1. Cultura

O erro político de Hayek

18 de julho de 2017 - 17:51:49

Na apresentação que fiz em abril para o Instituto Borborema, afirmei que a conceito de ordem espontânea, criado pelo economista austríaco Friedrich August von Hayek (foto), é um tanto quanto problemática e que, embora funcione como um ideal, é uma péssima descrição da realidade política e social. Como alguns amigos perguntaram as razões por trás dessa afirmação e como o assunto pode interessar a outras pessoas, deixo aqui a resposta que tenho dado a essa pergunta.

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Basicamente, a crítica consiste na idéia de que não pode haver ordem espontânea, no sentido hayekiano, em sociedades em que a diferença na proporção de forças (i.e. possibilidades de ação) entre os agentes é muito assimétrica — ênfase no “muito”.

Só se pode afirmar que uma ordem social é espontânea quando ela surge como o resultado impremeditado da ação e da interação humana, isto é, das escolhas e das ações de múltiplos indivíduos e não da intenção de um pequeno grupo de pessoas. Portanto, a ausência de um nexo causal entre a intencionalidade de agentes (concentrados em um ou poucos polos de poder) e o resultado obtido em termos de ordem é condição necessária para que haja espontaneidade em uma determinada ordem sócio-política.

Isto significa que uma ordem só pode ser corretamente classificada como espontânea quando ela é afetada mais ou menos equitativamente pelas ações e decisões dos indivíduos que a compõem, o que pressupõe uma certa simetria na distribuição dos meios de ação entre os inúmeros agentes, algo que praticamente nunca existiu no mundo civilizado e que existe menos ainda nos dias atuais.

Em minha apresentação, citei como exemplo o ministro Luís Roberto Barroso, que, através de seu ativismo judicial, afeta a ordem social brasileira de um modo que você e eu não podemos afetar. O problema desse exemplo é que os libertários poderiam contra-argumentar, facilmente, dizendo que bastaria acabar com o Estado para eliminar essa assimetria, mas há exemplos que mostram que a realidade é bem mais complexa do que isso.

Que ordem espontânea poderia haver na Florença dos Médici, que detinham quase todos os meios de ação e conseguiam impor a maior parte das suas vontades enquanto aos indivíduos comuns só restava reagir ou se adaptar? Pior, que ordem espontânea pode haver em um mundo em que bilionários investem parcelas substanciais das suas fortunas em ações de engenharia social (que muitas das vezes não são implementadas pela via estatal) para alterar a cultura, a ordem da sociedade e a própria natureza humana, como ocorre hoje em dia? Diante desses exemplos, não se torna evidente que só seria possível falar em ordem espontânea se pessoas comuns tivessem a mesma capacidade de afetar a ordem social que possui um George Soros ou um Mark Zuckerberg?

Em um mundo em que, com Estado ou sem Estado, indivíduos atomizados são afetados pela ação de famílias dinásticas, grupos esotéricos, fundações internacionais, movimentos políticos ou mesmo por ações coordenadas na esfera da cultura, não se pode falar numa ordem espontânea e impessoal, na qual não há nexo causal entre as intenções de certos agentes e as mudanças que ocorrem na configuração de uma determinada ordem social.

O professor Olavo de Carvalho sempre enfatiza, em seus escritos sobre os métodos das ciências sociais, que, diferentemente do que ocorre entre dois animais da mesma espécie, a diferença de possibilidades de ação que existe entre duas pessoas pode ser gigantesca e intransponível, e isso tem implicações para a realidade política que não podem ser ignoradas. Uma dessas implicações é justamente a constatação de que a ordem espontânea, na esfera política, não passa de um ideal ou de uma ilusão elegante, fruto da tentativa de compreender a realidade política e social à luz da ciência econômica, dentro da qual a noção de ordem espontânea pode ser corretamente aplicada, ainda que apenas metonimicamente.

Tudo na política se origina em decisões e ações humanas e os efeitos obtidos em termos de ordem podem, em maior ou menor grau, refletir fielmente as intenções de determinados agentes, de modo que é (quase) sempre possível identificar a relação que há entre determinadas decisões, a tradução dessas decisões em ações, os resultados específicos obtidos por elas e o lugar desses resultados num quadro maior em que outros fatores se tornam relevantes.

Coisificar a política em processos impessoais como Proudhon, Hayek, Rothbard e outros tantos tentaram fazer para elaborar o conceito de “ordem espontânea”, valendo-se de uma aplicação do estreito instrumental da teoria biológica da evolução, é um enorme equívoco que torna obscuro o conjunto de escolhas que produziram um determinado resultado e, consequentemente, torna impossível a responsabilização dos agentes pelas consequências de suas ações, quer sejam boas, quer sejam ruins. Se a ordem é espontânea, faz sentido dizer que foi Alexandre quem helenizou o mundo antigo? Se a ordem é espontânea, faz sentido atribuir à Igreja Católica e ao Cristandade em geral a construção da Civilização Ocidental, como o fazem o Tom Woods e praticamente todos os bons historiadores? Se a ordem é espontânea, faz sentido falar em uma Europa pós-napoleônica? Se a ordem é espontânea, faz sentido vincular a contra-cultura e as mudanças culturais pelas quais o Ocidente passou ao trabalho de Gramsci e de seus seguidores e à influência de Lukács, da Escola de Frankfurt e da Teoria Crítica como um todo?

A política precisa ser devolvida ao exercício da liberdade humana, de tal modo que as decisões e as ações que levaram a uma determinada situação política se tornem identificáveis, abrindo o caminho para que ela seja modificada, sempre que necessário, mediante novas escolhas igualmente livres e responsáveis. Não é possível aumentar o quociente de liberdade na política prática sem primeiro apreender e tomar consciência do papel ativo desempenhado pela própria liberdade na criação dos fatores que a cerceiam; isto é, dos atos e escolhas livres dos agentes que levaram a tais ou quais resultados; e para isso é necessário compreender que, em política, não há algo como uma ordem espontânea e que o pouco de espontaneidade que existe em qualquer ordem social, no fundo, sempre divide espaço com resultados que se ligam, por meio de um nexo causal, à intencionalidade de um grupo que se sobressai aos demais em termos de força e meios de ação.

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  • Antono Junio De Araujo Alexand

    Temos dois exemplos na história no nosso próprio país. Primeiro quando D. Pedro I convida José Bonifácio para organizar sua regência, o qual o influencia tanto que faz daquele um Grão-mestre da Maçonaria e culmina com a independência do Brasil. Segundo é quando o Positivismo de Comte, no meio do Exército, se torna um dos elementos que influenciam o fim da Monarquia, com o estabelecimento da República. Não vemos nos dois exemplos acima qualquer resquício da teoria da Ordem Espontânea. Pelo contrário, há muita influência da ação humana capitaneada por um ou poucos indivíduos!

    • Que um bom exemplo de ato humano maligno que mudou boa parte da História do que o divórcio de Henrique VIII?

      Rompeu com a Igreja e depois seus herdeiros criaram uma teocracia inescrupulosa cujas perseguições levaram à colonização norte-americana por fugitivos e o recrudescimento da escravidão no Novo Mundo. Já no século XIX, deu guarida ao surgimento do globalismo sionista a ponto de no século XX ajudar o monstro georgiano Stálin e dividir 2/5 da ONU com ele.

      • Maycon Rogers Ribeiro Alves

        Quanta bobagem

        • Se não tem argumentos, considere-se bloqueado.

  • Robson La Luna Di Cola

    O mundo sempre foi, e sempre será governado pelos ricos e poderosos. Mesmo nas democracias avançadas. Vejam o Trump, nos EUA encrencado ao Deep State, e se dobrando ao Big Business. A ordem espontânea, só seria possível em uma sociedade onde predominassem cidadãos VIRTUOSOS. Onde todos, ou quase todos seguissem os Dez Mandamentos. Mas…

  • Maycon Rogers Ribeiro Alves

    O texto foi escrito por alguém que não entendeu Hayek.
    Primeiro Hayek nunca defendeu que só existiria tal Ordem espontânea se todos fossem iguais na decisão do poder, isso é coisa do autor do texto. além disso, como membro da Escola Austríaca de economia, tal ideia seria um absurdo, já que está escola defende que os agentes são desiguais nas suas ações e desejos.
    O que ele diz como ordem espontânea não tem relação com o agora, e sim com o todo. Você não pode prever nenhum dos eventos que você mencionou,. Exemplo, quem viveu 1000 anos atrás não poderia saber sobre as realizações do ocidente.; Ninguém em Florença poderia saber previamente do poder dos Médicis antes de estes atuarem, etc, ou seja, com os dados do passado você não poderá prever o futuro, por isso os austríacos batem tanto na tecla da ordem espontânea, simplesmente nada foi planejado previamente, mesmo os poderosos não sabem os resultados de seus atos, ninguém sabe, temos apenas uma intuição, que estará errada muitas vezes.
    Hayek não era determinista como Olavo( uma grande falha deste, que acha que tudo tem causa determinada) , seu pensamento é baseado na simples premissa de que toda a informação do mundo não está concentrada em nenhum ser, sendo assim, não a lógica em argumentar sobre o poder que alguns tem de influenciar contra a ordem espontânea ,pois isto faz parte da própria ordem, em todas as épocas tiveram pessoas que fazem parte daquele 1% de seres com força de guiar a história, só que não existe causa determinada para aquela pessoa ter tal poder, foi simplesmente o acaso, e não há nada que se possa fazer. Resumindo a existência de poderosos faz parte de todo o processo que o texto rebate. Existe ordem espontânea, pois o mundo está mergulhado na aleatoriedade.. Nassim Nicholas Taleb (seguidor de Hayek, Mandelbrot, e Popper)em o Cisne Negro, desenvolve melhor, a ideia de Hayek, além de demonstrar a falha que muitos seguidores de Olavo e o próprio Olavo possuem, de contar a história de trás para frente como se aqueles eventos só pudessem acontecer, não outros, ou que os agentes não pudessem fazer outras escolhas

  • Luiz F Moran

    Gosto muito mais das obras do Mises do que do Hayek, Mises nunca foi anarco, sempre se posicionou como um minarquista, ciente portanto de que uma sociedade sem Estado, sem fronteiras e sem impostos é uma ideologia utópica como tantas outras que surgiram nos séculos XVIII, XIX e XX.
    Ao Hayek devemos o brilhante trabalho de desconstrução da falácia Keynesiana e as constantes humilhações que ele fez Keynes passar nos debates.