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Escalada de infâmias contra Julie Huynh

28 de junho de 2017 - 16:41:33

A violenta explosão no centro comercial Andino de Bogotá, em 17 de junho passado, que ceifou a vida de duas jovens colombianas e uma francesa, foi um atentado terrorista cujos autores ainda não foram capturados. Essa atrocidade monopolizou a atenção da opinião pública em um momento-chave: quando as FARC tinham as maiores dificuldades para dar crédito à sua versão de que haviam entregado a maior parte de suas armas à ONU, e quando o ex-presidente Álvaro Uribe realizava um exitoso giro pela Espanha para explicar a relação que existe entre os chamados “acordos de paz” entre o presidente Juan Manuel Santos e as FARC, e o atual caos político, institucional e econômico da Colômbia.

Como entre as vítimas fatais do atentado há uma estudante francesa, Julie Huynh, de 23 anos (foto), que durante sua curta visita ao país havia decidido dar aulas gratuitas em um bairro pobre de Bogotá, a imprensa informou que três serviços de inteligência franceses colaboram com a polícia colombiana no esclarecimento desse crime horrendo.

Porém, dois dias depois, antes que a investigação oficial revelasse os primeiros detalhes do atentado, uma página web, PanamPost, lançou um artigo no qual afirma, sem razão alguma, que há a “possibilidade” de que Julie Huynh tenha “participado do atentado”. Meu questionamento de tal texto foi publicado sem que essa publicação tenha respondido. Não repetirei o que disse nele. Quero me ocupar aqui de um segundo artigo que retoma, e agrava, essa linha geral difamatória contra Julie Huynh. Seu autor, o jornalista investigativo Ricardo Puentes Melo, publicou seu texto, “A bomba no Andino tem o selo das FARC”, em 20 de junho, na conhecida página web Periodismo sin Fronteras, que ele dirige.

Centro Comercial Andino, em Bogotá, alvo do atentado terrorista do dia 17 de junho, sábado.

Estou em desacordo com esse artigo.Ele inclui erros de fato e de análise e, sobretudo, emprega um método que todo jornalista deve condenar: a presunção de culpabilidade. A ética do jornalista exige o respeito do princípio contrário, o da presunção de inocência das pessoas. Se as circunstâncias não são claramente estabelecidas em um evento onde há vítimas, como ocorre com a matança do centro Andino, os jornalistas devemos ser prudentes e não designar, sem dispor de provas, os responsáveis.

Não aprovo o sistema utilizado pelo autor desse artigo. “Nessa primeira fase investigativa – diz ele – jamais cabe a ‘presunção de inocência’. Qualquer pessoa pode ser suspeita. Ninguém deve ser descartada por razões de sentimentalismo ou simpatia inicial (jovem, francesa, bonita, com a mãe, trabalho comunitário)”.

Todos os textos de deontologia jornalística dizem o contrário: o jornalista informa, expõe os fatos com rigor, de maneira exata e precisa, não é um auxiliar da polícia nem da justiça. Em matéria judicial, relata os fatos porém não assinala com o dedo, não diz quem é ou não suspeito, não valora as responsabilidades. O jornalista não é um detetive. Nos assuntos criminais ou delinqüenciais, procura não acusar as pessoas envolvidas pois elas podem ser vítimas ou atores involuntários. Sobretudo, o jornalista deve abster-se de opinar, ou de dar informações sobre a eventual culpabilidade de uma pessoa antes que haja uma decisão judicial. Isso faz parte da presunção de inocência, um princípio central de toda democracia. Deve também abster-se de dar notícias falsas, mesmo que outros meios de comunicação as tenham dado. Deve indicar suas fontes de informação, a menos que haja um motivo claro para não fazê-lo. O jornalista não deve atacar a reputação ou honra de uma pessoa sem dar a ela o direito de se defender. Até a polícia dos países democráticos respeita a presunção de inocência. Só a polícia dos regimes ditatoriais apela à presunção de culpabilidade.

Ao escrever sobre o que ocorreu em 17 de junho em Bogotá se deveria ser prudente, sobretudo sobre a relação de causa-efeito do atentado e das atuações dos atores envolvidos. Todo jornalista sabe que inclusive as coisas mais evidentes podem ser enganosas, principalmente em matéria de terrorismo, pois uma parte do ato terrorista consiste em corromper os indícios, obscurecer as pistas para obstruir a justiça.

Neste caso, Ricardo Puentes designou “a francesa” como a pessoa que provavelmente, diz ele, levou a bomba ao centro Andino. Sobre que base ele lançou essa tese? Sobre nenhuma. Ele não invoca fatos senão a ocorrência de três “circunstâncias”: 1. que Julie Huynh foi a primeira pessoa que morreu no atentado; 2. que ela havia trabalhado como cooperante estrangeira de uma ONG bogotana que pode ser de esquerda e 3. que ela havia feito uma curta viagem a Cuba.

Nenhuma dessas “circunstâncias”, nem a somatória delas, permite lançar uma acusação tão violenta como a que ele lançou contra uma pessoa falecida que não pode se defender. Essa acusação é um erro e um horror.

Em seu artigo há informações falsas, dados não verificados e fontes não pertinentes. Ricardo Puentes diz haver consultado “três experts em terrorismo e explosivos do FBI”. Porém, esses experts anônimos “do FBI” não eram consultáveis: não estavam em Bogotá nem examinaram a cena do crime. Esses “experts” tinham, ao contrário, uma bola de cristal. Tinham, parece, certezas sobre o atentado: quem levou a bomba, quem a manipulou, onde ia ser colocada. Chegaram a ver que a bomba “não ia ser ativada no banheiro”. A pessoa que levou a bomba ao Andino era, segundo esses experts, a desditosa Julie. Sobre os resultados da explosão e a magnitude da tragédia se mostraram insatisfeitos pois, segundo eles, “esse dano não seria efetivo no local onde finalmente explodiu”. Esse dano não foi “efetivo”? Três pessoas mortas já não era demasiado?

Duas suposições mais foram apresentadas como fatos: que a bomba era “do tipo utilizado pelo ETA”, o que negam os primeiros indícios recolhidos. A segunda consiste em dizer que “o governo francês quer excluir a jovem francesa de qualquer investigação”. Que fonte disse isso? Puentes não diz. Os serviços franceses não costumam fazer exclusões a priori, sobretudo no começo de uma investigação.

“Até que não se demonstre o contrário, Julie Huynh não pode ser descartada como principal suspeita”, insiste Ricardo. Ele está consciente do alcance dessa frase? Puentes faz da vítima uma refém a longo prazo, a prisioneira póstuma de uma investigação penal que pode durar meses ou anos. Ele inverte o ônus da prova. O enfoque deve ser muito distinto: a inocência de Julie é indiscutível até que um juiz demonstre o contrário. Desde já, os restos da jovem, sua honra e sua memória devem ser tratados com respeito. Ela é uma vítima e não um verdugo.

O mais detestável desse artigo é o amálgama que Ricardo Puentes, baseado apenas em sua convicção íntima, emprega para “demonstrar” o caráter “suspeito” de Julie Huynh. Ele afirma que Julie Huynh tem “o perfil de várias terroristas sanguinárias”. Essas terroristas, no texto de Puentes, são três: Lori Berenson, Natalie Mistral e Tanja Nijmeier. Essa pessoas têm sim um verdadeiro passado e presente criminoso que ninguém põe em dúvida. Entretanto, Ricardo Puentes acredita ver em Julie Huynh uma espécie de clone dessas três criminosas irredutíveis pelo simples fato de ter ido ao centro Andino, “um local odiado” pelos esquerdistas, por ter viajado durante uma semana a Cuba e por ter ajudado uma ONG de Bogotá que se ocupa provavelmente de ex-guerrilheiros que tratam de se reinserir na sociedade.

Se Puentes queria afirmar que Julie Huynh tem “o perfil de várias terroristas sanguinárias”, ele tinha a obrigação de expor os atos criminosos que ela chegou a cometer em sua vida, pois as reprovações que ele lhe faz, a teoria das três “circunstâncias”, estão muito longe de constituir sequer uma infração civil.

É, pois, inaceitável que Ricardo Puentes, em seu afã acusatório contra a jovem despedaçada pela bomba no centro Andino, tenha trazido à memória a história de três criminosas muito reais.

Que relação pode haver entre Lori Berenson – uma terrorista americana que passou quase 20 anos encarcerada no Peru por ter militado com o movimento MRTA (Movimiento Revolucionario Túpac Amarú) -, e Julie Huynh? Nenhuma. Não há nenhuma relação. Não há um só vínculo, nem direto nem indireto entre essas duas pessoas. Todavia, Ricardo Puentes acreditou que podia aproximar o nome da vítima francesa ao trio fatídico – Berenson, Mistral e Nijmeier -, e concluir que Julie Huynh tem “o perfil [dessas] terroristas sanguinárias”.

Para completar a indecência, Ricardo Puentes acrescentou esta frase: “Do mesmo modo que sua paisana Julie, para Natalie [Mistral] seu lugar predileto para viajar era Cuba”. Falso. Cuba não era o “lugar predileto” de Julie. Ela foi a Cuba uma vez e em sua curta existência viajou por uma dezena de países, inclusive Estados Unidos. Como uma “terrorista”, como a descrevem em PanamPost e Ricardo Puentes, pôde entrar e sair facilmente dos Estados Unidos?

Como os esforços de construção de monstros têm efeitos, logo começou a correr na blogsfera outra história. Desta vez, a acusação contra Julie Huynh deu passagem a outra imputação: contra a senhora Nathalie Levrand, mãe da defunta. Alguém, por má-fé ou por erro, tomou o que Ricardo Puentes havia escrito em seu artigo sobre Lori Berenson e o atribuiu, tal qual, à mãe da estudante. O texto que circula diz assim: “O prontuário da mãe da jovem sugere várias conclusões. A mãe havia nascido em Nova York e colaborou com o Movimento terrorista Túpac Amarú. Era antropóloga e foi recrutada pela esquerda para trabalhar com setores radicais da Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Trabalhou fazendo serviço de voluntariado social em El Salvador, foi professora de inglês em povoados pobres da América Central. Depois foi enviada para trabalhar no Peru. Fez trabalhos terroristas para a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Seu disfarce era esse: ser voluntária e ajudar a população pobre. Ter uma filha não lhe impediu de colaborar com o terrorismo. Integrou a filha como parte perfeita de sua camuflagem de trabalhadora social”.

Nada disso é certo. Porém, esse foi o resultado necessário de ter dito que Julie Huynh tinha “o perfil de várias terroristas sanguinárias”. Alguém pode acreditar que semelhante manipulação contra a mãe da cooperante não era de se esperar após a frenética agitação feita nas redes sociais contra a jovem francesa?

Embora seja certo que Ricardo Puentes não escreveu essas linhas contra a mãe de Julie, é indiscutível que abriu-se a via para que outras pessoas, exaltadas ante a culpabilidade proclamada da vítima francesa, circulassem essa nova calúnia. Assim, o que havia começado como uma acusação contra a estudante em seguida passou para a mãe dela, outra vítima da explosão no centro Andino. Onde isso tudo vai parar? Assistimos, em conseqüência, a uma verdadeira escalada da infâmia.

Ao final de seu artigo, Ricardo Puentes dá alguns conselhos à Polícia: “Deve-se investigar as outras vítimas”. Quer dizer, as três mulheres mortas e as outras pessoas feridas. Ele não pede para seguir outras pistas, como o testemunho de Richard Emblin, um jornalista inglês, sobre a presença de um homem no banheiro das mulheres instantes antes da explosão, citado pela revista Semana, nem sobre a caminhoneta blindada da empresa Prosegur que estava na entrada do centro comercial antes do atentado, nem sobre o que dizem os retratos falados, nem sobre o que contam outras pessoas que estavam perto do banheiro das mulheres.

No final de seu artigo Ricardo Puentes escreve: “Nossas condolências às vítimas da bomba do Centro Andino, inclusive à família de Julie Huynh, mesmo no caso em que ela estivesse envolvida”. A zombaria mal é percebida. Porém está lá. Dá os pêsames insistindo em que a morta pode ser culpada. Que cortesia mais estranha.

Me é muito doloroso escrever estas linhas. Não reconheço Ricardo Puentes Melo nesse artigo. Ele é um jornalista valioso. Realizou investigações exemplares. Seus descobrimentos sobre o caso do Palácio de Justiça de Bogotá foram decisivos para derrotar um dos maiores erros judiciais do país e para demonstrar a inocência do Coronel (r.) Luis Alfonso Plazas Vega. Ricardo está no exílio pelas perseguições que sofreu por causa de seu trabalho jornalístico e da independência de seus editoriais. Não tenho o direito de esquecer isso.

É tal a pressão que existe sobre os jornalistas colombianos, sobre todos aqueles que vemos com angústia a destruição dos equilíbrios da Colômbia e o avanço das FARC ao poder graças ao falso processo de paz de Santos, que alguns vêem atores terroristas em todas os lugares e encarnados em pessoas inocentes.

Não entendo como Ricardo pôde pensar que acusar a primeira vítima do atentado de 17 de junho sem provas, poderia alertar a opinião pública e os investigadores sobre o eventual papel das FARC ou de outros grupos subversivos nessa atrocidade e na nova onda terrorista que os bogotanos estão sofrendo. Ricardo Puentes provavelmente caiu na ilusão de ótica da velocidade, da facilidade que oferecem os meios sociais, Google, Facebook, Twitter para reunir dados e veicular idéias. Acreditar que lançar frases apressadas, graças às aplicações digitais e antes dos demais, para conseguir um efeito de influência sobre a opinião pública, é um erro. Os jornalistas deveríamos nos distanciar desse credo e retomar os métodos comprovados e menos espetaculares de nosso ofício.

Parece-me que, como exige a deontologia dos jornalistas, o erro cometido por Ricardo Puentes ante as pessoas de Julie Huynh e Nathalie Levrand, deveria ser admitido e retificado publicamente.

Tradução: Graça Salgueiro

 

  • Steven Krutszys

    Tá, mas não devemos descartar a possibilidade de que as FARC contrataram a jovem em comento para executar o atentado e por algum motivo a mesma acabou sendo vitimada pelo mesmo.