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O liberalismo chinês

9 de janeiro de 2018 - 23:52:01

Por Nivaldo Cordeiro

Xi Jinping, para o assessor: “Agora precisamos povoar as cidades fantasmas. Eis a nova política de 2 filhos.”

Certos liberais estão apegados ao sucesso econômico da China como se ali tivéssemos a prova empírica das verdades liberais, um suposto triunfo do liberalismo. Um grande equívoco. O liberalismo chinês é, no dizer de Mark Lilla, um “mercantilismo despótico”. Despótico sim, porque o regime político chinês é de partido único, sem independência do Legislativo e do Judiciário. Tudo é de cima para baixo. Um belo dia o dirigente decidiu abrir o país aos investimentos estrangeiros e fez da China uma plataforma de exportação. Obviamente isso não é capitalismo, é o velho mercantilismo de guerra, tanto assim que o país acumulou uma fortuna em saldos comerciais, que parece ser o seu objetivo permanente. Acumula mais papel-moeda norte-americano a cada período.

A China juntou três ingredientes que a tornaram imbatível no mercado internacional: mão de obra barata, baixos impostos e câmbio “administrado”, artificialmente baixo. Ninguém consegue competir com os produtos produzidos na China. Sem esquecer que conta com a tecnologia ocidental em quase tudo, sem ter concorrido para produzi-la. Virou uma máquina de exportação de muito sucesso, mas isso é insuficiente para fazer da sociedade chinesa um ente liberal. E conta também com baixa taxa de regulação, facilitando a vida das multinacionais que lá produzem e barateando ainda mais os seus produtos.

Obviamente que a experiência chinesa não confirma a ideologia liberal, centrada no indivíduo e no Estado mínimo. Poderíamos dizer que na China vige o Estado mínimo? Jamais diríamos isso de uma sociedade comunista, mesmo que nominalmente a participação do Estado no PIB seja baixa. O paradoxo é compreensível porque quem manda é o agente do partido, mesmo que a empresa seja, por alguma forma, tida como privada. Quanto ao individualismo, basta ver a foto do último congresso do partido comunista: todo mundo (os delegados) vestido igual, cabelo pintado igual e incapaz de sorrir, pois é a seriedade do partido que os torna iguais. Uma caricatura de evento democrático.

O espanto é a paixão com que certos liberais, ignorando os fatos óbvios, declaram o crescimento da China como vitória do liberalismo. Teve um, amigo de antigos duelos de ideias, que chegou a mandar para mim o mapa do metrô de Pequim, construído recentemente, como a provar a sua prosperidade liberal. Retruquei que qualquer Odebrecht da vida pode construir metrôs, os mais bonitos, mas não a liberdade. Os faraós também construíram pirâmides! É bem conhecida a queda dos déspotas pela arquitetura monumental, os exemplos são sobejos ao longo da história. A própria muralha chinesa é uma relíquia que prova que grandes projetos arquitetônicos mais provam o despotismo de uma sociedade do que sua liberdade.

Obviamente que o ciclo de desenvolvimento chinês passa por um pico e não vai durar. Há o ciclo econômico inexorável e só o capitalismo soube lidar com ele, pelo método da “destruição criadora”, que mantem o processo de desenvolvimento de maneira orgânica, trazendo sempre de volta novos picos de desenvolvimento. Sem contar a impossibilidade orgânica de formação de preços quando há interferência política no processo econômico. O desenvolvimento chinês tem pés de barro e mais depõe contra o liberalismo do que a seu favor.

Eu me recuso a ver justificativa para a tirania pelo processo econômico, porque sei que ele não dura. É uma riqueza com data para desaparecer. Contra isso se insurgiram os liberais clássicos que fizeram ciência justamente para mostrar que o mercantilismo não tinha futuro e que liberdade política rimava com liberdade econômica. Eles ensinaram que o Estado é o mal por definição e precisa ser mantido em seu tamanho mínimo. Recusar essa lição dos pais do liberalismo é destruí-lo. Toda ciência econômica, que é liberal (o marxismo é pura enganação), desmoronaria se se aceitasse a experiência chinesa como válida para a causa liberal. Enriquecer não é liberalizar. O certo é ver o fato como é: a China moderna é um produto do mercantilismo despótico que até pode ser ameaçador, na medida em que todo despotismo tende a ser imperial e expansionista.

 

José Nivaldo Gomes Cordeiro, colunista do MSM, é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), ocupou vários cargos na administração federal, e hoje é empresário em São Paulo.

www.nivaldocordeiro.net

 

  • Otavio

    No texto : “Sem esquecer que conta com a tecnologia ocidental em quase tudo, sem ter concorrido para produzi-la.”. Pra mim, isto é o mesmo que PIRATARIA !

    —xxx—

    Trabalhei por uma década em uma telecom famosa. Tinha chegado a hora de renovar a rede para 4G e começar as cotações. As maiores fornecedoras de 4G do mundo estavam no páreo.
    Aí chegou um chinês, com um equipamento 4G que era 100% pirateado da CISCO.
    Ele vendia a 30% do valor das concorrentes e, além disso, fazia um “sambarilove” com um banco chinês, financiando o equipamento baratíssimo por 10 anos a uma taxa de 2,00% ao ano. Os outros fornecedores faziam em até 24x com o preço normal (quase o triplo do chinês).

    Não preciso dizer o que aconteceu, né ?

    • Robson La Luna Di Cola

      Sacanagens existem dos dois lados. Na China shingling, e nos OLIGOPÓLIOS das grandes corporações globais. Que estabelecem preços mínimos para negociação.

      • Seu Zé

        oligopólios que contaram com a ajuda de governantes

        • Robson La Luna Di Cola

          No caso das grandes empreiteiras, envolvidas nos projetos de infra-estrutura, sim! Mas existem as sacanagens específicas do “livre” mercado. Trabalhei muitos anos na área de projetos e construção de fábricas. Quando eu cotava equipamentos de processo em vários fornecedores, percebia que os preços ofertados eram muito parecidos, mesmo no caso de diferenças grandes na qualidade do produto oferecido. Perguntei à um amigo meu, que trabalhava em uma dessas empresas fornecedoras, e ele me confidenciou: vários fornecedores estavam envolvidos em um esquema de cotações, onde os preços eram organizados para que o mais barato fosse a empresa que estava determinada a vencer a concorrência naquele momento. Depois, seria outra empresa. E assim sucessivamente. Não havia competição nenhuma. As vendas era distribuídas entre todos os membros do oligopólio. Mundo real.

          • Newton (ArkAngel)

            O mesmo ocorre em relação aos empregos. Existe um acordo não-oficial entre empresas do mesmo ramo para impor um teto aos salários.

        • A economia liberal é auto-destrutiva porque tende ao monopólio.
          Livre-concorrência funciona no varejo de produtos com pouca tecnologia agregada e/ou de baixo custo, mas quando se trata de grandes corporações e alta tecnologia a empresa de maior aceitação impõe seus padrões e destrói ou compra as empresas menores.
          O exemplo mais fácil de se constatar isso é a indústria automotiva: várias marcas de automóveis já desapareceram ou foram compradas e fazem parte de um mesmo grupo hoje em dia.

          • Alexandre

            Todos vocês falam com bastante propriedade. Engraçado que o mundo continua indo pro buraco.

  • Rafael

    Paralelo ao texto, Henry Kissinger tem um livro sobre a China que é bem interessante.

  • Osvaldo Pereira Júnior

    A China não é uma ameaça ao ocidente. A ameaça ao ocidente são os próprios governos ocidentais.

    Para que a China continue crescendo ela precisará ter para sempre uma mão de obra barata e para ter uma mão de obra barata ela precisará de continuar tendo uma população grande e para ter uma população grande ela terá duas opções.

    1- O ocidente continue abortando e incentivando o homosexualismo para nunca conseguir alcançar em números a população chinesa.

    ou

    2- A própria China proibir o aborto caso o ocidente também proíba no futuro. O primeiro sinal disso pode ter sido o fim da política de filho único por lá. A China portanto pode estar ensaiando uma futura e possível proibição do aborto como a própria Rússia já está estudando essa possibilidade.

    Caso o ocidente proíba o aborto e acabe com a disseminação da ideologia de gênero voltando a fortalecer a cultura cristã a população ocidental voltará a crescer naturalmente e a China estará acabada. Portanto o ocidente só será subjugado pela China se ele quiser.

    • Otavio

      Osvaldo : Eu pessoalmente acho IMPOSSÍVEL o ocidente criminalizar e proibir o aborto. Veja que a ONU/UNICEF/UNESCO/OMS tem sim é uma política pró-aborto, pró-homossexualismo, pró-pedofilia, pró-liberação-das-drogas, etc…

      Se a ONU não existisse, aí com certeza, sua teoria estaria 100% validada.

      • Osvaldo Pereira Júnior

        Eu também acho muito difícil e por isso que eu considero a elite ocidental suicida e sem projeto de domínio global de longo prazo.

        Se a elite ocidental continuar nesse caminho ela será dominada dentro de alguns séculos pelos chineses.

    • Liliane Carlos

      A China não vai proibir o aborto porque a política de dois filhos requer que o terceiro seja abortado.

  • Rodrigo Oliveira

    O texto da a entender que a economia da china irá desmoronar, porem a china não é somente mão de obra barata e baixos impostos. O maior triunfo da China hoje é a tecnologia, inclusive estão mais adiantados na computação quântica comparado as grandes potencias tecnológicas.

    • Alexandre

      O pessoal é meio apocalíptico.

  • Otavio

    Alguem aqui do MSM já tinha indicado este vídeo aqui abaixo. Muito interessante :

    https://www.youtube.com/watch?v=pbDeS_mXMnM

  • Marcos Pereira

    A China, comunista que de fato é, abusa do dito:”ME ENGANA QUE EU GOSTO”.
    A questão grave que se apresenta, enquanto enganam, mentem ( DNA Comunista), estão fazendo o que comunista mais sabe fazer: Destruir, destruir as economias ocidentais, que operam na Sociedade de Mercado(evitem utilizar o termo “capitalista” pois, é de origem comunista). Nosso país é um caso emblemático da imoralidade chinesa, associada ao compadrio dos partidos de esquerda com a China: A mais escancarada e absurda guerra assimétrica, potencializada por traidores com o coroné aí que apresentamos após o “ponto”. China Gomes, teve reunião no Brasil com o ps chines, o tal de romero jucá foi lá, como temer, lamber as solas dos sapatos chineses, e não brasileiros de xi jinping. Lá se pode construir super hidroelétricas sem problemas com as malditas, esquerdistas (?) licenças ambientais : Três Gargantas, 22.000 MW, 200m de altura, destruindo cidades, florestas; aqui a porcaria de Belo Monte, 11.000 MW, reservatório poça. Sabemos que comunistas, só pensam na causa, são contumazes traidores da pátria. Quase conseguiram destruir o Brasil. Isto para implantar a Pátria Grande, sem nenhuma dor de consciência (do tipo: os brasileiros que se lasquem), smplesmente por culto à duas seitas: Ao Partido e ao Ateísmo. Felizmente não precisa pensar muito, para concluirmos que essa raça e essa ideologia não tem espaço no futuro glorioso, que é o destino de qualquer planeta habitado.

  • Francisco A. Lobo

    Ter vantagem econômica por ter uma população em crescimento garanto que não é porque a robotização junto com a inteligência artificial estão a todo vapor no ocidente..

    • Alexandre

      Quem assim seja.

  • Fernando

    Mão de obra barata foi eufemismo para mão de obra escrava.

    • Odilon Rocha

      Exato. E cadê a OIT? Cadê a ONU? Tudo embuste e enganação. A China com a sua descomunal demanda – ainda!, mas que uma hora vai diminuir ou estabilizar – traz enormes lucros a maus capitalistas, pois com isso se tornam detratores desse sistema responsável por tirar da pobreza milhões de pessoas.

    • Alexandre

      Quanto ganham os chineses e qual o custo de vida lá?

  • Odilon Rocha

    Excelente exposição do Nivaldo Cordeiro.
    O capitalismo chinês é um embuste e, em parte, uma necessidade (?).
    Com uma população acima do bilhão tiveram que achar uma solução. Sem abandonar o comunismo (controle cerrado da população e dos meios de produção) buscaram no compadrio com o capital estrangeiro uma forma de se manter como potência, bem como resolver seus problemas econômicos, internos e externos.
    O funcionalismo público, a máquina estatal para manter a China sob rédeas gira em torno de 120 milhões, em numeros redondos, do Presidente ao último funcionário na hierarquia.
    Nada como se valer do “capitalismo” para poder pagar essa massa humana e seus privilégios.
    Assim, funcionalismo público, uma casta, mancomunados com uma elite privada, empresarial e financeira, interna e externa, vão conduzindo uma enorme população no relho, a despeito de reais intenções expansionistas, sem dúvida.
    O autor do artigo tem razão em dizer que tudo isso tem um limite. E enfrentará um problema futuro: abandonar ou não o comunismo?

  • Wanderson Pereira

    Todo o mapa da China é bem imóvel pertencente ao Partido Comunista, não existe direito de propriedade por lá. Um chinês paga pelo direito ao usufro de, no máximo, 70 anos. Depois o imóvel é devolvido ao Partido Comunista Chinês. Por este e por outros motivos é que existem cidades fantasmas como essas por lá.

    • Alexandre

      Aqui com o nosso IPTU não é muito diferente. A alíquota é de 1%, em 100 anos pagou-se o valor do próprio imóvel ao governo. Somos os sujos falando dos maus-lavados.

  • marcelo almeida

    A China é globalista e não globalizante. A globalização é um fenômeno econômico natural de expansão dos mercados, enquanto o globalismo é uma nova ordem mundial com um poder político único e uma religião única, estando o poder econômico e político nas mãos de uma elite autoritária.