Nivaldo Cordeiro


A solidão do abismo

Mais do que outros fatores, a crise econômica teve o condão de isolar politicamente o PT. É nessa lógica que está sendo construída a alternativa do impeachment. É nessa lógica que a presidente Dilma Rousseff amarga a solidão à beira do abismo, à espera do golpe fatal que vai destrona-la. Vive a solidão dos que precisam ser expulsos do poder. A carta divulgada pelo vice-presidente da República, Michel Temer, apenas confirma seu isolamento político.

A arrogância com que Dilma Rousseff se diplomou para o segundo mandato contrasta com o que aconteceu a partir da posse. A nova legislatura ficou ainda mais hostil do que aquela que a acompanhou no governo anterior. Seu partido, o PT, ficou francamente minoritários e, por isso, teve que arquivar sua preciosa agenda legislativa no rumo da revolução cultural. Foi o primeiro sinal de fraqueza. Antes, duelou com o PMDB e perdeu, tendo que engolir como presidente da Câmara de Deputados Eduardo Cunha. Passou a conviver com o inimigo declarado.

O banqueiro aprisionado

Vamos ver se a visão utilitarista típica de um banqueiro vai quebrar o silêncio de André Esteves. É provável que sim, mas isso causará um terremoto na vida política nacional. Se falar livremente vai comprometer toda cúpula da política e não apenas a do PT.

Nada mais extravagante e fora do lugar do que um banqueiro, e dos grandes, aprisionado. Em prisão preventiva, diga-se de passagem, a pior delas, aquela que é determinada para que a investigação dos supostos crimes possa prosseguir sem a sua interferência. Normalmente, tal expediente é usado para investigar crimes de sangue ou de tráfico de drogas, tomados em flagrante delito, mas ficou usual entre, nós depois que o PT chegou ao poder, não porque este tenha decidido “investigar” mais, mas precisamente porque o partido decidiu delinquir mais na política, fez do poder de Estado um duplo instrumento de autoperpetuação no poder e de máquina para se locupletar.

A lama de todos nós

Quando digo que a lama é de todos nós é para que meditemos sobre o viés ambientalista que domina certos vingadores da mídia e do Ministério Público.

Não há como não ficar comovido com a tragédia provocada pelo rompimento da barragem que segurava a lama da mineradora de Mariana. A chegada da lama ao mar, escurecendo as águas, foi espetáculo catastrófico. A visão da fauna morta onde o rio de lama passou choca. Os mortos no vilarejo à jusante da barragem compuseram um cenário que em muito lembra as ruinas de Pompeia soterrada pelo Vesúvio.

Poderíamos aqui recuperar os versos desesperados de Zeca Pagodinho:

Que importa
Se há tanta lama nas ruas
E o céu é deserto e sem brilho de luar?

Os atentados de Paris

Depois das notícias sobre o atentado de hoje no Mali não cabe dúvida de que, não apenas a França, mas todo o Ocidente tem que se envolver na destruição dessa ameaça coletiva.



A violência crua dos atentados recentes verificados na cidade de Paris teve o poder de convencimento, para o governo francês, que teve os atentados do 11 de Setembro. A visão irrealista sobre o islã dos socialistas franceses foi abandonada e se traduziu no mantra repetido pelo presidente Françoise Hollande: “A França está em guerra”. Deveria dizer: “O Ocidente está em guerra”. Nenhum alvo ocidental está a salvo da loucura assassina dos jihadistas.

A percepção do presidente francês confirmou a que teve o presidente da Rússia, que há muitos dias deflagara, sozinho, sucessivos ataques contra os terroristas do Estado Islâmico. Inicialmente teve a desaprovação dos franceses, que querem a saída do Assad do poder na Síria. Agora ambos os países estão construindo uma parceria para derrotar definitivamente o EI, mesmo contra a opinião do presidente dos EUA, que parecer nutrir alguma simpatia para com os terroristas.

Cenário para 2016

E o que esperar de 2016? Mais do mesmo. Mais inflação, mais desemprego, mais desvalorização do câmbio.

O déficit público é a mais perfeita armadilha para caçar raposas. Este animal é tido por ser muito esperto e atilado e cheio de manhas e artimanhas para alcançar seus objetivos. Não trabalha em linha reta e é imprevisível, quando menos se espera dá o bote. Por isso os espertos da política são apelidados de “raposas”, expressão que é mesmo elogiosa vista do ponto de vista da finalidade da política, mas não da ética. Em geral, os “raposas” são seres sem escrúpulos.

A esperteza da raposa, todavia, é relativa, visto que ela cai frequentemente em armadilhas. As armadilhas para pegar raposas são as que contam com a sua esperteza, pois ela entra no buraco sem saída para pegar a isca sem ao menos se dar conta e se torna vítima fatal dos caçadores. Sempre foi assim. As raposas do PT acharam que poderia dar um “pelé” na lei da escassez e fabricar uma prosperidade artificial praticando déficits. Durou o período pré-eleitoral, quando ninguém ainda tinha se dado conta da esperteza posta em prática. Ao se revelar a verdade, o que se viu foi a raposice inteira presa à armadilha. O déficit público é a corda que está enforcando os espertalhões que praticaram o estelionato eleitoral.

A série Escobar, El Patrón Del Mal

A série omite as suas conexões com o Brasil. Bem sabemos que gente como Fernandinho Beira-Mar era seu parceiro. Quanto do dinheiro de Escobar teria vindo do Brasil ninguém sabe, mas não deve ter sido pouco.

Plata o plomo” era o lema de Pablo Escobar para tratar dos “negócios” e da política. A série da TV colombiana realça esse lado violento e louco do mais famoso dos filhos da Colômbia. Essa série não tem o padrão da produção do Narcos do Padilha e padece de alguns defeitos óbvios, mas o ator principal é muito bom. O elenco tem altos e baixos e se fica com a impressão de grande amadorismo na produção.

A série foi obviamente direcionada para ser a versão oficial e governista dos acontecimentos. Nela não se vê uma única cena de violência policial contra os traficantes, como se esta fosse monopólio do narcotráfico. É contrastante com o Narcos, que mostra a violência desenfreada dos dois lados, até porque a narrativa é feita sob o ângulo da visão dos agentes da DEA. Mesmo com esses defeitos, a série passa os principais traços de personalidade do traficante: frio, calculista, determinado, estrategista. Escobar era extremamente afetivo com a família e os seus, mas para os inimigos era um monstro. Ser amigo ou inimigo podia ser apenas uma diferença de uma frase mal colocada. Não hesitava nem diante do perigo nem diante da crueldade. Esta, aliás, era sua principal arma. Ter Escobar como inimigo era uma sentença de morte.

A reforma ministerial

O socialismo assim permanecerá como ameaça permanente contra os brasileiros, a cada momento camuflado em uma sigla.

A reforma ministerial empreendida pela presidente Dilma Rousseff foi a esperada. Entregou sete pastas ao PMDB e a Casa Civil a alguém de confiança do ex-presidente Lula. Pouco sobrou da composição do seu ministério original, pois quando ganhou o segundo turno das eleições achou que finalmente estava livre de Lula e que poderia diminuir o poderio do PMDB. Tudo deu errado e ela realisticamente agora fez prevalecer a verdade política dentro do seu ministério.

É um ministério de transição, o de agora, prova cabal de que a presidente está enfraquecida e pode ser removida do poder. Ela só procedeu às mudanças porque a alternativa seria renunciar. O movimento em pinça feito pelo PMDB e pelo PT de Lula esvaziaram de vez o que restava de sua liderança. Na melhor das hipóteses terá um final de governo bisonho; na pior, será removida do poder pelo impeachment. O PMDB provou que tem poder para tal.

O cúmulo da irresponsabilidade

Esse tem sido o modo do PT governar, em todas as esferas. Dá as costas para a realidade e praticando injustiças contra os brasileiros.

A superação da crise econômica terá de ser precedida da superação da crise política.

 

A decisão de Dilma Rousseff de remeter proposta orçamentária deficitária ao Congresso Nacional, em meio a grave crise econômica, reflete o descompromisso dela e do seu partido, o PT, com os destinos da nação. É mesmo um comportamento infantil. A presidente, sabedora de que o Congresso Nacional não aprovaria proposituras de elevação (ou criação) de impostos, bateu o pezinho e manteve a colossal despesa, que não cabe no orçamento. Recusou-se a enfrentar sua clientela preferencial, os tais movimentos sociais.

 

A reação do mercado foi imediata. O câmbio desvalorizou-se instantaneamente. Em seguida, veio a notícia que a agência avaliadora Standard and Poor’s retirou o precioso grau de investimento, fato que encarece a captação de recursos e impede que investidores institucionais façam do Brasil um destino de seus investimentos. Assim, o Brasil entrou no rol dos mercados especulativos de alto risco. Há algum tempo está havendo fuga de capitais por quebra da confiança.

O que revela a proposta orçamentária


A inovação de apresentar um orçamento deficitário, em meio a uma grave crise econômica, está consoante a crença do PT e da própria Dilma Rousseff, que se diz economista, no keynesianismo bastardo.

A proposta orçamentária apresentada por Dilma Rousseff ao Congresso Nacional, mesmo ilegal e tecnicamente imperfeita, pode ser útil para mostrar como se move o governo do PT e sua presidente. Ela se presta a um experimento de laboratório como se verme fosse. Essa proposta orçamentária é a síntese e a somatória de todas as ilusões de Dilma Rousseff sobre a realidade e também sua ignorância completa da ciência econômica. Sem esquecer sua amoralidade intrínseca, seu descompromisso com a nação espelhados na peça. O orçamento público é importante porque o Estado brasileiro se agigantou e o nível de atividade econômica depende agora diretamente da boa gestão das contas públicas, além de representar a essência da liberdade política. Nenhum imposto adicional sem representação.

A ilegalidade da proposta orçamentária

Não há desculpa para o malfeito e nem para a ilegalidade praticada.

A ilegalidade e a loucura desse monstrengo que é o orçamento que está sendo apresentado representa, de forma cristalina, a fraqueza política da governante, que não tem mais as condições políticas e psicológicas de liderar seu governo.

 

A proposta orçamentária preparada pelo Executivo tem que cumprir todas as regras legais, mas uma lei é específica para regular sua elaboração e a precede: A Lei de Diretrizes Orçamentárias. Ao propor ao Congresso Nacional uma proposta que incorre em déficit primário, Dilma Rousseff cometeu uma ilegalidade e incorreu em crime de responsabilidade.

Naquela lei podemos ler: