Percival Puggina


Brasília é uma festa!

Estamos bem abastecidos de presidentes. O presidente da República, coisa que não se improvisa, adora um improviso, troca de boné como troca de idéia e só abre a boca quando não tem certeza. O presidente da Câmara dos Deputados deu uma no prego e agora só acerta na ferradura. Em sua mais recente manobra exigiu que a pasta das Comunicações fosse entregue a um mero coroinha do baixo clero. Resultado: a missa da reforma ministerial terminou antes do Ofertório. Cheguei a imaginar que o PP, ainda que pela porta dos fundos, entraria, enfim, para o catecumenato oposicionista, mas me enganei. O Severino estava brincando: "Na oposição, eu? Eu adoro governo!" O presidente do Senado foi ministro de FHC e pulou para a base do governo Lula. É outro peixe que só sobrevive no aquário do Planalto. O presidente do Supremo Tribunal Federal – professor, deputado federal, ministro da Justiça no governo anterior – ainda não decidiu se agora é magistrado, político ou candidato a vice-presidente da República. Foi da base de FHC e hoje lidera a bancada lulista no Supremo. Brasília é uma festa. Sim, nós temos oposição. Seu principal nome é Fernando Henrique Cardoso. Como vem fazendo ao longo de toda uma década, só presta atenção ao Lula e ao PT. Aliás, estou convencido de que a grande vantagem de Lula sobre FHC está no fato de que este, ao longo dos oito anos em que governou o país, levou a sério as tolices que o PT dizia e fazia. Tivesse agido como Lula, que não está nem aí para o PT, teria sido muito mais bem sucedido. Ainda agora, se olhasse menos para Lula e um pouco mais à sua volta, perceberia que está quase tão só quanto náufrago de cartoon porque os seus o abandonaram para desembarcar no governo, que é um bom lugar de estar. Tão bom que ele próprio quer voltar; e se voltar será para se reencontrar com os mesmos. Afinal, Brasília é uma festa.Pouca gente sabe, mas foi submetida à complacência do Congresso uma nova CPMF (Contribuição Petista para Marta Favre). É a MP 237 que vai salvar a ex-prefeita paulistana dos rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal por assinar contratos irregulares com o Programa Reluz. Brasília não é uma festa?Olhe as pesquisas, leitor. Verá que a maior parte da opinião pública também está com o governo. Que faz você na oposição? Junte-se à base e entre na gandaia. Pague a conta, claro, mas divirta-se também, puxa vida!

Desarmamento: estatísticas e direito natural

A intenção de reduzir o índice de homicídios é absolutamente louvável e não imagino que exista um só cidadão de bem que a ela se oponha. Torna-se perfeitamente possível, então, sugerir um conjunto de medidas voltadas para esse nobre objetivo, entre as quais avultariam operações policiais e militares para desarmar os bandidos e desmontar as estruturas pelas quais flui o tráfico de armas. Esses dois caminhos, no entanto, parecem abandonados. O que se persegue é o desarmamento civil ao mesmo tempo em que o noticiário torna evidente que não cessa o fluxo de armas sequer para o interior dos presídios. A potência de fogo do crime organizado aumenta sem cessar e até arsenais militares são assaltados pela bandidagem. Como não se enfrenta com rigor o crime organizado e os estados paralelos em franco processo de constituição no país, nem se amplia o controle em portos, aeroportos e fronteiras e assim por diante, opta-se pela via do desarmamento civil. Os defensores da tese asseguram, sem mostrar estatísticas que o comprovem nas experiências de outros povos, que isso reduz o número de homicídios. Seus opositores sustentam o contrário e apresentam números relativos ao que ocorreu em países que adotaram essa medida. Não tenho como conferir a correção de quaisquer dessas contraditórias informações, embora tenda a crer que o desarmamento civil seja inócuo para o fim desejado. Contudo, isso é irrelevante. Tanto é irrelevante que eu não mudaria minha convicção contrária à lei de desarmamento ainda que me exibissem certidões de instituições oficiais estrangeiras, traduzidas por tradutor juramentado, com todos os selos de ofício, comprovando que o desarmamento das pessoas de bem reduz o índice de homicídios. Minhas razões são superiores e se prendem ao Direito Natural. Nenhuma estatística e nenhuma lei tem força moral para tomar do cidadão o direito à legítima defesa de sua vida e da vida de sua família. O dever do Estado em relação a isso é subsidiário. A prioridade nessa defesa pertence à própria pessoa por motivos mais do que evidentes. Já a obrigação do Estado se aplica genericamente sobre todos, se realiza de modo estrutural e, mesmo então, bem conhecemos suas grandes limitações.O desarmamento civil, portanto, agride frontalmente o Direito Natural. Expropria o cidadão de sua defesa sem nada lhe dar em troca, exceto, talvez, alguma estatística de confiabilidade duvidosa e sem conseqüência na sua vida real e nas situações de risco com que se defronta. Por fim, se não tenho convicção quanto às estatísticas (irrelevantes, no caso, como demonstrei), tenho segurança em afirmar que estados totalitários desarmam seus cidadãos.

Aprendendo com a Bolívia

Que o presidencialismo é incompetente para resolver conflitos políticos em sociedades marcadas por divergências internas é coisa mais do que provada. Sua única possibilidade de sucesso ocorre onde há amplo consenso social sobre temas essenciais e as circunstâncias históricas tenham produzido bipartidarismo. Fora disso, é fonte de instabilidade.O que a mim espanta é que os analistas políticos da América Latina jamais tenham estabelecido relação entre o atraso das nações do continente e as instituições políticas que homogeneamente adotaram. Elas atravessam os séculos procurando o príncipe encantado que conduzirá seus súditos à prosperidade. Enquanto ele não aparece vão elegendo caudilhos, demagogos e líderes populistas (grandes privilegiados pelo sistema) para, logo após, se exasperarem com a incompetência, a corrupção e a irresponsabilidade que os caracteriza. Incapazes de perceber onde está o erro, transferem as culpas a algum inimigo externo, ele sim, representante de seus tormentos e causador de suas desgraças.Jamais, ao longo das décadas, qualquer povo deste continente produziu seu “mea culpa”. Criticam os Estados Unidos em tudo e os responsabilizam por quase tudo. Vociferam contra os resultados dos pleitos norte-americanos tanto quanto se arrependem dos respectivos resultados nacionais. Mas copiaram (muito mal copiado, aliás) o modelo político ianque. Como conseqüência, são incapazes de distinguir chefia de governo de chefia de Estado, confundem democracia com eleição direta do príncipe encantado, se exasperam com a corrupção moral que sistematicamente contamina as práticas políticas e não percebem que o sistema adotado é o agente determinante dessa miséria moral.Nos últimos vinte anos, após o fim da Guerra Fria e extinto o ciclo dos governos militares, apenas o Chile e o Uruguai não experimentaram gravíssimas crises institucionais. Vale dizer, mesmo sob normalidade constitucional, o continente não encontra estabilidade política e convive com periódicos colapsos da governabilidade. A Bolívia é o mais recente exemplo. O cocaleiro Evo Morales, demagogo local, vem paralisando o país, causou a renúncia do presidente eleito e quase conseguiu derrubar seu substituto, Carlos Mesa. Este, aliás, cometeu enorme equívoco que a médio prazo vai incendiar a nação: tendo assumido após os conflitos de outubro de 2003, prometeu solenemente que não usaria de força contra as agitações locais. Ora, se há um monopólio do qual o Estado não pode abrir mão é o monopólio da força porque, se o fizer, estará abdicando de defender a sociedade. O cocaleiro Evo Morales, amigo de Chávez, Lula, Fidel e Kadafi, continuará, portanto, infernizando a Bolívia. Alguém acha que isso vai acabar bem?

Reféns!

A solidariedade e o zelo pelo bem comum são indispensáveis a uma adequada organização da vida social. Pela solidariedade as pessoas se comprometem, sólida e reciprocamente, umas com as outras, reconhecendo que o bem de cada uma depende do bem da outra (a questão ecológica exemplifica essa realidade no âmbito planetário). O bem comum estabelece a finalidade das ações políticas e as orienta para a superação dos egoísmos individuais e coletivos (onde a política fracassa é porque os egoísmos se impuseram). De fato, as coisas começam a se complicar e surgem desordens de toda espécie quando as instituições não conseguem controlar os grupos que, tendo em vista apenas seus próprios interesses, agem, dentro da sociedade, em oposição ao bem comum. Isso ocorre no circuito vulgar da delinqüência e do crime organizado ou em várias e sofisticadíssimas formas de burlar e prejudicar aos demais para benefício pessoal ou grupal. Em qualquer desses casos, todos os outros passamos a ser tratados como se fôssemos (e a nos sentir como sendo) reféns de tais grupos e de seus interesses. Não sou dos que absolvem ou atenuam a culpabilidade dos criminosos pela suposta condição de “produtos ingênuos” de uma estrutura que os excluiu do círculo venturoso onde se preza o bem e se rejeita o mal. Seqüestradores, assaltantes, assassinos ou estupradores detestam ser seqüestrados, assaltados, assassinados ou estuprados. Mesmo as consciências mais deformadas compreendem o desconforto de suas vítimas. Pela mesma razão discordo dos individualistas que sustentam a existência de um “direito” de não ser solidário: todos sabem pedir socorro.  Portanto, o rigor que se exige das autoridades em relação aos criminosos deveria ser cobrado, também, para inibir a ação de quantos, por posição privilegiada na vida social, burlam os mecanismos de mercado, promovem greves que contrariam profundamente o bem comum, manipulam a opinião pública (e por essa via controlam a política), lançam sobre os ombros da sociedade privilégios auto-concedidos, organizam-se sob a alcunha de movimentos sociais para violar princípios constitucionais e praticar atos criminosos. Nenhum desses brutamontes do capital, do sindicalismo, do corporativismo, da comunicação e da política apreciaria ser vítima daquilo que faz. E todos somos tão seqüestrados por tais grupos como se estivéssemos sob a mira de suas armas, negociados por dinheiro.

Com vírgula, ou sem vírgula?

Recomendo enfaticamente a leitura do livro Stalin, obra escrita em dois volumes por Dmitri Volkogovich, general do exército russo sob cuja responsabilidade esteve, durante muitos dos anos que antecederam à queda do regime comunista, a guarda dos arquivos militares soviéticos. O vulto das informações históricas é imenso e sua leitura estabelece analogias que podem ser facilmente percebidas em relação a vários aspectos da nossa atualidade. Obviamente não é a mesma coisa, mas a moralidade que conduz muitas das ações em curso resulta bem semelhante. Em resumo, posso afirmar, sem medo de incorrer em erro: há uma estreita relação de causa e efeito entre todo o totalitarismo e o apego às versões sobre os fatos, o desrespeito à honra alheia e a mentira.Durante anos venho participando de sucessivos e instigantes debates em rádio e TV com pessoas em relação às quais mantenho antagonismo político e no curso dessas interlocuções tenho notado e anotado sucessivas e repetitivas evidências do que afirmo. São raros os quadros políticos com os quais se pode manter um contraditório intelectualmente honesto, com base em fatos e idéias. Por isso, depois de ter presenciado tantas tentativas de desqualificação moral, depois de ter tido que desmontar mentiras expostas como argumentos e de ter que refutar versões apresentadas como fatos, não posso deixar de rir perante a enrascada em que se meteu o presidente Lula. Num discurso proferido em evento da Petrobrás no Espírito Santo, acabou sendo vitimado pela arapuca que ele e muitos de seus companheiros gostam de preparar para os outros. Ao dizer que recebera, há dois anos, informações sobre corrupção no governo de seu antecessor, ele estava fazendo uso da velha estratégia stalinista, mas ao relatar sua ordem para que o assunto se encerrasse naquela conversa, enfiou-se no próprio alçapão. Se fez o que disse, é réu confesso de crime de acobertamento. Se o que disse não aconteceu é réu de crime de difamação.No dia seguinte, diante da paquidérmica confusão que causou na cristaleira das relações políticas nacionais, participando de um evento do MEC, referiu-se à necessidade de não permitir que uma "notícia atravessada" (culpa da imprensa?) ou um "discurso atravessado" (culpa de quem, mesmo?), jogasse por terra o sonho da reforma universitária.Como lhe parece melhor, com vírgula ou sem vírgula? "Presidente, não se improvisa" ou "Presidente não se improvisa"?

Tal como no samba

"A essa altura o cabaré em polvorosa já tinha um cheiro de cadáver se espalhando"

(Miguel Gustavo e Moreira da Silva, em "O rei do gatilho")

Nesse clássico da música brasileira é contada a história de Kid Morengueira, herói de Wichita, em seu duelo com o bandido que infelicitava a vida da amiga Mary. Canta Morengueira que foram dados tantos tiros no saloon que até hoje ninguém sabe quem morreu: "Eu garanto que foi ele; ele garante que fui eu".Pois na recente eleição da Mesa da Câmara de Deputados aconteceu coisa parecida. Armou-se confusão tão grande que até hoje ninguém sabe quem perdeu. Luiz Eduardo Greenhalgh garante que foi o governo. O governo garante que foi o PT. E o PT garante que foi Greenhalgh. Fechou-se o círculo. Vamos acabar convencidos de que ninguém perdeu, de que não há cheiro de cadáver se espalhando e de que nós é que entendemos tudo errado. Afinal, para quem foi o telegrama da Mary? Eu acho que foi para o Severino. Leva mais jeito. Greenhalgh tem pose e sobrenome de arcebispo primaz da Igreja Anglicana, do tipo que só estende a mão se for para oferecer o anel ao beijo dos fiéis. Virgílio Guimarães era a tentativa petista de levar dois candidatos do partido ao segundo turno. No fundo, produto da mesma presunção que impôs o candidato oficial, imaginando que o saloon da Câmara seja povoado por um bando de tolos incapazes de perceber a manobra.Contados os cartuchos vazios, as vozes petistas passaram a denunciar uma coligação da direita com o corporativismo. Como se o PT não fosse manifestação desse mesmo fenômeno.  Não instalou ele o governo com 35 ministérios para atender as demandas da base por cargos? Não criou mais de três mil postos de confiança com o mesmo intuito? Não usa nem abusa de mordomias e nepotismos? A despeito disso, o governo Lula se exibe como a mais alta expressão do desapego por qualquer vantagem material e, seus candidatos, como representantes dos interesses dos pobres e oprimidos. Enquanto isso, o tosco Severino, pernambucano dos grotões, que passa a disputar com o conterrâneo presidente o torneio das agressões ao vernáculo, tornou-se, para efeitos externos, porta-voz da direita. Querem me enlouquecer. Alto clero alinhado com a esquerda. Baixo clero perfilado com a direita. Nenhum jornalista capaz de farejar uma rebelião que somou 300 votos. Só no Brasil, mesmo. E o Lula, perguntarão os leitores? Ora, deixem-no fora disso. Ele garante que o médico o aconselhou a não meter em encrenca o recém operado nariz. Tal como no samba, isso "tem um final, mas é impróprio e eu não digo".

Repetindo cem vezes

Não era incomum, nos meus tempos de escola primária, que algum colega mais irrequieto fosse obrigado a perder o recreio escrevendo no quadro negro uma centena de vezes: “Não devo conversar durante as aulas”. Quando retornávamos, o coitado ali estava, solitário, infeliz e sujo de giz, contemplando o produto de sua desgraça, convencido de que em boca fechada não entra mosca. Os que nos querem convencer de que as idéias marxistas funcionam fazem bom uso da insistente repetição dos seus chavões. Um deles afirma que “as desigualdades sociais são fruto desse modelo concentrador que aí está”. Ou seja, elas decorreriam da economia de mercado, do direito à propriedade privada, da liberdade de empreender, do tal neoliberalismo e da globalização. Apontam a miséria da África e da América do Sul como resultado desse “modelo” explorador e desumano. Repita-se isso até a exaustão e você não duvidará de que os africanos eram ricos, prósperos, poderosos e bem nutridos até a chegada das desgraças ocidentais e que norte-americanos, europeus, japoneses, canadenses e australianos vivem às custas das esplêndidas riquezas sul-americanas. Acreditaremos, também, que nossos projetos com vistas à prosperidade nacional, conduzidos por longa e estável série de governantes sábios, prudentes e dedicados ao uso lúcido dos recursos públicos, sob um sistema de governo e uma ordem constitucional moderna e eficiente, só fracassam por causa da ganância externa. Pela insistente repetição, assumiremos como verdadeiro que todo o bem que afanosamente fazemos por nós mesmos tropeça em coisas satânicas como Consenso de Washington, Clube de Paris, FMI, G7, G8, Escola de Chicago, Fórum de Davos e outras sinistras conjunções empresariais ou zodiacais. Para que a culpa possa ser atribuída “a esse modelo que aí está”, é preciso jamais mencionar a concentração de riqueza do antigo Egito, de certas dinastias chinesas, do Indostão, do Império Romano, dos barões medievais, dos comerciantes venezianos e genoveses, dos banqueiros surgidos no Renascimento. É preciso esquecer que a fome era endêmica na Europa em pleno período colonial e assim permaneceu até meados do século passado. E é preciso, principalmente, jogar nas sombras da ignorância dois fatos essenciais: 1º) que foi precisamente sob o regime das economias de mercado e com o surgimento das democracias constitucionais que a renda passou a ser distribuída com mais justiça entre os cidadãos; e 2º) que o sistema que mais radical e insistentemente se opõe “a esse modelo que aí está” somente gerou opressão, corrupção, genocídio e miséria. Mas essas são coisas que ninguém diz e ninguém repete.

Notas:

NA – Aquisições do meu livro “Cuba, a tragédia da utopia” podem ser feitas através do e-mail atragediadautopia@hotmail.com.

“Eppur si Muove”

O Fórum Social Mundial fornece um bom exemplo de que as ideologias marxistas, malgrado o fracasso de todas as suas experiências, ainda movem multidões. Em princípio, nada lhes seria mais desalentador nem comprometeria tanto sua propagação quanto o exercício do poder. Quando isso ocorre, tem-se sempre uma dentre três possibilidades: ou a ideologia vai para as cucuias, ou se implantam regimes totalitários que produzem o colapso da sociedade, ou não se implantam tais regimes e o colapso ocorre do mesmo modo. Dado que não há exceção na história, cabe indagar como tal ideário, com tudo para estar sepultado junto com o nazismo e o fascismo, continua a incendiar a imaginação de tanta gente. "Eppur si muove"! Como é possível? Após anos de debates sobre temas políticos e ideológicos com militantes e intelectuais alinhados com essas correntes de pensamento, creio poder apontar as causas essenciais de sua resistência e mobilidade. De um lado estão problemas reais de natureza política (quando a política não funciona, seja no plano nacional, seja no internacional, fica fácil confundir as coisas e atribuir ao "modelo" a causa dos males que ocorrem). De outro está a enorme desinformação, desconhecimento de história e despreparo que caracteriza o cidadão comum, vulnerável, portanto, a quaisquer tolices que lhe proponham com fisionomia vantajosa. De outro, ainda, estão as estratégias adotadas pela esquerda nos contraditórios que enfrenta. Também elas são, basicamente, três. A mais freqüente é a que foi ensinada por Brecht a seus camaradas em Die Massnahme: "Quem luta pelo comunismo tem de poder lutar e não lutar; dizer a verdade e não dizer a verdade; manter a palavra e não cumprir a palavra, etc., etc., etc". E ele tinha razão. O mentiroso treinado é o mais difícil adversário num debate. Em seguida vem a estratégia da desqualificação do opositor. Caluniam-no e lhe atribuem as piores intenções, sujeitando-o a um paredón moral. Eis o motivo pelo qual se tornaram peritos em destruir reputações de modo tão impiedoso quanto o usado pelos seus famosos tribunais revolucionários para executar oponentes. Por fim, vem a estratégia de atribuir ao adversário algo que ele não disse e atacar essa afirmação com mil demolidoras razões, dando a impressão de que, ao refutarem o que não foi dito, estão contestando o que  foi dito e é irrefutável. Nada muito ético, como se vê. Contudo, quando se conhece a técnica usada, fica mais fácil enfrentá-la.

Instituto Jeca Tatu

No dia 18 de março de 2004, durante pronunciamento na inauguração de um restaurante popular da Coca Cola em Belo Horizonte, o presidente Lula declarou: "Eu passei tanto tempo da minha vida, achando que ser antiamericano era não beber Coca-Cola. Depois eu fui ficando mais maduro e percebi que, quando a gente levanta de madrugada, e tem uma Coca-Cola gelada na geladeira, não tem nada melhor". Pois o que sobrou de antiamericanismo no Lula maduro é mais nocivo do que não tomar Coca-Cola.O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, sob o comando de Celso Amorim nos dá uma pista ao eliminar o domínio do idioma inglês como uma das condições preliminares para acesso ao Instituto Rio Branco. Suponho que se trate de um chute na virilha de Bush e outro no tornozelo de Blair. Camões agradece, mas dispensa a cortesia. Nossos futuros diplomatas, informa-se, aprenderão inglês posteriormente, se e quando forem ocupar postos no Exterior. Outra etapa dessa excepcional qualificação inclui uma prova com o secretário-geral do ministério, Samuel Pinheiro Guimarães. Nela os futuros diplomatas terão que demonstrar conhecimento pessoal sobre o conteúdo de três livros. Inteiros. É mole? Exatamente oito centímetros na prateleira. E não apareçam com um quarto livro. Aí deve ser o examinador quem se atrapalha. Ah! As três obras são em língua portuguesa, claro: "Brasil, Argentina e Estados Unidos", de Moniz Bandeira, obra prefaciada pelo próprio Samuel Pinheiro Guimarães; "Pensamento Econômico Brasileiro", de Ricardo Bielschowsky e "Biografia do Barão do Rio Branco", de Álvaro Lins.Se o amadurecido presidente não fala corretamente nem o idioma nacional e comanda nossa política externa, o Itamaraty pode, muito bem, abrir as portas para quem ler três livros. E se o sujeito for mais preparado terá problemas. Incorrerá em suspeita de pertencer à elite, condição desprezível, cuja eliminação da vida diplomática constitui a declarada razão principal das simplificações introduzidas pelo Itamaraty em seus exames de seleção.Filho de visconde, ele próprio barão do Império, poliglota, jornalista, historiador, professor, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, José Maria da Silva Paranhos Júnior foi o criador da diplomacia nacional. Pois é esse péssimo exemplo de brasileiro, esse grã-fino, que dá nome ao Instituto Rio Branco. Já passou da hora, sob a batuta de Lula e Celso Amorim, de lhe conceder novo patrono. Sugiro Instituto Jeca Tatu.

O homem forte do governo Lula

Afinal, quem é o homem forte do governo Lula? Tenho certeza de que não passa pela cabeça do leitor que seja o presidente. Não dá para ser. Já ficou evidente que ele é um homem de escassas convicções e que uma de suas principais capacidades é a de reproduzir o discurso indicado pelos marqueteiros de uma forma que excita as multidões tanto quanto arrepia as concordâncias verbais e nominais. O antagonismo entre o que lhe mandavam dizer na oposição e o que lhe ensinam no governo não lhe causa qualquer mal-estar porque ele sequer chega a percebê-lo. Se dentro de dois anos desembarcar do poder inverterão seu discurso e ele fará exatamente isso. Não, uma pessoa assim não pode ser o homem forte do próprio governo. José Dirceu? Tadinho do Zé. Se fosse ele, o Aldo Rebello não teria assumido a pasta da coordenação política. Nos primeiros meses do governo Dirceu foi, de fato, o homem poderoso por trás do presidente, mas o episódio Waldomiro solapou suas bases e ele apenas resiste como uma sombra de si mesmo, um baixo-relevo da estátua que poderia ter sido. "Nesse caso só resta o Palocci", ponderará o leitor. Mas se o Palocci, na condição de titular da chave do cofre, fosse o homem forte do governo Lula, o verdadeiro homem forte não faria o que faz com o conteúdo do cofre pelo qual ele deve zelar. Não, o Palocci não é o cara. Quem é, então? Pasmem: o sujeito poderoso é um personagem tão ladino que ninguém sequer sabe seu nome. Herdeiro das mais nobres tradições do thriller universal – senhoras e senhores – o homem forte do governo Lula é o mordomo do Palácio, seja lá quem for e seja lá qual for o título oficial da função que exerce. Ele é o cara. Lula jamais leu o Príncipe, mas o mordomo leu Maquiavel e intuiu como deveria ser o mordomo de um príncipe que se preze. Do avião aos roupões de algodão egípcio, passando pelas intermináveis listas de aquisições que periodicamente fazem a diversão dos leitores nas colunas de Cláudio Humberto, ali está expressão de seu poder. Do colorido petista dos jardins às provisões da colônia de férias dos amiguinhos do presidencial rebento, tudo passa pela sua supervisão. Agora mesmo acaba de comprar 12 carros novos de 72 mil reais cada, duas ambulâncias com UTI-móvel, três caminhões, dois microônibus, dez automóveis sedan brancos, outros oito de cores diversas e um lote de novas motocicletas. Palocci paga e não bufa. Não, não diga que o mordomo é apenas o culpado porque isto não é filme algum. Isto é exercício do poder no Brasil real.