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Errando o alvo na mosca!

15 de novembro de 2017 - 16:34:49

Por Beto Moraes.

 

No início dos anos 1990, minha irmã, então roteirista da Fundação Roberto Marinho, me convidou para ser seu assistente na lida sub-literária de escrever roteiros de teleducação e empresariais. Iniciou-se assim minha carreira na seara das letras plebeias, que durou mais de 20 anos. Graças a minha irmã, entrei na panela, e segui adiante por conta própria: conheci muita gente do meio artístico, ‘bacanas’ aos montes,  e até mesmo tentei praticar a tal da ‘arte’. Cheguei a criar e escrever um seriado juvenil para a TV Cultura (Galera) e participei da roteirização de um longa de pegada popular (O Menino da Porteira), que foi visto nos cinemas por mais de um milhão de pessoas (Lei Rouanet, eu confesso, também pequei). O fracasso, no entanto, nunca me subiu à cabeça e minha carreira não foi adiante pelas minhas próprias deficiências e pela minha falta de tino sociopatológico (Thank you, Lord!). O ambiente é tóxico.

Dito isto, proponho, então, uma questão de natureza aritmética das mais simples, prosaica e nada artística:  quantos artistas brasileiros e vacas sagradas da cultura brasileira (música, artes dramáticas, cinema) têm uma carreira internacional? Quantos gozam lá fora do prestígio e da intocabilidade crítica de que gozam (ops!) aqui? Resposta: nenhum. Zero, zero, zero. Por quê? Também é fácil responder. Porque lá fora não é essa terra de compadres que é a cultura nacional, com trocas de rapapés e tapinhas mútuos nas costas. Essa gente não sobreviveria em uma cultura competitiva, em que o mérito e a qualificação fossem atributos indispensáveis. As atrizes famosas daqui seriam eternas garçonetes lá. Nenhum artista do Olimpo artístico brasileiro, a Globo, conseguiu se instalar de fato na selva mortalmente perigosa que é Hollywood: The Industry. Todos que tentam, quebram a cara. Não me venham dizer que Rodrigo Santoro é um ator hollywoodiano de prestígio. Não é. Sua situação, longe de espetacular, é o máximo que os atores e atrizes conseguem imaginar de sucesso interncaional, o que só mostra o horizonte da mediocridade nacional. A Globo é o limite dessa gente. Por quê? Porque são muito ruins. Só servem para fazer telenovelas, que é um lixo. É o que servem, conscientes da má qualidade do produto, para o povo, que os sustenta com sua audiência, e ao qual devotam o mais supremo desprezo (retrógrados, religiosos fanáticos etc). Eu conheci atores e atrizes que não se envergonhavam de dizer que não viam o trabalho que haviam feito quando este era exibido na televisão. Não viam as novelas que faziam, nem para ver o resultado. A ambição do artista brasileiro não é fazer arte e sim ser famoso e fazer parte de uma turma, da panela do Projac. Uma amiga atriz me contou, que ao fazer um seriado televisivo global, começou a ser tratada por outros atores/atrizes globais, que desconhecia totalmente, como uma antiga amiga. Ela se sentiu mal, achou asquerosamente falso. Não sei como anda agora. Vai ver que se acostumou. Essa panela é nefasta, para eles mesmos e para o país. Todo mundo finge, principalmente eles próprios, que não se trata de um bando de medíocres. E são, todos. As exceções confirmariam a regra, se existissem. Não existem.

A vaca sagrada do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro, Dona Arlete, quando indicada para a categoria de melhor atriz, por sua atuação em Central do Brasil (Hollywood, cínico, se dá ao luxo de fazer essas concessões paternalistas aos países do terceiro mundo, que logo se abraça à glória efêmera, como se não odiasse até ontem mesmo o imperialismo americano, salivante de raiva e impotência), pois então, dona Arlete protagonizou um clássico da vergonha alheia ao se lançar à aventura de falar em inglês em uma entrevista no então mais famoso talkshow da TV americana, capitaneado por David Letterman (modelo de Jô Soares). A coisa foi de um constrangimento atroz: “The rivers and mountains are on the table”. A torcida alienista nacional urrou quando ela conseguiu dizer: “I’m the old girl from Ipanema!”. Vejam só, que linha shakespeariana. A muié não fala lé-com-cré em inglês. Parecia uma débil mental (que ela obviamente não é).

Mas a chuva ufanista nacional inundou qualquer possibilidade de visão da realidade do que tinha de fato acontecido: foi constrangedor. Esta é a verdade: os atores e atrizes nacionais são constrangedores. Cadê os grandes papéis da Dona Arlete no cinema internacional, depois de ter ficado sob os holofotes dos abutres midiáticos mundiais, pelos 15 minutos de fama de praxe concedidos aos melhores artistas de todos os tempos de países do terceiro mundo? Não adianta procurar. Zero. Nada.

Quando fazem sucesso, como o Wagner Moura, começam a se achar demiurgos iluminados e pessoas esclarecidas do bem, e só constrangem ainda mais pela burrice decorrente do estado de torpor mental ideológico (o cara ultrapassa todos os limites da estultice com aquela pose de sabichão imbecil). Nisso, convenhamos, não ficam atrás de Matt Damon, Di Caprio, Meryl Streep e outras sumidades do pensamento humano ocidental.

A classe artística brasileira é uma das certezas nacionais. É garantido: sempre erram o alvo na mosca. (Gracias a Millôr, pela boutade, este sim um artista universal que só não foi mundialmente reconhecido porque escreve em uma linguagem quase secreta chamada português).

 

Beto Moraes, 57, é roteirista e tradutor.

 

  • Osvaldo Pereira Júnior

    No Brasil os artistas são em sua esmagadora maioria medíocres pelo simples fato de terem sido fabricados por padrinhos. Não se tratam de talentos naturais, mas sim de apadrinhamento. Isso quando não rola o famoso teste do sofá.

    Então quando o sujeito vai para os Estados Unidos e pela primeira vez na vida vê o que é o mérito de verdade e a genuína competição, ele literalmente se fode e quebra a cara.

    • Renato Lorenzoni Perim

      Nunca havia pensado nessa possibilidade de justificativa para os tupiniquins que voltam da América depois de morar na civilização. Fico pensando que saudade é essa que os faz voltar pra essa sociedade completamente doente que vivemos aqui.

      • Osvaldo Pereira Júnior

        A única desculpa aceitável para deixar os Estados Unidos e voltar para o Brasil seria a saudade dos familiares. De resto, deixar um país como os Estados Unidos onde você tem segurança,liberdade e chances muito maiores de prosperar para voltar ao caos brasileiro só mesmo se for muito fracassado e gostar de viver na merda.

        Mas quando eu digo Estados Unidos eu não estou me referindo as metrópoles como Nova York, Los Angeles, Miami e etc, mas sim ao interiorzão.

        O verdadeiro Estados Unidos está no interior pois as metrópoles já estão cheias de imigrantes e já perderam grande parte do espírito de liberdade americano.

        Pra se ter uma ideia em Chicago por exemplo nem arma você pode ter mais. Está igualzinho o Brasil.

        • Renato Lorenzoni Perim

          Verdade que a Austrália está ruim assim? Era uma nação que eu tinha em mais alta conta… mas vejo que você sabe do que está falando.

    • Newton (ArkAngel)

      A maior prova de que você possui talento, seja em que área for, é o ostracismo social. Num país de padrões tão baixos e medíocres, ter sucesso é algo que depõe contra a pessoa.
      A bossa nova é uma música que hoje em dia sequer é conhecida entre os mais jovens, no entanto, possui mais admiradores na Europa e USA do que em seu próprio país. Outro bom exemplo é a música portuguesa chamada fado, que é considerada patrimônio cultural da humanidade, e é cultuada e adorada em seu próprio país de origem. Depois dizem que os portugueses são burros.
      Fernanda Torres é um ótimo exemplo de representante de uma elite artística que se auto-endeusa e vive em uma terra de conto de fadas que cria para si mesma. Já disse para várias pessoas que quando a Fernanda Montenegro atua, ela não encarna o personagem, pelo contrário, você sempre vai ver “a Fernanda representando o personagem”, sempre com as mesmas expressões e trejeitos. E sempre fui taxado como arrogante e presunçoso por causa disso.

      • Beto Moraes

        É isso! Na mosca! Neste caso, um acerto.Existe um termo ‘técnico’ para isto, interpretar sempre você mesmo: canastrice. A Globo é o inferno dos canastrões.

  • Pedro Talita

    Artistas Brasileiros estão a serviço do Foro de SP. Mais nada.

    • Rafael

      Pelo amor de Deus, leia de novo o que escreveu.A maioria dos globais é coxinha de raiz.

      • Jose Carlos Santos

        Como podem ser coxinhas, se defendem abertamente as agendas da esquerda mundial? Abortismo, desarmamentismo, ideologia de gênero/Gaysismo, legalização das drogas, estado paternalista/assistencialista e protetor são causas defendidas pela direita conservadora?

  • Ig Moura

    Interessante como um pequeno artigo força o leitor a expandir seu arcabouço imaginário à respeito da classe artística de seu país, que agora depois de lido o artigo, se mostra tão medíocre. É uma subcultura auto alimentada, onde os participantes fazem poses para demonstrar a necessidade de aceitação do grupo que também é tão falso quanto uma nota de R$200, que também fazem as mesmas poses para se manterem no mesmo. Tenho me espantado e me maravilhado tanto com a realidade, graça aos bons homens que demonstram de forma clara e coerente – alguém disse Olavo e muito de seus alunos ai? – que parece quase infinita a quantidade de nuances e complexos símbolos, que só fazem por si só serem um atrativo para a mente afoita de entendimento.

  • Evelyn Petter

    Que paulada! Parabéns pela coragem.

  • nando_dsqs

    Nunca consegui gostar de um filme brasileiro
    Justamente porque achava a grande maioria dos atores extremamente falsos nas interpretações
    Faltava espontaneidade
    Faltava serem naturais

    • Osvaldo Pereira Júnior

      Os únicos filmes brasileiros que prestam são aqueles que retratam a realidade brasileira da desgraça humana. Carandiru, Tropa de Elite, Cidade de Deus, Rota Comando e mais alguns.

      Só são bons exatamente porque são uma merda igual o país a ser retratado. Ou seja, são filmes realistas mesmo que seja o realismo da própria desgraça humana.

      • Renato Lorenzoni Perim

        Osvaldo, um filme que eu adoro e não sei se poderia ser incluído na sua lista é “O auto da compadecida”. Acho muito bom por se tratar de humor não apelativo. Qual sua opinião?

        • nando_dsqs

          Esse é fantástico

        • Osvaldo Pereira Júnior

          Assisti apenas a parte final e sinceramente achei uma merda. Sem contar o desrespeito e a zombaria com Nossa Senhora e o catolicismo. Coisa de globosta mesmo.

          Filmes nacionais bons de humor não apelativo são os do Mazzaropi e Jeca-Tatú que estão passando na TV Aparecida todos os domingos.

          Outros excelentes e antigos são os de Cangaço.

          • Newton (ArkAngel)

            Caramba, filmes do Mazzaropi são mesmo muito bons! Outros filmes que são muito engraçados são aqueles antigos que passavam no Sala Especial na década de 1980. São pornochanchadas, mas perto das novelas atuais, parecem histórias infantis. Eram filmes bem toscos, porém hilariantes.

            https://www.youtube.com/watch?v=rsLabK9EH3w

          • Osvaldo Pereira Júnior

            Pornochanchadas podem ser considerados filmes gospel se comparados com as novelas da globo hoje.

            É muito mais sadio crianças assistirem pornochanchada do que Encontro com Fátima Bernardes por exemplo.

            O máximo que seu filho vai aprender assistindo pornochanchada é a comer mulher (o que convenhamos não é nada mal). Já assistindo a rede globo ele poderá se tornar um travesti na melhor das hipóteses e na pior um pedófilo e traficante de drogas.

  • Alemoon

    “A muié não fala lé-com-cré em inglês”. Muito bom! Alguns anos atrás tive essa intuição sobre Talento X Influência, mas para se ter certeza é preciso da testemunha ocular, no caso, Beto Moraes. Meus amigos, depois da tropicália, não espero mais nada da classe artística brasileira. Sensacional o texto, parabéns.

    • jorge santos

      A “muié” não fala nada que preste nem em português!

  • Luiz F Moran

    Onde há bajulação de baixo nível, reserva de mercado, dinheiro de Estado, pseudo intelectuais e audiência idiotizada, não há um mercado, o que há, sendo lisonjeiro, é um puleiro de aves adestradas onde às vezes pode-se cagar nos outros e outras vezes encontra-se cagado pelos outros.
    De qualquer forma, a merda sempre fica com quem consegue engolir esse lixo e degusta sem ao menos sentir o fedor.

  • Lucas Santos Amaral

    O Brasil não é para principiantes… já dizia Tom, o Jobim… conseguimos ser “tres chic” em nossa arrogância bovina regada a muita ignorância dantesca sobre o que vem a ser inteligência e civilidade… a exaltação a mediocridade é o que nos restou…

  • Gustavo Brandão

    Muito bom artigo. Descreve detalhadamente como é a classe artística brasileira.

  • Rafael

    A crítica pela qualidade artística é válida, mas dizer que Holywood não é uma panela já escapa ao bom senso.

  • Will Tapajero

    Mandando o texto para a minha filha roteirista (hoje em Tokyo), com quem eu tenho acaloradas conversas sobre a mediocridade multi ideológica, (tombando para esquerda, claro!) dos artistas brasileiros. Um dia assisti ao filme “A Vida é Bela” e quase morri de vergonha de ser brasileiro, ao ver tanto energúmeno defendendo que “Centra do Brasil” pudesse ter a mínima chance naquela disputa. Bah!

  • lucio moura

    Eu sempre andei me perguntando a respeito disso. A resposta à pergunta de por que os artistas brasileiros não fazem sucesso no exterior parece simples, mas sempre perigosa se dita no lugar errado. ” Isso é inveja”, iriam responder alguns. Sempre é bom ler ou ouvir alguém proveniente desse meio, que sabe como as coisas funcionam, para dar respaldo- não que eu precise, os outros precisam- às nossas suspeitas. Esses artistas deveriam chorar de agradecimento ao público das donas de casa que tanto lhes reverencia e paparica. Em Hollywood existem conchavos, quem indica e até teste do sofá também, só que o aspirante a famoso precisa ter um volume significativo de estudo dos personagens e de expressões faciais, muito texto para decorar, caso contrário não prospera. Quando se fala em Broadway, você percebe o quanto aquilo é difícil: o ator precisa também dançar e cantar e não há muito espaço para enganação. Não sei se vocês já perceberam, mas a Globo vem inclusive entregando textos com frases mais curtas para esses galãs da nova geração como forma de se adaptar às suas limitações.

  • lucio moura

    O que se formou no Brasil foi uma panelinha. O brasileiro é o tipo que faz mais panelinha e o que mais acusa os outros de reserva de mercado.

  • Beto Diaz Zanetti

    O que achei ótimo no texto, foi a linguagem dura e precisa, mas o mais importante a questão do compadrio que todos fazemos ou queremos e assim uma realidade mais fria, não necessariamente dura, não é entendida pela grande massa humana que habita o Brasil. Esses são esparsos e mesmo assim muitos que veem alguma inteligência se vale de usar para se alto promover. Parabéns, adorei o que escreveu, pois aprendi algo.