Percival Puggina


Para entender o Congresso Nacional

Peque um lápis e um pedaço de papel (pode ser o menor que você encontrar) e faça uma lista dos membros do parlamento nacional cuja ação revele zelo para com o país. Vai sobrar papel. Por quê? Porque nosso sistema eleitoral privilegia candidatos comprometidos, ou om certas bases geográficas ou com corporações. Some-se a isso a massa de eleitores que vota segundo pequenos critérios (ou sem qualquer critério) e não temos porque nos espantar com o descaso para com o bem comum. Representantes estritamente regionais ou de grupos de interesse têm como principal tarefa carrear para suas bases fatias cada vez maiores do bolo nacional e cuidar para que a conta seja enviada, indecorosamente, aos barrados no rateio. Restam uns poucos (tão poucos que quase nada conseguem fazer) aos quais o talento pessoal e as exigências da própria consciência acabam conferindo um tipo mais amplo de representação. Estes colhem votos em várias regiões e diversos segmentos sociais. Independentes, assim, de cabrestos regionais, grupais, ou mesmo partidários, mantêm-se fiéis a princípios dos quais não costumam se afastar. São, provavelmente, aqueles cujos nomes estão na pequena lista que lhe sugeri fazer. Se, de um lado, o conjunto da sociedade não tem senão a  perder com a atuação dos políticos do tipo “classista”, de outro, as regiões precisam de seus representantes e o país carece de quem se ocupe dele como um todo – uns para cuidar dos interesses regionais (contanto que todas as regiões estejam representadas) e outros para prover o bem comum nacional. O sistema que conduz a isso é o do voto distrital misto, no qual metade das cadeiras é preenchida por representantes distritais e outra metade por parlamentares com votação em todo o território. Os congressistas que temos são produto, em grande parte, do modelo eleitoral através do qual são selecionados, do sistema de governo que irresponsabiliza o parlamento e da incontrolável multidão (594 membros é caso para psicologia de massas) na qual seus deveres são dispersos. Mesmo que o Brasil tenha decidido, em plebiscito, que modelos políticos são coisa fútil, essas “coisas fúteis” continuam determinando, muito mais do que os eleitores, os tipos de pessoas às quais será confiado o direito e o poder de dispor sobre o bem comum e o interesse de todos.

Sou conservador, sim

O macaco, quando empilha caixotes para apanhar bananas suspensas fora de seu alcance, está usando um atributo, denominado inteligência, comum a várias espécies animais. Já quem se empenha em conhecer a Verdade e o Bem, usa de uma outra faculdade, especificamente humana, chamada razão. E a razão esteve no centro da revolução filosófica dos séculos XVIII e XIX.Que decepção teriam aqueles pensadores se pudessem confrontar o   otimismo humanista que suas idéias suscitaram com a quase absoluta irracionalidade a que  conduziram! Nunca como nestes anos que correm a humanidade foi tão destra em empilhar caixotes para apanhar bananas, nunca a inteligência dispôs de tantos instrumentos para ser produtiva, mas jamais esteve tão distante de perceber o sentido da vida e desinteressada de orientá-la para o Bem. Erich Fromm resume assim a situação: “Possuímos o ‘saber-como’ (know-how), mas não possuímos o ‘saber-por-que’ (know-why) nem o ‘saber-para-que’ (know-what-for)”. O motivo é evidente. Absolutizando razão e liberdade, essa filosofia desenrolou o tapete para o relativismo e o existencialismo: se a razão for a única fonte da verdade e se a liberdade for “a essência do homem”, ter-se-á uma verdade para cada mente e o homem deve ser “o que quiser fazer de si”. O resultado é a miséria da filosofia e o trágico descaminho, travestido de liberdade, percorrido por gerações despreocupadas com a Verdade e com o Bem, patrocinadoras da prosperidade de advogados e profissionais da saúde mental. Destes porque lidam com os cacos que as pessoas acabam fazendo de si (e umas das outras) por não terem compreendido o que de fato são, e daqueles porque – ausente a noção de Bem – as relações sociais se orientam apenas por interesses que se complicam quando a regra é o desregramento.Um prato cheio, de bananas. Extraviada a idéia de Bem, a noção de “erro” se esvazia e a consciência pessoal se amordaça num novelo de racionalizações oportunistas e egoístas. Nada há de surpreendente, então, na derrocada da instituição familiar, na irresponsabilidade moral de pais, educadores, comunicadores, legisladores, julgadores, na decadência do papel do Estado, no estímulo à violência, no avanço das drogas e da AIDS, nem na insignificância do amor, da justiça, da solidariedade e da virtude. E ainda aparece quem erga a voz para chamar conservador, como se o adjetivo fosse ofensivo, quem defende a preservação de tais valores.

Aborto, Igreja e Estado

Recebo carta de leitor insistindo na tese de que o aborto deveria ser um direito que pudesse ser exercido por pessoas sem rejeição de natureza religiosa à sua prática. E insiste: a restrição ao aborto constitui intromissão religiosa em matéria de natureza civil.

Não é. Os temas da vida humana e seu valor são essenciais à humanidade e integram os estatutos jurídicos de todas as sociedades desenvolvidas. Considerá-lo como tema “religioso” é confundir a parte com o todo. As religiões são apenas fragmento do contexto humanista e civilizador em que todos estamos ou deveríamos estar envolvidos. Afirmar o contrário, implicaria sustentar que a tortura só não é praticada por motivos religiosos, pela simples razão de que a moral cristã também a reprova. E o que seria ainda pior: ela ficaria liberada para prática pelos não-cristãos enquanto os cristãos, mesmo podendo praticá-la, ficariam coibidos de o fazer em virtude das peculiaridades da moral que adotam.

Para bem compreender o tema, responda, leitor, a seguinte questão: “É possível que a Moral não influencie o Direito?” E se der a essa pergunta a resposta adequada, impõem-se outra: “É possível que a Religião não influencie a Moral?” Ficará claro, então, que, em toda sociedade democrática, o Direito Positivo, a norma legislada, expressão da vontade social majoritária, certamente estará afetada pela moral dominante, decorrente, em grande parte, dos valores religiosos da maioria da população. Isso não significa obrigatoriedade de culto, discriminação religiosa, prevalência do Direito Canônico sobre o Civil, ou coisa que o valha. Significa, apenas, que a abordagem legal de questões com graves implicações morais, como o direito à vida, por exemplo, estará inevitavelmente afetada pela moral majoritária.

Se considerarmos que o tema é exclusivamente religioso (o que levaria à livre opção na sociedade civil), teríamos que permitir, no Brasil, que os adeptos de certas correntes religiosas pratiquem a poligamia, extirpem o clitóris dos bebês do sexo feminino; cortem as mãos daqueles que os furtem; lapidem as mulheres adúlteras e por aí afora. Isso pode estar de acordo com a moral dominante nas sociedades de onde se originam; mas não é aceitável entre nós. Invocar sobre tais temas o “direito das minorias” significaria admitir que as minorias façam suas próprias leis, o que conduziria à extinção da democracia e do próprio estado nacional.

Horizonte ou cenário?

Eduardo Galeano, em conhecida e reverenciada reflexão sobre a utopia, escreve: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar”. Impressionante, não é mesmo? O que o escritor uruguaio afirma coincide com algo que a experiência nos ensina: a perfeição deve ser buscada, mas nunca será atingida. Sempre haverá uma distância entre ela e a realidade. Caberia ponderar, então, se a utopia não cumpre, no pensamento e na ação política, o papel desse anseio que nos induz a buscar a perfeição mesmo sabendo-a inatingível. Para que possamos chegar a uma conclusão sobre tal pauta, torna-se necessário verificar se a tal caminhada produziu ganhos qualitativos em relação à realidade a que a utopia se opunha. Caso contrário, ela terá sido apenas cenário, ilusão a encobrir um objetivo errado. Ora, é impossível desconhecer que o comunismo ou o socialismo, como horizonte da utopia que seduz Galeano e seus companheiros, levou a humanidade a algumas das mais perversas realidades do século XX. Mais de cem milhões de seres humanos morreram e incontáveis outros apodreceram nas prisões, nos gulags, nos campos de concentração, em nome do horizonte em cuja direção Galeano convida seus leitores a andar… Os regimes em seu nome constituídos caíram de pobres e podres. Pois que vá solito, o Eduardo. Prefiro tomar como referência os grandes estadistas que fizeram avançar seus povos com democracia, liberdade, realismo, pés no chão e valores elevados. O que acabo de expor também explica, em boa parte, a desilusão que se abateu sobre parcela decisiva dos eleitores neste pleito de 2004. Durante duas décadas certo partido os seduziu confrontando a realidade em que vivem com o cenário de sua utopia. Repetidamente apontei para o embuste envolvido nessa estratégia onde embarcou e naufragou parcela significativa da intelectualidade nacional: comparar realidade com utopia é um desacato à Razão. Só se pode comparar idéia com idéia e realidade com realidade. E a coisa fica muito pior quando se descobre que o horizonte da utopia não passa de um reles cenário. Para muitos eleitores, pelo menos, a ficha, finalmente, caiu.

O antipetismo

As avaliações feitas nestes dias sobre o recém-concluído processo eleitoral, reiteram as características nas quais se envolveram as análises da eleição estadual de 2002 e revelam que os atuais fracassos petistas são tema de relevância política superior ao êxito de seus opositores. A derrota de Tarso Genro foi mais discutida do que a vitória de Germano Rigotto e o fracasso de Raul Pont parece ser mais importante do que a vitória de José Fogaça.

O eleitorado porto-alegrense é composto por três segmentos bem nítidos: um terço petista, um terço antipetista e um terço sem alinhamento automático. Foi esse terço que decidiu a eleição da capital para o PT durante quatro mandatos e, agora, inclinou-se na direção de José Fogaça. Para produzir essa reversão, subtraindo do PT votos que vinham sendo seus, foi necessário que houvesse uma força militante antipetista agindo de maneira convincente, um conjunto de acertos do candidato vencedor e um conjunto de erros por parte da corrente política derrotada e do candidato que a representava. Estes erros incluem entre suas conseqüências a perda, se não dos votos, ao menos da militância espontânea de inúmeros eleitores que precisaram ser, em grande parte, substituídos pela militância paga, antes tão criticada por esse partido quando a serviço de seus adversários. “Dez mil réis e dois pastéis!” vociferavam os petistas nas esquinas, até 2002, para os portadores das bandeiras alheias…

Longe de mim a idéia de um país sem PT, ou seja, sem um partido de esquerda para representar no contexto democrático plural as idéias da fração eleitoral que lhe corresponde. No entanto, há um PT politicamente necessário e há um PT politicamente desprezível, determinante do surgimento do antipetismo tão ferozmente atacado pelos derrotados de 2002 e 2004.

Aquele que para mim é o mais brilhante intelectual petista no Rio Grande do Sul, derrotado pelo partido na tentativa de se reeleger deputado federal, produziu, em 2002, uma extraordinária análise daquela eleição para o governo gaúcho. Lá pelas tantas, afirma: “Não há, portanto, como entender as raízes do ‘antipetismo’ – fenômeno desconhecido até há pouco, pelo menos na dimensão atual – sem um balanço autocrítico daquilo que construímos de simplificação, maniqueísmo e intolerância em nossa própria trajetória quando oposição”.

Como adversário, espero que o PT continue se considerando vítima. Como cidadão que reconhece a importância da política para o bem comum, espero que venha a refletir sobre seus erros e se afaste daqueles que nada aprenderam nas vitórias e nas derrotas, conservando-se na linha do radicalismo, da simplificação, da intolerância, do maniqueísmo e da arrogância.

A mudança

O que vi nestas últimas três semanas da campanha eleitoral em Porto Alegre me fez lembrar um episódio do qual participei, anos atrás, quando representava um candidato ao governo do estado em reunião na qual se estabeleciam regras para certo debate entre os disputantes do pleito. Em dado momento, a jornalista que representava o PT perguntou se as questões formuladas pela produção do programa iriam abordar os pontos fracos dos candidatos. Nessa ocasião, tomei a palavra para sustentar que meu candidato não participava desse tipo de preocupação porque não tinha rabo nem pontos fracos. Podiam lhe perguntar o que bem quisessem. Diante disso, a jornalista do PT comentou: “Se não tiver a gente põe”. Todos riram, mas eu sabia do que ela estava falando. O partido que a jornalista representava especializou-se em destruir reputações, em desqualificar seus adversários, em fazer da mentira argumento e em substituir fatos por versões. Quem se atravessa no caminho do PT está sujeito a enfrentar esse tipo de campanha. E foi o que presenciamos em Porto Alegre, mais uma vez. Dia após dia, durante três semanas, enquanto José Fogaça tratou dos assuntos de Porto Alegre e apresentou propostas para a cidade, Raul Pont e seu partido preocuparam-se e ocuparam-se em atacar a imagem de seu adversário, um homem de bem, sensato, cordial, respeitado pelos mais diferentes partidos (inclusive pelo PT) até o momento em que se interpôs entre essa organização e seu projeto de poder. Assim, com base na opinião manifestada pelo vice Eliseu Santos, o PT tratou de pôr em dúvida a veracidade de Fogaça quando afirmava que manteria o OP. Mesmo que lhe fosse insistentemente sugerido por todos, Fogaça recusou-se a devolver a grosseria. Ele poderia afirmar, por exemplo, que descumprir compromissos de campanha era especialidade petista, a começar por Tarso Genro, que se comprometeu “peremptoriamente” a permanecer quatro anos na prefeitura e abandonou o posto quinze meses depois. Poderia, também, lembrar a imensa coletânea de contradições do governo Lula. Mas não fez isso. O PT apresentou como denúncia grave a aposentadoria proporcional de Fogaça como senador, na forma da lei vigente. E embora reiteradamente concitado a lembrar que Olívio Dutra trabalhou quatro anos como governador e receberá aposentadoria vitalícia integral, na forma da lei, Fogaça se negou a mencionar isso e a lembrar as agressões perpetradas pelo governo Lula nos direitos de aposentadoria dos trabalhadores brasileiros. Do mesmo modo, embora sistematicamente agredido por quem cuidava de lhe por rabos que não tinha, ele não quis falar de Waldomiro Diniz, da lavanderia de dinheiro do Clube da Cidadania, de Delúbio Soares, e dos inúmeros escândalos que já cercam o governo Lula. Ela era candidato a prefeito de Porto Alegre e trataria dos assuntos da cidade. O eleitor de Porto Alegre teve oportunidade de comparar diferentes condutas. E escolheu a mudança para um nível ético superior.

Igreja e Estado

“Ainda temos um Cristo na parede desta sala, mas há muito ocorreu a separação entre a Igreja e o Estado” afirmou o ministro Marco Aurélio, apontando para o crucifixo atrás da mesa do presidente. Estava em curso a sessão do STF em que o plenário deliberava sobre a liminar que permitia o abortamento em casos de fetos anencéfalos. E a mesma idéia, com menor teatralidade, também foi exibida por mais um ou dois ministros e pelo advogado da postulante. O argumento da separação entre a Igreja e o Estado, na circunstância exposta pelo ministro, é juridicamente desprezível e socialmente inaceitável, embora costume ser invocado quando se debatem temas de natureza moral em relação aos quais a Igreja tem posição. Que a Igreja e o Estado ocupam esferas distintas da vida social é coisa sabida. Existem estados ateus (os que proscrevem a menção a Deus e negam ou inibem a atividade religiosa na vida social),   estados laicos (os que, como o Brasil, concedem liberdade religiosa mas não assumem como sua qualquer religião), e alguns estados confessionais (que adotam como sua alguma das religiões existentes). É juridicamente desprezível invocar a separação entre a Igreja e o Estado como forma de defender posições jurídicas reprovadas pela moral cristã porque ninguém está pretendendo que nosso ordenamento legal seja submetido à sanção eclesiástica, nem querendo substituir nosso direito pelo direito canônico. E é também socialmente inaceitável invocá-la porque essa separação não esteriliza a condição cívica dos indivíduos com convicções religiosas. O que o ministro Marco Aurélio pretende é transformar a religiosidade e as posições dela decorrentes em coisas interditas fora do ambiente familiar ou eclesial. Aos relevantes espaços da política e do universo jurídico somente teriam acesso e legitimidade as opiniões materialistas, atéias, hedonistas, utilitaristas, relativistas e assemelhadas. Os cristãos, mesmo quando ocupando posição em tais círculos, ficariam constrangidos ao silêncio, como catecúmenos de uma nova igreja, a igreja dos sem fé alguma. Não percebe o ministro o absurdo que decorreria de sua exigência: noventa e cinco por cento dos brasileiros que crêem em Deus e professam alguma religião estariam submetidos às normas impostas pela ínfima minoria restante, ungida, graças à sua descrença, com a legitimidade para definir os padrões morais que iriam influenciar a vida social através dos instrumentos legais e das decisões judiciais. Assim, se restabeleceria a submissão do Estado a uma nova e peculiaríssima igreja, a igreja dos incrédulos. Maravilha! E o sujeito, com esse discernimento de periquito, é ministro do STF.

O nome disso é projeção

Em todo o planeta, graças àquele troca-troca de troféus e galardões que os esquerdistas promovem entre si, o OP porto-alegrense se constitui em objeto de reverência.

Tenho certeza de que um viajante que chegue a Porto Alegre nestes dias e procure inteirar-se sobre a campanha eleitoral em curso ficará convencido de que o único problema desta cidade é o modo como se deliberará, no próximo quadriênio administrativo, a respeito do orçamento municipal. Só se fala em OP. Faltaria espaço para discriminar e não constitui objeto deste artigo, aquilo que a população de Porto Alegre gostaria de ver sendo debatido pelos candidatos. O que importa analisar é o que está na pauta, trazido pelo candidato da situação e seus marqueteiros que flagraram uma contradição entre a posição do candidato da oposição e seu vice. De fato, Eliseu Santos manifestou-se contra o OP e José Fogaça, reiteradamente, a favor. Bastou isso para que o PT passasse a difundir a idéia de que com uma vitória oposicionista em Porto Alegre, o OP seria extinto. É evidente que só há uma forma de fazer com que a premissa (a divergência de posição entre o candidato a prefeito e seu vice) leve à conclusão extraída e propagada pela campanha petista (o OP vai acabar): Fogaça seria um dissimulador e um mentiroso que estaria ocultando suas verdadeiras e sinistras intenções. A duas semanas da eleição esse é, na mecânica eleitoral petista, o eixo da campanha de Porto Alegre. Pois que seja. Três por cento da população da cidade participa das reuniões do Orçamento Participativo, mas às custas de muita propaganda o partido convenceu o resto da cidade e a opinião pública mundial de que o mecanismo é a cereja do bolo da democracia. E em todo o planeta, graças àquele troca-troca de troféus e galardões que os esquerdistas promovem entre si, o OP porto-alegrense se constitui em objeto de reverência. Inverte-se então o dito espanhol segundo o qual “yo no creo em brujas pero que las hay las hay”. No caso do OP, fora de Porto Alegre, se dirá: “yo creo en el OP pero que no lo hay no lo hay”. E, de fato, nem em Brasília “lo hay”. Pois Fogaça decidiu assumir a bruxa e afirma que, se eleito, vai mantê-la intacta e distante da fogueira. Restou ao PT colocar sua palavra em dúvida, certamente motivado pela própria experiência de quatro anos atrás, quando o candidato Tarso Genro assumiu o peremptório compromisso de exercer seu mandato até o fim e renunciou quinze meses mais tarde. Os psicólogos denominam isso de “projeção”.

Essa moeda chamada liberdade

Quem quiser ser absolutamente livre, precisará mudar-se para um mato totalmente desabitado, onde não haverá impostos, autoridade pública, regras de condomínio, sirene de polícia, nem campanhas eleitorais.

A implantação de câmaras de vídeo a serviço da segurança pública, controlando o ambiente em determinados locais de Porto Alegre, tardou muito e ainda suscita polêmicas. Pergunta-se: estaremos diante de uma das muitas possíveis faces do delírio orwelliano expresso no livro “1984”, no qual todos viveríamos sob controle do “grande irmão”, o “big brother”? Há quem sustente que sim e agregue que a instalação e a operação desses equipamentos infringem o preceito contido no inciso X do art. 5º da nossa Constituição Federal: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas”. Penso que a tentativa de encontrar no texto constitucional base para obstar a ação das câmaras de vídeo não tem fundamento. Quem sai às ruas renuncia a diversos atributos da vida privada: está sob a vista de estranhos, sob controle do olhar não eletrônico dos mesmos agentes de segurança que operam as câmaras de vídeo e se submete a regras de conduta que não se aplicam ao recesso do lar. Impossível desconhecer que a liberdade (e correlatos como a privacidade e a ausência de deveres e obrigações) constitui a principal moeda de troca da vida social. Quem quiser ser absolutamente livre, precisará mudar-se para um mato totalmente desabitado. Ali não haverá impostos, autoridade pública, regras de condomínio, sirene de polícia, nem campanhas eleitorais. Pardais serão de fato passarinhos. E o despertador será o ronco de algum bugio. Mas haverá a chuva, o sol, o frio, a fome, a enfermidade sem remédio ou atenção médica, os animais predadores, a perda da linguagem, a solidão enferma e a velhice sem proteção. Portanto, certas restrições de liberdade são preço da civilização. Trocamos a liberdade de acordar a qualquer hora e fazer nada pelo patrão e o salário que nos paga. Aceitamos as fronteiras da nossa liberdade porque elas representam os limites da liberdade alheia em relação a nós. Trocamos nossa liberdade sexual por amor e estabilidade conjugal. Trocamos o uso mais prazeroso do nosso dinheiro por plano de saúde e aposentadoria, prestação da casa, pagamento de impostos que nos garantam serviços públicos, e assim por diante. Trocamos os prazeres de todos os vícios pelo respeito que advém da virtude. Nos sujeitamos à fé e suas imposições no imanente em troca dos bens transcendentes. A liberdade é, pois, um bem valiosíssimo e não me arrependo das boas transações que me proporciona. Uma delas envolve, exatamente, a possibilidade de ser observado nas ruas pelo olho eletrônico da mesma autoridade que esteja atenta ao criminoso que ameaça a minha segurança.

Lula e Roosevelt

O presidente Lula, que se enrosca cotidianamente com as dificuldades nacionais, fala como quem tem solução simples e voluntarista para as angústias essenciais da humanidade e da civilização.

O impressionante avanço do Partido dos Trabalhadores na direção do poder implicou o uso de alguns procedimentos que deveriam ser adotados por outros partidos: firme disciplina interna, correta meritocracia no âmbito do serviço partidário e da produção intelectual e mecanismos de organização e/ou infiltração nos movimentos sociais. E empregou, também, certos hormônios de crescimento que deveriam ser banidos como doping nos laboratórios da opinião pública: infusão de um fervor pentecostal à militância, sistemática desqualificação moral e satanização dos adversários e um  discurso sobre os problemas nacionais que atribuía responsabilidades à maldade alheia, propondo soluções tão simplistas e voluntaristas quanto erradas. Desnecessário reiterar o que o Brasil assistiu durante o primeiro terço do mandato presidencial de Lula, nem apontar com o dedo a pequena fresta em que se transformou a astronômica distância que separava o discurso petista das práticas políticas e administrativas dos governos a que o partido fazia oposição. Ainda estou à espera, por exemplo, de que alguém, nesta campanha eleitoral, retome aquela árvore que o PT sistematicamente apresentava, e na qual os demais candidatos eram exibidos como frutos de uma mesma e infame ramagem da qual pendiam Sarney, ACM, Maluf, Quércia, Barbalho e tantos os outros que agora enfeitam os galhos do governo Lula. Meu objetivo é mostrar que a política externa desse governo incorpora, no contexto internacional, os mesmos hormônios de crescimento que levaram seu partido a romper a fita na maratona presidencial. Segundo tal política, há uma inata maldade nos poderosos da terra e os males da humanidade se resolvem mediante o enunciado e os subseqüentes aplausos a um discurso benevolente. O mesmo chefe de Estado e de governo que se enrosca cotidianamente com as dificuldades nacionais, que perdoa dívidas de outros países e sufoca em cobranças os estados da federação, fala como quem tem solução simples e voluntarista para as angústias essenciais da humanidade e da civilização. Li, reli e tresli o discurso de Lula na ONU. E, em meio aos aplausos que acolheram aquela mal costurada peça, fiquei como o saudoso Roberto Campos enquanto Ulisses Guimarães louvava a Constituição Cidadã no momento de sua promulgação. Sentado, quieto, pensando. Lá pelas tantas, Lula citou Theodore Roosevelt: “O que mais se necessita hoje é de audácia da experimentação”. E me lembrei de outra frase do estadista norte-americano: “…a pessoa que realmente conta no mundo é aquela que faz. Não o mero crítico, mas o que realmente faz o trabalho, ainda que imperfeito. Não o que apenas fala e escreve sobre o que precisa ser feito”.