Nivaldo Cordeiro


A base aliada do PT

Desde que o PT assumiu com Lula temos visto os esforços hercúleos do PT para formar uma “base aliada”, eufemismo para dizer que o partido quer consolidar uma maioria parlamentar, supostamente para facilitar a governabilidade. Isso seria o normal em todos os governos. Ocorre que a tal base aliada tem sido infiel e tem falhado nos momentos decisivos. Por quê?

O problema central é que o PT não quer apenas a governabilidade, mas quer também implantar, pela via parlamentar, sua agenda revolucionária, aprovando suas proposituras de lei. Acontece que o “centrão”, representado pelo PMDB, faz tudo para apoiar o governo, menos aquilo que é decisivo: não apoiou a CPMF, a reeleição de Lula, o decreto de sovietização do Estado, a “democratização” da mídia, a criminalização da homofobia e coisas do mesmo naipe. O PMDB também tem servido de oposição eficaz ao PT. Isso está levando o partido ao desespero, pois o fraco desempenho de Dilma Rousseff nas últimas eleições pode significar o fim do projeto eleitoral do PT proximamente, sem que ele tenha logrado alcançar seus objetivos estratégicos.

O economista fiscalista

Li em algum lugar que Joaquim Levy é um economista fiscalista. É certo. Resta saber qual é a singularidade de um economista fiscalista. Isso quero abordar aqui.

Os economistas, junto com os profissionais do Direito, são as mãos e os braços do Estado. Eles que formatam e dão racionalidade geral à administração pública. Normalmente são os seres mais poderosos da estrutura estatal. O economista – o ministro da Fazenda (ainda que não necessariamente diplomado na matéria) – é o sujeito que administra a lei da escassez. O que vimos no Brasil é que temos dois tipos bem definidos de profissionais da economia: o desenvolvimentista, que ignora as leis econômicas fundamentais e quer driblar a lei da escassez, usando para isso a inflação, e o fiscalista, aquele que impõe a racionalidade já bastante conhecida pela ciência econômica de limitação dos meios.

Essa racionalidade consiste essencialmente na compatibilização da receita e da despesa pública, no controle do endividamento e da emissão de moeda. Basicamente os pilares de qualquer administração estatal responsável em todo o mundo: superávit primário, câmbio flutuante e metas inflacionárias.

O atentado na França

Os esquerdistas são os facilitadores do avanço islamita no Ocidente.
Como o tempo agora é de radicalização e há mortos e feridos nas calçadas das grandes cidades, não é mais possível ignorar os perigos.

Guardadas as devidas proporções, em face dos números dos mortos, o atentando ocorrido ontem em Paris é da mesma natureza do que aquele que derrubou as Torres Gêmeas. É a prova de que o terrorismo islâmico continua ativo em toda parte. Mesmo nos EUA tivemos alguns episódios de franco-atiradores mortais. A novidade é que o fato ocorreu na França, país que tem demonstrado grande simpatia pelos militantes da causa islâmica em várias oportunidades. Em 1995, a mesma Paris já tinha sido objeto de um atentado a uma estação de metrô, que deixou muitos mortos, mas parece que tudo se apagou da memória. Fiquei indignado com a morosidade registrada pela polícia francesa para reagir. As imagens do policial assassinado friamente parecem revelar que ele nem portava arma de defesa pessoal. Presa fácil, galinha morta.

Na passagem do Ano Novo

 

O diabo na rua, no meio do redemoinho”.

Guimarães Rosa

 

O ano que passou foi coberto por ventos fortes, que ceifaram muitas árvores frondosas e muita gente boa sucumbiu. Algumas pessoas foram feitas prisioneiras por causa da corrupção. Os ventos vergaram a estrutura de poder, mas não a derrubaram. As eleições foram o marco mais substantivo do ano e foram a prova cabal de que a revolução em marcha, levada a cabo pelo PT, logrou enganar parte considerável do eleitorado, a ponto do partido se manter no poder. Vieram à tona as coisas do petrolão, inutilmente, secundando o mensalão de triste memória. Os brasileiros eleitores parecem ter perdido o senso moral e a capacidade de se indignar com os governantes. Ignoraram os fatos e as provas, ignoraram a imprensa e o reboliço indignado que se apossou de boa metade da nação, quem sabe “a” boa metade.

O dilema de Dilma Rousseff

Está posto o dilema para Dilma Rousseff, que é saber o que fazer com a questão da economia. O ministro Guido Mantega está demissionário e se arrasta no cargo feito um morto-vivo. Quem conhece os meandros do poder sabe que um ministro da Fazenda fraco é meio caminho andado para o desastre, sobretudo numa hora que decisões difíceis precisam ser tomadas. É ele quem tem que dizer “não” aos demais ministros, em nome da presidente.

Por que Guido Mantega ainda não foi substituído? Quem segura o ministro é o próprio Lula, é a sua cota pessoal. Só sairá quando o ex-presidente assim decidir. Será na escolha do nome que ficarão claros os caminhos que Dilma Rousseff escolheu. Um nome igual ou à esquerda do atual ministro significará a ampliação da política supostamente desenvolvimentista, a mesma que desarrumou as contas públicas e desalinhou os preços relativos. Um nome mais conservador significará a sinalização de que a inflação, de fato, será combatida.

Balanço da derrota de Aécio Neves

Levaram Maquiavel às últimas consequências e fizeram da máxima de que “o feio em eleição é perder” seu norte. A imoralidade da campanha petista não teve limites.

É necessário agora menos analisar a vitória apertada de Dilma Rousseff do que a derrota de Aécio Neves. Nunca o PT esteve tão próximo da derrota eleitoral, nunca as circunstâncias estiveram tão propícias ao projeto do PSDB, nunca foi tão fácil. O que aconteceu?

Fácil? Sim. Estamos em meio a uma crise econômica, que se agrava dia a dia. Estamos em meio ao retorno da inflação, que se amplia dia a dia. Estamos em meio ao sucateamento final da indústria nacional, patrimônio dos brasileiros, que os maus governo do PT estão levando ao desaparecimento. Estamos em meio a uma crise nas relações exteriores, com o Brasil ignorado pelos grandes mercados, principalmente pelos EUA. E podemos agora deixar de receber investimentos estrangeiros por conta do continuísmo catastrófico do PT.

Estado é corrupção

Nenhuma surpresa com as revelações de Paulo Roberto Costa e de Alberto Youssef. Trata-se apenas de mais do mesmo, aqui como em toda parte. O único antídoto é a receita liberal, de reduzir o Estado a suas funções ditas clássicas.

O país acompanha estarrecido as revelações de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef sobre as estripulias da corrupção de larga escala. Todos já sabem e mesmo sentiram na pele a perene corrupção de pequena escala, aquela do fiscal da prefeitura ou do Trabalho. Se a corrupção é intrínseca ao homem, ela o é mais ainda ao Estado, que defino como o mal potenciado e comprimido, capaz de realizar grande devastação.

Um vácuo político

Estou lendo uma biografia recente do Ortega y Gasset e já cobri com os olhos uma boa metade do seu volume avantajado. O livro me veio à memória porque, no começo dos anos Vinte, o filósofo espanhol escrevia textos desesperados que formaram, depois, o volume Espanha Invertebrada, prolegômeno do famoso A Rebelião das Massas, publicado como livro em 1930. Ortega y Gasset constatava a ausência dos melhores e a tomada do poder pelos piores, exatamente como estamos vendo no Brasil de hoje. Qualquer observador da cena nacional haverá de escrever textos desesperados, pois estamos indo de desastre em desastre e uma explosão de violência política não está fora do horizonte, como aliás não estava na Espanha dos tempos de Ortega. Quem não se lembra da terrível guerra civil espanhola?

A nota interessante é que, com Ortega, aconteceu aquilo que Olavo de Carvalho chamou de paralaxe cognitiva, de forma radical. Ortega clamava pelos melhores e ele, que se achava o melhor, encarnou por um tempo o próprio homem-massa, ansioso por chegar ao poder. Ortega queria o poder para implantar o que chamou de “liberalismo socialista”, algo que certamente não defendeu ao final da vida.  Claro que é uma contradição, pois hoje é possível melhor definir os dois termos, embora na origem ambos os movimentos, socialista e liberal, estivessem unidos pela revolução. Talvez a angústia de Ortega se tenha devido a esse abismo espiritual em que ele estava metido, de saber que o desastre vinha, mas que ele próprio inconscientemente se percebia como um agente do desastre. São as ironias que a vida traz.

Marina Silva no poder

A eventual consagração de Marina Silva como presidente da República significará o passo final para o caos, pois a possibilidade de governança ou governabilidade tende a desaparecer.
 

A boutade de Abílio Diniz, o empresário que aderiu de mala e cuia ao PT, vem muito a calhar aqui: “o país não é ingovernável, mas é ‘ingerenciável’.” Esse tem sido o resultado das sucessivas administrações esquerdistas, desde 1985. Os governos Lula e Dilma aprofundaram a transformação do Estado, de tal sorte que se criou sua incapacidade gerencial, de gerenciar-se a si mesmo e de prover os serviços públicos que dele o povo espera.

Não é à toa que a inflação está voltando forte, irresistível, inexorável. Os desequilíbrios governamentais sempre se transformam, com o passar dos dias, na peste inflacionária. Podemos ver o fenômeno a olhos vistos, no Brasil, que virou um grande laboratório a céu aberto. É possível ver o que está predito por economistas sensatos quando os governos saem dos seus próprios sapatos e crescem além da conta.

O discurso da mudança

Marina Silva quer governar com e para seu grupelho político, que é socialista e ambientalista, de costas para a realidade.

Todos os candidatos estão usando o mote da “mudança”, até mesmo quem é da situação, tentam seduzir o eleitorado para o engajamento revolucionário. Os marqueteiros admitem que sem o mudancismo não se ganha, ignorando solenemente que o povo brasileiro é majoritariamente conservador e não deseja mudança na ordem estabelecida. Dilma Rousseff não cansa de dizer que dará continuidade ás mudanças que o PT vem fazendo, desde que assumiu. Como pode alguém ser da situação e falar em mudança? Aqui é preciso uma exegese cuidadosa do discurso político em uso.

Há uma sutil confusão entre mudança de nomes (e de partidos) com a mudança da ordem vigente. Certo que todas as candidaturas são de esquerda e o esquerdismo consiste precisamente nisso, no discurso da mudança, até mesmo “contra tudo que está aí”. A esquerda quer modificar o status quo porque acha que tem as soluções para os problemas humanos, bastando, para isso, vontade política. Obviamente é delírio perigoso. Por detrás do argumento está o ímpeto perfectibilista de todos os revolucionários, que acham que podem aperfeiçoar a natureza, inclusive a natureza humana.