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Prefácio de Olavo de Carvalho ao livro de Mauro Abranches e Vladimír Petrilák sobre a atuação da KGB no Brasil

25 de outubro de 2017 - 13:31:42

Detalhes da entrada da antiga sede da StB em Praga, República Checa.

(A obra será lançada em breve.)

 

Este livro, sozinho, vale mais do que toda a bibliografia consagrada sobre os acontecimentos de 1964.

 

PREFÁCIO
Olavo de Carvalho

Condensando um zunzum que já circulava em jornais comunistas e em teses do Comitê Central do PCB, o livro do jornalista Edmar Morel, O Golpe começou em Washington, publicado pela Editora Civilização Brasileira em 1965, lançou, já no seu título, o mantra que desde então foi repetido incansavelmente em artigos, reportagens, livros, teses universitárias, filmes, especiais de TV e vídeos do YouTube: o movimento que removeu do cargo o então presidente João Goulart foi, no essencial, uma trama do governo americano, uma brutal intervenção estrangeira dos assuntos nacionais, uma manobra da CIA urdida para derrubar um governo nacionalista cujas reformas ameaçavam os interesses do capital imperialista.

A Civilização Brasileira era a maior editora comunista do país, dirigida pelo militante histórico Ênio Silveira, e Edmar Morel, tendo servido ao famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da ditadura Vargas, soube adaptar-se rapidamente aos novos ares após a queda do ditador: ganhou do governo soviético uma viagem a Moscou, que relatou num livro de 1952. Ninguém ignora o que essas viagens significam na longa história das cooptações e recrutamentos.

Não é humanamente possível fazer a lista das publicações e produções que endossaram a tese de Edmar Morel. Praticamente nenhum jornal, canal de TV ou universidade no Brasil (e algumas no exterior) falhou em repeti-la com a constância de um devoto recitando preces jaculatórias. Mais recentemente, a tese ganhou o apoio de celebridades americanas, entre as quais Noam Chomsky, e, entre inumeráveis filmes que confirmavam a mesma versão dos acontecimentos, pelo menos um recebeu um prêmio nos EUA.

Tão vasta, contínua e prestigiosa unanimidade é de molde a desencorajar, no nascedouro, qualquer objeção que possa colocá-la em dúvida.[1]

No entanto, toda essa vistosa e idolatrada construção, em que se empenharam tantos cérebros, tantas verbas públicas e tantos patrocínios privados, é posta abaixo e reduzida a pó mediante uma simples pergunta: como é possível que a CIA tenha exercido tão profunda e avassaladora influência no curso da história nacional em 1964, se até agora não apareceu, na imensa bibliografia a respeito, o nome de um único agente daquela organização que estivesse lotado no Brasil na época? Nem unzinho só.

Como é possível tanta ação sem nenhum agente?

Inversa e complementarmente, a teoria moreliana do golpe de 1964 baseia-se na premissa — tão unânime e indiscutida quanto ela mesma — de que não havia nem séria infiltração comunista no governo João Goulart, nem o menor risco de uma revolução comunista, nem muito menos qualquer ingerência soviética nos assuntos nacionais.

A importância vital deste livro reside em que demole a porretadas esse mito, mostrando que, em contraste com a ausência total de homens da CIA operando no Brasil naquela ocasião, os agentes da KGB nas altas esferas da República eram, documentadamente, centenas, talvez milhares. O governo Goulart nunca foi senão uma ponta-de-lança do imperialismo soviético.

Mauro “Abranches” Kraenski, tradutor brasileiro residente na Polônia, que domina a língua polonesa e conhece suficientemente o idioma checo, e Vladimír Petrilák, colunista checo, não fazem aqui obra de polêmica, muito menos de acusação: lêem e resumem documentos de fontes primárias — sobretudo do serviço checo de inteligência, a StB — com extrema idoneidade científica e têm o cuidado de não sair carimbando ninguém de “agente da KGB”, nem mesmo quando há razões de sobra para fazê-lo, enfatizando, antes, que muitas pessoas mencionadas nesses documentos não passam de inocentes úteis, levados a colaborar com a subversão comunista sem seu pleno consentimento e às vezes sem clara consciência do que se passava. Ainda assim, o panorama que eles traçam da presença soviética no governo João Goulart ultrapassa as dimensões da mera “infiltração” e justifica falar, mesmo, de “ocupação”.

Sem nenhum exagero, a narrativa oficial de 1964 é uma inversão completa e cínica da realidade, dando foros de certeza ao que é mera conjetura, quando não invencionice, e ocultando montanhas de fatos decisivos.

Este livro, sozinho, vale mais do que toda a bibliografia consagrada sobre os acontecimentos de 1964. E uma pergunta que ele suscita inevitavelmente é: quanto dessa bibliografia não foi inspirado ou produzido, justamente, pelos mesmos agentes soviéticos aqui nomeados e fichados?

Antes mesmo das revelações aqui estampadas, os rombos da narrativa canônica já eram tão gigantescos que, para não vê-los, era preciso um considerável esforço de auto-hipnose.

Vinha, em primeiro lugar, a crença geral de que Goulart fora derrubado, não por ser um joguete nas mãos dos comunistas, mas por ser um patriota, um nacionalista, cujas “reformas de base” constituíam um acinte e uma ameaça aos interesses do capital imperialista.

Mas como podia ser isso, se o malfadado presidente jamais apresentou um único projeto de “reforma de base”, todas as iniciativas nesse sentido partindo do Congresso contra o qual ele tanto esbravejava?

Como observei em artigo de 25 de maio de 2014, a

lei mesma da remessa de lucros, que teria sido a “causa imediata” do golpe, só o que Goulart fez com ela foi sentar-se em cima do projeto, que acabou sendo aprovado por iniciativa do Congresso, sem nenhuma participação do presidente. Se a fúria do capital estrangeiro contra essa lei fosse a causa do golpe, este teria se voltado não contra Goulart e sim contra o Congresso — Congresso que, vejam só, aprovou o golpe e tomou, sem pressão militar alguma, a iniciativa de substituir Goulart por um presidente interino.[2]

Outro simulacro de prova em favor da tese da “intervenção imperialista” foi a ajuda que algumas entidades americanas — não a CIA — deram à resistência parlamentar e jornalística anti-Goulart. Ninguém, entre os que apelavam a esse argumento, fez jamais a seguinte pergunta: se os tais agentes do imperialismo ianque exerciam tanta influência sobre o Congresso e a grande mídia, reunindo condições para um impeachment do presidente, com uma transição legal e pacífica, por que iriam recorrer ao método traumático e desnecessário da intervenção militar?

Para sustentar que “o golpe começou em Washington” seria preciso provar, não que o governo americano ajudou a fomentar uma gritaria difusa contra a situação, mas que os agentes dele participaram ativa e materialmente da conspiração militar em si, entrando em reuniões secretas de generais e discutindo com eles os detalhes estratégicos e táticos da mobilização final. Mas, se não existe sequer indício da presença de um único agente da CIA no território nacional, como poderia haver provas de que essa criatura inexistente fez isso ou aquilo?

A tese consagrada mistura, numa síntese confusa mais conveniente aos objetivos da propaganda que aos da ciência histórica, a ação pública com a ação secreta, a atmosfera política geral com as iniciativas concretas dos militares e, fundindo tudo sob a mágica do símbolo “interesse imperialista”, enxerga uma autoria única e central por trás de processos não só diversos, como antagônicos.

De fato, quando o general Mourão partiu de Minas Gerais com suas tropas, ninguém, absolutamente ninguém num Congresso que estava ansioso para se livrar do incômodo presidente, tinha a menor idéia de que houvesse alguma iniciativa militar em andamento.

Longe de tramar o golpe, os americanos estavam, isto sim, apostando no que se destinava a ser e poderia ter sido uma alternativa parlamentar à intervenção militar.

No mesmo artigo citado, escrevi:

Todos os jornais do país, até hoje, usam como prova da cumplicidade americana (com o golpe) a gravação de uma conversa telefônica na qual o embaixador Lincoln Gordon pedia ao presidente Lyndon Johnson que tomasse alguma providência ante o risco iminente de uma guerra civil no Brasil. Johnson, em resposta, determinou que uma frota americana se deslocasse para o litoral brasileiro. Fica aí provado… que os americanos foram, se não os autores, ao menos cúmplices do golpe. Mas, para que essa prova funcione, é necessário escamotear quatro detalhes: (1) a conversa aconteceu no próprio dia 31 de março, quando os tanques do general Mourão Filho já estavam na rua e João Goulart já ia fazendo as malas. Não foi nenhuma participação em planos conspiratórios, mas a reação de emergência ante um fato consumado. (2) A frota americana estava destinada a chegar aos portos brasileiros só em 11 de abril. Ante a notícia de que não haveria guerra civil nenhuma, retornou aos EUA sem nunca ter chegado perto das nossas costas. (3) É obrigação constitucional do presidente dos EUA enviar tropas imediatamente para qualquer lugar do mundo onde uma ameaça de conflito armado ponha em risco os americanos ali residentes. Se Johnson não cumprisse essa obrigação, estaria sujeito a um impeachment. (4) As tropas enviadas não bastavam nem para ocupar a cidade do Rio de Janeiro, quanto mais para espalhar-se pelos quatro cantos do país onde houvesse resistência pró-Jango e dar a vitória aos golpistas.

A insistência obstinada numa tese impossível explica também o silêncio atordoante com que mídia e o establishment bem-pensante em geral receberam a revelação do então chefe da KGB no Brasil, Ladislav Bittman, de que essa mesma tese fora inventada pela própria espionagem soviética, mediante documento falso enviado a todos os jornais na ocasião.[3] De 2001 a 2014, várias vezes tentei, em vão, chamar a atenção da classe jornalística para o livro de memórias em que o agente checo[4] faz essa confissão explosiva.

O silêncio cúmplice, o comodismo, a mistura promíscua e obscena de jornalismo com militância esquerdista, conseguiram bloquear, por meio século, o acesso do povo brasileiro não só a fatos como a meras perguntas que pudessem abalar a mitologia dominante.

Mas agora a brincadeira acabou. Não só este livro memorável traz a prova cabal e definitiva do engodo, mas surge numa situação bem diversa daquela em que o país viveu nos últimos cinquenta e tantos anos. Hoje há um público mais consciente, que, desmoronada a farsa do comunopetismo, já não se verga, com mutismo servil, ante a opinião do beautiful people jornalístico e universitário.

O trabalho paciente e consciencioso de Vladimír Petrilák e Mauro “Abranches” Kraenski vai, com certeza, encontrar uma platéia atenta e sensível, madura para desprezar o argumentum auctoritatis e sobrepor, à lenda, a realidade.

 

Petersburg, VA, 25 de outubro de 2017.

 

Notas:

[1] Não preciso relembrar aqui os freqüentes e discretíssimos episódios de carreiras universitárias abruptamente encerradas pela ousadia de contestar esse ou qualquer outro dogma do credo esquerdista.

[2] V. www.olavodecarvalho.org/falsificacao-integral/.

[3] V. meu artigo “Sugestão aos colegas”, de 17 de fevereiro de 2001: www.olavodecarvalho.org/sugestao-aos-colegas/.

[4] Como se verá no presente livro, a KGB, nos países do Terceiro Mundo, não atuava diretamente, mas através dos serviços secretos dos países satélites; no Brasil, a StB, serviço de inteligência da Tchecoslováquia.

 

 

  • Hausberg Beers

    É chegada a hora! A memória de uma nação é seu bem mais precioso! Lançamento muito bem vindo e como disse mestre Olavo, aos ouvidos e corações sensíveis!
    Salve!

  • Ig Moura

    Caramba, que novidade boa. Mais um material descente pra explicar aos demais alienados que havia, e ainda há, indivíduos que trabalham para organizações com intenções subversivas.

  • Odilon Rocha

    Estaremos ansiosos, aguardando o livro.
    Excelente notícia!

  • Marcos Menezes

    Que mais pessoas possam ter acesso a esse conhecimento pois só o conhecimento pode fazer frente a cultura esquerdista.

  • Diodoro Cirino

    Maravilhosa notícia. A página https://www.facebook.com/brasilstb/ vem fazendo um excelente trabalho.

    Em relação ao excelente prefácio do professor Olavo, fiquei com a impressão de que trocaram a palavra “todo” por “nenhum” na seguinte frase:

    “Praticamente NENHUM jornal, canal de TV ou universidade, no Brasil (e algumas no exterior) falhou em repeti-la com a constância de um devoto recitando preces jaculatórias.”

    • Vavá

      Não, a frase tá correta. Nenhum jornal falhou em repetir a mentira = todos os jornais conseguiram repetir a mentira.

      • Diodoro Cirino

        Vavá, obrigado pela ajuda. Lendo agora sem sono consegui alcançar o pleno sentido da frase. Obrigado.

  • Rafael

    A participação americana no golpe é admitida por eles mesmos,inclusive há farta documentação a respeito,além de ser uma prática recorrente na América Latina,não é preciso tampar os olhos pra realidade,isso não tira o eventual mérito do livro.

    • Gustavo Costa de Oliveira

      tens uma bibliografia à mão pra me passar sobre a participação americana?

    • Sergio Russo

      Voce tem os nomes de brasileiros e americanos que participaram do golpe ? Uma coisa deste tamanho depende de muita gente e gente importante . Nomes por favor e pare com achismos.

      • Rafael

        Não é achismo, é história séria, sem teoria da conspiratória, alias a intervenção americana no continente é uma constante naquela época, porque no Brasil seria diferente? Não entendo a mania da direita brasileira de passar pano para os EUA e aos regimes autoritários que eles apoiaram nos anos 60/70.No livro que indiquei no comentário abaixo há os nomes que perguntou.

    • David Marques

      Ladislav Bittman já refutou tanto a participação americana no golpe quanto a tal “conspiração imperialista” sobre a América Latina em seu livro ‘The KGB and Soviet Disinformation: An Insider’s View’, de 1985. Tudo isso fazia parte da Operação Thomas Mann que incluía, entre outras coisas, a disseminação de correspondências falsas entre a embaixada americana no Brasil e o FBI.

      Até mesmo Elio Gaspari, que mesmo sem sequer mencionar Bittman nos cinco volumes de sua série sobre o regime militar, descarta a possibilidade da participação americana no golpe.

      • Rafael

        Vou anotar para ler esse livro. Ao que sei da história, há farta documentação sobre o dedo americano no golpe de 64, admitido por gente como o coordenador do Arquivo de Segurança Nacional dos EUA, Peter Kornbluh.e estudando a biografia de gente como Vernon Walters e Lincon Gordon, há influência clara junto ao oficialato golpista brasileiro. Fora isso, a história dos EUA e suas relações apontam para um país que intervem sistematicamente nos outros, não há motivo para ser diferente aqui.

    • Márcio Machado da Silva

      Esse petralha desse rafael bem que poderia cair fora daqui. É um petralha cujo cérebro foi corroído pelo droga do socialismo.

      • Luiz F Moran

        bloqueie esse “mortandela”, já fiz isso há muito tempo.

      • Rafael

        O senhor é tão doutrinado que não consegue nem raciocinar,a influencia dos EUA no Brasil é fato histórico que independe de qual lado ideológico está.

        • Márcio Machado da Silva

          Você é apenas um idiota útil!

          • Rafael

            Com fanático não se discute. Passar bem.

  • Felipe Toget

    Professor Olavo, o senhor é “o cara”!

  • Michael Forkert

    A CIA e a KGB sempre trabalharam em conjunto. A guerra fria foi uma simples encenação pra enganar as Nações. O FDR era um comunista. Os EUA ganharam a Guerra contra a Tirania Nazista. E entregaram todos os países “libertados” a União Soviética, melhor dizendo a um Tirano maior ainda chamado Stalin. E logo em seguida começou a Guerra Fria Fake, da democracia e liberdade contra a Tirania Soviética, Coreia do Norte, Vietnã e Cuba. Os EUA os santinhos libertadores e os países comunistas os demônios tiranos, terroristas e assassinos. Tudo FAKE, até hoje.

  • Osvaldo Pereira Júnior

    [Modo irônico on) Isso é teoria da conspiração. Onde já se viu isso. Esse Olavo é um louco. [Modo irônico off]

  • Luiz F Moran

    Caso vc tenha algum conhecido esquerdista, e que ainda mereça ser salvo, presentei-o com este livro.
    P.S. não esqueça de recomendar ao esquerdista que antes de lê-lo, vá ao banheiro e esvazie o cérebro, pois o mesmo não pode conter rastros de contaminação jumentícia.

  • Trader Binarias

    Quando juntarem mais informações, deveriam lançar também um documentário.

    • Rafael

      Tem : http//www.youtube.com/watch?v=RVnf3Ap7guQ

      • Márcio Machado da Silva

        Poderia ter durado mais tempo petralha!

  • Shirley Loos

    Não há verdade que não venha à tona cedo ou tarde. Quão desgraçados são. Mas hoje com a internet, a brincadeira acabou.

  • a Savaget from Portugal

    Quem me dera poder comprar esse livro em Portugal…

  • Fábio Miguel Peixoto

    Ansioso pela publicação da obra.

  • João Sena

    Com essa documentação revelada, por um pesquisador sério, sobre a invasão soviética no Brasil, acaba de vez esse mito de intervenção dos EUA. E outra, mesmo que os EUA tivesse invertido, seria bem vindo. Livrar o país da ameaça comunista, por si só é motivo de comemoração.

  • Nelson S. F. de Azambuja

    É preciso que sejamos avisados de quando esse livro estará no mercado e de que forma, para que possamos adquiri-lo, lê-lo e informar outras pessoas sobre sua existência. Essa informação é muito importante!