1. Estados Unidos

Um de nós

15 de abril de 2009 - 22:01:22

 

Que os esquerdistas estivessem eletrizados com outro esquerdista não é surpresa. Mas há republicanos conservadores que votaram em Barack Obama e outros conservadores que podem não ter votado nele, mas que vêem várias atitudes pragmáticas do presidente como indicação de que ele não é um extremista.

 

Qualquer um com um mínimo de conhecimento de história sabe que Hitler e Stalin foram pragmáticos. Depois de anos de denúncia mútua, eles assinaram o pacto nazi-soviético,[1] sob o qual se tornavam aliados por poucos anos antes de irem a guerra um contra o outro.

 

Pragmatismo nada diz sobre extremismo. Mas os intelectuais conservadores que se apegaram ao pragmatismo do presidente Obama para lhe darem o benefício da dúvida estão recuando por alguma razão.

Com a governadora Palin é justamente o contrário. A intelligentsia conservadora[2] que reagiu contra ela tem surpreendentemente pouca coisa a dizer que suportaria um escrutínio. As pessoas que tiveram contatos reais com ela, antes de ela se tornar uma figura nacional, contam o quanto ficaram impressionados com sua inteligência.

A “inexperiência” da governadora Palin é um assunto que teria alguma plausibilidade não fosse o fato de Barack Obama ter muito menos experiência que Sarah Palin. Joe Biden tem décadas de experiência tanto em estar consistentemente errado quanto em ser uma fonte de afirmações estúpidas.

A candidatura da governadora Palin como vice-presidente foi o que galvanizou os republicanos de um modo que John McCain nunca conseguiu. Mas havia algo sobre ela que fez mesmo certos intelectuais conservadores se posicionarem contra ela e que provocou a ira visceral nos intelectuais esquerdistas.

A melhor maneira para tentar entender essas reações talvez seja relembrar o que Eleanor Roosevelt disse quando viu pela primeira vez Whittaker Chambers, que tinha acusado Alger Hiss de ser espião da União Soviética. Depois de ver o desengonçado, gordo e desgrenhado Chambers, ela disse, “Ele não é um de nós.”

O elegante, ereto e impecavelmente vestido Alger Hiss, com seu pedigree Ivy League[3]/ New Deal, era claramente “um de nós”.  Pelo que se viu depois, ele era também um mentiroso e um espião a serviço da União Soviética. Além de um jure condená-lo naquele momento, mais tarde, quando os arquivos secretos da União Soviética foram abertos, mais evidências de sua culpa foram então encontradas.

A confrontação Hiss-Chambers de mais de meio século atrás produziu o mesmo tipo de polarização visceral que a governadora Sarah Palin provoca hoje.

Antes de começar o primeiro julgamento de Alger Hiss, os repórteres que se aglomeravam na porta do Fórum fizeram um levantamento informal sobre quem eles acreditavam, antes que qualquer evidência fosse apresentada. A maioria acreditava que Hiss estava dizendo a verdade e que era Chambers o mentiroso.

E o mais importante é que aqueles repórteres que acreditavam que Chambers estava dizendo a verdade foram imediatamente proscritos. Nenhum dos repórteres poderia ter se baseado em evidências em favor de qualquer dos lados, pois elas ainda não haviam sido apresentadas.

Por décadas depois da condenação e da prisão de Hiss, a maior parte da mídia e da intelligentsia ainda o defendia. Mesmo hoje, há uma Alger Hiss chair[4] no Bard College.

Por que importava tanto a tanta gente qual dos dois homens previamente pouco conhecidos estava falando a verdade? Porque o que estava sendo julgado não era um homem, mas toda uma visão de mundo e de forma de vida.

A governadora Sarah Palin é tanto um desafio quanto uma afronta àquela visão e àquela forma de vida – um desafio cuja validade já expirou há tempos, tal como o desafio de Chambers.

Só o tempo dirá se a governadora Palin concorrerá de novo a um cargo nacional. Mas os republicanos precisam de alguns candidatos que não sejam nem do “clube” republicano nem – pior ainda – o tipo de pessoa que apele para a intelligentsia.

 

Publicado por Townhall.com

Tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo.

[1] Pacto Molotov-Ribbentrop. (N. do T.)

[2] O lado conservador também tem sua intelligentsia, que é tão idiota quanto a da esquerda. É preciso ser um intelectual do porte de Sowell para ter o discernimento e a coragem de dizer isso. (N. do T.)

[3] Como são conhecidas as oito mais prestigiosas universidades americanas (Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Pennsylvania, Princeton e Yale) que tem um acordo acadêmico de amplo espectro desde 1916. (N. do T.)

[4] Chair é um cargo honorífico nas universidades americanas que homenageia uma grande figura, na maioria das vezes acadêmica. Professores ocupam essa chair [cadeira] como os membros da Academia Brasileira de Letras ocupam as cadeiras dos patronos fundadores. (N. do T.)