Ipojuca Pontes


Lula – Primeiro e único

“O governo não pode fazer os homens ricos, mas pode empobrecê-los”.

Ludwig von Mises, em “Ação humana”

Já se tornou vício de linguagem, talvez um cacoete retórico e seguramente um lugar-comum: nas solenidades ou eventos em que discursa, Lula da Silva, o presidente, com a atrevida empáfia de quem acaba de descobrir a pólvora, desfecha invariavelmente a frase fulminante que faz do governo um contínuo espetáculo de marketing: “Pela primeira vezes neste País…”

Trata-se, às vezes, da simples inauguração de um chafariz, ou da mera re-inauguração de obra inconclusa por força do desperdício de governos passados, mas, a despeito das disposições em contrário, logo ouve-se ou vê-se, nos atos públicos retransmitidos pelas emissoras de televisão e rádio, com a fatalidade trágica que marca o desfecho final de alguma ópera-bufa, o estribilho exclusivista (e jactancioso) que dali em diante fará parte do “calendário histórico” do governo que se compraz em mentir para si próprio e para a nação: “Pela primeira vez neste País…” ou “é o único governo que…”

É trágico, porém verdadeiro. O Brasil tem um enigma intransponível à sua frente, que precisa ser decifrado com urgência, se possível antes de 2006: Luiz Inácio Lula da Silva. Seria ele, com sua alma de cortiça e conversa de caixeiro-viajante, um mero apregoador de promessas alvissareiras para um público de boa-fé, vale dizer, um impostor? Um impenitente charlatão? O próprio Lula da Silva, diante do deliqüescente governo da Nova República, nos hiper-inflacionários anos 80, acusou o presidente Zé Sarney de ser um impostor. O então líder sindical, ao considerar sob a luz da visão de luta de classe o “empurra com a barriga” do Ribamar, exprimia um sentimento de calculada revolta que até certo ponto batia com a realidade circundante, toda ela absurda e avassaladora. E hoje?

Hoje a situação não é muito diferente. De fato, com o aumento sistemático da carga tributária (em torno de 40%) substituindo o imposto inflacionário (e não legislado) da Nova República (3% ao dia), o governo populista de Lula, amparado em forte carga publicitária (tramada pelo contraventor Duda Mendonça), começa a fazer água. Os próprios aliados (os mais radicais) partem para a retaliação aberta dos que se julgam traídos. Sim, é verdade, todos têm razão, trata-se de uma retaliação azeitada no mais puro catecismo revolucionário (igualitário e terrorista) do marxismo-leninismo, sem nenhum valor tópico ou econômico – mas, ainda assim, fruto da indignação enraizada num passado partidário comum (ainda recente) comprometido com a “transformação radical” da sociedade brasileira.

Eles, os revolucionários nutridos nos bem aquinhoados empregos públicos e nas cátedras universitárias, confrontam hoje com palavras de ordem os programas sociais “reformistas” (falidos) adaptados de outros governos, tipo “Fome Zero”, “Primeiro Emprego”, “Bolsa Família”, meramente assistênciais que, para os aliados de ontem, não passam de paliativos “inúteis e demagógicos”. A ira dos radicais para com o governo Lula é tanta, que só faz confirmar o velho chavão: quem tem amigos assim, não precisa de inimigos.

Por outro lado – e a direita? Sim, a direita, como se comporta? A direita, segundo dizem, é malandra. Sabe que o governo é beneficiário de uma economia internacional de mercado cada vez mais ativa e que Lula segue sabiamente o receituário “neoliberal” do FMI. O “schisma” se dá no plano da voracidade fiscal em que o governo, a pretexto de cumprir os “programas sociais” populistas (eleitoreiros), toma, com medidas provisórias tipo 232, o dinheiro de investimento das empresas, o que significa, na prática, ampliação do desemprego e o esvaziamento do corroído bolso da sociedade. Neste aspecto, os índices macroeconômicos são claros e traduzem a seguinte aberração: enquanto o PIB (Produto Interno Bruto) cresce, a renda do trabalhador cai e o Estado – o velho Estado patrimonialista – cresce e se faz a cada dia mais forte.

Com efeito, diante do arrocho fiscal, toda a sociedade protesta: sindicalistas, empresários, associações de classe, profissionais liberais, trabalhadores em geral se insurgem contra o mecanismo pilantra e oficial de sacar, via aumento dos impostos, o ganho do contribuinte. Fala-se já, abertamente, caso o Congresso insensível torne legal a famigerada MP 232, na emergência da desobediência civil, a necessária e eficaz insubordinação que mobiliza a sociedade em face da impertinência dos governos.

Mas Lula da Silva, por sua vez, cultivado na crença e nos desvãos do sindicalismo que vê o Estado apenas como instrumento de classe, não desconfia que talvez o governo mais proveitoso seja exatamente aquele que menos aparece e – conforme ensina Tocqueville – habitua os governados a dele não precisar. Como é filho dileto do pior tipo de intervencionismo centralizador, o socialista estatizante, o ex-metalúrgico (e mentores) só acredita em aparelhamento do Estado, mais leis e regulamentações, impostos pesados e planejamento governamental. Como ambiciona fazer tudo e meter o dedo em tudo, o ex-sindicalista termina não fazendo nada – ou apenas alicerçando o fomento da corrupção oficial, da politicalha, do protecionismo corporativista parasitário, em suma, todo o conjunto de mazelas que cresce diante dos nossos olhos fatigados: o “Estado forte”.

De minha parte, concordo plenamente que um sujeito sem nenhum tipo de curso superior, desde que impregnado de certa dose de modéstia, bom senso e coragem possa cuidar de um grupo, empresa e até de um País. Mesmo no Brasil já nos deparamos com casos assim. Mas agora, mais do que nunca, é preciso ir devagar com o andor, pois o santo é de barro e a onagra claudica. A esta altura do campeonato não dá mais para descobrir a pólvora e impostar o papel de Lula, Primeiro e Único, principalmente quando se sabe que a sociedade – eis a Luz – resolve  melhor.

Gastos planaltinos

“Só pagam impostos os que não têm com que pagá-los” 

Sofocleto, em “Sinlogismos”

Nos tempos pétreos do governo Lula o Estado está cada vez mais rico e a sociedade (“nobreza, clero e povo”) cada vez mais pobre. Querem evidências? Aqui vão algumas: a Receita Federal, sempre de olho na grana do contribuinte, informa com estampado riso de hiena que neste mês de janeiro obteve uma arrecadação recorde de R$ 31,99 bilhões, um aumento na ordem de 27,76% em relação ao mês de janeiro de 2004. A Caixa Econômica, auspiciosa, anuncia lucro de 1,400 bilhão. O Banco do Brasil, por sua vez, cuja tradição é repassar o prejuízo para o bolso do contribuinte, prevê um lucro líquido de mais R$ 3 bilhões e a Petrobrás, encabeçando a lista, anunciava ano passado um lucro de R$ 17,700 bilhões.

Agora mesmo, diante da ardilosa Medida Provisória 232, que aumenta de 32% para 40% a base de cálculo da “contribuição” social das pequenas empresas e dos prestadores de serviço, os burocratas do governo tomaram como hábito justificar que os novos índices percentuais não significam obrigatoriamente aumento da carga tributária, alegando, paralelamente, sem esconder certa dose de cínica ambigüidade, que os aumentos cobrados pelo governo são justos. Mas justos para quem?

Só se for para o Palácio do Planalto, a cada temporada mais empenhado na expansão dos gastos públicos com a aquisição de comida e bebida para o consumo dos membros da corte e servidores. Não se trata aqui do que se arrola como “intriga da oposição”. A simples conferência das despesas efetuadas pelo Planalto (e o Alvorada), repassadas pelo SIAFI – Sistema Integrado de Administração Financeira – e confirmadas pelo Diário Oficial da União, evidencia a dimensão da voracidade cortesã. Nela encontramos, por exemplo, a discriminação trimestral de compras como: 1) sete toneladas de açúcar, 2) duas toneladas e meia de arroz, 3) duas toneladas de café, 4) 400 latas de azeitonas, 5) 500 quilos de bombons, 6) 800 latas de castanha de caju, 7) seis mil barras de chocolate, 8) duas mil latas de cerveja, 9) 610 garrafas de vinho, 10) 50 garrafas de licor, 11) uma tonelada e meia de banana, 12) uma tonelada de caqui, 13) 2400 abacaxis, 14) 495 litros de suco de uva, 15) duas mil dúzias de ovos, outro tanto de ameixa, etc, etc, etc – coisa de causar inveja, pela quantidade e qualidade, a outro Luiz, igualmente soberano, o XVI, antes de ser guilhotinado na França do século 18.

Os gastos com as despesas do gabinete presidencial no governo do ex-metalúrgico estão aumentando de modo assustador. Em 1995, no reinado de FHC, as despesas foram na ordem de R$ 38,4 milhões. Em 2003, já no reino (“republicano”) de Lula, deu um salto para R$ 318, 6 milhões e, em 2004, transcendeu a casa do R$ 373 milhões, superando a média de R$ 1,5 milhão por dia.

Para o ano de 2005, a previsão é que os gastos públicos palacianos dupliquem. Por um motivo elementar: o aumento previsto do número de servidores da corte. O governo FHC funcionava com 1,1 mil servidores (contra 420 da Era Collor). Com Lula ampliou-se para 3,3 mil o número de funcionários servindo diretamente ao gabinete presidencial, com a previsão da contratação (imposta pela Medida Provisória 231) de mais 3.339 mil servidores em 2005, todos com salários entre R$ 1.500 e R$ 5.000, sem falar, é claro, nas garantias trabalhistas e gratificações por hora extra, prática de rotina na corte (ao todo, os gastos com o funcionalismo público federal no País ultrapassam R$ 90 bilhões).

Tudo isso e mais o uso crescente e indiscriminado do cartão de crédito, que garante ao privilegiado funcionário do planalto a mágica de efetuar gastos sem a discriminação do serviço ou da compra na fatura. Um verdadeiro milagre! No último ano do governo FHC, as compras com cartão de crédito somaram R$ 761,7 mil. No reinado de Lula elas pularam para mais de R$ 3,8 milhões, ultrapassado a faixa dos R$ 5 milhões em 2004. Na brincadeira, os gastos anuais do Planalto com cartão de crédito, ainda que não confirmados, podem ser estimados, para o ano de 2005, em R$ 100 milhões.

Lembro aos leitores que no início da gestão Lula foram nomeados 19 mil funcionários para os cargos de confiança do governo, sendo preenchidos, a partir daí, gradativamente, mais 20 mil cargos (alguns ainda em processo de ocupação), a maioria deles preenchidos por “companheiros” do PT, que, curiosamente, são convidados a repassar entre 10% e 30% dos salários arrancados dos cofres da viúva (leia-se contribuinte) – o que garante ao partido oficial o privilégio de permanente prosperidade.

Os burocratas da área econômica do governo afirmam que é impossível se fazer cortes nos gastos públicos sem que se atinjam os programas da “área social”. O próprio Renan Calheiros, o veterano noviço recentemente empossado na presidência do Senado, ao que tudo indica sensível ao Planalto, passa vaselina na cabeça da mídia e fala que é necessário uma “via” que permita a revisão da Medida Provisória 232 (um ônus violento para o bolso do brasileiro) sem que se interfira nos programas assistenciais e nas despesas do governo. “Bull shit” – bosta de boi, como dizem os americanos, um “substitutivo” para o dito popular brasileiro “pimenta no… dos outros é refresco”.

O que o presidente do Senado devia entender é que o profissional liberal (ou o pequeno empresário) que ganha, em média, três mil reais, não conta de modo algum com as milionárias mordomias do Planalto, Alvorada e Granja do Torto, obrigando-se, na luta econômica diária, a resgatar algo em torno de 74 tipos distintos de tributos e, ainda por cima, pagar – com o suor do próprio rosto – aluguel, condomínio, alimentação, telefone, gás, água, luz, transporte, gasolina e até vinho, cerveja e castanha (que ninguém é de ferro) – coisa que no Palácio do Planalto ninguém paga. 

Ou não é assim?

A derrota de Lula

Semana passada, enquanto distribuía estrategicamente o sacrificado dinheiro do contribuinte com a Venezuela do “companheiro” bolivariano Hugo Chávez (algo em torno de R$ 235 milhões, afora os gastos em dólar com a vasta comitiva oficial e o AeroLula), num gesto que pode ser considerado como de alta traição aos integrantes do programa Fome Zero, o presidente Lula da Silva deixou o país em clima de variado tumulto, que resultou, a despeito de sua vontade, não apenas na amarga derrota na disputa pela presidência da Câmara Federal mas, ao que tudo indica, na própria derrocada do cultivado sonho da reeleição presidencial.

(Só para não perder o embalo, registre-se que não pode ser considerado vitorioso o governo que experimenta, de uma só tacada, 1) o repúdio geral da sociedade produtiva à famigerada Medida Provisória 232, que amplia de 32% para 40% a base de cálculo da contribuição social sobre o lucro liquido e do imposto de renda das empresas e que, 2) deixa vingar ao sabor de justificativas retóricas a batalha campal conduzida pelo MTS e sua “reforma agrária” bélica, diretamente responsável pelo trucidamento de pessoas como o policial Luiz Pereira da Silva, torturado até a morte pelos integrantes do “movimento” milionário – a merecer os mesmos cuidados que muito justamente acodem o incensado cadáver da missionária Dorothy Stang – e, ainda mais, 3) sobrevive mal aos sobressaltos diários impostos pelo crime organizado aos empanturrados cofres da Petrobrás, Eletrobrás e Banco do Brasil ).

O presidente Lula da Silva, após a eleição da Câmara Federal, raciocinando como um pigmeu e procurando preservar a imagem de “líder messiânico” engendrada pelo marqueteiro (enquadrado como contraventor) Duda Mendonça, responsabilizou o próprio partido pela fragorosa derrota: “Ganha quem tem mais voto. O governo não disputou (a presidência da Câmara), foi o PT”. Por sua vez, o difícil deputado Greenhalgh, candidato imposto pelo Planalto, atribuiu o desbarato ao governo de Lula: “O voto que me derrotou foi o da insatisfação com o tratamento dado pelo governo aos parlamentares”. Já o Genoíno presidente do PT, depois de se entender com o Planalto, disse que “a derrota maior foi da bancada do partido na Câmara – e não do governo Lula”. Vive-se aqui, diante da catástrofe, o inverso da síndrome de Trotski, o líder comunista que, ao atacar o stalinismo, atrelava a indivisibilidade do poder totalitário (“hegemônico”) a irrecorrível identidade do proletariado com o partido de classe; do partido de classe com a executiva do partido; e da executiva do partido – ao cabo de tudo – com o “líder carismático”.

Sabe-se que o hoje deputado Greenhalgh, antigo mentor de Lula quando líder sindical (e também diligente advogado de terroristas e seqüestradores), foi um dos principais acusados no Caso Lubeca, escândalo que envolvia propina de milhares de dólares para a campanha presidencial do metalúrgico, em 1989, e que levou a prefeita Luíza Erundina a exonerá-lo do cargo de Secretário de Negócios Extraordinários sob o pretexto de “quebra de confiança”. O fato de querer se impor (ainda que depois de quinze anos) um candidato com tal currículo para assumir o terceiro cargo na hierarquia do País só pode ser atribuído ao total desprezo pela consciência democrática ou a completa insensibilidade política. Mas a quem se pode atribuir tal insensibilidade?

A chamada grande mídia, empenhada em manter intocável a imagem presidencial, insiste em desfilar uma série de causas como  justificava para a derrota, entre elas o tumultuado processo de escolha do candidato oficial, para não mencionar a falta de interlocução política do governo com o Congresso e, em especial, com o que chama de “ação traiçoeira” do baixo clero, representado de forma solerte pelo deputado eleito Severino Cavalcanti, o nordestino machista (“deplora os homossexuais”, diz o noticiário), particularmente comprometido com o fisiologismo.

Nada disso explica objetivamente a derrota. Ela se denuncia com muito mais sentido pela ação política solerte do partido “hegemônico”, de resto percebida instintivamente não só pelo “baixo clero” mas pelo grosso da oposição, em ocupar o aparelho do Estado e consolidar o projeto de poder com a nomeação e o aproveitamento em larga escala dos “quadros ideológicos” (no fundo, tão fisiológicos, ou mais, que o “baixo clero”) empenhados, dentro da máquina pública, na implantação de um novo e irreversível “socialismo tropical”. Não é por outro motivo que o governo busca ampliar a cada dia a desmesurada carga tributária – e a sociedade e seus representantes políticos, por sua vez, partem para uma aberta confrontação.

Embora desarvorado, não é difícil prever o comportamento político a ser adotado pelo governo com relação à nova mesa da Câmara. Num primeiro instante, ao que tudo indica, partirá para a cooptação temporária do que se compreende por liderança formal do “baixo clero”, tendo em vista a convivência possível para a consecução dos “objetivos estratégicos” do PT e do governo. Caso encontre alguma resistência acima do desejável, partirá para a retaliação mais ou menos aberta ou mais ou menos camuflada, contando com variada munição, entre elas a instituição do deboche e da discriminação ideológica contra um adversário tido como “primitivo” e “reacionário”. Meios e aliados, para tal fim, não faltam ao “establishment” governamental.

O Estado como instrumento de violência e do terror

De agora em diante, para desafogo de uma vida editorial que sufoca os estudos sociais no limbo dos restritos espaços acadêmicos e dos círculos bem pensantes, o Brasil dos tempos pétreos de Lula já tem o seu libelo antibélico tão veemente quanto “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, lançado em 1902, e de análise histórica e social tão percuciente – embora não menos polêmica – quanto “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, editada em 1933. Trata-se, para a euforia de quem quiser enfrentar suas 956 páginas, do monumental “Guerra Civil – estado e trauma” (Geração Editorial, São Paulo, 2004), de Luís Mir, um livro de difícil catalogação, visto que é muita coisa ao mesmo tempo: história, sociologia, jornalismo, análise crítica, denúncia social e, de certo modo, drama impiedoso com proporções de tragédia.

De início, diga-se que Luís Mir não é nenhum novato: seu livro anterior, “A Revolução Impossível” (Editora Best Seller, São Paulo, 1994), trabalho de pesquisa inexcedível, tornou-se um clássico e obra de consulta obrigatória para quem deseja honestamente entender os bastidores da luta da esquerda armada no Brasil, em particular quando revela os subterrâneos da guerra suja que pretendia fazer do Brasil, tal como a Rússia e a China, o terceiro pólo da revolução socialista mundial.

Pois é este escritor diligente e infatigável, de estatura moral única, que desnuda com precisão e metodologia criativa a guerra civil indisfarçável que hoje assola todo território brasileiro, notadamente as periferias urbanas e as favelas (que nascem com vigor a partir da guerra republicana de Canudos), a sacrificar, a cada ano, segundo dados estatísticos mais confiáveis, algo em torno de 150 mil pessoas  – na sua maioria constituída de pretos, mestiços, pobres e marginais, sem excluir, é claro, “branquelos” e sararás.   

O livro tem a ventura de abarcar o tema em plena evolução. Para Luís Mir, o responsável irrecorrível pela carnificina que consagra a guerra civil (com requintes de genocídio) no País é o Estado. Ele parte de levantamento de documentação histórica contundente para nos revelar, por exemplo, que em quase três séculos de sistema escravocrata o Brasil importou da África perto de seis milhões de negros, adotando, posteriormente, nos últimos cinqüenta anos de regime imperial, a política de “branqueamento” étnico planejada oficialmente, que possibilitou a imigração de mais de cinco milhões de europeus, na sua ampla maioria beneficiada com terras, empréstimos, educação e status de cidadania – privilégios sonegados, também na República, aos escravos e seus descendentes, exatamente aqueles a quem o Estado devia reconhecer com os mesmos direitos, visto que eles ajudaram a erguer o Estado-nação. 

(A propósito, pode-se argüir a tese, como fazem alguns autores, de que uma minoria de imigrantes europeus trazia consigo conhecimento técnico que possibilitaria o País a entrar na era industrial – o que de modo algum altera o descaso do Estado).

Apoiado em tal constatação o autor, em 10 capítulos de andamento vertiginoso, traça o painel histórico de como, a partir do massacre preliminar dos indígenas, a vasta população de negros, mestiços e pobres, para além de espoliada, vem sendo brutalizada por um aparelho estatal coercitivo e arbitrário, o mais das vezes escorado na omissão (e, às vezes, na cumplicidade) de uma elite cultural e política crescentemente privilegiada, que se mostra (ou se faz de) impotente até para entender sem a impostura das facilidades ideológicas toda a extensão moral da hecatombe.

Com efeito, o ambicioso estudo de Luis Mir responsabiliza o Estado como o principal agente de promoção da política de balcanização (nomeadamente étnica, social e econômica) que trucida a população indigente nos morros e nas favelas, ao apontar de forma incisiva que ela “oferece padrões de vida crescentes àqueles que estão dentro dos grupos possuidores do poder central do Estado e da economia, somente acessíveis aos membros das castas superiores, usando em benefício próprio os recursos que lhes estão tradicionalmente disponíveis: renda, saúde, privilégios sociais e educação”.

Mas o livro de Luís Mir, para maior riqueza do leitor, não fica só na pertinente denúncia da guerra civil que se trava no cotidiano nacional. Na sua segunda parte o autor, que é pesquisador e especialista em atendimento médico ao trauma, descortina panorama enciclopédico e instigante do quadro hospitalar brasileiro e do modo precário como o Estado, em meio ao trauma geral, atende suas vítimas. Nele, o autor realça o papel da figura do médico, em especial do médico-hospitalar, a quem qualifica com o epíteto adequado de “Combatente desarmado”. Para dizer o mínimo, desde o Juramento de Hipócrates talvez nenhum documento trate com tanta propriedade os haveres e deveres éticos dos profissionais da cura.

Para os que estão realmente empenhados em aprofundar o conhecimento crítico em torno do quadro social que nos circunda, recomendo com entusiasmo a leitura urgente de “Guerra Civil – estado e trauma”. Poucas obras, no Brasil, se é que elas existem, estão tão bem capacitadas.

O caso Lubeca

“Um povo corrompido não pode tolerar governo que não seja corruptor”.

Marques de Maricá

Não direi nada sobre o caso Lubeca. Em 1989, quando da disputa presidencial entre Lula e Collor de Melo, um funcionário da incorporadora Lubeca (empresa do grupo Moinho Paulista), o Sr. Paulo Albanaze, pressionado por denúncias do candidato Ronaldo Caiado, veio a público e informou que havia passado propina de U$ 200 mil ao atual deputado federal Luiz Eduardo Greenhalgh, à época vice-prefeito e secretário dos “Negócios Extraordinários” da prefeita Luíza Erundina. O dinheiro seria para a campanha eleitoral de Lula.

Em dezembro de 1990, o Jornal da Tarde publicou a transcrição de uma fita gravada em 28 de outubro de 1989 que revelava parte do diálogo travado entre o advogado Eduardo Pizarro Carnelós, assessor jurídico de Prefeitura de São Paulo e o Dr. José Firmo Ferraz Filho, apontado como intermediário no agenciamento da propina entre Greenhalgh (o atual candidato de Lula à Presidência da Câmara Federal) e a empresa Lubeca, que pleiteava a aprovação da prefeitura de projeto urbanístico avaliado em U$ 600 milhões. Vale a pena ler de novo o quase monólogo do Dr. Firmo:

Firmo: – “Teve aquele problema da grana e avaliou-se. Não pega a grana. Vamos pegar? Podemos pegar. Tem armação, não vamos pegar”.

Diante do silêncio do interlocutor, o intermediário prossegue:

Firmo: – “O partido pediu grana. É ato de preposto, cara! E mais, o cara é vice-prefeito. Se ele pedir, os caras dão. O Luiz (Greenhalgh) estava por trás do projeto? Estava. Já tinha um homem do gabinete dele no projeto. Eu fui plantado na Lubeca. Fui plantado”.

Carnelós: – “Por quem?”

Firmo: – “O Luiz (Greenhalgh). O Luiz. Pronto. Cara, você vai segurar?”

Quem gravou a relevante conversa foi o próprio assessor jurídico da prefeitura, o Dr. Carnelós, temeroso de que mais tarde o caso de corrupção pudesse resvalar sobre ele, já que era o responsável na prefeitura pela análise do projeto da Lubeca. Para evitar qualquer reação ambígua, ou resistência do interlocutor, o Dr. Firmo adota tom melífluo, no melhor estilo Nelson Rodrigues:

Firmo: – “Meu amor, a história é a seguinte: é a filosofia do lobo. Os caras dando isso… eles estão querendo o quê? Pagando o seguro tipo máfia. Não tem sacanagem, isso é a filosofia deles” 

Durante o inquérito, que simplesmente não considerou a fita como prova (ninguém sabe por qual razão), fica evidente, num trecho da gravação, a mágoa que o “plantado” intermediário na Lubeca guarda ao deputado Greenhalgh que cometeu o “ato falho” de convocá-lo para depor nas investigações do escândalo, entre os anos de 1989/90, quando o certo seria esquecê-lo:

Firmo: – “O Zé Firmo (ele próprio) não podia aparecer… O Luiz (Greenhalgh) fez uma cagada? Fez. Atribuo isso exclusivamente a ato falho. Não perdôo o Luiz. Inabilidade, incompetência, seja lá o que nome for. Agora, não é por causa disso que a gente tem de atirar merda no ventilador”.

De fato, transcorridos mais de quinze anos, o Dr. José Firmo, intermediário do caso Lubeca, é um homem coerente: não quer jogar nada, muito menos merda no ventilador. Ao ser indagado pela “Folha” sobre os novos detalhes da conversa que envolvia a transação de U$ 600 milhões, foi evasivo: “Falei tudo por gozação. Você tem de entender que o clima naquela época era de muita tensão, de muita pressão”. E como o repórter insistisse na contradição de que assunto tão sério, que causava tensão, fosse tratado na base da “gozação”, o Dr. Firmo encerrou a conversa: – “Foi brincadeira”.

No mesmo tom, diante da nova gravação, todos os envolvidos no escândalo Lubeca, inclusive o candidato à Presidência da Câmara, o deputado Greenhalgh, disseram que “não se lembram” ou que o caso está oficialmente encerrado. De fato, ninguém se lembra de mais nada.

Menos, naturalmente, o Dr. Dráusio Barreto, antigo Promotor de Justiça do caso, a encarar como grave o teor dos novos trechos da conversa gravada, que coincide plenamente com o que foi investigado em 1989: “Essa fita seria usada como prova em qualquer lugar do planeta que desse valor a uma investigação – afirma. O inquérito da Policia Civil caminhava com uma lógica muito adequada e já tinha bons indícios, mas fomos surpreendidos por uma decisão que nos obrigava a remeter o caso para a Polícia Federal. Estávamos no meio de um depoimento, ouvindo pessoas, quando agentes da Polícia Federal entraram na sala e retiraram o processo. Até hoje não entendi o que aconteceu. Era um crime de natureza comum (propina), não tinha nada a ver com a Política Federal”.

A decisão partiu do hoje ministro aposentado Romildo Souza, ex-Corregedor-Geral da Justiça Eleitoral que, como os outros envolvidos, afirmou não se lembrar do caso Lubeca.“Faz muito tempo” – disse o ministro – “não me lembro direito”.

Sabe-se que o segredo da longa vida é ter-se boa saúde e má memória. O escândalo Lubeca em nada difere do caso de Paulo de Tarso Venceslau, ex-secretário das finanças das prefeituras petistas de Campinas e S. José dos Campos, que denunciou o envolvimento do compadre de Lula, o Sr. Jorge Teixeira, em fraude de U$ 5,5 milhões, em 1993, para não falar no recente escândalo Waldomiro Diniz, o ex-assessor do ministro Zé Dirceu, flagrado na extorsão de propina do bicheiro Carlos Cachoeira – caso que levantou uma nuvem de poeira tóxica sobre a combalida confiabilidade do governo Lula.

No resumo da opereta, é muito provável que daqui a alguns meses todos esqueçamos do assunto desagradável e que o operoso deputado Greenhalgh venha logo a assumir a presidência da Câmara Federal (e, quem sabe, da própria República), reafirmando aquele velho preconceito dos europeus de que um dos obstáculos para
o real desenvolvimento da América do Sul é o descaso do subcontinente para com os processos de regeneração moral.

Política externa de risco

“Diplomacia é fazer e dizer as coisas mais sujas da maneira mais gentil”

Isaac Goldberg, editor

        

Ao contrário do que se proclama entre os áulicos do governo, os negócios externos brasileiros nunca estiveram tão emperrados  quanto agora. Um breve olhar sobre a atuação do Ministério das Relações Exteriores demonstra claramente que a diplomacia oficial, exercitada  pelos desvãos do mais puro sectarismo (marxista-leninista), tornou-se uma espécie de ferrolho suíço a entravar as portas de expansão do nosso comércio com os demais paises e blocos que formam o mercado mundial (salvo a China, assunto que abordaremos depois).

Deixando de lado a exclusão do inglês das provas eliminatórias no Instituto Rio Branco (para o respectivo ingresso na atividade diplomática), veja-se o caso das negociações relativas à criação de livre comércio com a União Européia, por exemplo. Desde o ano passado, em que pesem as “conversas de alto nível”, sustentadas em dólares e pagas com o suor do contribuinte, nenhum acordo foi estabelecido e sequer um roteiro para transpor o impasse foi claramente definido. Os europeus, velhos colonizadores, temendo os prejuízos da liberalização comercial em termos de renda e emprego internos, afirmam que a oferta apresentada pelos representantes do Mercosul, além de fraca, basicamente impede o comércio da Europa nos setores de serviços e compras governamentais, para eles, os mais atraentes. “Vamos perder 23% de oferta dos nossos empregos a troco de quê?” – aventou o Sr. Peter Mendelson, o implacável comissário europeu para comércio externo.     

Já o Mercosul, por sua vez, tendo a frente o Itamaraty, considera que a proposta da UE para a abertura de seus mercados agrícolas é mais do que insuficiente. (Só para dar tratos a bola: os franceses – para Voltaire, “uns marotos” – abominam a idéia de abolir os subsídios agropecuários, visto que uma vaca nos campos da Normandia, para ajudar a produzir 246 espécies diferentes de queijo, ganha mais benefícios do que qualquer trabalhador latino-americano).      

Como demonstra o noticiário, o próprio Mercosul tornou-se uma complicada “cabeça-de-porco”, espaço comercial improvável, duro de entrar e pior ainda de sair. Com o exercício da diplomacia “ativa” do Itamaraty, que faz do acordo regional um biombo para o mais defasado antiamericanismo, o comércio entre o Brasil e a Argentina (os principais países do bloco) parece confirmar o preceito de Chu Em-Lai, inverso ao de Clausewitz, para quem “a diplomacia é apenas a continuação da guerra por outros meios”.

Com respeito à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a última informação pertinente, de 2004, apontava, segundo o chanceler Amorim, para uma retomada de negociações dentro de restrito “formato à la carte”, o que nos faz acreditar que a nossa diplomacia voltou à fase  de jantares e coquetéis que se imaginava para todo o sempre enterrada.   

O fato concreto no que tange ao diálogo com os Estados Unidos é que regredimos ao “pragmatismo responsável” da Era Geisel, quando a retórica embasada na afirmação de uma política externa “independente” não escondia, para qualquer observador, o notório antiamericanismo embutido na legenda “Blame America first” (“Culpe a América em primeiro lugar”) – a marca de uma diplomacia hostil que colide de forma sistemática com a proposta de criação da Alca no espaço continental, a pretexto de se impor formalidades que fazem do estreito e problemático Mercosul um obstáculo intransponível para o necessário acordo.

De fato, subestimando nosso melhor parceiro comercial, os EUA, cuja balança pesa sempre em nosso favor, a diplomacia sectária deprecia a única possibilidade à vista de pactuar acordo capaz de mobilizar a economia de área que soma 800 milhões de pessoas e um PIB que chega a casa dos US$ 12 trilhões. Na diligência firme de se procrastinar a criação da Alca, basta assinalar que um dos negociadores escalados pelo MRE para tratar das conversações, no pleno exercício da diplomacia de guerra, classificou-a alto e bom som como uma “odalisca de cabaré barato”.

Dir-se-á que o quadro interno do País, ao protelar a Alca, é de plena   prosperidade; que os recursos para investimentos tecnológicos e de infra-estrutura estão garantidos e que a massa trabalhadora se regozija no pleno emprego – para não falar que a fome, como quer o atual presidente, foi reduzida ao patamar zero e que, afinal, atravessamos um cotidiano de paz e amor.

Mas dá-se exatamente o oposto. Como exemplo, vale mencionar aqui o informe da World Economic Forum, órgão de avaliação da economia mundial sediado em Genebra, Suíça, em que o Brasil aparece, no universo de 104 nações, como um país que perdeu em competitividade e credibilidade: caindo de 45ª para 57ª posição, evidenciou-se para o mundo que o país, por força de fatores negativos, entre eles o excesso de burocracia e elevada carga tributária, não está a merecer crédito para os investimentos externos.  

No mesmo diapasão, boletim técnico do IBGE voltado para  análise dos indicadores econômicos, dá conta de que as taxas de investimentos registradas no Brasil estão, nos últimos anos, “aquém do necessário para garantir um desenvolvimento com sustentabilidade”. Em números reais, a taxa de investimentos, que era baixa, caiu de 18,42% (percentual do PIB), em 2000, para 18,04%, 2003. O parecer dos analistas é de que “é preciso de uma taxa de investimento de pelo menos 25% para garantir um crescimento sustentável nos próximos anos”.

Ademais, por causa das regras hostis ao capital externo, os investimentos estrangeiros despencaram de US$ 32 bilhões, em 2000, para US$ 10 bilhões, em 2004, com tendência para redução maior nos próximos anos. Em decorrência do escasso investimento interno, tanto público quanto privado, está-se patinando na estagnação, para não falar em retrocesso. Beira ao masoquismo desfilar dados estatísticos alarmantes, mas a simples constatação de que o Brasil soma 47 milhões de miseráveis e 57 milhões de pobres, por si mesmo revela a dimensão do abismo.              &nbs
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Curiosamente, com o Mercosul “em construção” e o eterno adiamento das negociações de comércio com a União Européia, o que não pára de crescer são os gastos do governo com viagens (e diárias) internas e externas. Segundo o Siafi, o sistema de acompanhamento de gastos do governo, em menos de 10 meses o Planalto já gastou mais de R$ 760 milhões com o vaivém dos burocratas.

Se juntarmos a isso, para efeito de contabilidade, as despesas bilionárias com o AeroLula, o perdão de US$ milhões da dívida de países da África e da América do Sul, os empréstimos do BNDES a Cuba, Venezuela e a Argentina, para não falar no problemático envio de tropas ao Haiti, considerado um “buraco negro”, se verá, afinal, que no campo da política externa, ao contrário do que afirma o pensamento “politicamente correto”, a nave Brasil esta à deriva.

Lula 2005

“Every decent man is ashamed of the government he lives under”

Mencken

Em meados de dezembro de 2004, depois de fazer análise até certo ponto generosa dos dois anos do governo Da Silva, ponderei quanto as suas reais perspectivas para 2005: “O grande enigma para as consciências livres não é mais saber o que de promessas, escândalos e arrochos aguarda a população brasileira no próximo ano, mas, sim, em que escala, amplitude ou proporção elas ocorrerão”.   

Transcorridos apenas 20 dias de 2005, o quadro não poderia ser mais animador. Senão, vejamos:

1º) Logo no primeiro dia do ano o governo, caladinho, assinou retroativamente a Medida Provisória 232/2004, que elevou de 32% para 40% a base de cálculo dos “prestadores de serviço”, as pequenas empresas que pagam tributos sobre o “lucro presumido”. O governo, como sempre, para elevar a carga tributária, comportou-se como um assaltante ardiloso. Assim, afirmando estar reduzindo em 10% a alíquota do Imposto de Renda das pessoas físicas (quando o exigido seria de 17% em face de inflação de 9,6%), o governo Da Silva meteu a mão no bolso das pessoas jurídicas prestadoras de serviços, expropriando, com o canetaço fiscal picareta, mais de R$ 200 milhões.

Como imediata reação à medida espoliadora, a Associação Brasileira de Supermercados já anuncia um repasse ao consumidor entre 1% e 2%. Sem contar com os milhares de “prestadores de serviço” que serão colocados no olho da rua (só em dezembro, com carteira assinada, foram 352 mil). 

2º) Se no plano econômico o ano começou mal para o trabalhador brasileiro, no âmbito da arena política a coisa ganha proporções alarmantes (e imprevisíveis): Da Silva, após breve namoro com o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG), exatamente por sabê-lo flexível no diálogo com as oposições, resolveu passar a perna no aliado e promover a candidatura do deputado Eduardo Greenhalgh (PT-SP) à presidência da Câmara Federal, o menos aceito pelas bases do partido, que o encara como nocivo para o exercício do cargo.

Entre outros problemas, Greenhalhg, antigo advogado e mentor intelectual de Da Silva nas lides sindicais, carrega um perfil nada animador para chefiar o 3º posto na hierarquia política da nação: além de ser considerado tipo intolerante, esteve envolvido – quando Secretário de Assuntos Jurídicos na gestão da prefeita Luiza Erundina, em São Paulo – no indigesto “Escândalo Lubeca”. Greenhalgh, à época, foi acusado por um funcionário da empresa, o Sr. Paulo Albanaze, de ter recebido propina da empreiteira Lubeca na ordem de U$ 200 mil. O Secretário negou o seu envolvimento no escândalo, mas a paraibana Erundina o demitiu no ato, alegando “quebra de confiança” (daí, a marginalização e, mais tarde, a saída de Erundina do PT).

Para tisnar ainda mais o perfil do embigodado candidato oficial, sabe-se que ele, embora seja favorável a lei do desarmamento, anda sempre acompanhado por um guarda-costas empunhando metralhadora (no caso, o segurança Pedro Lobo de Oliveira, a julgar pelo prontuário da Polícia Civil de São Paulo, um dos responsáveis nos anos 70 pela execução – diante da mulher e de um filho de 9 anos – do Capitão do exército americano Charles Chandler).

3º) E, not but not least, para consolidar ainda mais a promissora temporada de arrochos e escândalos no país de Fome 1000, temos o caso trivial do filho de Lula, que, à custa de dinheiro do contribuinte, prodigaliza almoços, jantares, banhos de piscinas e dispendiosos passeios de avião e lancha para quatorze amiguinhos da esquina. Um deles, cara de pau e, sem dúvida analfabeto, teceu depois do convescote, em site doméstico, comentário único, mas revelador dos tempos em que vivemos: “Esse dia nóis foi andá de lancha – todos os mulekes, menos o Lula”.

O que espanta em toda essa melopéia permissiva é a completa omissão do presidente (vai ver, acha “bonito”), que tinha a obrigação de vir a público e pedir desculpas à população faminta, que amarga o pão que o diabo amassou. Tal como fez, por exemplo, o príncipe Charles, da Inglaterra, que depois de ver filho Harry fantasiado de nazista, não só o castigou, como pediu desculpas à comunidade judaica, à população Inglaterra e à Europa inteira.

Pensei em terminar escrevendo sobre os escandalosos temas do AeroLula, juros extorsivos, o premeditado silêncio em torno dos prejuízos ocasionados pela intervenção no Banco de Santos, os vampiros do Ministério da Saúde, os casos Waldomiro Diniz e Duda Mendonça e ainda a novela da Ancinav, que em futuro próximo voltará às manchetes com outro nome digno de (feroz) agência de controle para os meios de comunicação de massa – mas faltou espaço. Fica para depois.

Notas:

(A propósito da Ancinav, por enquanto arquivada, Vladimir Carvalho, cineasta de “talento vermelho”, diz em entrevista que fui “um desastre para o cinema brasileiro”. Vladimir repete Cacá Diegues (“sinhozinho do cinema” e péssimo cineasta) e confunde o cinema brasileiro com o cinema de Estado que se mantém em cima da espoliação das massas. Na escumalha do cinema chapa branca, sacanear Ipojuca Pontes é um álibi.

Nos anos 60, conhecido na Paraíba como “Borotchenko”, o Vladimir era um “quadro” encarregado das tarefas popularescas do PC. Em Brasília, no auge do “desmonte” do Collor, me ofereceu almoço em mansão de luxo do Lago Norte, pois queria que arranjasse emprego para um seu aliado e, depois, detrator.

Já pensei em traçar o perfil crítico do chamado “cineasta vermelho”, daqui e do exterior, mas será que esse tipo de gente merece mais do que desprezo?

De minha parte reafirmo que me sinto honrado de ter ajudado a fechar a Embrafilme, uma célula do esquerdismo e instrumento oficial de corrupção da ditadura de 64 dentro do cinema).

Desmoralizada ONU

“A ONU é uma gigantesca máquina burocrática operada por pigmeus”.

Roberto Campos

Uma boa notícia para o mundo real: a ONU, ou pelo menos a atual versão da ONU – Organização das Nações Unidas – pode estar chegando ao fim, tal qual o seu modelo predecessor no final dos anos 30, a também desmoralizada Liga das Nações. Dois fatos reforçam o prognóstico: 1) Baseado em livro-denúncia de ex-diplomata “da casa”, produtores de Hollywood iniciaram um seriado para televisão tendo como fundo os bastidores da organização e sua promíscua vida sexual, pontilhada por casos de adultério, homossexualidade, lesbianismo e bacanais, e 2) Um americano típico, Howard Kaloogian, saturado de pagar impostos para sustentar o colossal elefante branco, está recolhendo 1 milhão de assinaturas para tirar a sede da ONU dos Estados Unidos, mais precisamente da Praça das Nações Unidas, em New York.

O indignado Sr. Kaloogian, criador da afluente associação Move America Forward (Conduza a América para adiante), já recolheu mais de 250 mil adesões. Espera chegar ao número pretendido em pouco tempo e, com um intróito de repúdio, entregar o abaixo-assinado ao Congresso americano, cuja maioria – hoje composta por republicanos – não tem um só motivo para tolerar a tendenciosa ONU. Se a proposta for aprovada, a organização vai para o espaço.

“Eles não gostam de nós” – disse o cidadão americano – “então nós não os queremos em nossa casa. Que se mudem para a Europa ou o Sudão, onde há um genocídio, e eles não fizeram nada para impedir. Ouvi dizer que o Brasil é bonito. Por que a ONU não se muda para lá?”

Bem que o Itamaraty (com sua idéia fixa de integrar o Conselho de Segurança da matrona) gostaria. Mas o Brasil não tem fortuna para manter semelhante preciosidade: a ONU, com o seu espantoso e muitas vezes inútil aparato burocrático, custa uma enormidade, algo em torno de US$ 3 bilhões anuais, 23% dos quais financiados até recentemente pelos EUA. Com essa grana toda, admite-se, parte significativa dos urgentes problemas provocados na Ásia pelas tsunamis poderiam ser enfrentados. Mas as cotas que alimentam o caixa da entrópica organização são em boa parte consumidas com o pagamento de benefícios e salários de burocratas empedernidos que olham o mundo, dentro dos seus custosos casacos, de cima para baixo.

Como se sabe, o centro da burocracia diplomática internacional foi criado em 1945 (completa 60 anos em junho próximo) e instalado nos EUA, no crepúsculo da II Guerra Mundial, com a aprovação de uma Carta assinada por cerca de 50 países. Seus objetivos, em nada desprezíveis, eram os de manter a paz e a segurança entre os povos, controlar a proliferação de armas nucleares, resolver querelas entre nações, fomentar a cooperação e o respeito aos direitos humanos – para não falar no empenho de enfrentar, em âmbito universal, as tarefas de combate ao analfabetismo, fome e doenças em geral.

De lá para cá, no entanto, os objetivos estratégicos da organização tornaram-se imperiosos (e imperiais) e seus mentores, sedimentados no mais puro anti-americanismo, se empenham em torná-la o centro de um governo mundial, a partir da (in)formalização de estranha comandita entre as principais nações da Europa e os manipuláveis paises do Terceiro Mundo. De fato, por força do predomínio de idéias coletivistas e manobras astuciosas, a ONU vem, nos últimos tempos, impondo preconcebida agenda de temas globais “politicamente corretos” e de notório anti-capitalismo, a mobilizar dispendiosas ONGs que procuram fazer (artificialmente) a cabeça da opinião pública mundial, em especial a dos países tidos como subdesenvolvidos.

Com efeito, ao lado do incompreensível silêncio diante da ação de tiranos brutais e da mobilização de organizações e paises terroristas, a ONU parece inverter as prioridades na busca da paz e da segurança para se envolver ativamente na consecução de compromissos heterodoxos como, por exemplo, as questões que dizem respeito às problemáticas do relacionamento gay, descriminalização das drogas, legislação ambiental radical, etc. que a torna, no cenário atual, avalista e gestora do caos que se abate em escala crescente sobre a face da terra.

Mas a indisposição da Move America Forward não cresce apenas pelo indisfarçável anti-americanismo que tomou conta da ONU, pois o seu criador se diz plenamente favorável à existência da entidade (fora dos EUA). O que torna a organização alvo da indignação das consciências ativistas é a onda de escândalos financeiros que varre os corredores da Velha Senhora, agora assumidamente indigna: de comboio com a incompetência generalizada, o seu secretário-geral, o Sr. Kofi Annan, nascido em Gana, vem sendo acusado de encobrir fraudes e desvios do programa Petróleo por Comida, criado para ajudar o Iraque, e que envolve diplomatas da ONU, Saddam Hussein, empresários e o filho do próprio Annan, Kojo, em “maracutaia” de bilhões de dólares.

De concreto, sabe-se o seguinte: após 50 auditorias levantadas pelo Escritório de Serviços de Supervisão Interna (que agora se prolonga pelo Congresso norte-americano), estão sendo divulgadas informações que detalham como as agências da ONU “atiraram pelo ralo milhões de dólares doados pelo mundo inteiro”. Nos relatórios publicados em site de internet por comitê independente nomeado pelo próprio Annan, fica evidenciado que o escândalo é de largo espectro e envolve desde pagamentos superfaturados a empreiteiros, até administração incompetente de recursos e vista grossa sobre operações fraudulentas de funcionários. O próprio Saddam usava o dinheiro do Programa para comprar armas.

No caso especifico da família Annan existe o seguinte: a empresa suíça Cotecna, contratada pela ONU sem licitaç&ati lde;o para inspecionar os containers de alimentos que entravam no Iraque, além de conviver com o não cumprimento das normas de fiscalização do programa, tinha na folha de pagamento o filho de Annan, que ganhava sem trabalhar. O esquema de fraude movimentou o repasse de subornos na ordem de US$ 10 bilhões.

Com seus ternos impecavelmente cortados e o pendor para encaminhar as questões diplomáticas usando dois pesos e duas medidas, o secretário-geral da ONU parece dobrar os joelhos quando, acuado, justificou:

“Reconheço que esses pagamentos criam uma percepção de conflito de interesses e malversação de dinheiro. Mas meu filho é um homem de negócios, independente, e não se envolve nas minhas atividades – nem eu nas dele”.

Para Annan, tudo está explicado. Mas só até a entrega do abaixo-assinado e a previsível reação do Congresso americano diante dos escândalos da ONU.

Notas:

Para maiores informações sobre as Nações Unidas, acesse a editoria
ONU em
MSM.

Perfil de Brasília

“Brasília é um universo tenso de expectativas”

Clarice Lispector

Diz a versão original que Brasília nasceu de um porre. Deu-se o seguinte: Juscelino Kubitschek, seu criador, estava fazendo discurso de campanha eleitoral para Deputado Constituinte, em 1946, quando recebeu aparte de um fazendeiro, visivelmente embriagado, indagando se o candidato, caso eleito, encaminharia projeto de mudança da capital federal para o Triângulo Mineiro – ou para o planalto central – conforme previsto na 1ª Constituição Republicana de 1891. O futuro presidente, sempre muito “político”, logo encampou a idéia e dela fez cavalo de batalha, não só enquanto deputado constituinte, mas, principalmente, em meados dos anos 50, como candidato à Presidência da República.

Eleito, temendo a sabotagem dos políticos adversários, em praticamente três anos JK construiu, transferiu e inaugurou a capital, fomentando colossal soma de gastos, origem, para muitos, do processo inflacionário que nos assalta e que até hoje deixa buraco no bolso de cada brasileiro vivo. Para construir Brasília, o presidente imprimiu dinheiro sem fundo, pediu empréstimos aos americanos (e obteve), estourou várias previsões orçamentárias e transformou, no país, o que era pobreza com dignidade em miséria sólida e galopante. Em abril de 1956, quando JK encaminhou ao Congresso o projeto de lei para a construção da nova capital, um quilo de “carne fresca” em João Pessoa (PB) custava dois cruzeiros. Em abril de 1960, quando Brasília foi inaugurada a toque de caixa, a mesma “carne fresca” estava por Cr$ 300. Uma coisa de doido!

Hoje, plenamente construída e cada vez mais problemática, Brasília, ou o “custo Brasília”, representa uma fábula incalculável de dinheiro sacada impunemente das demais unidades da Federação, muitas delas, em que pese a produtividade, vivendo a pão e água para manter em posição de privilégio a “mãe de todos os escândalos”.

Com efeito, ao contrário de São Paulo, responsável pela força do PIB nacional, Brasília, produzindo basicamente discurso e muito papel, tem hoje a maior renda per capita do País, alguma coisa em torno de R$ 16,300 (contra R$ 11,353 de SP). Quando lá estive há mais de dez anos, seus funcionários podiam ser considerados verdadeiros príncipes em relação aos demais habitantes do País: além dos proventos, tinham direito a auxílio moradia, transporte, saúde, educação, segurança, etc., etc., sendo que alguns, mais categorizados, viviam um ano de 15 meses, pois usufruíam inquestionável direito ao 15º salário. Sem falar, é claro, em passagens aéreas, banquetes, mordomias & conexões (tipo, por exemplo, férias dos quatorze amigos dos filhos de Lula no Palácio da Alvorada).

À época, o permanente foco das atenções não era propriamente o manuseio da papelada burocrática – inútil, infindável e fatigante -, mas saber-se qual ministro “pisou na bola”, quem iria entrar no seu lugar, qual o estilo do novo chefe de gabinete, se o futuro ministro era ou não sensível à isonomia salarial, às aposentadorias precoces, em suma, às reivindicações sempre “pertinentes” dos membros da vigorosa máquina burocrática. Ou seja: Brasília, em que pese ser a presumível capital do Brasil, configurava o espaço da nomenclatura voltada para si própria, alheia às agruras enfrentadas pela população nacional, em última análise, a responsável pela pródiga mordomia em que se refestela.

Outro problema era a vida física de Brasília e o seu entorno.

Considerada obra arquitetônica e urbanística singular, a chamada Esplanada dos Ministérios tinha os seus prédios envidraçados, o que, devido à excessiva claridade solar, obrigava o serviço de manutenção a fechar cortinas e acender as luzes em pleno meio dia – um desperdício irracional de energia. E no plano doméstico, embora traçada pelo arquiteto socialista Oscar Niemeyer, os quartos de empregados dos apartamentos do DF em nada diferiam de celas ou cubículos.

No papel, idealizada para chegar à virada do milênio com população estimada em 500 mil habitantes, Brasília vê-se sufocada por doze carentes (e violentas) cidades-satélites (Ceilândia, Taguatinga, Gama, etc.) que somam mais de dois milhões de pessoas – quem sabe a esta hora sendo instigadas por algum Stédile da vida para repetir no planalto a definitiva marcha que Mussolini empreendeu sobre Roma.

Em ensaio que unia o sensível ao inteligível, a ucraniana Clarice Lispector dizia que a estranha cidade era um “universo tenso de expectativas”. De fato, Brasília, para quem nela vive, exige atenção redobrada, o que a torna estressante e, dentro da rotina a que está atrelada, de ampla imprevisibilidade – o que explica o seu compreensível apego ao alcoolismo, adultério e esoterismo, “atitudes comportamentais”, de resto, já sobejamente assinaladas.

Para muitos observadores, o problema básico de Brasília é de ordem moral. Seus hábitos, costumes, tradições, usos e atitudes, vistos com isenção, contrariam as disposições gerais que ordenam o resto da nação. Por isso, a consciência nacional a tem – na melhor das hipóteses – na conta de “Ilha da Fantasia”, onde tudo se resolve, o mais das vezes, por força do conluio de “lobbies” e dos interesses corporativos (vide PPPs – Putarias Públicas e Privadas, apud Osíris Filho), inesgotáveis, que reafirma, por sua vez, o poder do círculo fechado da sólida nomenclatura. No cotidiano, o sujeito pode ser deputado, senador, ministro ou burocrata e se comportar naturalmente na unidade federativa que representa. Mas, uma vez em Brasília, torna-se “de Brasília”, isto é, um ser tocado pela Conveniência do Poder. E aí, salve-se quem puder!

De minha parte, acho que só uma perversão de tal natureza pode explicar o fato do sujeito considerar tolerável a completa inversão dos poderes que faz o Executivo legislar por força de medidas provisórias e o Legislativo permitir e apoiar – dizendo-se antagônico – os sucessivos aumentos dos impostos e tributos, a despeito de entender que eles sã
o um ônus criminoso e insuportável para aqueles aos quais devia – por força da representação política – defender.

Que Deus se apiede de nós.

Chico Fanatizado Buarque

Os jornais de domingo são uma pausa para reflexão; alguns com intermináveis ensaios, outros com entrevistas longas e surpreendentes. Como os jornais de São Paulo, embora em crise, sobrevivem hoje mais endinheirados do que os jornais do Rio, um deles mandou um enviado especial atrás de Chico Buarque para entrevistá-lo em Roma e Paris.

Na entrevista, o compositor popular fala sobre o que esta fazendo e o que não está fazendo, cita Montaigne a propósito de uma frase (“Parce qu´etait lui, parce qu´était moi” – “Porque era ele, porque era eu”), faz suas ponderações de compositor milionário (tem apartamento em Paris, casa de campo, etc.) e diz das suas peripécias criativas – coisa que, no momento, devo confessar, não me interessa, pois em matéria de música popular parei (melancolicamente) em Ataulfo Alves, Cole Porter e Manezinho Araújo, o genial criador de emboladas que nasceu na cidade do Cabo, perto do Recife, Pernambuco.

Lá para as tantas o compositor deixa a música popular de lado e passa a falar sobre política, especificamente política internacional. Ele revela, por exemplo, que nos anos 70 era conhecido na Cuba do ditador Fidel Castro com o “el embajador”, mobilizando ativo “intercambio” que envolvia artistas e intelectuais. Ele próprio, sem meio-tom, considera que, neste terreno, “cumpriu bem o seu papel”.

(Só para não perder o embalo: nos anos 70, enquanto Chico “cumpria bem o seu papel”, Castro mantinha sob tortura permanente nas masmorras de La Cabana e Porto Boniato milhares de presos políticos, entre os quais, trancafiados em inimagináveis celas-gaveta, os poetas Armando Valladares e Heberto Padilla, considerados pela Anistia Internacional como “prisioneiros de consciência”. El Caballo, como Fidel era conhecido, navegava num mar de violência. Entre mortos, torturados e desaparecidos, “O Livro Negro do Comunismo – Crimes, terror e repressão”, pesquisa dos historiadores esquerdistas Stéphane Courtois e Jean Louis Margolin (Editora Bertrand Brasil, Rio, 1999), contabiliza no “Gulag das Américas” cerca de 50 mil prisioneiros)

Em tom de aparente nostalgia, o compositor justifica-se afirmando que existe na sua geração (dele, lá), uma forte relação afetiva com a revolução de Castro, a ponto de considerar o ditador como “um exemplo de resistência”: “Ele é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina que resistiu a golpes e assassinatos e ali está. Ele sobreviveu a vários atentados. Manteve e mantém até hoje uma posição altiva. E isso é algo que ninguém deve ignorar e que eu admiro”.

O que Chico Buarque chama de “altivez” em Fidel (na juventude, tido e havido como sicário) é a petrificação de uma alma tirana e egoísta que transformou Cuba numa ilha-prisão, mantendo a ferro e fogo, em verdadeiros campos de concentração, os dissidentes políticos que ousam enfrentar a ditadura castrista – ditadura que há mais de 45 anos leva o povo cubano a sobreviver num cotidiano de miséria, medo e repressão e, o mais humilhante, a matar a fome em cima dos dólares enviados por foragidos da ilha a partir dos sempre generosos Estados Unidos da América.

No final da entrevista, plenamente “engajada”, mas nada estranhável para o universo em que se projeta o chamado beautiful people da vida artística brasileira, o famoso compositor se diz “contrariado”. E confessa: “É claro que me desagrada a idéia de um partido único, das liberdades vigiadas, mas existe ao mesmo tempo a necessidade de um controle para manter os valores da revolução, que a meu ver são louváveis”.

E aqui se revela todo fanatismo do sujeito que é considerado o “grande compositor” popular do país. Ele, anestesiado pela embriaguês do antia-mericanismo declarado (e, no meu entender, irracional), não quer saber se Fidel Castro tornou-se um tirano vulgar que se mantém no poder pela força do terror policial, oprimindo com prisões, torturas e fuzilamentos em série os que se manifestam contra “os valores da revolução”, que Chico Buarque acha louvável, mas que a realidade vivida pelo povo cubano demonstra ser intolerável. O que importa, para o “agrado” do compositor, é que Fidel Castro “é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina” – o que, no seu entender, justifica plenamente o “controle” exercido por Castro e sua corriola para que se mantenha na ilha o lodaçal de sangue que cimenta a encalacrada ditadura do tirano.

No plano internacional, a tolerância com Fidel Castro (e sua revolução) está chegando – se não já chegou – ao fim. Seus constantes apelos à violência institucionalizada que se abate sobre Cuba levam o mundo civilizado a execrá-lo. Ninguém com razoável dose de consciência está mais disposto a justificar a infindável tirania de Castro e até mesmo comunistas declarados como José Saramago, por exemplo, renunciaram o papel de defensores da ditadura sanguinária[*].

No Brasil, no entanto, uma elite intelectual que se proclama sábia e justa, mas que, de ordinário, faz exatamente o oposto do que diz, não tem o menor pejo em cultuar ou – quando não – manter sob uma cortina de silêncio as estripulias do empedernido ditador. Para os integrantes da jubilosa corporação “pega bem”, para sacanear os Estados Unidos, tecer, em entrevistas domingueiras, elogios ao “Comandante Castro”, pois, em que pesem as evidencias, persistem na defesa de uma revolução que eterniza a repressão, o cárcere e a miséria (física e moral).

Quem os amaldiçoa, em sites e artigos que escapam ao “controle” do tirano do Caribe são os milhares e milhares de dissidentes que amargam o seu jugo.

Que Deus os proteja.

Notas:

[*] Nota Editoria MSM: Na verdade, o "rompimento" de Saramago com Castro foi uma ridícula mise-en-scéne que naquele momento era importante representar, e ambos já voltaram ao bom e velho relacionamente de cúmplice e criminoso.