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Eu propus à OTAN enfrentar um ditador

4 de outubro de 2017 - 0:00:34

Em 2 de maio de 2017, recebi uma carta bastante atenciosa do Diretor da Comissão Política da Assembleia Parlamentar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (conhecida como AP-OTAN) perguntando se minha organização, Middle East Forum, “poderia organizar uma série de reuniões e discussões “com os membros da assembleia.

Para aqueles, como eu, que não estão familiarizados com a AP-OTAN, trata-se de “um fórum exclusivo especializado de membros do parlamento da Aliança do Atlântico para discutir e influenciar as decisões sobre a segurança da Aliança”. A Comissão Política “está focada em todas as questões políticas relativas à segurança da OTAN e de seus países membros e parceiros”.

O Middle East Forum rapidamente concordou em organizar a reunião marcada para 19 de setembro no Independence Mall na Filadélfia, e começou a convidar especialistas a fim de informar os 26 membros do parlamento de 12 países, abrangendo da Noruega à Turquia, da Polônia à Portugal. Dada a centralidade da Turquia tanto em relação ao conflito sírio quanto à questão mais profunda da missão da OTAN (ela, Turquia, luta contra o islamismo como outrora lutava contra o comunismo?), convidamos representantes de duas facções turcas da maior importância, ambas islamistas: o governo de Recep Tayyip Erdoğan e o movimento de Fethullah Gülen.

Material de propaganda distribuído pelos delegados turcos na reunião da Assembleia Parlamentar MEF-OTAN.

(Ambos eram aliados próximos até há alguns anos, agora o governo acusa Gülen de levar a cabo um suposto golpe de estado em julho de 2016, acusando os integrantes do movimento Gülen de “terroristas”, encarcerando os que estão ao seu alcance, abominando os que não conseguem prender)

Emre Çelik, presidente do Rumi Forum, grupo intelectual gülenista, concordou imediatamente em discursar. No entanto, por muito tempo, não conseguimos obter uma resposta ao nosso convite da embaixada turca em Washington. Finalmente, a menos de uma semana do evento começar, o staff da Comissão Política nos informou que nada menos que o gabinete presidencial em Ancara exigiu que retirássemos Çelik da programação. Caso recusássemos, a Turquia cancelaria a sua participação.

Daniel Pipes

Minha reação inicial foi: “tudo bem, cancele.” Contudo, tendo investido muito tempo, dinheiro e reputação na conferência, o Middle East Forum não estava disposto a chutar o pau da barraca. Também não queríamos engrossar as fileiras dos aplacadores ocidentais, como a AP-OTAN, que se curva aos desejos do ditador turco, Erdoğan. O que fazer então?

Adotamos um plano de ação bastante incomum: sim, o nome Çelik foi retirado da programação e o diplomata da embaixada acabou comparecendo ao evento. Com a anuência de Çelik, nós providenciamos a entrada dele na reunião pela porta de trás e que esperasse silenciosamente nos bastidores até que eu, após discursar na última reunião sobre a humilhação e o desastre da OTAN ao se curvar à vontade de Erdoğan, o convidasse ao pódio para discursar diante da conferência.

Assim que eu anunciei a presença de Çelik, todo o contingente turco se levantou e protestou aos berros, os seguranças correram para protegê-lo. O copresidente da delegação da AP-OTAN, surpreso com a minha atitude, que ele chamou de “bomba”, empurrou Çelik e assumiu o pódio. (Para visualizar o vídeo, clique aqui.)

Ao concluir suas observações, o copresidente tentou finalizar a reunião, mas eu intervi, afirmando que era nosso evento e novamente convidei Çelik a discursar. Assim que ele começou a fala, primeiramente os turcos e depois a delegação da AP-OTAN abandonaram o local, deixando para trás os demais convidados, que o ovacionaram em pé.

Eu peço desculpas à AP-OTAN pela armação. Mas eu a defendo. Era impossível para nós ignorarmos o princípio fundador da OTAN: “salvaguardar a liberdade” de seus povos. Era igualmente impossível pedir ao Middle East Forum, principalmente pela proximidade do Independence Hall e do Liberty Bell, para que concordasse com o ditame de um tirano estrangeiro.

A bem da verdade, apesar da saída dos delegados, torço para que os demais delegados da Assembleia Parlamentar da OTAN admirem secretamente o nosso posicionamento contra a tirania e se inspirem neste singelo ato de desafio. Talvez eles venham a enfrentar o bullying de Erdoğan – exatamente o que eles não fizeram neste caso.


Adendo
: pergunto a mim mesmo porque ela optou por publicitar seus atos repressivos, a delegação turca presente na Assembleia Parlamentar da OTAN emitiu um comunicado à imprensa (em turco e em Inglês) sobre a pequena confusão de hoje. Obviamente ela chama Çelik de integrante de uma “organização terrorista” quando na verdade ele é um acadêmico tolerante. Obviamente ela me chama de “execrável elemento antiturco”, quando na verdade eu sou anti-Erdoğan.

Mais surpreendente ainda é a mentira descarada de que Çelik discursou perante “cadeiras e paredes vazias”. Nada a ver. Conforme a fotografia abaixo mostra, o salão estava repleto, mesmo depois de Çelik ter terminado de discursar. Mas como não podia deixar de ser, trapacear muito ou pouco é o que as tiranias fazem, não é mesmo?

Atualização de 20/09: (1) Sabah, possivelmente o jornal mais fanaticamente pró-Erdoğan repete a farsa do comunicado à imprensa sobre Çelik discursar para um salão vazio que aparece na manchete da cobertura sobre o evento AP MEF-OTAN. “NATO toplantısına sokulan FETÖ üyesi boş alona konuştu” (O integrante FETÖ (ou seja: Gülen] discursou perante um salão vazio na reunião da OTAN).

Manchete: “O integrante FETÖ (ou seja: Gülen] discursou perante um salão vazio na reunião da OTAN.”

(2) Çelik inteligentemente tuitou uma foto de Erdoğan nas Nações Unidas discursando perante um auditório praticamente vazio, salientando: “veja e preste atenção quem é que discursa para cadeiras vazias :)”

O presidente da Turquia, Erdoğan, discursou para um auditório muito mais vazio do que Emre Çelik,
do Rumi Forum

Atualizações de 21/09: (1) Gülnur Aybet, assessora sênior de Erdoğan entrou na briga com uma avalanche de tuítes divididos em 3 partes (eles começam aqui).

(2) Paul Miller relata no American Spectator:

Antes da pirotecnia, os participantes do evento, incluindo a delegação turca, elogiaram e aplaudiram a programação. “Nós abordamos muitos assuntos de importância, como as realidades regionais, como o que está acontecendo no Oriente Médio. Tivemos discussões abrangentes sobre a Síria, o extremismo e o terrorismo. De modo que foi um debate benéfico para os nossos parlamentares”, explicou o parlamentar Ahmet Berat Çonkar

(3) Escrevendo no Nabız Haber, pró-regime Haşmet Babaoğlu-Sabah sugere que se as reuniões da OTAN estão se tornando hostis, pode ser que esteja na hora da Turquia sair da aliança. Eu concordo plenamente.

(4) A Agência de Notícias Fars, oficialmente independente, mas na realidade uma agência do governo iraniano, apoiou calorosamente Erdoğan nessa pequena desavença, chegando até a usar a nomenclatura FETÖ (que afirma que o movimento de Gülen é terrorista) em relação a Çelik. Comentário: eu ficaria surpreso se outro governo, com a exceção do Qatar, saísse em defesa de Erdoğan. Essencialmente, Erdoğan não tem amigos.


Atualização de 24/09
: o Sunday Express relata o que o secretário geral da AP-OTAN David Hobbs disse: “somos parcialmente culpados pelo que aconteceu na terça-feira (19 de setembro), porque não apontamos logo no começo a ligação entre Çelik e Gülen”. Na visão míope de democracia da OTAN, ele opinou que enquanto a Turquia tiver um parlamento em funcionamento e um deputado da oposição, ela continuará a ser classificada como “democrática”.

 

Publicado na National Review Online.
Original em inglês: I Taught NATO to Stand Up to a Dictator
Tradução: Joseph Skilnik

http://pt.danielpipes.org/

 

  • Iason Souto

    A ONU, e a OTAN, têm seus ditadores de estimação, enquanto a Turquia vai se tornando um kalifado, e a Coréia do norte vai sendo comandada por um desequilibrado mental manipulado por Xi Jinping e Vladimir Putin, os líderes dessas organizações apenas assistem o circo pegar fogo…

  • Osvaldo Pereira Júnior

    Erdogan é a Madre Tereza de Calcutá se comparado a Kim Jong Un, Raul Castro e Maduro.

  • Phillip Garrard

    Os turco que abram os olhos porque o caminho para virar um Iran e curto…

  • Pedrão de Cunha

    Se eles ao menos empalassem MADURO, já acovardariam o resto dos bolivariânus, o povo venezuelano está sendo aniquilado pela fome, violência, mau-trato, saquei-o, repressão e a mídia está acobertando tudo.