Nivaldo Cordeiro


Sinais dos tempos

Lula é um médium das massas, ostenta na testa, por inteiro, a opinião pública.

“Há quem se sinta, na forma de vida atual, como um náufrago que não consegue flutuar”.Ortega y Gasset, 1937

Quando os estrategistas da campanha de Lula cunharam a expressão “um brasileiro igualzinho a você” foram de uma perspicácia sem igual. A “elite” (entre aspas, porque não há mais elites no Brasil, só ricos e letrados, de um lado, e a massa pobre e ignara, do outro, tão iguais a Lula quanto nem imaginam) que ainda não havia aderido por inteiro ao PT, torceu o nariz, mas é isso mesmo: Lula é o brasileiro médio por excelência, o genuíno representante do homem-massa, o falcão que se livrou do falcoeiro, como previu o poeta. É o homem-massa no poder.

Quando recentemente ele disse que é uma metamorfose ambulante, foi também feliz: muda de idéia conforme a direção dos ventos, ou seja, da opinião do homem médio. Lula é um médium das massas, ostenta na testa, por inteiro, a opinião pública. Enxergar essa fatalidade é uma necessidade, mas é também um exercício de horror. Há um medo apavorante no horizonte, a espreitar-nos como Nação. Ortega y Gasset escreveu seu belo livro A Rebelião das Massas na segunda metade da década de trinta, os incríveis Anos Trinta, que colocaram a civilização de joelhos, ferindo-a de morte. Previu, como Jung, como Nietzsche, como Hayek, como Voegelin, como Mises, como Aron, palavra a palavra, o que viria imediatamente, quando Mussolini, Stalin e Hitler, e outros menos cotados, os homens-massa daqueles tempos, tomaram as rédeas do poder. Era um encontro com o destino.

Nas palavras do filósofo espanhol:

“Todo destino é, no fundo, dramático e trágico. Quem não sentiu o perigo do tempo palpitar em suas mãos não chegou às entranhas do destino, não fez mais que tocar sua mórbida face. No nosso, o ingrediente terrível é colocado pela avassaladora e violenta sublevação moral das massas, imponente, indomável e equívoca como todo destino. Aonde nos leva? É um mal absoluto, um bem possível? Aí está, colossal, instalada em nosso tempo como um gigante, signo cósmico de interrogação, uma guilhotina ou uma forca, mas também um possível arco triunfal!”

Naqueles tempos ainda havia a possibilidade de se ter dúvidas sobre os acontecimentos. Era o novo que acontecia, os contemporâneos como Ortega e Gasset ainda tinham o direito a pontos de interrogação. Agora é o velho que se repete, a macaquice do Novo Mundo copiando os pecados do Velho Mundo. A Humanidade, enquanto massa, nunca aprende. Nem há mais forcas e guilhotinas, instrumentos pouco eficientes para a morte no atacado, como é o costume da modernidade. Nem como antonomásia servem mais, depois dos fornos crematórios, dos gulags, dos massacres, das limpezas étnicas que a moderna maquinaria de guerra pode fazer em pouco tempo.

A lembrança desse trecho citado vale pelo alerta, o de que o homem-massa é a Sombra coletiva, o ogro devorador de homens. Dessa geléia informe e estúpida que é a massa humana, sequer os chamados homens de ciência escapam. A estupidez é generalizada. Há na massa a alegria dos girinos cuja poça d’água, rasa, seca ao sol, tornando-se o seu próprio túmulo. É a alegria dos estúpidos. O apelo que os dirigentes políticos fazem às massas é direto ao coração, ou seja, ao irracional, ao material, ao animalesco, ao mais elementar. A nossa campanha eleitoral em curso, toda ela, deveria ir para o manicômio, juntamente com os donos dos discursos. A boçalidade não pede mais licença para ocupar a sala de visitas.

Faltou ao filósofo investigar o efeito da “vanguarda” do tipo leninista que são os políticos que lideram os homens-massa. Olho para eles e vejo os Smith do filme Matrix, as montarias do Diabo, o Mal encarnado. É a mediocridade maléfica, Mefistófeles manobrando nosso Fausto de fancaria. Onde vai parar? Quando começará a correr o rio de sangue? Ortega y Gasset não sabia a seu tempo, e nem eu sei agora. Mas sei que o tempo está próximo.

O direito à continuidade

No Brasil tudo foi politizado, desde a economia, o convívio entre os sexos, a família, as relações mais ínfimas.Tudo passou a ser arbitrado, policiado e julgado pelo Estado.

“As revoluções tão incontinenentes na sua pressa, hipocritamente generosa, de proclamar direitos têm sempre violado, pisado e rasgado o direito fundamental do homem, tão fundamental que é a própria definição de sua substância: o direito à continuidade”.Ortega e Gasset

O excelente artigo de Gilberto de Mello Kujawski publicado hoje (16/09) no Estadão (“Autoridade e autoritarismo”) fez-me lembrar o Prefácio aos Franceses, escrito por Ortega Y Gasset para a edição, naquele país, do seu livro A Rebelião das Massas. Atente-se para o ano: 1937, mês de maio. É como se o tempo parasse e voltássemos ao passado. Hitler já dominava completamente a Alemanha, a União Soviética era o portento dos tempos com seus Gulags e a França – coitada – estava em véspera de cair nas mãos de um governo de esquerda, fato que, entre outras coisas, determinou a sua derrota na Grande Guerra que se avizinhava. O grande filósofo espanhol então escrevia, profeticamente:

“Já começou a crise na Europa, mas ainda parece uma crise como outras tantas. As pessoas ainda se sentem em plena segurança. Ainda desfrutam o luxo da inflação”.

Em outros termos, até mais didáticos, o articulista paulista fez o mesmo no seu texto de hoje. Poderia até mesmo ter repetido a frase fatídica e profética. Sua síntese não poderia ser mais fiel à realidade:

“O projeto de poder do PT já se esboça o suficiente para mostrar as garras: a máxima centralização, o intervencionismo sufocante na vida econômica e social e a fiscalização estreita das instituições (Judiciário, Ministério Público, funcionalismo, arte e imprensa). Centralização, intervencionismo e fiscalização formam o tripé autoritário do governo petista, ao qual se acrescenta mais um pé, até agora inadvertido: o culto da personalidade, marca inconfundível dos governos autoritários e totalitários. Aquele tão decantado “carisma” de Lula, orquestrado pelos marqueteiros, se transforma, sutilmente, no culto da personalidade do grande condutor dos povos, pairando acima do bem e do mal, a exemplo do que vemos em Fidel Castro e Hugo Chávez, para não lembrar figuras bem mais sinistras. Portanto, um autoritarismo de quatro pés”.

Ortega e Gasset não sabia – e nem poderia saber – dos grandes traumas que seriam escritos na seqüência, os grandes crimes que a História registra e a humanidade teima em esquecer. Mas ele “sabia”, intuía a grandiosidade dos perigos daqueles tempos. Como o nosso bravo Gilberto e tantos outros iluminados que se arriscam a alertar que o abismo está muito próximo de nós e é profundo.

O filósofo espanhol pensou e propôs uma explicação para o desastre, a emergência do homem-massa: “Um homem-massa é o homem esvaziado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil à todas as disciplinas chamadas `internacionais’. Não é um homem, é apenas uma forma de homem…”. O que ele diria se pudesse ter conhecimento da biografia dos nossos governantes, especialmente do Lula? Lula é a expressão do homem-massa feito poder. O significado histórico desse fenômeno não pode ser diminuído. É o absolutamente novo, o rompido com o passado, afeito à modas internacionais, fiel cumpridor dos lemas em voga, especialmente daqueles emanados dos,  que pugnam pelo Governo Mundial, a ONU e seus tentáculos.

Ortega e Gasset notou, naqueles tempos: “O politicismo integral, a absorção de todas as coisas e todo o homem pela política é a mesma coisa que o fenômeno da rebelião das massas descrito aqui. A massa rebelde perdeu toda a capacidade de religião e de conhecimento. Não pode conter mais que política, uma política exacerbada, frenética, fora de si, visto que pretende suplantar a religião, a `sagesse’ – enfim, as únicas coisas que por seu conteúdo estão aptas a ocupar o centro da mente humana. A política priva o homem de solidão e de intimidade, e por isso a pregação do politicismo integral é uma das técnicas usadas para socializá-lo”.

Há algo de diferente ocorrendo aqui? Infelizmente, não. Tudo foi politizado, desde a economia, o convívio entre os sexos, a família, as relações mais ínfimas. A religião foi politizada! Tudo passou a ser arbitrado, policiado e julgado pelo Estado. Nunca o indivíduo foi tão pequeno e o Estado tão grande. Nunca as patas do Leviatã ficaram tão pesadas.

O filósofo preocupava-se com coisas realmente grandes, como a própria civilização construída pela Europa. Nas suas palavras: “É, de fato, muito difícil salvar-se uma civilização quando chegou sua hora de cair em poder dos demagogos. Os demagogos têm sido os grandes estranguladores de civilizações…. A demagogia essencial do demagogo está dentro de sua mente e nasce de sua irresponsabilidade ante as próprias idéias que manipula… A demagogia é uma forma de degeneração intelectual…”. E nós, que ainda não construímos uma civilização, que temos tudo por arremedo, uma imitação mal-feita daquilo que a própria Europa construiu e nos legou? Será possível passar do primitivismo à barbárie, sem passar pela civilização? Parece que vamos conseguir a proeza. Temos os melhores demagogos sem termos tido os melhores pensadores. É um triste destino.

Antes de firmarmos uma tradição, estamos sendo privados da continuidade do nosso arremedo. Sequer a tradição cristã, a única que dá cimento verdadeiro para nacionalidade, conseguiu fincar raízes sólidas por aqui. Descontinuamos o que mal acabou de começar. Fomos duplamente violados, usando a ótica do filósofo: demos continuidade ao infortúnio que foi a ruptura da tradição na Europa. É triste, é uma calamidade, mas é fato. Podemos repetir o filósofo: “E, se já é grave ser revolucionário, quanto mais sê-lo por tradição!”