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Heitor e Aquiles: dois caminhos para a masculinidade

19 de maio de 2017 - 7:31:13

Aquiles matando Heitor, de Rafael Tejeo, 1825

Para os antigos gregos, a Ilíada de Homero era a Bíblia em Andreia – Isto é, masculinidade, principalmente coragem masculina.

Diziam que Alexandre o Grande mantinha uma edição especial do poema épico (preparado por seu tutor Aristóteles) debaixo do travesseiro durante suas conquistas, e a lia costumeiramente. Para Alexandre, Aquiles era a andreia encarnada, e desta forma o jovem rei moldou sua vida no exemplo dele.

Quando começara sua conquista na Ásia, Alexandre tomou uma rota passando pelo túmulo de Aquiles e lhe prestou homenagem. Toda vez que ele duvidava de si mesmo, rezava à mãe de Aquiles, a Deusa Tétis, por consolação. Quando seu melhor amigo e general, Heféstion, foi morto em batalha, Alexandre lamentou profundamente, tal qual Aquiles, que sofrera por seu melhor amigo, Pátroclo.

Muitos jovens desde Alexandre tem encontrado inspiração em Aquiles, o poderoso e esguio guerreiro. Por que ele encarna um ideal que eles, do fundo de suas vísceras, ardentemente desejam: coragem indomável e potência física.

Ainda que Aquiles seja a perfeita encarnação de andreia, e tenha sobre si toda atenção e adulação, há outro personagem que exemplificou a masculinidade também na Ilíada, e que na realidade provê melhor caminho de como a maioria dos homens pode alcançar tal modelo.

Aquiles: sendo viril

Nada podia parar Aquiles na batalha. Não temia a ninguém, nem mesmo o Rei Agamenon, o líder eleito dos gregos em Tróia.

Aquiles era rápido, ágil e forte. Ele fez com que proezas heroicas parecessem fáceis.

Seu thumos, ou vivacidade, era intensa, tão forte que poderia apossar-se dele enquanto massacrava o inimigo no campo de batalha.

A reputação de Aquiles devido a sua virilidade era tão grande que os troianos esconderam-se de medo quando viram Pátroclo a caminhar no campo de batalha vestido com a armadura de seu amigo, confundindo-o com o lendário guerreiro.

Aquiles era também um homem vistoso. Homero o descreveu como “bonito”. Faz sentido que Brad Pitt tenha interpretado Aquiles na adaptação cinematográfica da Ilíada.

Obviamente, Aquiles possuía algumas falhas importantes. Sua fúria desmesurada, o senso de honra exagerado, e o calcanhar vulnerável, tudo isto levou-o a ruína precoce. Contudo este era o preço que tinha que ser pago para imortalizar sua virilidade perfeita e assegurar o legado de que as pessoas continuam a falar ainda hoje sobre sua excelência na guerra e na coragem.

Ainda assim, fazer de Aquiles um exemplo impõe uma dificuldade significativa para nós meros mortais… Porque Aquiles não foi um mero mortal.

Sua mãe era uma deusa, fazendo dele um semideus guerreiro. Aquiles não teve que moldar sua andreia. Não poderia ser nada além de corajoso, viril e belo; isto já estava edificado em seu DNA divino. Aquiles saiu do útero já homem. Andreia era parte de seu ser.

Deste modo, enquanto a andreia de Aquiles pode certamente servir como um modelo, sua vida não é um modelo para a maioria dos homens imitar, a não ser, é claro, que sua mãe seja uma deusa imortal do Olimpo.

Há, todavia, um personagem da Ilíada que nos provê um prestimoso ideal para os homens no aperfeiçoamento da andreia. E este é precisamente o inimigo mortal de Aquiles: Heitor, o príncipe de Tróia.

Heitor: Aprendendo a masculinidade

Por nove longos anos, Heitor liderou os defensores da cidade de Tróia contra o assalto grego. Ele era um guerreiro forjado nas batalhas, e, tal qual Aquiles, tinha a reputação devido a sua andreia.

Porém Heitor era diferente de Aquiles. Era 100% mortal. Diferentemente de Aquiles, que nasceu com Andreia, Heitor teve que apreendê-la. Ele até admite isso na cena que talvez seja uma das mais emocionantes da literatura Ocidental.

Heitor, exausto da batalha e coberto de poeira e sangue após impedir a incursão de tropas gregas, retorna para dentro da muralha de defesa troiana para descansar. E lá ele encontra sua leal e carinhosa esposa Andrômaca que lhe implora para não voltar ao combate, temerosa que na próxima vez seu marido retorne em cima do escudo, em vez de tê-lo no braço.

Heitor, ainda com sua armadura, confessa à esposa que compartilha do mesmo medo. Quão in-Aquiliano! Aquiles teria respondido com uma risada, com vanglória, mordazmente replicaria sua esposa para não ocupar sua pequena cabecinha com isso.

Conforme ele revela para Andrômaca:

“Tudo isto pesa em minha consciência, querida.
Contudo eu morreria de vergonha ao ter que encarar os homens de Tróia e as mulheres troianas a arrastar suas longas togas se me recolher agora da batalha, como um covarde.

Nem meu espírito deseja que seja dessa forma.
Aprendi tudo muito bem. A encarar com bravura, sempre lutar junto ao soldados troianos no front, para dar glória a meu pai, e a mim mesmo.”

Você notou? Frisei em negrito para ajudar.

Heitor fala que aprendeu como ser bravo e como lutar. Ele experimenta a coragem não como a falta de medo, mas como a prática de sentir medo, e ainda assim decidir seguir em frente.

A tradução de “aprender” para o grego é didaskein, e o professor de inglês David Mikics sabiamente notou que didaskein não é citada nenhuma parte de Ilíada como um caminho para apreender bravura ou masculinidade. Somente foi usada nesse contexto. Homero está claramente criando um contraste entre Heitor e seu instintivamente feroz rival, Aquiles.

Enquanto Aquiles nasceu já homem, Heitor teve de aprender andreia. Teve que aprender como ser agressivo e forte o que nos sugere que isto não estava em sua natureza.

Em vez disso, Heitor foi por natureza um homem gentil. Não, não falo de um bonzinho palerma insuportável. Trata-se de um homem genuinamente bom, piedoso, e atencioso com os outros. Há um motivo para ele ser caracterizado assim na Ilíada; por exemplo, enquanto os outros culpavam e se ressentiam por Helena ter começado a Guerra de Tróia, Heitor foi em sua direção para mostrar-lhe compaixão.

Ademais, subsequente a confissão à esposa de que teve que aprender andreia, seu filho caçula, Astyanax, o vê com sua armadura coberta de sangue, e, não reconhecendo o pai, começa a gritar. Heitor, rindo, tira o elmo, pega o filho nos braços e o joga para cima enquanto lhe dá beijos, da forma que vemos hoje os pais fazerem.

Heitor era um bom homem. Esposo carinhoso e pai amoroso.

Todavia ele compreendeu que a bondade deve estar embasada na virilidade. Heitor reconheceu, tal qual Theodore Roosevelt fez milênios depois, que “Se não mantivermos virtudes bárbaras, será de pouco proveito obter as virtudes civilizadas”.

E ele passou sua vida inteira aprendendo aquilo que não era de sua natureza, mas que desejava para viver sustentado em andreia. Aprendeu pela observação e pela prática a ser bravo, destemido, e forte. Heitor se dedicou a educar-se em masculinidade viril.

Heitor: um companheiro na jornada pela masculinidade

Me identifico com Heitor. Eu me vejo como um “bom homem”. Sou naturalmente propenso a ser gentil e amigável com os outros. E da mesma forma que Heitor, sou um pai de família. E quanto a ser um andros? Um homem corajoso, feroz, guiado pelo Thumos, fisicamente apto e viril?

Isso é algo que tive que aprender e continuo aprendendo. Não está em minha natureza. Se eu somente seguisse minhas preferências, provavelmente ficaria muito tempo sentado em uma cadeira, jogando vídeo game e comendo nachos. Mas porque eu acredito que desenvolver a andreia é essencial para conseguir arête (excelência) e eudemonia (vigor) como homem, e porque eu valorizo a bondade e anseio que outros tenham a oportunidade de buscar arête também, a cada dia eu me esforço para desenvolver a força e a coragem para assegurar essa possibilidade.

Tenho cruzado com alguns homens que são parecidos com Aquiles. Eles nasceram com andreia. Eles eram naturalmente corajosos, de condição física perfeita, e sentiam-se confortáveis com o perigo mesmo quando eram crianças. Quando conheci esses homens, me senti atemorizado. Como Aquiles, eles encarnam um ideal de virilidade e masculinidade que não posso deixar de respeitar, ainda que sejam um pouco toscos.

No entanto, mesmo sendo inspiradores, esses homens não nos providenciam modelos de como desenvolver esse tipo de andreia. Seria como perguntar ao Usain Bolt como nos tornarmos corredores mais rápidos. Primeiro passo: seja o Usain Bolt. Não é muito útil.

Em vez disso, eu prefiro buscar por homens que são “gentis” por natureza como foi Heitor, mas que tiveram que aprender a ser ferozes. Esses homens terão algumas sugestões a dar. Theodore Roosevelt, Frederick Douglass, Winston Churchill, meu avô, e Eric Greitens são apenas alguns desses “Cavalheiros Bárbaros” em quem procuro um norte de como adquirir uma educação autodidata em andreia.

Boa parte dos homens que encontrei são parecidos com Heitor. Eram bons homens que tiveram que trabalhar para ser másculos. Pode ser muito fácil se sentir inseguro sobre o fato de que constantemente você tem que aprender e reaprender a ser homem. Os similares a Aquiles algumas vezes zombam da ideia de aprender a arte da masculinidade, e demonstram descrença ao saber que outros homens não sabem algumas técnicas desde pequenos, e não encarnam certos traços intuitivamente.

No entanto tal insegurança é inapropriada, e esse tipo de julgamento é improdutivo. Poucos homens saem do útero com pelos no peito ou simplesmente absorvem as habilidades e traços da masculinidade. Muitos grandes homens através da história tiveram que dispor-se intencionalmente a aprender a masculinidade, inclusive Heitor.

Nascer ou aprender. Esses sãos os dois caminhos para a andreia. Para a maioria de nós, aprender é o caminho a ser tomado. É o caminho em que eu estou, ao menos. O site The Art of Manliness é o lugar onde eu compartilho algumas das ideias que coletei na minha jornada. E tem sido ótimo conhecer outros Heitores – bons homens – no percurso, que também tomaram a decisão consciente de aprender a masculinidade.

Brett Mckay, “Hector and Achilles: Two Paths to Manliness”, do site Art of Manliness.

Tradução: Jay Messi
Revisão: Humberto Motta
http://tradutoresdedireita.org

 

 

  • duster

    oq é andreia ?

    • Angelo Serravalle

      Masculinidade, creio eu – pensando no prefixo ‘andros’: Do grego antigo ἀνδρός (andrós) , genitivo singular de ἀνήρ (anér) (“homem”, “varão”; “marido”, “esposo”).

  • candangus

    Poxa, que belo texto. Como junguiano, eu aprecio as lições que o simbolismo grego, representado em sua mitologia, nos oferece… é uma contribuição que os ocidentais tem o privilégio de acessar com mais facilidade, dada a forte impressão que a cultura grega exerceu, durante séculos, em nossa psique.
    O site art of manliness tem informações valiosíssimas. Como o texto acima diz, a masculinidade, para a grande maioria dos homens, é algo que se aprende. E hoje em dia, os homens ocidentais se desconectaram da essência da andreia porque os “valores bárbaros” parecem supérfluos diante da vida pacata que a era moderna e sua tecnologia nos proporciona.
    Esse valores, entretanto, fazem parte do homem. Seu negligenciamento fará com que eles se concentrem na parte da sombria do psiquismo, criando uma pressão que irrompe em toda sorte de ilicitudes prejudiciais à comunidade – no tráfico de drogas, nos furtos, roubos, assassinatos…
    Esse valores devem ser aprendidos e exercitados de forma criativa, expressos através da arte (as artes marciais são ótimas escolas), da poesia, da música, etc., de forma que, integrados à cultura, possam ser espalhados e promovam a saúde física e mental de todos os homens de nossa sociedade.

  • Elio

    E tem algum livro que indiquem mais sobre esse tema?

  • Henrique Rodrigues de Sousa

    É um artigo inspirador. Ele demonstra a importância de ler poemas épicos. As epopéias de Homero, do início do mundo grego, sobretudo.

  • Lykándros Lykándros

    Muito oportuno, o texto!

    Só uma nota (estranhei e fui pesquisar): A passagem enfatizada é a linha 444 do capítulo 6 da Ilíada. A palavra para “aprender” não é “didaskein”, que, de fato, quer dizer “ensinar” (é de onde provém “didática”), mas “manthanein” (de onde vem “matemática”). O verso é assim: “oude me thymos anogen epei mathon (forma do v. manthanein) emmenai hesthlos”, “nem [meu] espírito me impeliu [a isso], visto que aprendi a ser útil [= ter valor]”. E, de fato, é a única ocorrência deste verbo em todo o poema.

    Os velhos gregos! Leituras obrigatórias!

  • Leonardo Cardoso

    Penso ser fundamental essa passagem: “Se não mantivermos virtudes bárbaras, será de pouco proveito obter as virtudes civilizadas”

  • Hiago Ams

    Já curtia esse Blog, só tem coisa boa mesmo! Agora com a indicação vou voltar a lê-lo. No fim te dá ideias sobre como estar por cima da situação (não sempre abaixo), sempre bem fundamentadas com exemplos, relatos, comparações de como era e como é. Só que puxando algo mais profundo do que o “ser bem sucedido” mainstream, que vemos em 99,9% de quem fala e que dificilmente passa de um dinheirismo, oportunismo, ou mentalidade de vayshia. O Blog é diferenciado mesmo, mais sobre moral, dever e as coisas que sempre estiveram presentes nos grandes homens.

  • Matheus Melo

    O Art of Manliness é um site ESSENCIAL para os jovens homens de hoje em dia.

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  • Pirata Psíquico

    Só comediantes.