Percival Puggina


O homem forte do governo Lula

Afinal, quem é o homem forte do governo Lula? Tenho certeza de que não passa pela cabeça do leitor que seja o presidente. Não dá para ser. Já ficou evidente que ele é um homem de escassas convicções e que uma de suas principais capacidades é a de reproduzir o discurso indicado pelos marqueteiros de uma forma que excita as multidões tanto quanto arrepia as concordâncias verbais e nominais. O antagonismo entre o que lhe mandavam dizer na oposição e o que lhe ensinam no governo não lhe causa qualquer mal-estar porque ele sequer chega a percebê-lo. Se dentro de dois anos desembarcar do poder inverterão seu discurso e ele fará exatamente isso. Não, uma pessoa assim não pode ser o homem forte do próprio governo. José Dirceu? Tadinho do Zé. Se fosse ele, o Aldo Rebello não teria assumido a pasta da coordenação política. Nos primeiros meses do governo Dirceu foi, de fato, o homem poderoso por trás do presidente, mas o episódio Waldomiro solapou suas bases e ele apenas resiste como uma sombra de si mesmo, um baixo-relevo da estátua que poderia ter sido. "Nesse caso só resta o Palocci", ponderará o leitor. Mas se o Palocci, na condição de titular da chave do cofre, fosse o homem forte do governo Lula, o verdadeiro homem forte não faria o que faz com o conteúdo do cofre pelo qual ele deve zelar. Não, o Palocci não é o cara. Quem é, então? Pasmem: o sujeito poderoso é um personagem tão ladino que ninguém sequer sabe seu nome. Herdeiro das mais nobres tradições do thriller universal – senhoras e senhores – o homem forte do governo Lula é o mordomo do Palácio, seja lá quem for e seja lá qual for o título oficial da função que exerce. Ele é o cara. Lula jamais leu o Príncipe, mas o mordomo leu Maquiavel e intuiu como deveria ser o mordomo de um príncipe que se preze. Do avião aos roupões de algodão egípcio, passando pelas intermináveis listas de aquisições que periodicamente fazem a diversão dos leitores nas colunas de Cláudio Humberto, ali está expressão de seu poder. Do colorido petista dos jardins às provisões da colônia de férias dos amiguinhos do presidencial rebento, tudo passa pela sua supervisão. Agora mesmo acaba de comprar 12 carros novos de 72 mil reais cada, duas ambulâncias com UTI-móvel, três caminhões, dois microônibus, dez automóveis sedan brancos, outros oito de cores diversas e um lote de novas motocicletas. Palocci paga e não bufa. Não, não diga que o mordomo é apenas o culpado porque isto não é filme algum. Isto é exercício do poder no Brasil real.

Bons tempos, aqueles

Houve um tempo, que já vai longe, em que os partidos valorizavam a qualificação de seus quadros e parcela significativa dos eleitores levava isso em conta ao eleger representantes. Supunham, partidos e eleitores, que a formação intelectual, a visão de história e a dedicação à leitura e ao estudo de boas obras produzissem não apenas competência para o debate inerente à atividade política mas, principalmente, capacidade de discernir entre certo e errado e entre justo e injusto que compõe o universo das decisões significativas à vida social. Em outras e mais simples palavras: na política, tanto quanto em qualquer outra atividade, entendiam eles, quem sabe mais erra menos. Gradativamente isso foi deixando de ter significado e reflexo na vida pública. Acompanhando o declínio da formação cultural da sociedade embrutecida pela comunicação de massa, graças à qual o pensar foi substituído pelo assistir, o padrão intelectual da política brasileira foi declinando para o nível de mesa de bar. Assisto, logo existo, aliás, é o título de interessante entrevista do psicólogo Carlos Perktold a Maurício Dias na edição de junho passado da revista Carta Capital. Parcela significativa de nossos homens públicos não se formam lendo bons livros. Apenas se informam em jornais e assistindo TV. Atuam com um olho na imprensa, o outro na urna e absoluta cegueira em relação aos problemas nacionais e suas soluções. Há poucos dias reli A revolução julgada, de Raul Pilla, sob aquele deleite que nos concede o contato com os verdadeiramente sábios. O livro é composto por um conjunto de discursos sobre a crise institucional brasileira e resultou inevitável a comparação com a cena parlamentar rio-grandense neste início de milênio. Quantos Raul Pilla produzimos nos últimos 50 anos? E note o leitor que no mesmo parlamento gaúcho em que ele foi constituinte, por exemplo, estavam expoentes como Adroaldo Mesquita da Costa, Décio Martins Costa, Edgar Luiz Schneider, Maurício Cardoso, Loureiro da Silva, Moysés Vellinho, Fay de Azevedo, Cilon Rosa, Paim Filho, Favorino Mércio e tantos outros. Nas primeiras páginas de A revolução julgada, o bravo guerreiro do parlamentarismo, referindo-se aos adversários desse sistema, situa em primeiro plano os que recusariam a democracia se pudessem, e, assim sendo, aferram-se ao menos democrático dos sistemas. A seguir, alinha os que a apreciam mas a temem, e que, por isso, aderem à sua forma menos perfeita, menos democrática portanto. E, por fim, aponta os democratas prudentes, que alegam não estarmos preparados para o parlamentarismo, como se sucessivas décadas de instabilidades e fracassos nos tivessem preparado para o presidencialismo e seus insucessos. Haverá quem diga que são questões menores, destituídas de importância em tempos tão mais graves e confusos, como se a confusão que observam não tivesse origem na falta de discernimento dos agentes políticos. Às exceções que conheço, o meu louvor.

Rompendo ou corrompendo

Embora o Brasil tenha decidido no plebiscito de 1993 que sistemas de governo são coisas fúteis e que o presidencialismo deve continuar sendo nosso modelo, o fato é que esse sistema, associado ao pluripartidarismo, ou rompe periodicamente a estabilidade ou corrompe constantemente as instituições. No presidencialismo não é a maioria que faz o governo, mas é o governo que precisa fazer a maioria, de modo que não basta ao governante vencer o pleito que lhe concede o mandato. Para manter a governabilidade ele precisa vencer os sucessivos pleitos que se travam nas votações do Congresso. E como lá existem 14 minorias e nenhuma maioria, cabe-lhe arregimentar base de apoio, num trabalho estafante e moralmente desgastante. Lula, ao tempo em que comandava a pichação oposicionista e colava etiquetas nos adversários, contabilizava a existência de 300 picaretas operando na pedreira do governo Sarney. Hoje, todo esse ferramental está estocado no almoxarifado de Sua Excelência e Sarney é o braço direito do governo no Senado. Vejamos o mesmo fenômeno desde a perspectiva das legendas e do funcionamento das nossas instituições. A cada pleito, os partidos investigam a opinião pública e os candidatos formulam seus discursos em concordância com o que o povo deseja ouvir. Para quem gosta de analogias, serve esta: os partidos captam os ventos da opinião pública e ajeitam suas velas para ganharem velocidade em direção ao poder. Eis a razão pela qual todos os candidatos presidenciais de 2002 falavam mal uns dos outros, mas diziam exatamente a mesma coisa ao povo. Encerrado o pleito direto, começa o pleito parlamentar. Em tese, apenas um partido fica totalmente impossibilitado de aderir ao governo: aquele que perdeu a eleição no segundo turno. Os demais cravam o cotovelo no balcão e passam a negociar, entre cochichos, com os novos donos do poder. Que se lixem as dificuldades da gestão, o que interessa, em tais conluios, são as facilidades em questão. Eis aí, leitores, o que estamos cansados de ver. Apenas Fernando Collor, porque era um doidivanas e não aceitou a regra do jogo, subiu a rampa num dia e escorregou, porta afora, pouco depois, sobre a maionese de suas trapalhadas. A estratégia de Lula, contudo, se distingue da de seus antecessores pelo fato de que suas negociações não se fazem com os partidos, mas diretamente com os parlamentares, espalhando uma discórdia que lhe servirá tanto agora quanto em 2006. Do próprio PSDB foram surrupiados 22 congressistas para outras legendas e para a base do governo. Rachou-se o PMDB, o PP, o PPS e, em parte, o PFL, com a sedução de parlamentares que ajustaram suas velas para atracarem perto do Tesouro Nacional. Esse é o desserviço principal que Lula e seu partido estão prestando à política brasileira. Em vez de construírem a necessária reforma política, eles estão destruindo os partidos numa cizânia que lhes convém. Mas como afirmou com sabedoria um jovem amigo: se o grupo político-ideológico que hoje nos governa quase conseguiu separar a Igreja do Brasil da Igreja de Roma, com muito maior facilidade vai acabar com os partidos políticos nacionais.

Esses incríveis Beto e Boff

Sempre me pareceram muito evidentes os equívocos doutrinários da Teologia da Libertação e suas graves conseqüências sobre a espiritualidade do clero, a conduta dos leigos e a ação da Igreja. Escrevi sobre isso várias vezes e desabou sobre mim a ira de seus adeptos. Eles começaram a surgir nos anos 60, com o movimento chamado Cristianos por el Socialismo (CpS), cujos sucessivos encontros internacionais rejeitavam a contribuição cristã para o nascimento do "homem novo" e aclamavam o socialismo como "única opção aceitável" para esse fim (1º Encontro Latino-Americano de Santiago, 1972). Nem em seus melhores sonhos Gramsci supôs que receberia contribuição tão eficiente no uso da linguagem quanto a que lhe prestaram os CpS e a subseqüente Teologia da Libertação a partir do momento em que transformaram os pobres e humildes do Evangelho em "classe social" e a evangelização em "luta de classes". Pablo Richards, Jon Sobrino, Gustavo Gutierrez, nossos Leonardo Boff e Frei Betto, e seus pares, jamais ocultaram os objetivos em direção aos quais se moviam: a construção de uma sociedade socialista, em base marxista (estrategicamente não usam o vocábulo comunista). Em tal sociedade, não havendo classes, surgiria o homem novo, desapareceria o pecado original e viveríamos felizes para sempre sob um regime que, em definitivo, teria produzido aquilo que a Igreja não conseguiu. A situação torna-se clara: se a Igreja é formada pelos "pobres, oprimidos, conscientizados, lutando por sua libertação", antes mesmo de ser produzida essa libertação a Igreja já teria se evidenciado inútil, pois a realização de seus fins somente poderia ocorrer mediante ferramentas que lhe eram estranhas até o surgimento do marxismo. A Igreja teria sido, então, durante 20 séculos, uma superestrutura (instrumento de dominação, na linguagem marxista) que precisava ser reformulada para uso na construção da hegemonia preceituada por Gramsci. De "superestrutura", viraria "aparelho". E em muitos casos virou mesmo. Parcela significativa do clero, desde então, não move uma palha nem se sensibiliza se alguém ataca Jesus Cristo, o Papa, a Igreja, a Virgem Maria, mas ai de quem escreva uma palavra contra Betto e Boff, de cuja produção evangelizadora recolho duas frases resgatadas por Adolpho João de Paula Couto em recentíssimo artigo. De Betto: “O que propomos não é teologia dentro do marxismo, mas marxismo dentro da teologia” (JB, 06/04/1980). De Boff: “É uma teologia que faz sentido, que ajuda a criar uma visão das coisas, não necessariamente cristã, porque nós não estamos interessados em que haja mais cristãos, estamos interessados em que haja mais cidadãos participativos, sensíveis, justos, lutadores pela libertação dos seres humanos, e o cristianismo como uma fonte geradora de pessoas assim” (entrevista à Radiobras, 01/12/2003).  E seus fãs continuarão irados contra mim por acusar seus gurus de serem e fazerem exatamente aquilo que dizem e escrevem.

Motivo e razão

Como era de se esperar, o governo federal pretende revisar a legislação incidente sobre a prática do aborto com o objetivo de ampliar as possibilidades de sua realização. Trata-se de mais um passo para baixo em escorregadia ladeira. Após anos de discussão do tema, dezenas de debates, dezenas de artigos, centenas de cartas recebidas e respondidas, firmei sobre ele uma sólida convicção: os defensores do aborto não têm razão nem razões. Eles têm apenas motivos, e motivos não são razões. Muitos motivos, aliás, são apoiados em flagrantes mentiras. Pergunte, por exemplo, a qualquer pessoa, quantas mulheres morrem vítima de aborto no Brasil e a resposta será uníssona: 400 mil por ano. Um número tão assustador quanto falso. De tanto ouvi-lo, resolvi fazer as contas. O Brasil tem 90 milhões de mulheres. A distribuição da população feminina por faixa etária (índices do censo de 2000), mostra que 70 milhões delas têm idade entre 10 e 49 anos – limites tecnicamente extremos, inferior e superior, para uma possível gravidez. Supondo, por falta de dados, que 80% desse total seja sexualmente ativo e 90% fértil, teríamos, em números redondos, 50 milhões de mulheres em condições de engravidar. Já a taxa de mortalidade geral é estimada, no Brasil, em sete óbitos por mil habitantes, por ano. Ou seja, morrem anualmente 630 mil mulheres. Portanto, segundo os números dos defensores da legalização do aborto, dois terços dos óbitos femininos no país são conseqüência de abortos mal feitos! O tamanho da mentira se torna ainda maior se aplicarmos a taxa de mortalidade geral linearmente sobre o conjunto das mulheres sexualmente ativas e férteis. Aí o número simplesmente superaria em 15% o total de óbitos possíveis… Penso que isso serve para evidenciar o desrespeito à verdade, condição indispensável para o uso adequado da razão, que caracteriza os argumentos dos abortistas. Toda a defesa dessa prática se faz mediante mistificações como a que descrevi e por apresentação de motivos travestidos de humanitários, demográficos, sociológicos ou sentimentais. Mas, como sabem os filósofos, motivos não são razões. Muitas vezes, os motivos podem ser absolutamente irracionais, como é o caso dos que levam ao aborto voluntário e à sua defesa.

Notas:

N.A – Solitações para aquisição e envio do meu livro "Cuba, a tragédia da utopia" podem ser feitas pelo e-mail atragediadautopia@hotmail.com.

Direito e relações afetivas

Em todas as civilizações, culturas e tempos da história as sociedades se organizaram em famílias e em torno delas. Patriarcais ou matriarcais, mais ou menos amplas, as estruturas familiares sempre foram concebidas como células formadas por casais e suas proles. Seja através dos meros costumes, seja mediante o direito positivo, os povos, em quaisquer religiões ou raças, protegeram a instituição familiar e lhe reconheceram direitos específicos. Têm sido feito esforços, de uns anos para cá, no sentido de ampliar as disposições do Direito de Família para abranger, também, as relações homossexuais estáveis, atribuindo-lhes conteúdos essenciais desse direito como os de adoção e herança. No entanto, família não é qualquer coisa e qualquer coisa não é família. A homossexualidade é um fato social e o afeto entre pessoas do mesmo sexo, um dado da realidade. Mas assemelhar esse convívio com a organização familiar é coisa bem diferente. O convívio homossexual é apenas uma relação afetiva e o Estado nada tem a ver com ela porque não lhe cabe regular relações afetivas, como não lhe cabe regular as amizades, simpatias ou a sexualidade voluntária entre cidadãos maiores de idade. Deveria abrir-se o manto protetor do Direito a toda e qualquer conjugação afetiva que ocorra na sociedade, como, por exemplo, a coabitação de um homem com duas mulheres, ou de uma mulher com dois homens, ou o convívio de dois casais com parcerias indefinidas, estabelecendo-se ali direitos e deveres, ônus e bônus? Seria óbvia impertinência e demasia, fosse para proibir, fosse para proteger.A recorrente e sempre lembrada questão da disposição dos bens havidos por um par homossexual durante o tempo de convívio, notadamente quando ocorre o falecimento de um deles, é matéria que se resolve com registros cartoriais, à semelhança de qualquer empreendimento que envolva duas ou mais pessoas físicas. Se não o fizeram, por desídia ou falta de vontade de um ou de ambos, deve o Estado dispor sobre isso no lugar deles?Finalmente, a propósito do pretendido direito de adoção, é evidente que o melhor desenvolvimento psíquico e emocional de uma criança tende a ocorrer no convívio com um casal heterossexual, onde estejam definidas as figuras do pai e da mãe. E em tais casos, como sabem e decidem os magistrados, é o bem da criança o critério determinante. Nunca o simples desejo do casal adotante. Uma família pode se tornar incompleta ou se extinguir, por vontade própria ou fatalidade. Mas ela será sempre a célula fundamental da sociedade humana. Família, repito, não é qualquer coisa e qualquer coisa não é família. Por harmônica e estável que seja, uma convivência homossexual será apenas uma convivência afetiva a exemplo de tantos outros convívios estáveis que ocorrem sem que as partes compartilhem o leito. Não é o que acontece na cama que define a existência de uma família.

Notas:

N.A – Solitações para aquisição e envio do meu livro “Cuba, a tragédia da utopia” podem ser feitas pelo e-mail atragediadautopia@hotmail.com.

Para entender o Congresso Nacional

Peque um lápis e um pedaço de papel (pode ser o menor que você encontrar) e faça uma lista dos membros do parlamento nacional cuja ação revele zelo para com o país. Vai sobrar papel. Por quê? Porque nosso sistema eleitoral privilegia candidatos comprometidos, ou om certas bases geográficas ou com corporações. Some-se a isso a massa de eleitores que vota segundo pequenos critérios (ou sem qualquer critério) e não temos porque nos espantar com o descaso para com o bem comum. Representantes estritamente regionais ou de grupos de interesse têm como principal tarefa carrear para suas bases fatias cada vez maiores do bolo nacional e cuidar para que a conta seja enviada, indecorosamente, aos barrados no rateio. Restam uns poucos (tão poucos que quase nada conseguem fazer) aos quais o talento pessoal e as exigências da própria consciência acabam conferindo um tipo mais amplo de representação. Estes colhem votos em várias regiões e diversos segmentos sociais. Independentes, assim, de cabrestos regionais, grupais, ou mesmo partidários, mantêm-se fiéis a princípios dos quais não costumam se afastar. São, provavelmente, aqueles cujos nomes estão na pequena lista que lhe sugeri fazer. Se, de um lado, o conjunto da sociedade não tem senão a  perder com a atuação dos políticos do tipo “classista”, de outro, as regiões precisam de seus representantes e o país carece de quem se ocupe dele como um todo – uns para cuidar dos interesses regionais (contanto que todas as regiões estejam representadas) e outros para prover o bem comum nacional. O sistema que conduz a isso é o do voto distrital misto, no qual metade das cadeiras é preenchida por representantes distritais e outra metade por parlamentares com votação em todo o território. Os congressistas que temos são produto, em grande parte, do modelo eleitoral através do qual são selecionados, do sistema de governo que irresponsabiliza o parlamento e da incontrolável multidão (594 membros é caso para psicologia de massas) na qual seus deveres são dispersos. Mesmo que o Brasil tenha decidido, em plebiscito, que modelos políticos são coisa fútil, essas “coisas fúteis” continuam determinando, muito mais do que os eleitores, os tipos de pessoas às quais será confiado o direito e o poder de dispor sobre o bem comum e o interesse de todos.

Sou conservador, sim

O macaco, quando empilha caixotes para apanhar bananas suspensas fora de seu alcance, está usando um atributo, denominado inteligência, comum a várias espécies animais. Já quem se empenha em conhecer a Verdade e o Bem, usa de uma outra faculdade, especificamente humana, chamada razão. E a razão esteve no centro da revolução filosófica dos séculos XVIII e XIX.Que decepção teriam aqueles pensadores se pudessem confrontar o   otimismo humanista que suas idéias suscitaram com a quase absoluta irracionalidade a que  conduziram! Nunca como nestes anos que correm a humanidade foi tão destra em empilhar caixotes para apanhar bananas, nunca a inteligência dispôs de tantos instrumentos para ser produtiva, mas jamais esteve tão distante de perceber o sentido da vida e desinteressada de orientá-la para o Bem. Erich Fromm resume assim a situação: “Possuímos o ‘saber-como’ (know-how), mas não possuímos o ‘saber-por-que’ (know-why) nem o ‘saber-para-que’ (know-what-for)”. O motivo é evidente. Absolutizando razão e liberdade, essa filosofia desenrolou o tapete para o relativismo e o existencialismo: se a razão for a única fonte da verdade e se a liberdade for “a essência do homem”, ter-se-á uma verdade para cada mente e o homem deve ser “o que quiser fazer de si”. O resultado é a miséria da filosofia e o trágico descaminho, travestido de liberdade, percorrido por gerações despreocupadas com a Verdade e com o Bem, patrocinadoras da prosperidade de advogados e profissionais da saúde mental. Destes porque lidam com os cacos que as pessoas acabam fazendo de si (e umas das outras) por não terem compreendido o que de fato são, e daqueles porque – ausente a noção de Bem – as relações sociais se orientam apenas por interesses que se complicam quando a regra é o desregramento.Um prato cheio, de bananas. Extraviada a idéia de Bem, a noção de “erro” se esvazia e a consciência pessoal se amordaça num novelo de racionalizações oportunistas e egoístas. Nada há de surpreendente, então, na derrocada da instituição familiar, na irresponsabilidade moral de pais, educadores, comunicadores, legisladores, julgadores, na decadência do papel do Estado, no estímulo à violência, no avanço das drogas e da AIDS, nem na insignificância do amor, da justiça, da solidariedade e da virtude. E ainda aparece quem erga a voz para chamar conservador, como se o adjetivo fosse ofensivo, quem defende a preservação de tais valores.

Aborto, Igreja e Estado

Recebo carta de leitor insistindo na tese de que o aborto deveria ser um direito que pudesse ser exercido por pessoas sem rejeição de natureza religiosa à sua prática. E insiste: a restrição ao aborto constitui intromissão religiosa em matéria de natureza civil.

Não é. Os temas da vida humana e seu valor são essenciais à humanidade e integram os estatutos jurídicos de todas as sociedades desenvolvidas. Considerá-lo como tema “religioso” é confundir a parte com o todo. As religiões são apenas fragmento do contexto humanista e civilizador em que todos estamos ou deveríamos estar envolvidos. Afirmar o contrário, implicaria sustentar que a tortura só não é praticada por motivos religiosos, pela simples razão de que a moral cristã também a reprova. E o que seria ainda pior: ela ficaria liberada para prática pelos não-cristãos enquanto os cristãos, mesmo podendo praticá-la, ficariam coibidos de o fazer em virtude das peculiaridades da moral que adotam.

Para bem compreender o tema, responda, leitor, a seguinte questão: “É possível que a Moral não influencie o Direito?” E se der a essa pergunta a resposta adequada, impõem-se outra: “É possível que a Religião não influencie a Moral?” Ficará claro, então, que, em toda sociedade democrática, o Direito Positivo, a norma legislada, expressão da vontade social majoritária, certamente estará afetada pela moral dominante, decorrente, em grande parte, dos valores religiosos da maioria da população. Isso não significa obrigatoriedade de culto, discriminação religiosa, prevalência do Direito Canônico sobre o Civil, ou coisa que o valha. Significa, apenas, que a abordagem legal de questões com graves implicações morais, como o direito à vida, por exemplo, estará inevitavelmente afetada pela moral majoritária.

Se considerarmos que o tema é exclusivamente religioso (o que levaria à livre opção na sociedade civil), teríamos que permitir, no Brasil, que os adeptos de certas correntes religiosas pratiquem a poligamia, extirpem o clitóris dos bebês do sexo feminino; cortem as mãos daqueles que os furtem; lapidem as mulheres adúlteras e por aí afora. Isso pode estar de acordo com a moral dominante nas sociedades de onde se originam; mas não é aceitável entre nós. Invocar sobre tais temas o “direito das minorias” significaria admitir que as minorias façam suas próprias leis, o que conduziria à extinção da democracia e do próprio estado nacional.

Horizonte ou cenário?

Eduardo Galeano, em conhecida e reverenciada reflexão sobre a utopia, escreve: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isto: para que eu não deixe de caminhar”. Impressionante, não é mesmo? O que o escritor uruguaio afirma coincide com algo que a experiência nos ensina: a perfeição deve ser buscada, mas nunca será atingida. Sempre haverá uma distância entre ela e a realidade. Caberia ponderar, então, se a utopia não cumpre, no pensamento e na ação política, o papel desse anseio que nos induz a buscar a perfeição mesmo sabendo-a inatingível. Para que possamos chegar a uma conclusão sobre tal pauta, torna-se necessário verificar se a tal caminhada produziu ganhos qualitativos em relação à realidade a que a utopia se opunha. Caso contrário, ela terá sido apenas cenário, ilusão a encobrir um objetivo errado. Ora, é impossível desconhecer que o comunismo ou o socialismo, como horizonte da utopia que seduz Galeano e seus companheiros, levou a humanidade a algumas das mais perversas realidades do século XX. Mais de cem milhões de seres humanos morreram e incontáveis outros apodreceram nas prisões, nos gulags, nos campos de concentração, em nome do horizonte em cuja direção Galeano convida seus leitores a andar… Os regimes em seu nome constituídos caíram de pobres e podres. Pois que vá solito, o Eduardo. Prefiro tomar como referência os grandes estadistas que fizeram avançar seus povos com democracia, liberdade, realismo, pés no chão e valores elevados. O que acabo de expor também explica, em boa parte, a desilusão que se abateu sobre parcela decisiva dos eleitores neste pleito de 2004. Durante duas décadas certo partido os seduziu confrontando a realidade em que vivem com o cenário de sua utopia. Repetidamente apontei para o embuste envolvido nessa estratégia onde embarcou e naufragou parcela significativa da intelectualidade nacional: comparar realidade com utopia é um desacato à Razão. Só se pode comparar idéia com idéia e realidade com realidade. E a coisa fica muito pior quando se descobre que o horizonte da utopia não passa de um reles cenário. Para muitos eleitores, pelo menos, a ficha, finalmente, caiu.