Percival Puggina


Já pensou?

A história caminha e a China está bombando seu crescimento numa surpreendente versão do capitalismo posto a serviço do totalitarismo.

Parte ativa de um vastíssimo processo de acomodação de forças determinado pela globalização, a China se agiganta no contexto da economia internacional com a força de um player peso pesado. A atual curiosidade sobre o país excede, em muito, a que existia ao tempo dos mistérios e brumas resguardados pela Grande Muralha.

Nunca é demais lembrar que a partir de 1949, quando o comunista Mao Zedong finalmente derrotou os nacionalistas do Kuomintang, essa mesma China repartiu com a União Soviética os amores e os suspiros ideológicos de praticamente toda a esquerda mundial. Centenas de camaradas daqui, inclusive o núcleo central da Ação Popular e, posteriormente, da Guerrilha do Araguaia, foram buscar treinamento militar em Pequim. Em 1967, Jean-Luc Godard acabou sendo profético ao retratar no filme “La Chinoise” a influência da Revolução Cultural e do comunismo chinês sobre a burguesia estudantil francesa que se levantaria em Nanterre e na Sorbonne no ano seguinte. Em certo momento do filme, a personagem Véronique, em consonância com as receitas dos livrinhos vermelhos que se empilhavam no apartamento, afirma: “Eu botaria uma dinamite na Sorbonne, no Louvre e na Comédie Française”. O Livrinho Vermelho dessa China maoísta substituía a Playboy no banheiro da rapaziada daqueles anos muito loucos.

O tempo passou. Após a queda do Muro de Berlim sobreveio algo ainda mais inacreditável: a Grande Muralha arrombou seus portões aos investimentos estrangeiros. O capitalismo já havia chegado à Rússia, é verdade. Mas para a China ele se mudou com armas, bagagens, tecnologia, máquinas, marcas e grifes. A economia do país, crescendo segundo taxas anuais assustadoras, incontroláveis, será a segunda força mundial bem antes de 2020, suplantando o conjunto dos 27 países da União Européia. E, em seguida, ultrapassará a economia norte-americana. No livro “Cuentos Chinos”, publicado em 2005, o argentino Andrés Oppenheimer prenuncia que a hegemonia mundial, em meados do século, estará repartida entre China e Estados Unidos. 

E a velha esquerda não democrática, como fica? Hoje está bem nítido que o anti-americanismo é seu grande fator de unidade, levando-a a abraçar-se com o que há de mais retrógrado no planeta – ditadores africanos, terroristas islâmicos, narco-guerrilheiros colombianos e por aí afora. Esses laços de ternura anti-americanistas ficaram evidentes na recente visita de Lula ao Vietnã, quando nosso homem no exterior transbordou entusiasmo ao lembrar o êxito vietnamita na guerra contra os EUA: “Fiquei tão orgulhoso da vitória quanto os próprios vietnamitas (…) foi a vitória dos oprimidos. E nós nos sentimos co-participantes e muito orgulhosos do significado para a humanidade da vitória de vocês”. A tal grande vitória dos oprimidos matou, logo após, mais de dois milhões de seres humanos, mas acho que o co-participante Lula estava tão orgulhoso que não ficou sabendo.

Contudo, a história caminha e a China está bombando seu crescimento numa surpreendente versão do capitalismo posto a serviço do totalitarismo. É um capitalismo do pior feitio, sanguinário, destituído de quaisquer escrúpulos, que teria causado engulhos ao mais ganancioso empresário manchesteriano do século 19. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enfrentam uma poderosa força destrutiva interna, que ataca seus valores e seu sistema. E pode acabar se tornando, num mundo bi-polarizado com a China, a versão política e ideológica domesticada pela velha esquerda, sendo por ela adotado como única alternativa remanescente. Já pensou?

Cavalheiros do outro mundo

O apoio da esquerda, em especial do PT, aos narcoterroristas das FARC é ocasional e isolado? Não, é uma atitude permanente.

Lendo sobre a operação de resgate de Ingrid Bettancourt lembrei-me de algo com que me havia deparado na internet, há poucas semanas. Fui atrás da matéria e lá estava ela, ainda disponível, publicada em bem conhecido site de esquerda, no dia seguinte à morte do narco-guerrilheiro Raúl Reyes, na famosa operação do exército colombiano. O referido texto sustentava, pura e simplesmente, que aquela ação militar não se destinara a matar Reyes, mas fora concebida para eliminar Ingrid Bettancourt e evitar sua iminente libertação. Por quê? Porque a ex-senadora, em liberdade, poderia atrapalhar os projetos de Álvaro Uribe para se manter no poder, ora. A gente precisa ser muito idiota para não perceber uma coisa tão evidente assim, não é mesmo?

Como se vê, a criatividade da esquerda não-democrática é inesgotável. A matéria, aliás, ainda acrescenta este vaticínio: “Nas próximas semanas, assim que as comunicações do lado popular tornarem a se ajustar, é quase certo que a notícia seja divulgada, no que Uribe tentará acusar as FARC de a terem matado como represália, o que seria ridículo, bem se sabe”.

Bem se sabe. Bem se sabe que não há limite para a insensatez dessa gente. Assim como não tem uma palavra de verdade, o longo arrazoado não tem uma palavra sobre narcotráfico nem sobre o delírio totalitário representado pela luta de guerrilha num país sob normalidade constitucional e bem definida periodicidade eleitoral. Nenhuma palavra sobre a violência representada pela prática do terrorismo e do seqüestro. Silêncio absoluto sobre a insanidade de uma guerrilha mantida que já dura quatro décadas. Nada. Toda a criatividade concentrada em conceber uma hipótese e a partir dela extrair conclusões venenosas que justifiquem a conduta delinqüente dos companheiros. E sempre atribuindo aos adversários a própria malícia.

Caso isolado? Não, atitude permanente. Em janeiro de 2001, aqui em Porto Alegre, foi realizada a primeira edição do Fórum Social Mundial. Dezenas de milhares de companheiros do mundo inteiro se concentraram na capital gaúcha para conviver e aplaudir as grandes figuras da esquerda mundial. Todos defensores de “um outro mundo possível”, amantes da paz, do amor e da democracia. Quais foram os principais ícones do beatífico evento? Quais as personalidades mais reverenciadas e aplaudidas por aquelas figuras turbinadas por tão elevados valores humanos? Ninguém mais nem menos do que os democráticos, fraternos e solidários Ricardo Alarcón (presidente da Assembléia Nacional de Cuba) e Javier Cifuentes, que dirigia a representação das FARC. Lugares para estar próximos a esses cavalheiros eram disputados a cotovelaços.

Lula candidato fez das FARC parceiras importantes do seu Foro de São Paulo. Lula presidente se recusou a declarar que elas são uma organização terrorista. Até hoje não ouvi qualquer voz petista reconhecer e condenar o narcotráfico controlado pela guerrilha. Há bem poucos dias, a morte de Manuel Marulanda, o maior líder dessa organização criminosa suscitou homenagem póstuma na reunião do Foro de São Paulo, em Montevidéu, e a memória do bandido foi saudada com vibrantes aplausos por uma platéia que se pôs em pé para não deixar dúvidas quanto à sua reverência. Em outras palavras: como são incorrigivelmente elevados os ideais desses cavalheiros do outro mundo!

Corrupto e corruptor

É desalentadora a possibilidade que algum coelho substitua as cobras e lagartos que saem do mato da política nacional.

No ano de 2005, o governo Lula ardeu nas labaredas de seu inferno astral. Embora “nunca antes nesse país” se tenha presenciado algo parecido, a imagem do presidente, diga-se de passagem, saiu daquele forno com a dureza da mais cozida cerâmica. Mas foi um inferno, com tudo que lhe é de direito: espíritos malignos, risos satânicos, rangeres de dentes e lágrimas vertidas nos balcões das CPIs e nas tribunas do Congresso Nacional.

Foram tempos ruins para o Brasil, seja pelo desalento político que causou, seja pela ausência de medidas curativas tomadas em tempo capaz de estabelecer, no senso comum, a necessária relação entre causa e efeito. Ou haverá quem se aventure a dizer que o país foi passado a limpo?

Em contrapartida, recordo a alegria cívica que experimentei ao ouvir, em todos os programas de tevê e rádio a que compareci naquele ano, dirigentes petistas atribuírem justas responsabilidades do episódio ao “modelo político corrupto e corruptor” vigente no país. De tão ouvida, julgo impossível que qualquer pessoa com algum interesse nesses debates não tenha, naquele ano, decorado a expressão: modelo político corrupto e corruptor.

Ela soava em meus ouvidos como a Pastoral de Beethoven devia soar nos tímpanos de Herbert von Karajan. Música da melhor qualidade! Afinal, desde 1985 eu vinha afirmando exatamente isso: um sistema que obriga o chefe de governo eleito a compor e manter todos os dias a sua maioria parlamentar é um sistema corrompido e corruptor da conduta dos agentes políticos. A adesão dos petistas à tese da mudança desse modelo era tudo que eu queria escutar.

Não supus então que aquela posição frente ao pecado original da nossa política fosse mera tentativa de arranjar um casal de Adão e Eva institucional a quem atribuir as responsabilidades por tão constrangedora enrascada. Como se sabe, pecado original debilita a natureza humana, mas não induz culpas pessoais. Se o sistema impõe esse tipo de comportamento, as responsabilidades individuais se tornam menores. Já se passaram três anos daqueles fatos e daqueles debates, mas lembro perfeitamente de haver, repetidas vezes, louvado com entusiasmo a adesão de uma tropa de choque aguerrida, como é a do Partido dos Trabalhadores, a uma causa tão importante para nossa democracia.

E agora, prezados leitores da Voto? Parafraseando Drummond poderíamos perguntar: E agora, José? A pressão acabou/ a onda passou/ a voz silenciou/ o povão esqueceu/ o Lula relulou/ e o sistema ficou… corrupto e corruptor como sempre foi. E produzindo o mais nefasto de seus efeitos: a sólida convicção social de que a política é e só pode ser assim como a vemos.

Recebi, nestes dias em que escrevo, e-mails recomendando acessar dois vídeos. No primeiro, filmado em Pernambuco, no dia 26 de março deste ano, Lula se desfaz em elogios a Severino Cavalcanti (www.youtube.com/watch?v=MM7QYBRaw7o). Por quê? Porque o apoio do PP pernambucano serve ao governo muito melhor do que qualquer contribuição à boa conduta nacional. No segundo, Lula aparece num vídeo da campanha eleitoral de 2006, filmado no Maranhão, desancando Roseana Sarney e Edson Lobão (http://video.google.com/videosearch?q=%22edson+lob%C3%A3o+%22+Lula&sitesearch=). Hoje, Sarney e filha freqüentam a copa e a cozinha do governo e Lobão é ministro de Lula. Por quê? Pela mesma razão que induz Lula a elogiar Severino: o sistema corrupto e corruptor.

Confesso meu desalento para com as possibilidades de que algum coelho venha a substituir as cobras e lagartos que parecem ser as únicas coisas que saem desse mato.

Fundamentalismo e relativismo

O livro “Infiel” exibe duas extremidades de um mesmo erro: o fundamentalismo e o relativismo.

“Infiel” é um desses livros que se deve ler para ampliar a compreensão do mundo em que vivemos. Fui atrás dele por recomendação do meu vizinho de página, o jornalista Marcos Rolim, que o referiu, meses atrás, ao pé de uma de suas colunas.

A autora, Ayaan Hirsi Ali, nasceu na Somália, onde uma cultura de clãs se mistura com certo tipo de fundamentalismo islâmico. Sob seus preceitos, sujeitas a toda sorte de violência, as mulheres são privadas de dignidade e se transformam em propriedades, bens de consumo e prestadoras de serviços para a população masculina. Naquela terra, a exemplo de outras regiões da África, persiste a brutal mutilação genital feminina porque o prazer sexual é reservado exclusivamente aos homens. Para que se tenha idéia dos limites a que chegam as coisas: o crime, a culpa e a punição, em casos de estupro, recaem exclusiva e pesadamente sobre a mulher que dele foi vítima.

O livro, autobiográfico, desfia fatos recentes, de modo linear, seco, sem pretensões literárias, tendo como eixo a formação da consciência crítica da autora. Contida por devota e rigorosa submissão aos preceitos do clã, do Corão e da família, desenrola-se, em seu íntimo, uma luta incessante em direção à inconformidade. Em 1992, esse impulso a faz fugir para a Holanda.

Ayaan tem hoje apenas 39 anos. No entanto, a coragem com que enfrentou e desvelou a crueldade do ambiente cultural e do fanatismo religioso vigente em uma porção do planeta colocou-a na lista das cem personalidades mais influentes do mundo em 2005. A comoção da leitura não vem de artifícios literários, mas da rudeza dos fatos e da luta travada na alma de uma jovem que encontrou sozinha, no íntimo de si, os valores universais da dignidade humana, da liberdade e da solidariedade. Todas essas tensões internas explodem quando ela chega à Holanda. Sempre lhe fora ensinado que a perfeição consistia em viver segundo as leis de sua crença. E elas haviam transformado sua vida e a vida de sua comunidade num inferno. Seu país era um desastre social, político e econômico. Paradoxalmente, na Holanda, terra de “infiéis”, encontrou um povo onde homens e mulheres desfrutavam de iguais direitos e viviam em liberdade, onde tudo funcionava bem e onde ela podia sair à rua, cabeça descoberta e rosto exposto, sem ser tratada como prostituta.

Não tardou a perceber, também, as contradições do país que a adotara. Assim, por exemplo, embora o ultraliberal povo holandês acolhesse generosamente os refugiados, aceitava que as respectivas comunidades se regessem pelos próprios costumes. A conseqüência era a manutenção das mulheres muçulmanas em condições idênticas àquelas a que estavam submetidas nos países de origem. A mobilização contra isso lhe proporcionou visibilidade e a moça somali acabou deputada.

Julgo que o livro, em resumo, exibe duas extremidades de um mesmo erro: o fundamentalismo e o relativismo. O primeiro se apropria dos direitos naturais da pessoa e tanto pode transformá-la em bomba que explode a serviço de um projeto político quanto submeter milhões de mulheres a uma vida de humilhações e violências. O segundo crê que tudo é relativo, que não há Direito Natural anterior e superior às culturas, que coisas como certo e errado, verdade e mentira, bem e mal, são de definição subjetiva. Nenhum dos dois serve à dignidade e à felicidade da pessoa humana. O primeiro pode destruir o Oriente. O segundo pode destruir o Ocidente.

Notas:

Publicado pelo Zero Hora, 22/06/2008

Um dia acordaremos

Nada há de errado em que um partido da base exija, no governo, espaço correspondente aos votos parlamentares que agrega. A tragédia moral se instala quando os deputados, individualmente, passam a negociar seus próprios votos.

É da natureza do pluripartidarismo, em qualquer sistema de governo, que as tarefas deste sejam conferidas aos partidos que o assumem, quer se apresentem como blocos, frentes, coalizões ou coligações. No Brasil, a instituição do segundo turno, inclusive, antecipou esse tipo de acordo para um momento anterior ao confronto eleitoral definitivo. Arranjos com vistas à conquista da maioria dos votos parlamentares só não ocorrem onde o espaço eleitoral é ocupado por apenas duas legendas antagônicas.

Portanto, não há novidade ou escândalo no rateio de cargos entre os partidos da coligação vencedora de um pleito, nem na atração de novas siglas para a base de apoio, se isso for conveniente, através de sua integração aos postos de comando providos pelo governo. Durante muito tempo, no Brasil, os acordos firmados entre os partidos exerciam força moral sobre a respectiva base parlamentar e as coligações majoritárias articuladas no pleito se mantinham durante todo o período de governo. Quando ocorriam desentendimentos e rupturas ao longo da gestão, as representações discordantes bandeavam-se, em bloco, para a trincheira oposicionista.

De uns tempos para cá isso mudou. Não basta ao governo agregar apoio entre legendas cujas cadeiras, somadas, representem a desejada maioria. Os acordos não se expressam biunivocamente na base parlamentar. Não basta compor a maioria. É preciso conservá-la a cada votação importante. O mensalão e o valerioduto são as mais famosas evidências dessa dificuldade e das graves implicações éticas que nela se enrolam. No entanto, reitero: nada há de errado em que um partido da base exija, no governo, espaço correspondente aos votos parlamentares que agrega. A tragédia moral se instala quando os deputados, individualmente, passam a negociar seus próprios votos.

Aqui, sim, há um problema. Mas mesmo esse, resulta minúsculo em relação a outro que decorre da fusão que, no Brasil, fazemos de coisas tão distintas quanto são o Estado, o governo e a administração. Ao unirmos tudo isso numa só pessoa, partidarizamos não apenas o governo, o que é normal, mas incluímos no pacote o Estado e a administração. Como decorrência, debilitamos a noção de Estado; enfraquecemos o governo que precisa negociar até mesmo o inegociável; e tumultuamos a administração. Através desta, que deve ser do Estado e não do governo (onde não há mais do que umas poucas dezenas de posições de mando), as peças de negociação no tabuleiro do poder saltam para dezenas de milhares, em prejuízo da competência e da profissionalização nas carreiras do serviço público, cujas direções e chefias estão sempre sob comando das legendas políticas.

Um dia, acordaremos. Deixaremos, então, de reclamar das conseqüências e passaremos, olhos abertos, mente alerta, a buscar as causas dos problemas dos quais nos queixamos. Elas estão no sistema político adotado pela Constituição Federal para o conjunto dos entes federados. Enquanto não fizermos isso, continuaremos, tolamente, a pensar que as coisas vão melhorar quando as pessoas nascerem mais virtuosas e quando os eleitores se tornarem mais zelosos, porque é exatamente isso o que presumem e ensinam quase todos os que influem na opinião pública.

É fogo, idiota!

Parece não haver limites para a audácia de certos setores da esquerda. A recente "cartilha do politicamente correto", lançada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, órgão com status de ministério no governo Lula, relaciona vocábulos e expressões que devem ser evitados porque se prestariam para discriminação. O rol é extenso.

Não vou entrar em detalhes porque a matéria pode ser encontrada em várias fontes para conhecimento e avaliação dos leitores. Basta procurar na internet pelas quatro palavras colocadas entre aspas no parágrafo anterior. Desejo tratar da questão em termos mais amplos, ou seja, sobre o que significa a elaboração de um documento ministerial com intuito de interferir no idioma e proclamar que determinadas palavras não deveriam ser pronunciadas.

Com atraso de quase meio século, lentamente, a sociedade brasileira vem sendo informada sobre as técnicas gramscianas de domínio da linguagem e sobre a importância delas para a formação da hegemonia comunista. Na verdade, o fenômeno posto em marcha só começou a ser percebido quando todo mundo já estava usando, mesmo sem saber e querer, o vocabulário que convém a essa hegemonia porque está associado aos conceitos com que opera seu processo de comunicação. Você provavelmente não sabe quem foi Antonio Gramsci, não faz a mínima idéia do que ele concebeu, mas está trabalhando para ele.

 Eis que agora pretendem um novo passo. Não basta usar as palavras que convêm, é preciso, também, retirar do vocabulário as que não servem. Uma delas – surpresa! – é a própria palavra comunista. A cartilha do ministro Nilmário Miranda proscreve-a porque: "contra eles foram inventadas calúnias e insultos, para justificar campanhas de perseguição que resultaram em assassinatos em massa, de caráter genocida, como durante o regime nazista na Alemanha".

Pronto. Deixa de existir o vocábulo que define alguns dos maiores monstros do século XX, que expressa um sistema político responsável por cem milhões de mortos na sua trajetória de horrores em quatro continentes, que resume idéias expressas em partidos políticos existentes no país, e que tem seu trágico símbolo e seus lamentáveis ícones em lapelas e camisetas que transitam em nossas ruas. E deve ser suprimida do uso corrente porque está associada a "calúnias e insultos" contra seres certamente angelicais e modelos de benevolência, harmonia e liberdade. Olha que é preciso ter coragem para produzir, imprimir e distribuir uma estupidez desse porte em âmbito governamental.

E é preciso estarmos sob anestesia para que uma coisa dessas não provoque mais do que esparsas reações num reduzido grupo também ele disperso de analistas ainda capazes de compreender o que está acontecendo. Não faltará, por fim, quem nos tome por impacientes porque não gostamos de ser tratados como idiotas, nem quem acuse tais reações de serem alarmistas, como se alarmista fosse quem grita "fogo!" quando lhe estão incendiando a casa.

Magda, digo, magna figura

Recebi carta de uma telespectadora fazendo-me severas críticas por haver incluído em meu site pessoal (www.puggina.org) uma coletânea que considero bastante completa das “pérolas” presidenciais. Elas formam farto colar que provavelmente terá várias voltas até o final do ano que vem. Segundo a referida senhora eu estaria prejudicando a boa imagem do presidente da República.A situação é muito comum. A pessoa constrói um paradoxo e pensa que inventou um argumento ou formulou uma acusação. Ela pegou papel, caneta, e deu-se ao trabalho de escrever duas páginas com o intuito de inculpar-me por prejudicar o presidente ao reproduzir fragmentos de seus discursos. Em outras palavras: tais pérolas danificariam o cartaz de Lula não porque ele as profira, mas porque as recolho. Ou ainda, a seu juízo: o chefe de Estado brasileiro, cercado por jornalistas de sua confiança, corre o mundo a desfiar disparates e os culpados pelo efeito disso em sua imagem somos eu e meu sitezinho aqui em Porto Alegre.A essas alturas fico na dúvida sobre se devo ou não enfiar no colar a frase com que o presidente atribuiu os altos juros ao comodismo dos brasileiros que reclamam na mesa do bar mas não levantam o assento do banco para procurar taxas menores. Como ficará a imagem do presidente se eu fizer isso? Devo proceder assim em relação a esse homem sensato, que só abre a boca quando tem certeza? Não estaria prestando melhor serviço à pátria se me convertesse em zelador da magda, digo, magna figura presidencial e me unisse aos 60% dos brasileiros que estão satisfeitos da vida e orgulhosos do estadista que elegeram?Cito a carta e o fato para mostrar que há um vasto setor da esquerda profundamente desconfortável com a democracia. Usam-na como escudo para malévolas intenções. Discursam em seu favor, mas exaltam o papel de tiranos como Fidel e tiranetes como Hugo Chávez. Hoje estão com Lula porque não há nada à sua esquerda qualificado para o horizonte sucessório. E como estão com Lula se aborrecem com toda crítica, mesmo quando ela não passa de mera reprodução do que ele diz.Se pudessem, fariam como Hugo Chávez, a quem aplaudiram em delírio quando aqui esteve durante o Fórum Social Mundial: poriam na cadeia quem se atrevesse a criticar os seus. E controlariam a imprensa como a controlam em Cuba, onde, em 46 anos nenhum jornal publicou uma única linha ou entrelinha que pudesse desagradar o ditador.

Pelo ralo constitucional

Acompanhei com enorme interesse cívico e democrático todo o processo constituinte de 1988. Indignei-me com a decisão (José Sarney vai levar para o ajuste de contas da eternidade esse delito) de haver convocado uma constituinte não exclusiva mas congressual. Alarmei-me com o feitio demagógico, populista e retrógrado de muitos "avanços" aprovados pelo plenário. À medida em que o texto se ampliava em número de artigos, temi pelo engessamento que iria produzir no futuro do país e pela necessidade de emendá-la a todo instante que por certo adviria. Comemorei o surgimento do "centrão", que no limite do possível, conseguiu esmerilhar muitos absurdos que a esquerda pretendeu incrustar no granito constitucional (os que ficaram ainda hoje nos causam cefaléia). Torci pelo parlamentarismo e sofri pela adoção do presidencialismo com cinco anos para Sarney. A imensa maioria de nossos constituintes votava com um olho no texto e o outro nas urnas do próximo pleito, distribuindo favores, privilégios e direitos para uns e enviando a impagável conta para a ingênua e complacente sociedade. Passadas quase duas décadas da promulgação da "constituição cidadã" de Ulysses Guimarães, o Brasil ocupa a 72ª posição entre os 127 países cuja Educação foi avaliada pela Unesco. E a qualidade desse ensino é tão precária que o IBGE estima haver, entre nós, 30 milhões de analfabetos funcionais (pessoas com menos de quatro anos de estudos, incapazes de lidar com palavras escritas em um grau razoável de compreensão do que lêem). Enfrentamos problemas gigantescos com soluções ínfimas e onerosas. Por trás desse paradoxo estão, entre outros, os preconceitos constitucionais contra o ensino particular e a inabalável fé que ainda hoje devotamos ao Estado quando se trata de resolver problemas da sociedade. Fé que resiste a toda evidência em contrário. Cremos, por exemplo, na escola pública, gratuita e de qualidade, mesmo que ela resulte cara e péssima, e que a qualidade seja atributo bem mais visível nas instituições privadas de ensino. Cremos que o interesse público se confunde com tarefa estatal e chegamos ao absurdo de promover concurso para faxineiros e merendeiros das redes escolares públicas. E pagamos a conta de cada limpeza e cada lanche pelo resto das nossas vidas. Promovemos direta e indiretamente o surgimento de mastodontes corporativos com imenso poder político. Alguém já ouviu falar de algum professor da rede pública, ou servidor público estável, demitido por incompetência? Como obter qualidade em situação de estabilidade quase absoluta no posto de trabalho? Enquanto não superarmos esse tema, com eliminação da gratuidade irrestrita e com a compra de vagas pelo Estado na rede privada, a qualidade de que tanto precisamos fluirá pelo ralo constitucional federal e continuaremos quase no rodapé das estatísticas mundiais.

O conservadorismo de João Paulo II

Entrei na Internet e busquei por referências que associassem João Paulo II ao conceito conservador. Encontrei 939. É muito? Pois também busquei em inglês e encontrei 439 mil! Estatisticamente está decidido: João Paulo foi um papa considerado conservador por pessoas que atribuem viés pejorativo a essa categoria. Pesam-lhe, em tais críticas, sua posição contrária aos totalitarismos do século XX, como se ele, vítima dos três, devesse ser rigoroso com o nazismo e o fascismo, mas tolerante com o comunismo, pela simples razão de que este, o pior de todos, sempre simulou praticar suas perversidades em nome de elevados valores universais. Não, o Papa conheceu os totalitarismos por dentro. Acusam-no, também, de haver restringido a propagação daquilo que chamou “uma certa Teologia da Libertação”. Contudo, pode ser captada pelos mais desatentos neurônios a aliança negra dessa teologia com o marxismo. O seu guru Leonardo Boff a declara desinteressada de que haja cristãos, mas cidadãos lutando pelas causas que lhe agradam, e o conselheiro de Fidel e Lula, Frei Betto, não quer teologia no marxismo mas marxismo na teologia. Não duvido de que com tais idéias "progressistas" ainda esperassem para suas nobres finalidades louvores papais e púrpuras cardinalícias. Também causam desconforto as posições de João Paulo II contrárias ao aborto, à união homossexual, à engenharia genética com uso de embriões humanos, bem como sua defesa do matrimônio, da fidelidade conjugal e de outros valores essenciais à vida e à estabilidade dos núcleos sociais. Ora, estamos acostumados com um tipo de liderança que molha o dedo na boca, espeta-o no ar, percebe de qual lado sobram os ventos da opinião pública e alinham-se nessa direção. João Paulo II, no entanto, não foi um papa assim. Ele exerceu com fidelidade e determinação sua função de condutor da Igreja, em conformidade com a sã doutrina. Avaliá-lo segundo os critérios com que medimos Lula, Kirchner, Chávez, Zapatero e assemelhados é imensa impropriedade. E não hesito em afirmar que, em relação a todos, ele foi, na doutrina e na ação, muito mais eficaz na defesa dos pobres, na afirmação do primado do trabalho sobre o Capital, no zelo pelo ambiente natural e na denúncia das injustiças de todos os modelos e sistemas. Quem duvida que leia suas três encíclicas sociais. Cuida-se, agora, de substituir um homem extraordinário, sinal de contradição, conservador zeloso e fiel do que lhe coube resguardar. Progressista na direção do Bem. A exemplo de Cristo, fez tudo por amor. E amou a humanidade inteira de tal modo que todos nos sentimos pessoalmente amados por ele.

Católico e caótico

Confesso que em fins dos anos oitenta compareci a eventos e reuniões programados por organizações de base da Igreja Católica que se articulam junto aos movimentos sociais. Ia com o espírito aberto, mesmo que recebido com suspeição e sabendo que não encontraria afinidades ideológicas. Após algum tempo, desisti. Tais encontros se davam em locais religiosos e ocasionalmente era providenciada uma missa (depois eu conto essa parte). Mas o conteúdo dos debates jamais tinha algo de religioso. Era ideológico, partidário e, quando se aproximava uma eleição presidencial, o Lula podia não estar na agenda, mas compunha a pauta de quase todos os pequenos ou grandes grupos.As celebrações eucarísticas, em eventos desse tipo, têm uma característica peculiar. Para quem não sabe, profere-se, em todas as missas, um ato penitencial, no qual os participantes pedem perdão por seus pecados. Nas missas da esquerda, essas faltas nunca são pessoais. São sempre faltas alheias, do neoliberalismo, da globalização, da imprensa, dos proprietários rurais, da empresa e da propriedade privadas. Participante de movimento social não peca. É santo por opção ideológica. O valor dessa filiação é mais do que sacramental e se impõe ao próprio batismo.O cardeal D. Eusébio Scheid declarou recentemente que Lula não é católico, mas caótico, e não se entende muito bem com o Espírito Santo. Foi uma frase dura, inconveniente, a refletir profunda contrariedade com a conduta do presidente. Se a contrariedade tem sólidos motivos, a afirmação é contrária à razão. Tivesse dito que Lula é um católico caótico, estaria absolutamente certo, porque o presidente é, de fato, as duas coisas. Estou convencido de que se fosse fazer um check list de suas adesões ao conteúdo do Credo dos Apóstolos, o presidente marcaria a lista inteira. Seu problema é, como em tudo mais, a superficialidade da formação religiosa.O zeloso e piedoso frei que ele escolheu para ter perto de si cuidou apenas de ideologizá-lo e não de evangelizá-lo. Como conseqüência, e apenas para ficar com fatos bem recentes, o Brasil tem a legislação sobre uso de embriões humanos mais permissiva entre os países católicos e talvez seja a única nação organizada em regime constitucional que delibera sobre aborto, por modo autocrático, mediante norma técnica do Ministério da Saúde.Apesar disso – e de muito mais – a consciência do presidente é imaculada e virginal. Como pude observar nos meus contatos com a base esquerdista da Igreja, Lula acolheu um sermão magnânimo, abraçou uma ideologia santificadora e pode se proclamar, como fez em Roma após a missa em memória do Papa João Paulo II, "um homem sem pecados". Houvesse comparecido à cena da adúltera, quando Jesus desafiou os circunstantes a que a primeira pedra fosse jogada por aquele que estivesse sem pecado, Lula, o impecável, teria fulminado a mulher com um tijolaço. Vem aí o primeiro santo brasileiro nato?