Percival Puggina


Reféns!

A solidariedade e o zelo pelo bem comum são indispensáveis a uma adequada organização da vida social. Pela solidariedade as pessoas se comprometem, sólida e reciprocamente, umas com as outras, reconhecendo que o bem de cada uma depende do bem da outra (a questão ecológica exemplifica essa realidade no âmbito planetário). O bem comum estabelece a finalidade das ações políticas e as orienta para a superação dos egoísmos individuais e coletivos (onde a política fracassa é porque os egoísmos se impuseram). De fato, as coisas começam a se complicar e surgem desordens de toda espécie quando as instituições não conseguem controlar os grupos que, tendo em vista apenas seus próprios interesses, agem, dentro da sociedade, em oposição ao bem comum. Isso ocorre no circuito vulgar da delinqüência e do crime organizado ou em várias e sofisticadíssimas formas de burlar e prejudicar aos demais para benefício pessoal ou grupal. Em qualquer desses casos, todos os outros passamos a ser tratados como se fôssemos (e a nos sentir como sendo) reféns de tais grupos e de seus interesses. Não sou dos que absolvem ou atenuam a culpabilidade dos criminosos pela suposta condição de “produtos ingênuos” de uma estrutura que os excluiu do círculo venturoso onde se preza o bem e se rejeita o mal. Seqüestradores, assaltantes, assassinos ou estupradores detestam ser seqüestrados, assaltados, assassinados ou estuprados. Mesmo as consciências mais deformadas compreendem o desconforto de suas vítimas. Pela mesma razão discordo dos individualistas que sustentam a existência de um “direito” de não ser solidário: todos sabem pedir socorro.  Portanto, o rigor que se exige das autoridades em relação aos criminosos deveria ser cobrado, também, para inibir a ação de quantos, por posição privilegiada na vida social, burlam os mecanismos de mercado, promovem greves que contrariam profundamente o bem comum, manipulam a opinião pública (e por essa via controlam a política), lançam sobre os ombros da sociedade privilégios auto-concedidos, organizam-se sob a alcunha de movimentos sociais para violar princípios constitucionais e praticar atos criminosos. Nenhum desses brutamontes do capital, do sindicalismo, do corporativismo, da comunicação e da política apreciaria ser vítima daquilo que faz. E todos somos tão seqüestrados por tais grupos como se estivéssemos sob a mira de suas armas, negociados por dinheiro.

Com vírgula, ou sem vírgula?

Recomendo enfaticamente a leitura do livro Stalin, obra escrita em dois volumes por Dmitri Volkogovich, general do exército russo sob cuja responsabilidade esteve, durante muitos dos anos que antecederam à queda do regime comunista, a guarda dos arquivos militares soviéticos. O vulto das informações históricas é imenso e sua leitura estabelece analogias que podem ser facilmente percebidas em relação a vários aspectos da nossa atualidade. Obviamente não é a mesma coisa, mas a moralidade que conduz muitas das ações em curso resulta bem semelhante. Em resumo, posso afirmar, sem medo de incorrer em erro: há uma estreita relação de causa e efeito entre todo o totalitarismo e o apego às versões sobre os fatos, o desrespeito à honra alheia e a mentira.Durante anos venho participando de sucessivos e instigantes debates em rádio e TV com pessoas em relação às quais mantenho antagonismo político e no curso dessas interlocuções tenho notado e anotado sucessivas e repetitivas evidências do que afirmo. São raros os quadros políticos com os quais se pode manter um contraditório intelectualmente honesto, com base em fatos e idéias. Por isso, depois de ter presenciado tantas tentativas de desqualificação moral, depois de ter tido que desmontar mentiras expostas como argumentos e de ter que refutar versões apresentadas como fatos, não posso deixar de rir perante a enrascada em que se meteu o presidente Lula. Num discurso proferido em evento da Petrobrás no Espírito Santo, acabou sendo vitimado pela arapuca que ele e muitos de seus companheiros gostam de preparar para os outros. Ao dizer que recebera, há dois anos, informações sobre corrupção no governo de seu antecessor, ele estava fazendo uso da velha estratégia stalinista, mas ao relatar sua ordem para que o assunto se encerrasse naquela conversa, enfiou-se no próprio alçapão. Se fez o que disse, é réu confesso de crime de acobertamento. Se o que disse não aconteceu é réu de crime de difamação.No dia seguinte, diante da paquidérmica confusão que causou na cristaleira das relações políticas nacionais, participando de um evento do MEC, referiu-se à necessidade de não permitir que uma "notícia atravessada" (culpa da imprensa?) ou um "discurso atravessado" (culpa de quem, mesmo?), jogasse por terra o sonho da reforma universitária.Como lhe parece melhor, com vírgula ou sem vírgula? "Presidente, não se improvisa" ou "Presidente não se improvisa"?

Tal como no samba

"A essa altura o cabaré em polvorosa já tinha um cheiro de cadáver se espalhando"

(Miguel Gustavo e Moreira da Silva, em "O rei do gatilho")

Nesse clássico da música brasileira é contada a história de Kid Morengueira, herói de Wichita, em seu duelo com o bandido que infelicitava a vida da amiga Mary. Canta Morengueira que foram dados tantos tiros no saloon que até hoje ninguém sabe quem morreu: "Eu garanto que foi ele; ele garante que fui eu".Pois na recente eleição da Mesa da Câmara de Deputados aconteceu coisa parecida. Armou-se confusão tão grande que até hoje ninguém sabe quem perdeu. Luiz Eduardo Greenhalgh garante que foi o governo. O governo garante que foi o PT. E o PT garante que foi Greenhalgh. Fechou-se o círculo. Vamos acabar convencidos de que ninguém perdeu, de que não há cheiro de cadáver se espalhando e de que nós é que entendemos tudo errado. Afinal, para quem foi o telegrama da Mary? Eu acho que foi para o Severino. Leva mais jeito. Greenhalgh tem pose e sobrenome de arcebispo primaz da Igreja Anglicana, do tipo que só estende a mão se for para oferecer o anel ao beijo dos fiéis. Virgílio Guimarães era a tentativa petista de levar dois candidatos do partido ao segundo turno. No fundo, produto da mesma presunção que impôs o candidato oficial, imaginando que o saloon da Câmara seja povoado por um bando de tolos incapazes de perceber a manobra.Contados os cartuchos vazios, as vozes petistas passaram a denunciar uma coligação da direita com o corporativismo. Como se o PT não fosse manifestação desse mesmo fenômeno.  Não instalou ele o governo com 35 ministérios para atender as demandas da base por cargos? Não criou mais de três mil postos de confiança com o mesmo intuito? Não usa nem abusa de mordomias e nepotismos? A despeito disso, o governo Lula se exibe como a mais alta expressão do desapego por qualquer vantagem material e, seus candidatos, como representantes dos interesses dos pobres e oprimidos. Enquanto isso, o tosco Severino, pernambucano dos grotões, que passa a disputar com o conterrâneo presidente o torneio das agressões ao vernáculo, tornou-se, para efeitos externos, porta-voz da direita. Querem me enlouquecer. Alto clero alinhado com a esquerda. Baixo clero perfilado com a direita. Nenhum jornalista capaz de farejar uma rebelião que somou 300 votos. Só no Brasil, mesmo. E o Lula, perguntarão os leitores? Ora, deixem-no fora disso. Ele garante que o médico o aconselhou a não meter em encrenca o recém operado nariz. Tal como no samba, isso "tem um final, mas é impróprio e eu não digo".

Repetindo cem vezes

Não era incomum, nos meus tempos de escola primária, que algum colega mais irrequieto fosse obrigado a perder o recreio escrevendo no quadro negro uma centena de vezes: “Não devo conversar durante as aulas”. Quando retornávamos, o coitado ali estava, solitário, infeliz e sujo de giz, contemplando o produto de sua desgraça, convencido de que em boca fechada não entra mosca. Os que nos querem convencer de que as idéias marxistas funcionam fazem bom uso da insistente repetição dos seus chavões. Um deles afirma que “as desigualdades sociais são fruto desse modelo concentrador que aí está”. Ou seja, elas decorreriam da economia de mercado, do direito à propriedade privada, da liberdade de empreender, do tal neoliberalismo e da globalização. Apontam a miséria da África e da América do Sul como resultado desse “modelo” explorador e desumano. Repita-se isso até a exaustão e você não duvidará de que os africanos eram ricos, prósperos, poderosos e bem nutridos até a chegada das desgraças ocidentais e que norte-americanos, europeus, japoneses, canadenses e australianos vivem às custas das esplêndidas riquezas sul-americanas. Acreditaremos, também, que nossos projetos com vistas à prosperidade nacional, conduzidos por longa e estável série de governantes sábios, prudentes e dedicados ao uso lúcido dos recursos públicos, sob um sistema de governo e uma ordem constitucional moderna e eficiente, só fracassam por causa da ganância externa. Pela insistente repetição, assumiremos como verdadeiro que todo o bem que afanosamente fazemos por nós mesmos tropeça em coisas satânicas como Consenso de Washington, Clube de Paris, FMI, G7, G8, Escola de Chicago, Fórum de Davos e outras sinistras conjunções empresariais ou zodiacais. Para que a culpa possa ser atribuída “a esse modelo que aí está”, é preciso jamais mencionar a concentração de riqueza do antigo Egito, de certas dinastias chinesas, do Indostão, do Império Romano, dos barões medievais, dos comerciantes venezianos e genoveses, dos banqueiros surgidos no Renascimento. É preciso esquecer que a fome era endêmica na Europa em pleno período colonial e assim permaneceu até meados do século passado. E é preciso, principalmente, jogar nas sombras da ignorância dois fatos essenciais: 1º) que foi precisamente sob o regime das economias de mercado e com o surgimento das democracias constitucionais que a renda passou a ser distribuída com mais justiça entre os cidadãos; e 2º) que o sistema que mais radical e insistentemente se opõe “a esse modelo que aí está” somente gerou opressão, corrupção, genocídio e miséria. Mas essas são coisas que ninguém diz e ninguém repete.

Notas:

NA – Aquisições do meu livro “Cuba, a tragédia da utopia” podem ser feitas através do e-mail atragediadautopia@hotmail.com.

“Eppur si Muove”

O Fórum Social Mundial fornece um bom exemplo de que as ideologias marxistas, malgrado o fracasso de todas as suas experiências, ainda movem multidões. Em princípio, nada lhes seria mais desalentador nem comprometeria tanto sua propagação quanto o exercício do poder. Quando isso ocorre, tem-se sempre uma dentre três possibilidades: ou a ideologia vai para as cucuias, ou se implantam regimes totalitários que produzem o colapso da sociedade, ou não se implantam tais regimes e o colapso ocorre do mesmo modo. Dado que não há exceção na história, cabe indagar como tal ideário, com tudo para estar sepultado junto com o nazismo e o fascismo, continua a incendiar a imaginação de tanta gente. "Eppur si muove"! Como é possível? Após anos de debates sobre temas políticos e ideológicos com militantes e intelectuais alinhados com essas correntes de pensamento, creio poder apontar as causas essenciais de sua resistência e mobilidade. De um lado estão problemas reais de natureza política (quando a política não funciona, seja no plano nacional, seja no internacional, fica fácil confundir as coisas e atribuir ao "modelo" a causa dos males que ocorrem). De outro está a enorme desinformação, desconhecimento de história e despreparo que caracteriza o cidadão comum, vulnerável, portanto, a quaisquer tolices que lhe proponham com fisionomia vantajosa. De outro, ainda, estão as estratégias adotadas pela esquerda nos contraditórios que enfrenta. Também elas são, basicamente, três. A mais freqüente é a que foi ensinada por Brecht a seus camaradas em Die Massnahme: "Quem luta pelo comunismo tem de poder lutar e não lutar; dizer a verdade e não dizer a verdade; manter a palavra e não cumprir a palavra, etc., etc., etc". E ele tinha razão. O mentiroso treinado é o mais difícil adversário num debate. Em seguida vem a estratégia da desqualificação do opositor. Caluniam-no e lhe atribuem as piores intenções, sujeitando-o a um paredón moral. Eis o motivo pelo qual se tornaram peritos em destruir reputações de modo tão impiedoso quanto o usado pelos seus famosos tribunais revolucionários para executar oponentes. Por fim, vem a estratégia de atribuir ao adversário algo que ele não disse e atacar essa afirmação com mil demolidoras razões, dando a impressão de que, ao refutarem o que não foi dito, estão contestando o que  foi dito e é irrefutável. Nada muito ético, como se vê. Contudo, quando se conhece a técnica usada, fica mais fácil enfrentá-la.

Instituto Jeca Tatu

No dia 18 de março de 2004, durante pronunciamento na inauguração de um restaurante popular da Coca Cola em Belo Horizonte, o presidente Lula declarou: "Eu passei tanto tempo da minha vida, achando que ser antiamericano era não beber Coca-Cola. Depois eu fui ficando mais maduro e percebi que, quando a gente levanta de madrugada, e tem uma Coca-Cola gelada na geladeira, não tem nada melhor". Pois o que sobrou de antiamericanismo no Lula maduro é mais nocivo do que não tomar Coca-Cola.O Ministério das Relações Exteriores do Brasil, sob o comando de Celso Amorim nos dá uma pista ao eliminar o domínio do idioma inglês como uma das condições preliminares para acesso ao Instituto Rio Branco. Suponho que se trate de um chute na virilha de Bush e outro no tornozelo de Blair. Camões agradece, mas dispensa a cortesia. Nossos futuros diplomatas, informa-se, aprenderão inglês posteriormente, se e quando forem ocupar postos no Exterior. Outra etapa dessa excepcional qualificação inclui uma prova com o secretário-geral do ministério, Samuel Pinheiro Guimarães. Nela os futuros diplomatas terão que demonstrar conhecimento pessoal sobre o conteúdo de três livros. Inteiros. É mole? Exatamente oito centímetros na prateleira. E não apareçam com um quarto livro. Aí deve ser o examinador quem se atrapalha. Ah! As três obras são em língua portuguesa, claro: "Brasil, Argentina e Estados Unidos", de Moniz Bandeira, obra prefaciada pelo próprio Samuel Pinheiro Guimarães; "Pensamento Econômico Brasileiro", de Ricardo Bielschowsky e "Biografia do Barão do Rio Branco", de Álvaro Lins.Se o amadurecido presidente não fala corretamente nem o idioma nacional e comanda nossa política externa, o Itamaraty pode, muito bem, abrir as portas para quem ler três livros. E se o sujeito for mais preparado terá problemas. Incorrerá em suspeita de pertencer à elite, condição desprezível, cuja eliminação da vida diplomática constitui a declarada razão principal das simplificações introduzidas pelo Itamaraty em seus exames de seleção.Filho de visconde, ele próprio barão do Império, poliglota, jornalista, historiador, professor, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, José Maria da Silva Paranhos Júnior foi o criador da diplomacia nacional. Pois é esse péssimo exemplo de brasileiro, esse grã-fino, que dá nome ao Instituto Rio Branco. Já passou da hora, sob a batuta de Lula e Celso Amorim, de lhe conceder novo patrono. Sugiro Instituto Jeca Tatu.

O homem forte do governo Lula

Afinal, quem é o homem forte do governo Lula? Tenho certeza de que não passa pela cabeça do leitor que seja o presidente. Não dá para ser. Já ficou evidente que ele é um homem de escassas convicções e que uma de suas principais capacidades é a de reproduzir o discurso indicado pelos marqueteiros de uma forma que excita as multidões tanto quanto arrepia as concordâncias verbais e nominais. O antagonismo entre o que lhe mandavam dizer na oposição e o que lhe ensinam no governo não lhe causa qualquer mal-estar porque ele sequer chega a percebê-lo. Se dentro de dois anos desembarcar do poder inverterão seu discurso e ele fará exatamente isso. Não, uma pessoa assim não pode ser o homem forte do próprio governo. José Dirceu? Tadinho do Zé. Se fosse ele, o Aldo Rebello não teria assumido a pasta da coordenação política. Nos primeiros meses do governo Dirceu foi, de fato, o homem poderoso por trás do presidente, mas o episódio Waldomiro solapou suas bases e ele apenas resiste como uma sombra de si mesmo, um baixo-relevo da estátua que poderia ter sido. "Nesse caso só resta o Palocci", ponderará o leitor. Mas se o Palocci, na condição de titular da chave do cofre, fosse o homem forte do governo Lula, o verdadeiro homem forte não faria o que faz com o conteúdo do cofre pelo qual ele deve zelar. Não, o Palocci não é o cara. Quem é, então? Pasmem: o sujeito poderoso é um personagem tão ladino que ninguém sequer sabe seu nome. Herdeiro das mais nobres tradições do thriller universal – senhoras e senhores – o homem forte do governo Lula é o mordomo do Palácio, seja lá quem for e seja lá qual for o título oficial da função que exerce. Ele é o cara. Lula jamais leu o Príncipe, mas o mordomo leu Maquiavel e intuiu como deveria ser o mordomo de um príncipe que se preze. Do avião aos roupões de algodão egípcio, passando pelas intermináveis listas de aquisições que periodicamente fazem a diversão dos leitores nas colunas de Cláudio Humberto, ali está expressão de seu poder. Do colorido petista dos jardins às provisões da colônia de férias dos amiguinhos do presidencial rebento, tudo passa pela sua supervisão. Agora mesmo acaba de comprar 12 carros novos de 72 mil reais cada, duas ambulâncias com UTI-móvel, três caminhões, dois microônibus, dez automóveis sedan brancos, outros oito de cores diversas e um lote de novas motocicletas. Palocci paga e não bufa. Não, não diga que o mordomo é apenas o culpado porque isto não é filme algum. Isto é exercício do poder no Brasil real.

Bons tempos, aqueles

Houve um tempo, que já vai longe, em que os partidos valorizavam a qualificação de seus quadros e parcela significativa dos eleitores levava isso em conta ao eleger representantes. Supunham, partidos e eleitores, que a formação intelectual, a visão de história e a dedicação à leitura e ao estudo de boas obras produzissem não apenas competência para o debate inerente à atividade política mas, principalmente, capacidade de discernir entre certo e errado e entre justo e injusto que compõe o universo das decisões significativas à vida social. Em outras e mais simples palavras: na política, tanto quanto em qualquer outra atividade, entendiam eles, quem sabe mais erra menos. Gradativamente isso foi deixando de ter significado e reflexo na vida pública. Acompanhando o declínio da formação cultural da sociedade embrutecida pela comunicação de massa, graças à qual o pensar foi substituído pelo assistir, o padrão intelectual da política brasileira foi declinando para o nível de mesa de bar. Assisto, logo existo, aliás, é o título de interessante entrevista do psicólogo Carlos Perktold a Maurício Dias na edição de junho passado da revista Carta Capital. Parcela significativa de nossos homens públicos não se formam lendo bons livros. Apenas se informam em jornais e assistindo TV. Atuam com um olho na imprensa, o outro na urna e absoluta cegueira em relação aos problemas nacionais e suas soluções. Há poucos dias reli A revolução julgada, de Raul Pilla, sob aquele deleite que nos concede o contato com os verdadeiramente sábios. O livro é composto por um conjunto de discursos sobre a crise institucional brasileira e resultou inevitável a comparação com a cena parlamentar rio-grandense neste início de milênio. Quantos Raul Pilla produzimos nos últimos 50 anos? E note o leitor que no mesmo parlamento gaúcho em que ele foi constituinte, por exemplo, estavam expoentes como Adroaldo Mesquita da Costa, Décio Martins Costa, Edgar Luiz Schneider, Maurício Cardoso, Loureiro da Silva, Moysés Vellinho, Fay de Azevedo, Cilon Rosa, Paim Filho, Favorino Mércio e tantos outros. Nas primeiras páginas de A revolução julgada, o bravo guerreiro do parlamentarismo, referindo-se aos adversários desse sistema, situa em primeiro plano os que recusariam a democracia se pudessem, e, assim sendo, aferram-se ao menos democrático dos sistemas. A seguir, alinha os que a apreciam mas a temem, e que, por isso, aderem à sua forma menos perfeita, menos democrática portanto. E, por fim, aponta os democratas prudentes, que alegam não estarmos preparados para o parlamentarismo, como se sucessivas décadas de instabilidades e fracassos nos tivessem preparado para o presidencialismo e seus insucessos. Haverá quem diga que são questões menores, destituídas de importância em tempos tão mais graves e confusos, como se a confusão que observam não tivesse origem na falta de discernimento dos agentes políticos. Às exceções que conheço, o meu louvor.

Rompendo ou corrompendo

Embora o Brasil tenha decidido no plebiscito de 1993 que sistemas de governo são coisas fúteis e que o presidencialismo deve continuar sendo nosso modelo, o fato é que esse sistema, associado ao pluripartidarismo, ou rompe periodicamente a estabilidade ou corrompe constantemente as instituições. No presidencialismo não é a maioria que faz o governo, mas é o governo que precisa fazer a maioria, de modo que não basta ao governante vencer o pleito que lhe concede o mandato. Para manter a governabilidade ele precisa vencer os sucessivos pleitos que se travam nas votações do Congresso. E como lá existem 14 minorias e nenhuma maioria, cabe-lhe arregimentar base de apoio, num trabalho estafante e moralmente desgastante. Lula, ao tempo em que comandava a pichação oposicionista e colava etiquetas nos adversários, contabilizava a existência de 300 picaretas operando na pedreira do governo Sarney. Hoje, todo esse ferramental está estocado no almoxarifado de Sua Excelência e Sarney é o braço direito do governo no Senado. Vejamos o mesmo fenômeno desde a perspectiva das legendas e do funcionamento das nossas instituições. A cada pleito, os partidos investigam a opinião pública e os candidatos formulam seus discursos em concordância com o que o povo deseja ouvir. Para quem gosta de analogias, serve esta: os partidos captam os ventos da opinião pública e ajeitam suas velas para ganharem velocidade em direção ao poder. Eis a razão pela qual todos os candidatos presidenciais de 2002 falavam mal uns dos outros, mas diziam exatamente a mesma coisa ao povo. Encerrado o pleito direto, começa o pleito parlamentar. Em tese, apenas um partido fica totalmente impossibilitado de aderir ao governo: aquele que perdeu a eleição no segundo turno. Os demais cravam o cotovelo no balcão e passam a negociar, entre cochichos, com os novos donos do poder. Que se lixem as dificuldades da gestão, o que interessa, em tais conluios, são as facilidades em questão. Eis aí, leitores, o que estamos cansados de ver. Apenas Fernando Collor, porque era um doidivanas e não aceitou a regra do jogo, subiu a rampa num dia e escorregou, porta afora, pouco depois, sobre a maionese de suas trapalhadas. A estratégia de Lula, contudo, se distingue da de seus antecessores pelo fato de que suas negociações não se fazem com os partidos, mas diretamente com os parlamentares, espalhando uma discórdia que lhe servirá tanto agora quanto em 2006. Do próprio PSDB foram surrupiados 22 congressistas para outras legendas e para a base do governo. Rachou-se o PMDB, o PP, o PPS e, em parte, o PFL, com a sedução de parlamentares que ajustaram suas velas para atracarem perto do Tesouro Nacional. Esse é o desserviço principal que Lula e seu partido estão prestando à política brasileira. Em vez de construírem a necessária reforma política, eles estão destruindo os partidos numa cizânia que lhes convém. Mas como afirmou com sabedoria um jovem amigo: se o grupo político-ideológico que hoje nos governa quase conseguiu separar a Igreja do Brasil da Igreja de Roma, com muito maior facilidade vai acabar com os partidos políticos nacionais.

Esses incríveis Beto e Boff

Sempre me pareceram muito evidentes os equívocos doutrinários da Teologia da Libertação e suas graves conseqüências sobre a espiritualidade do clero, a conduta dos leigos e a ação da Igreja. Escrevi sobre isso várias vezes e desabou sobre mim a ira de seus adeptos. Eles começaram a surgir nos anos 60, com o movimento chamado Cristianos por el Socialismo (CpS), cujos sucessivos encontros internacionais rejeitavam a contribuição cristã para o nascimento do "homem novo" e aclamavam o socialismo como "única opção aceitável" para esse fim (1º Encontro Latino-Americano de Santiago, 1972). Nem em seus melhores sonhos Gramsci supôs que receberia contribuição tão eficiente no uso da linguagem quanto a que lhe prestaram os CpS e a subseqüente Teologia da Libertação a partir do momento em que transformaram os pobres e humildes do Evangelho em "classe social" e a evangelização em "luta de classes". Pablo Richards, Jon Sobrino, Gustavo Gutierrez, nossos Leonardo Boff e Frei Betto, e seus pares, jamais ocultaram os objetivos em direção aos quais se moviam: a construção de uma sociedade socialista, em base marxista (estrategicamente não usam o vocábulo comunista). Em tal sociedade, não havendo classes, surgiria o homem novo, desapareceria o pecado original e viveríamos felizes para sempre sob um regime que, em definitivo, teria produzido aquilo que a Igreja não conseguiu. A situação torna-se clara: se a Igreja é formada pelos "pobres, oprimidos, conscientizados, lutando por sua libertação", antes mesmo de ser produzida essa libertação a Igreja já teria se evidenciado inútil, pois a realização de seus fins somente poderia ocorrer mediante ferramentas que lhe eram estranhas até o surgimento do marxismo. A Igreja teria sido, então, durante 20 séculos, uma superestrutura (instrumento de dominação, na linguagem marxista) que precisava ser reformulada para uso na construção da hegemonia preceituada por Gramsci. De "superestrutura", viraria "aparelho". E em muitos casos virou mesmo. Parcela significativa do clero, desde então, não move uma palha nem se sensibiliza se alguém ataca Jesus Cristo, o Papa, a Igreja, a Virgem Maria, mas ai de quem escreva uma palavra contra Betto e Boff, de cuja produção evangelizadora recolho duas frases resgatadas por Adolpho João de Paula Couto em recentíssimo artigo. De Betto: “O que propomos não é teologia dentro do marxismo, mas marxismo dentro da teologia” (JB, 06/04/1980). De Boff: “É uma teologia que faz sentido, que ajuda a criar uma visão das coisas, não necessariamente cristã, porque nós não estamos interessados em que haja mais cristãos, estamos interessados em que haja mais cidadãos participativos, sensíveis, justos, lutadores pela libertação dos seres humanos, e o cristianismo como uma fonte geradora de pessoas assim” (entrevista à Radiobras, 01/12/2003).  E seus fãs continuarão irados contra mim por acusar seus gurus de serem e fazerem exatamente aquilo que dizem e escrevem.