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Por que a Rússia está por trás dos ataques com armas químicas na Síria?

26 de abril de 2017 - 15:44:08

O regime autoritário russo de Vladimir Putin está por trás dos ataques com armas químicas contra a população civil síria na localidade de Idlib, por razões estratégicas, políticas, geo-políticas e da tradicional guerra psicológica russa de amedrontar o adversário para forçá-lo a agir à sua maneira.

1. Não é segredo para ninguém que a atitude débil e parcimoniosa de oito anos da administração Obama e os inocultados laços de aproximação de altos funcionários russos com a campanha presidencial do magnata Trump, estimularam o ego e a atitude desafiante de Putin e seu séquito para se posicionar forte na Síria, defendendo um ditador brutal e assassino com o propósito real de tomar o controle geo-político da entrada norte-oriental do Oriente Médio, o ocidente da Ásia Menor e a presença militar co-ativa de Moscou no Mediterrâneo ao sul-ocidente da Europa Ocidental. Nesse sentido, a Síria é o cruzamento de caminhos para pontos nevrálgicos da geo-estratégia em toda a região.

2. A Rússia não atacou o ISIS nem está em seus planos imediatos fazê-lo, senão que permite que os Estados Unidos o façam para depois negociar cara-a-cara, não a saída de Bashar Al Assad mas a possessão da Síria.

3. A Turquia tem altos interesse geo-políticos e geo-estratégicos sobre a Síria, razão pela qual a Rússia tenta minimizá-la e alinhá-la contra os Estados Unidos e Europa, em que pesem as dificuldades que Ankara e Moscou tiveram.

4. A Rússia é o fornecedor de armas de todos os tipos à Síria, inclusive as armas químicas que estão proibidas pelas leis internacionais. Porém, assim como os russos violam esses acordos de armas de destruição em massa (categoria que inclui as químicas, biológicas, radiológicas e nucleares), também é certo que milhões de fuzis Kalashnikov, mais conhecidos como AK-47 de fabricação russa, circulam pelo mundo e são a principal arma de dotação de todos os grupos terroristas e de governos tiranos contra seus próprios povos.

Chama a atenção que as guerras consomem muitas munições de AK-47 e é sintomático que nunca lhes faltam aos terroristas, quer dizer, que a Rússia continua alimentando os mercados negros com toneladas de munições para AK-47.

5. A situação política interna da Rússia é tensa devido à vulnerabilidade permanente de direitos humanos e as perseguições políticas contra opositores, então, o mais prático para Putin é procurar guerras no estrangeiro, agredir os Estados Unidos e a Europa com ameaças e desafios, pois isso ganha a atenção de muitos russos e revive a aparência stalinista de unidade pela pátria grande agredida pelo Ocidente.

6. De outra parte, desde antes da revolução bolchevique a Rússia foi pioneira e a ponta de lança da guerra psicológica com propaganda e ações de terror contra seus adversários. Não é novidade que o Kremlin acuda a crimes aterradores para se posicionar e intimidar.

7. Por ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e dada sua cumplicidade em muitos aspectos com a China, Putin sabe que pode cometer este tipo de atos de barbárie, pois nessas condições ele nunca será condenado na ONU. Entretanto, a China joga a dupla moral de impulsionar a Coréia do Norte para amedrontar o Japão, quando todo mundo sabe que a ONU nunca poderá tomar medidas concertadas contra Pyongyang.

8. A Rússia move os fios secretos do crescente projeto atômico iraniano e utiliza este estratagema para obrigar os Estados Unidos a não agir contra Teerã, que na prática é o aliado chave do Irã, Síria e Hizbolah no projeto geo-estratégico do arco shiita que separe o Golfo Pérsico do Mediterrâneo e abra um espaço amplo de incidência russa no Oriente Médio, o norte da África e a Ásia Menor.

Nessa ordem de idéias o desafio para os Estados Unidos, a União Européia, Austrália, Israel e os demais países ocidentais, é pôr a Rússia e a China em seu lugar, enquanto a diplomacia e a clareza mental evitam uma confrontação de proporções imprevisíveis, que é precisamente o que a Rússia tenta advertir que viria, se não se acatam suas imposições. E para isso reforça diariamente seu amplo poder militar.

Assim, a população civil síria é um peão do xadrez que Moscou joga contra o Ocidente, e um elemento sem valor humano útil para as ambições geo-políticas e geo-estratégicas da Rússia, com a vista grossa das nações ocidentais que parecem não dar crédito a esta realidade.

Especialista em geo-política, defesa nacional e estratégia
www.luisvillamarin.com

Tradução: Graça Salgueiro