Percival Puggina


Pelo ralo constitucional

Acompanhei com enorme interesse cívico e democrático todo o processo constituinte de 1988. Indignei-me com a decisão (José Sarney vai levar para o ajuste de contas da eternidade esse delito) de haver convocado uma constituinte não exclusiva mas congressual. Alarmei-me com o feitio demagógico, populista e retrógrado de muitos "avanços" aprovados pelo plenário. À medida em que o texto se ampliava em número de artigos, temi pelo engessamento que iria produzir no futuro do país e pela necessidade de emendá-la a todo instante que por certo adviria. Comemorei o surgimento do "centrão", que no limite do possível, conseguiu esmerilhar muitos absurdos que a esquerda pretendeu incrustar no granito constitucional (os que ficaram ainda hoje nos causam cefaléia). Torci pelo parlamentarismo e sofri pela adoção do presidencialismo com cinco anos para Sarney. A imensa maioria de nossos constituintes votava com um olho no texto e o outro nas urnas do próximo pleito, distribuindo favores, privilégios e direitos para uns e enviando a impagável conta para a ingênua e complacente sociedade. Passadas quase duas décadas da promulgação da "constituição cidadã" de Ulysses Guimarães, o Brasil ocupa a 72ª posição entre os 127 países cuja Educação foi avaliada pela Unesco. E a qualidade desse ensino é tão precária que o IBGE estima haver, entre nós, 30 milhões de analfabetos funcionais (pessoas com menos de quatro anos de estudos, incapazes de lidar com palavras escritas em um grau razoável de compreensão do que lêem). Enfrentamos problemas gigantescos com soluções ínfimas e onerosas. Por trás desse paradoxo estão, entre outros, os preconceitos constitucionais contra o ensino particular e a inabalável fé que ainda hoje devotamos ao Estado quando se trata de resolver problemas da sociedade. Fé que resiste a toda evidência em contrário. Cremos, por exemplo, na escola pública, gratuita e de qualidade, mesmo que ela resulte cara e péssima, e que a qualidade seja atributo bem mais visível nas instituições privadas de ensino. Cremos que o interesse público se confunde com tarefa estatal e chegamos ao absurdo de promover concurso para faxineiros e merendeiros das redes escolares públicas. E pagamos a conta de cada limpeza e cada lanche pelo resto das nossas vidas. Promovemos direta e indiretamente o surgimento de mastodontes corporativos com imenso poder político. Alguém já ouviu falar de algum professor da rede pública, ou servidor público estável, demitido por incompetência? Como obter qualidade em situação de estabilidade quase absoluta no posto de trabalho? Enquanto não superarmos esse tema, com eliminação da gratuidade irrestrita e com a compra de vagas pelo Estado na rede privada, a qualidade de que tanto precisamos fluirá pelo ralo constitucional federal e continuaremos quase no rodapé das estatísticas mundiais.

O conservadorismo de João Paulo II

Entrei na Internet e busquei por referências que associassem João Paulo II ao conceito conservador. Encontrei 939. É muito? Pois também busquei em inglês e encontrei 439 mil! Estatisticamente está decidido: João Paulo foi um papa considerado conservador por pessoas que atribuem viés pejorativo a essa categoria. Pesam-lhe, em tais críticas, sua posição contrária aos totalitarismos do século XX, como se ele, vítima dos três, devesse ser rigoroso com o nazismo e o fascismo, mas tolerante com o comunismo, pela simples razão de que este, o pior de todos, sempre simulou praticar suas perversidades em nome de elevados valores universais. Não, o Papa conheceu os totalitarismos por dentro. Acusam-no, também, de haver restringido a propagação daquilo que chamou “uma certa Teologia da Libertação”. Contudo, pode ser captada pelos mais desatentos neurônios a aliança negra dessa teologia com o marxismo. O seu guru Leonardo Boff a declara desinteressada de que haja cristãos, mas cidadãos lutando pelas causas que lhe agradam, e o conselheiro de Fidel e Lula, Frei Betto, não quer teologia no marxismo mas marxismo na teologia. Não duvido de que com tais idéias "progressistas" ainda esperassem para suas nobres finalidades louvores papais e púrpuras cardinalícias. Também causam desconforto as posições de João Paulo II contrárias ao aborto, à união homossexual, à engenharia genética com uso de embriões humanos, bem como sua defesa do matrimônio, da fidelidade conjugal e de outros valores essenciais à vida e à estabilidade dos núcleos sociais. Ora, estamos acostumados com um tipo de liderança que molha o dedo na boca, espeta-o no ar, percebe de qual lado sobram os ventos da opinião pública e alinham-se nessa direção. João Paulo II, no entanto, não foi um papa assim. Ele exerceu com fidelidade e determinação sua função de condutor da Igreja, em conformidade com a sã doutrina. Avaliá-lo segundo os critérios com que medimos Lula, Kirchner, Chávez, Zapatero e assemelhados é imensa impropriedade. E não hesito em afirmar que, em relação a todos, ele foi, na doutrina e na ação, muito mais eficaz na defesa dos pobres, na afirmação do primado do trabalho sobre o Capital, no zelo pelo ambiente natural e na denúncia das injustiças de todos os modelos e sistemas. Quem duvida que leia suas três encíclicas sociais. Cuida-se, agora, de substituir um homem extraordinário, sinal de contradição, conservador zeloso e fiel do que lhe coube resguardar. Progressista na direção do Bem. A exemplo de Cristo, fez tudo por amor. E amou a humanidade inteira de tal modo que todos nos sentimos pessoalmente amados por ele.

Católico e caótico

Confesso que em fins dos anos oitenta compareci a eventos e reuniões programados por organizações de base da Igreja Católica que se articulam junto aos movimentos sociais. Ia com o espírito aberto, mesmo que recebido com suspeição e sabendo que não encontraria afinidades ideológicas. Após algum tempo, desisti. Tais encontros se davam em locais religiosos e ocasionalmente era providenciada uma missa (depois eu conto essa parte). Mas o conteúdo dos debates jamais tinha algo de religioso. Era ideológico, partidário e, quando se aproximava uma eleição presidencial, o Lula podia não estar na agenda, mas compunha a pauta de quase todos os pequenos ou grandes grupos.As celebrações eucarísticas, em eventos desse tipo, têm uma característica peculiar. Para quem não sabe, profere-se, em todas as missas, um ato penitencial, no qual os participantes pedem perdão por seus pecados. Nas missas da esquerda, essas faltas nunca são pessoais. São sempre faltas alheias, do neoliberalismo, da globalização, da imprensa, dos proprietários rurais, da empresa e da propriedade privadas. Participante de movimento social não peca. É santo por opção ideológica. O valor dessa filiação é mais do que sacramental e se impõe ao próprio batismo.O cardeal D. Eusébio Scheid declarou recentemente que Lula não é católico, mas caótico, e não se entende muito bem com o Espírito Santo. Foi uma frase dura, inconveniente, a refletir profunda contrariedade com a conduta do presidente. Se a contrariedade tem sólidos motivos, a afirmação é contrária à razão. Tivesse dito que Lula é um católico caótico, estaria absolutamente certo, porque o presidente é, de fato, as duas coisas. Estou convencido de que se fosse fazer um check list de suas adesões ao conteúdo do Credo dos Apóstolos, o presidente marcaria a lista inteira. Seu problema é, como em tudo mais, a superficialidade da formação religiosa.O zeloso e piedoso frei que ele escolheu para ter perto de si cuidou apenas de ideologizá-lo e não de evangelizá-lo. Como conseqüência, e apenas para ficar com fatos bem recentes, o Brasil tem a legislação sobre uso de embriões humanos mais permissiva entre os países católicos e talvez seja a única nação organizada em regime constitucional que delibera sobre aborto, por modo autocrático, mediante norma técnica do Ministério da Saúde.Apesar disso – e de muito mais – a consciência do presidente é imaculada e virginal. Como pude observar nos meus contatos com a base esquerdista da Igreja, Lula acolheu um sermão magnânimo, abraçou uma ideologia santificadora e pode se proclamar, como fez em Roma após a missa em memória do Papa João Paulo II, "um homem sem pecados". Houvesse comparecido à cena da adúltera, quando Jesus desafiou os circunstantes a que a primeira pedra fosse jogada por aquele que estivesse sem pecado, Lula, o impecável, teria fulminado a mulher com um tijolaço. Vem aí o primeiro santo brasileiro nato?

As sandálias estão vazias

Estão vazias as sandálias do pescador. Cessaram de caminhar os pés que durante mais de um quarto de século as calçaram em longas jornadas pelo mundo. Os pés sobre os quais andou a Igreja neste período da História que nos cumpre testemunhar e construir subiram ao leito pela última vez. Por que me abisma a estranha sensação de fim de um tempo? Por que a impressão de que vamos dormir empobrecidos nesta noite? Por que não me sai dos olhos a imagem daquelas duas janelas iluminadas, sinalizando a agonia de Karol Wojtyla? O que fez desse polonês o maior homem de seu tempo, numa era tão marcada pela mudança, pela transitoriedade, pela volatilidade e pela superficialidade? Eu sei por que esse homem foi tão importante. Dois milênios atrás, o Mestre a quem ele serviu manteve com o pescador Pedro, filho de Jonas, um diálogo desafiador, perguntando-lhe por três vezes, se ele O amava mais do que os outros. E a cada resposta afirmativa, o Mestre determinava: "Apascenta minhas ovelhas". João Paulo II foi, então, esse modelo de amor a Cristo e modelo de pastor que.suportou, ao limite da resistência dos seus ombros cada vez mais arqueados, a missão de ser a pedra sobre a qual se sustentou a Igreja. Mas não bastaria isso para que a humanidade empobrecesse tanto nesta noite. Mesmo tão excelsas virtudes não seriam suficientes para que bilhões de pessoas experimentassem profunda sensação de perda. João Paulo II foi, também – eis a razão – alguém que amou a humanidade de modo tão sincero, paternal e efetivo, que todos nos sentimos ocupando um lugarzinho próprio nesse grande amor. Pescador de homens, pastor de ovelhas perdidas, peregrino de todos os povos, com todos quis estar e gostava de estar. Para tal convívio, superava a dor, a doença, a dificuldade da palavra, o tremor corporal, a fraqueza e o peso dos anos. Bendito seja Deus por tão dileto Papa. Muitas vezes nos últimos dias ele foi apontado como um conservador por aqueles que gostariam de vê-lo não como guia do rebanho na Verdade e no Bem, mas como ovelha da opinião pública e discípulo das tendências correntes. Vem daí minha sensação de fim de um tempo. Vem daí este receio de abismo e a necessidade de rezar para que o Espírito Santo ilumine o futuro Conclave e as sandálias do pescador retomem o andar da Igreja na sua santificadora missão através da História. Descansa em paz, João de Deus.

Brasília é uma festa!

Estamos bem abastecidos de presidentes. O presidente da República, coisa que não se improvisa, adora um improviso, troca de boné como troca de idéia e só abre a boca quando não tem certeza. O presidente da Câmara dos Deputados deu uma no prego e agora só acerta na ferradura. Em sua mais recente manobra exigiu que a pasta das Comunicações fosse entregue a um mero coroinha do baixo clero. Resultado: a missa da reforma ministerial terminou antes do Ofertório. Cheguei a imaginar que o PP, ainda que pela porta dos fundos, entraria, enfim, para o catecumenato oposicionista, mas me enganei. O Severino estava brincando: "Na oposição, eu? Eu adoro governo!" O presidente do Senado foi ministro de FHC e pulou para a base do governo Lula. É outro peixe que só sobrevive no aquário do Planalto. O presidente do Supremo Tribunal Federal – professor, deputado federal, ministro da Justiça no governo anterior – ainda não decidiu se agora é magistrado, político ou candidato a vice-presidente da República. Foi da base de FHC e hoje lidera a bancada lulista no Supremo. Brasília é uma festa. Sim, nós temos oposição. Seu principal nome é Fernando Henrique Cardoso. Como vem fazendo ao longo de toda uma década, só presta atenção ao Lula e ao PT. Aliás, estou convencido de que a grande vantagem de Lula sobre FHC está no fato de que este, ao longo dos oito anos em que governou o país, levou a sério as tolices que o PT dizia e fazia. Tivesse agido como Lula, que não está nem aí para o PT, teria sido muito mais bem sucedido. Ainda agora, se olhasse menos para Lula e um pouco mais à sua volta, perceberia que está quase tão só quanto náufrago de cartoon porque os seus o abandonaram para desembarcar no governo, que é um bom lugar de estar. Tão bom que ele próprio quer voltar; e se voltar será para se reencontrar com os mesmos. Afinal, Brasília é uma festa.Pouca gente sabe, mas foi submetida à complacência do Congresso uma nova CPMF (Contribuição Petista para Marta Favre). É a MP 237 que vai salvar a ex-prefeita paulistana dos rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal por assinar contratos irregulares com o Programa Reluz. Brasília não é uma festa?Olhe as pesquisas, leitor. Verá que a maior parte da opinião pública também está com o governo. Que faz você na oposição? Junte-se à base e entre na gandaia. Pague a conta, claro, mas divirta-se também, puxa vida!

Desarmamento: estatísticas e direito natural

A intenção de reduzir o índice de homicídios é absolutamente louvável e não imagino que exista um só cidadão de bem que a ela se oponha. Torna-se perfeitamente possível, então, sugerir um conjunto de medidas voltadas para esse nobre objetivo, entre as quais avultariam operações policiais e militares para desarmar os bandidos e desmontar as estruturas pelas quais flui o tráfico de armas. Esses dois caminhos, no entanto, parecem abandonados. O que se persegue é o desarmamento civil ao mesmo tempo em que o noticiário torna evidente que não cessa o fluxo de armas sequer para o interior dos presídios. A potência de fogo do crime organizado aumenta sem cessar e até arsenais militares são assaltados pela bandidagem. Como não se enfrenta com rigor o crime organizado e os estados paralelos em franco processo de constituição no país, nem se amplia o controle em portos, aeroportos e fronteiras e assim por diante, opta-se pela via do desarmamento civil. Os defensores da tese asseguram, sem mostrar estatísticas que o comprovem nas experiências de outros povos, que isso reduz o número de homicídios. Seus opositores sustentam o contrário e apresentam números relativos ao que ocorreu em países que adotaram essa medida. Não tenho como conferir a correção de quaisquer dessas contraditórias informações, embora tenda a crer que o desarmamento civil seja inócuo para o fim desejado. Contudo, isso é irrelevante. Tanto é irrelevante que eu não mudaria minha convicção contrária à lei de desarmamento ainda que me exibissem certidões de instituições oficiais estrangeiras, traduzidas por tradutor juramentado, com todos os selos de ofício, comprovando que o desarmamento das pessoas de bem reduz o índice de homicídios. Minhas razões são superiores e se prendem ao Direito Natural. Nenhuma estatística e nenhuma lei tem força moral para tomar do cidadão o direito à legítima defesa de sua vida e da vida de sua família. O dever do Estado em relação a isso é subsidiário. A prioridade nessa defesa pertence à própria pessoa por motivos mais do que evidentes. Já a obrigação do Estado se aplica genericamente sobre todos, se realiza de modo estrutural e, mesmo então, bem conhecemos suas grandes limitações.O desarmamento civil, portanto, agride frontalmente o Direito Natural. Expropria o cidadão de sua defesa sem nada lhe dar em troca, exceto, talvez, alguma estatística de confiabilidade duvidosa e sem conseqüência na sua vida real e nas situações de risco com que se defronta. Por fim, se não tenho convicção quanto às estatísticas (irrelevantes, no caso, como demonstrei), tenho segurança em afirmar que estados totalitários desarmam seus cidadãos.

Aprendendo com a Bolívia

Que o presidencialismo é incompetente para resolver conflitos políticos em sociedades marcadas por divergências internas é coisa mais do que provada. Sua única possibilidade de sucesso ocorre onde há amplo consenso social sobre temas essenciais e as circunstâncias históricas tenham produzido bipartidarismo. Fora disso, é fonte de instabilidade.O que a mim espanta é que os analistas políticos da América Latina jamais tenham estabelecido relação entre o atraso das nações do continente e as instituições políticas que homogeneamente adotaram. Elas atravessam os séculos procurando o príncipe encantado que conduzirá seus súditos à prosperidade. Enquanto ele não aparece vão elegendo caudilhos, demagogos e líderes populistas (grandes privilegiados pelo sistema) para, logo após, se exasperarem com a incompetência, a corrupção e a irresponsabilidade que os caracteriza. Incapazes de perceber onde está o erro, transferem as culpas a algum inimigo externo, ele sim, representante de seus tormentos e causador de suas desgraças.Jamais, ao longo das décadas, qualquer povo deste continente produziu seu “mea culpa”. Criticam os Estados Unidos em tudo e os responsabilizam por quase tudo. Vociferam contra os resultados dos pleitos norte-americanos tanto quanto se arrependem dos respectivos resultados nacionais. Mas copiaram (muito mal copiado, aliás) o modelo político ianque. Como conseqüência, são incapazes de distinguir chefia de governo de chefia de Estado, confundem democracia com eleição direta do príncipe encantado, se exasperam com a corrupção moral que sistematicamente contamina as práticas políticas e não percebem que o sistema adotado é o agente determinante dessa miséria moral.Nos últimos vinte anos, após o fim da Guerra Fria e extinto o ciclo dos governos militares, apenas o Chile e o Uruguai não experimentaram gravíssimas crises institucionais. Vale dizer, mesmo sob normalidade constitucional, o continente não encontra estabilidade política e convive com periódicos colapsos da governabilidade. A Bolívia é o mais recente exemplo. O cocaleiro Evo Morales, demagogo local, vem paralisando o país, causou a renúncia do presidente eleito e quase conseguiu derrubar seu substituto, Carlos Mesa. Este, aliás, cometeu enorme equívoco que a médio prazo vai incendiar a nação: tendo assumido após os conflitos de outubro de 2003, prometeu solenemente que não usaria de força contra as agitações locais. Ora, se há um monopólio do qual o Estado não pode abrir mão é o monopólio da força porque, se o fizer, estará abdicando de defender a sociedade. O cocaleiro Evo Morales, amigo de Chávez, Lula, Fidel e Kadafi, continuará, portanto, infernizando a Bolívia. Alguém acha que isso vai acabar bem?

Reféns!

A solidariedade e o zelo pelo bem comum são indispensáveis a uma adequada organização da vida social. Pela solidariedade as pessoas se comprometem, sólida e reciprocamente, umas com as outras, reconhecendo que o bem de cada uma depende do bem da outra (a questão ecológica exemplifica essa realidade no âmbito planetário). O bem comum estabelece a finalidade das ações políticas e as orienta para a superação dos egoísmos individuais e coletivos (onde a política fracassa é porque os egoísmos se impuseram). De fato, as coisas começam a se complicar e surgem desordens de toda espécie quando as instituições não conseguem controlar os grupos que, tendo em vista apenas seus próprios interesses, agem, dentro da sociedade, em oposição ao bem comum. Isso ocorre no circuito vulgar da delinqüência e do crime organizado ou em várias e sofisticadíssimas formas de burlar e prejudicar aos demais para benefício pessoal ou grupal. Em qualquer desses casos, todos os outros passamos a ser tratados como se fôssemos (e a nos sentir como sendo) reféns de tais grupos e de seus interesses. Não sou dos que absolvem ou atenuam a culpabilidade dos criminosos pela suposta condição de “produtos ingênuos” de uma estrutura que os excluiu do círculo venturoso onde se preza o bem e se rejeita o mal. Seqüestradores, assaltantes, assassinos ou estupradores detestam ser seqüestrados, assaltados, assassinados ou estuprados. Mesmo as consciências mais deformadas compreendem o desconforto de suas vítimas. Pela mesma razão discordo dos individualistas que sustentam a existência de um “direito” de não ser solidário: todos sabem pedir socorro.  Portanto, o rigor que se exige das autoridades em relação aos criminosos deveria ser cobrado, também, para inibir a ação de quantos, por posição privilegiada na vida social, burlam os mecanismos de mercado, promovem greves que contrariam profundamente o bem comum, manipulam a opinião pública (e por essa via controlam a política), lançam sobre os ombros da sociedade privilégios auto-concedidos, organizam-se sob a alcunha de movimentos sociais para violar princípios constitucionais e praticar atos criminosos. Nenhum desses brutamontes do capital, do sindicalismo, do corporativismo, da comunicação e da política apreciaria ser vítima daquilo que faz. E todos somos tão seqüestrados por tais grupos como se estivéssemos sob a mira de suas armas, negociados por dinheiro.

Com vírgula, ou sem vírgula?

Recomendo enfaticamente a leitura do livro Stalin, obra escrita em dois volumes por Dmitri Volkogovich, general do exército russo sob cuja responsabilidade esteve, durante muitos dos anos que antecederam à queda do regime comunista, a guarda dos arquivos militares soviéticos. O vulto das informações históricas é imenso e sua leitura estabelece analogias que podem ser facilmente percebidas em relação a vários aspectos da nossa atualidade. Obviamente não é a mesma coisa, mas a moralidade que conduz muitas das ações em curso resulta bem semelhante. Em resumo, posso afirmar, sem medo de incorrer em erro: há uma estreita relação de causa e efeito entre todo o totalitarismo e o apego às versões sobre os fatos, o desrespeito à honra alheia e a mentira.Durante anos venho participando de sucessivos e instigantes debates em rádio e TV com pessoas em relação às quais mantenho antagonismo político e no curso dessas interlocuções tenho notado e anotado sucessivas e repetitivas evidências do que afirmo. São raros os quadros políticos com os quais se pode manter um contraditório intelectualmente honesto, com base em fatos e idéias. Por isso, depois de ter presenciado tantas tentativas de desqualificação moral, depois de ter tido que desmontar mentiras expostas como argumentos e de ter que refutar versões apresentadas como fatos, não posso deixar de rir perante a enrascada em que se meteu o presidente Lula. Num discurso proferido em evento da Petrobrás no Espírito Santo, acabou sendo vitimado pela arapuca que ele e muitos de seus companheiros gostam de preparar para os outros. Ao dizer que recebera, há dois anos, informações sobre corrupção no governo de seu antecessor, ele estava fazendo uso da velha estratégia stalinista, mas ao relatar sua ordem para que o assunto se encerrasse naquela conversa, enfiou-se no próprio alçapão. Se fez o que disse, é réu confesso de crime de acobertamento. Se o que disse não aconteceu é réu de crime de difamação.No dia seguinte, diante da paquidérmica confusão que causou na cristaleira das relações políticas nacionais, participando de um evento do MEC, referiu-se à necessidade de não permitir que uma "notícia atravessada" (culpa da imprensa?) ou um "discurso atravessado" (culpa de quem, mesmo?), jogasse por terra o sonho da reforma universitária.Como lhe parece melhor, com vírgula ou sem vírgula? "Presidente, não se improvisa" ou "Presidente não se improvisa"?

Tal como no samba

"A essa altura o cabaré em polvorosa já tinha um cheiro de cadáver se espalhando"

(Miguel Gustavo e Moreira da Silva, em "O rei do gatilho")

Nesse clássico da música brasileira é contada a história de Kid Morengueira, herói de Wichita, em seu duelo com o bandido que infelicitava a vida da amiga Mary. Canta Morengueira que foram dados tantos tiros no saloon que até hoje ninguém sabe quem morreu: "Eu garanto que foi ele; ele garante que fui eu".Pois na recente eleição da Mesa da Câmara de Deputados aconteceu coisa parecida. Armou-se confusão tão grande que até hoje ninguém sabe quem perdeu. Luiz Eduardo Greenhalgh garante que foi o governo. O governo garante que foi o PT. E o PT garante que foi Greenhalgh. Fechou-se o círculo. Vamos acabar convencidos de que ninguém perdeu, de que não há cheiro de cadáver se espalhando e de que nós é que entendemos tudo errado. Afinal, para quem foi o telegrama da Mary? Eu acho que foi para o Severino. Leva mais jeito. Greenhalgh tem pose e sobrenome de arcebispo primaz da Igreja Anglicana, do tipo que só estende a mão se for para oferecer o anel ao beijo dos fiéis. Virgílio Guimarães era a tentativa petista de levar dois candidatos do partido ao segundo turno. No fundo, produto da mesma presunção que impôs o candidato oficial, imaginando que o saloon da Câmara seja povoado por um bando de tolos incapazes de perceber a manobra.Contados os cartuchos vazios, as vozes petistas passaram a denunciar uma coligação da direita com o corporativismo. Como se o PT não fosse manifestação desse mesmo fenômeno.  Não instalou ele o governo com 35 ministérios para atender as demandas da base por cargos? Não criou mais de três mil postos de confiança com o mesmo intuito? Não usa nem abusa de mordomias e nepotismos? A despeito disso, o governo Lula se exibe como a mais alta expressão do desapego por qualquer vantagem material e, seus candidatos, como representantes dos interesses dos pobres e oprimidos. Enquanto isso, o tosco Severino, pernambucano dos grotões, que passa a disputar com o conterrâneo presidente o torneio das agressões ao vernáculo, tornou-se, para efeitos externos, porta-voz da direita. Querem me enlouquecer. Alto clero alinhado com a esquerda. Baixo clero perfilado com a direita. Nenhum jornalista capaz de farejar uma rebelião que somou 300 votos. Só no Brasil, mesmo. E o Lula, perguntarão os leitores? Ora, deixem-no fora disso. Ele garante que o médico o aconselhou a não meter em encrenca o recém operado nariz. Tal como no samba, isso "tem um final, mas é impróprio e eu não digo".