Casimiro De Pina


Donald Trump e a esquizofrenia de certos comentadores, daqui e d’além-mar

Surpresa desagradável: Bill e Hillary Clinton construíram um muro de 300 milhas na fronteira com o México.

A vitória de Trump, no escrutínio do pretérito mês de novembro, provocou uma hecatombe nas redes sociais e, digamo-lo com justiça, na cabeça de certos comentadores, palpiteiros e analistas, cujos neurónios entraram, desde então, no modo…“desligado”, que aliás teima em persistir, até hoje. Dá que pensar.

Casimiro de Pina comenta O Eixo do Mal

Hayek deu-nos, aliás, uma prova sincera disto tudo, quando, em 1944, abdicando dos seus interesses pessoais imediatos, resolveu empreender uma dura luta contra os dois totalitarismos gémeos da época (o comunismo e o nazismo, irmanados pelo mesmo ódio às liberdades e à livre-iniciativa económica), denunciando, com galhardia, e contra o “establishment” bem-pensante daqueles dias, sempre cioso das suas falácias, a Utopia totalitária, calcada num igualitarismo sufocante, na planificação central niveladora e numa justiça absoluta, sujeita, evidentemente, às pretensas “leis da história”.

O Eixo do Mal Latino-Americano: comentários de Casimiro de Pina

É uma delícia ler Heitor de Paola, que foi militante comunista durante algum tempo, e aprender com a vastidão dos seus conhecimentos. A sua perspicácia é singular, e rara a sua visão dos pormenores.

O pensamento político autêntico, como aconselhava Eric Voegelin, visa compreender a realidade política e não construir rendilhados falsos, castelos na areia ou justificações complacentes. Compreender e não mistificar.

A compreensão é um acto de vontade e de inteligência, num profundo apego à docilidade das coisas. Do verum. Exige uma certa disposição de alma e uma estrutura de personalidade isenta, firme e imparcial, que não se vende por um prato de lentilhas.

De Moscou a Paris

Como a História já nos provou à saciedade, a firmeza dos princípios e a beleza dos sentimentos apenas sobrevivem em ambientes minimamente seguros.
É óbvio que o mundo ocidental tem de reagir, dentro e fora das suas fronteiras.

Há datas memoráveis. Para o bem e para o mal. Bastam, aqui e agora, alguns exemplos, necessariamente breves e significativos: o Neolítico, cerca de 10 000 anos a.C., período durante o qual surge a agricultura, uma inovação humana extraordinária.

A queda de Roma, invadida pelos bárbaros. A invenção da máquina a vapor, por volta de 1712.

A Revolução Francesa de 1789, com os seus sonhos e pesadelos totalitários.

Capitalismo, justiça social e… ignorâncias

Não é possível, em nenhum plano analítico, estabelecer uma equivalência moral entre o capitalismo e a dita “economia” socialista.
O sistema do planejamento central é, simplesmente, o reino do caos e da pobreza programada.

Alguns fala-baratos, pontificando em certos jornais online, vão dizendo que é “inconcebível” que um cabo-verdiano de origem humilde defenda as teses do (neo)liberalismo.

Politicantes como Júlio Correia ou Romeu Modesto vão, de resto, na mesma cantiga de embalar. Repetindo a farsa.

Na triste opinião desses cavalheiros, só os ricos, os “beneficiários” do sistema, em suma, podem ser…liberais ou defender o capitalismo.

Ora, isto é eticamente inqualificável e revelador de uma ignorância estarrecedora.

O liberalismo faz parte do movimento revolucionário?

A pergunta é intrigante e ao mesmo tempo necessária.

Será o liberalismo uma doutrina política revolucionária?

Do ponto de vista da história das ideias, é mesmo uma pergunta irrecusável, apesar da relutância crioula, típica, aliás, de um meio intelectualmente provinciano, em discutir assuntos desta natureza, tidos como distantes e “abstractos”. Ou seja, inúteis.

Uma política esclarecida, gizada no perímetro da Constituição democrática e na procura incessante do “bem comum”, não pode, todavia, fazer tábua rasa de um tema jusfilosófico tão essencial.

Ética econômica e criação da prosperidade: para além dos mitos da esquerda – II

O desenvolvimento é o resultado de atitudes e valores positivos. De um certo ethos. E de instituições políticas que estimulam a inovação e a descoberta.

A mentalidade marxista é uma das principais causas do atraso nacional em Cabo Verde e atormenta, com o seu ranço anticapitalista e a sua mitologia avessa à liberdade individual, consciências e almas serôdias, gerando, assim, mil absurdos em vez de luzes e esclarecimento.

É uma herança miserável do velho “partido único”. Desde 1975, somando-se, aliás, ao corporativismo antiparlamentar adveniente do Estado Novo salazarista, “legitimado” pelo plebiscito de 1933.

Ética econômica e criação da prosperidade: para além dos mitos da esquerda – I

“O indivíduo, como diz Worms, não existe para tornar feliz o Estado e muito menos quem o representa como função diretora; o Estado é que existe para tornar feliz o indivíduo.
Luís Loff de Vasconcelos, empreendedor e intelectual cabo-verdiano, 1861-1923.    

Adam Smith, já em 1755, vinte e um anos antes da publicação do seu magnum opus, recortara, com nitidez, as três condições essenciais do desenvolvimento humano: impostos leves, paz social e uma boa administração da justiça.

O resto é meramente ancilar, pensava o professor de filosofia moral e pai da moderna ciência econômica.

Ao contrário das ideias estapafúrdias de Karl Marx, Smith desde cedo percebeu que há uma “mão invisível” capaz de, pelo milagre da colaboração espontânea e num círculo virtuoso, engendrar a prosperidade geral e o aumento da riqueza nacional.

Da Retórica política: origens, sentido e atualidade

…a autoridade legislativa, ou suprema, não pode arrogar-se o poder de governar por meio de decretos arbitrários extemporâneos, mas está obrigada a dispensar justiça e a decidir acerca dos direitos dos súbditos por intermédio de leis promulgadas e fixas, e de juízes conhecidos e autorizados. Pois, desde que a lei de natureza não é escrita e que, portanto, não se pode encontrá-la senão no espírito dos homens, não será possível, na ausência de um juiz estabelecido, convencer com facilidade de seu equívoco aqueles que – movidos pela paixão ou interesse – venham a citá-la ou aplicá-la erroneamente.”
J. Locke (1632-1704)        

Introduzida na Grécia continental pela mão de Górgias, a partir da Sicília, a Retórica passou, desde então, a ocupar um lugar privilegiado na educação dos jovens.

Os sofistas, combatidos severamente nalguns diálogos platônicos, eram nesse tempo mestres na arte oratória.

A verdade, para Platão, não pode, contudo, ser dissolvida no jogo das palavras. Havia que ligar, ensinava, o ethos ao logos.

Tempestade em Buenos Aires

“A democracia, o progresso e a tolerância são valores que ainda não se implantaram na Terra (…). Em suma, o mundo sempre foi perigoso. O Ocidente é que deixou de estar vigilante.”
Margaret Thatcher

Em meados do séc. XIX, era um país promissor e muito rico. Atraía emigrantes e aventureiros.

A Argentina era, nesse tempo, um pouco como o Zimbabwe da época colonial: um território próspero e bem governado.

Acarinhava a livre-iniciativa e seguia os bons conselhos de Adam Smith, o grande mestre escocês da filosofia moral. Investimento. Poupança. Trocas voluntárias. Criação de riqueza.

Tudo andava sobre rodas.