificilmente acontece. Já a estatização é um princípio do socialismo que, na prática, dificilmente funciona em sociedades capitalistas. A princípio, faltaria a ela o princípio da competitividade, a meritocracia e o dinamismo ambicioso da busca dos altos lucros – porém, se bem administrada, pode reverter em favor do bolso dos trabalhadores. É uma questão que consegue ser extremamente simples em sua essência e extremamente complexa em sua execução, porque depende do sistema econômico vigente e da eficácia dos seus agentes.