Rodrigo Gurgel


Bruno Tolentino e a “esterilidade palavrosa”

A tese de que a Semana de 22, quando analisada no contexto da literatura brasileira, foi um evento não só desnecessário, mas completamente dispensável, ganha força a cada parágrafo do ensaio Banquete de ossos, publicado em 1998. “[…] Tragicamente nos apalhaçamos em 22 no vão intuito de dar o salto que afinal nem demos nem […]

II Encontro de Escritores Brasileiros na Virgínia: camaradagem e inteligência

Da esquerda para a direita: Carlos Nadalin, Paulo Briguet, Yuri Vieira, Olavo de Carvalho, Rodrigo Gurgel e Érico Nogueira.

O II Encontro de Escritores Brasileiros na Virgínia, organizado pelo filósofo Olavo de Carvalho — do qual participei ao lado do cronista Paulo Briguet, do poeta Érico Nogueira, do contista e roteirista Yuri Vieira e do professor Carlos Nadalin —, mostrou, mais uma vez, que há vida inteligente fora dos esquemas que são impostos pela esquerda brasileira.

Jacob Burckhardt e a democracia dos medíocres

“Um homem só é interessante se amar alguma coisa”.

Ler as Cartas de Jacob Burckhardt, escritas entre 1838 e 1897, é conhecer um homem completo. Ele não foi apenas o compulsador de arquivos empoeirados, trabalho cuja importância aprendeu com Leopold von Ranke, mas também desenhista, compositor, pianista, amante dos vinhos e da ópera, principalmente de Verdi, excelente observador dos costumes e eterno insatisfeito consigo mesmo, qualidades que nos concederam, dentre outras obras, A cultura do Renascimento na Itália.

São poucas as cartas nas quais Jacob Burckhardt não faz algum comentário a respeito de política, que acompanhava pelos jornais e se correspondendo com amigos de toda a Europa. Em muitas delas, temos a decepcionante impressão de que o historiador fala do nosso tempo.

Paula Fox e a morte da civilidade

“Tiquetaqueando dentro da carapaça de vida normal e de seus acordos rudimentares estava a anarquia”.

Além do estilo, o que mais impressiona em Desesperados, de Paula Fox, é a morte da civilidade. E como a história se assemelha ao que presenciamos em nosso cotidiano. Acompanhar as descrições do Brooklyn, na Nova York da década de 1960 (o livro foi lançado em 1970), e dos personagens que se sentem restringidos em sua liberdade, em sua segurança, provoca desagradável analogia, por exemplo, com o que experimento em São Paulo.

Sophie e Otto, os protagonistas, vivem uma situação econômica estável e são pessoas educadas, sensíveis. O casal encontra-se ilhado em seu mundo de cultura e pequenos luxos, mas o cerco se fecha, lentamente: os valores se confundem — uma funcionária do escritório de Otto é apontada como racista por pedir a um cliente negro que apague o cigarro no cinzeiro e não no carpete; os direitos individuais deixam de ser uma prerrogativa de todos e se transformam em trincheiras contra os “brancos instruídos”; atos de vandalismo se repetem, a violência se banaliza; e a própria comunicação parece impossível, pois as conversas do dia-a-dia são repletas de gírias ou lugares-comuns, e também de um esquerdismo rasteiro, útil para desculpar comportamentos imorais, plenamente injustificáveis.

10 livros que mudaram minha vida


Se Edmund Wilson me vacinou contra os estruturalistas, Olavo de Carvalho me vacinou contra o marxismo e a intelectualidade materialista, hedonista e cética que pontifica na mídia e na universidade brasileiras.

De Euclides da Cunha, (1) Os Sertões foi o primeiro livro que estudei com o olhar de leitor malicioso — não no sentido de “má índole”, o mais comum entre nós, infelizmente, mas no sentido de “astúcia”, “sagacidade”. A motivação veio de Paulo Vieira, meu professor de português no velho Instituto de Educação, em Jundiaí. Quando comecei “A Terra”, tive uma vertigem: aquilo era incompreensível — o livro exigia muito mais que um dicionário constantemente aberto ao meu lado. Foi, aos 17 anos, o primeiro lampejo de que as melhores obras literárias estão além, muito além do que o leitor inocente vê no seu contato superficial, passageiro. Ir e voltar pelas páginas, descobrir a musicalidade que a linguagem pode alcançar, sentir que aquele livro estava além dos meus conhecimentos — tudo me impulsionava a ir adiante, a perseverar.

A ética da liberdade contra o autoritarismo

Quais foram os pensadores que, frente à tentação do totalitarismo, não apenas se mantiveram isentos de qualquer culpa, mas transformaram suas vidas, seu trabalho intelectual, em libelos contra as ideologias que, depois de enganar os povos com ilusões utópicas, especializaram-se no cerceamento da liberdade, na perseguição, na tortura e no assassinato?

Para Dahrendorf, a “rebelião verborrágica” de maio de 1968 representou a “irrupção do relativismo e do fundamentalismo no mundo ilustrado da sociedade aberta.”

Essa é a pergunta central do livro La libertad a prueba, em que Ralf Dahrendorf, diretor da London School of Economics no período 1987-1997, não apenas lista os poucos intelectuais resistentes às falsas promessas do nazifascismo e do comunismo, mas investiga quais as origens e características da força desses homens, que qualidades eles teriam para, de maneira altiva e sistemática, jamais abandonar sua visão liberal — e, assim, tornarem-se guardiães da liberdade.

Antes de iniciar sua análise, Dahrendorf se pergunta quais seriam as tentações próprias dos regimes totalitários. O que leva os homens à renúncia da liberdade?

Problemas da literatura atual

Não são adultos falando.

Penso em muitas coisas quando leio esses contos estendidos que hoje recebem o nome de “romance” — impressos com letra grande e num papel de alta gramatura, do contrário caberiam em 10 ou 15 páginas.

Faz alguns meses, fui à livraria, peguei uma pilha de “romancistas” atuais, sentei numa poltrona e comecei a ler.

A tarde passou. Fui interrompido duas ou três vezes. Recusei um café. E quando fechei o último livro percebi que quase todos eram do mesmo autor.

Não eram — mas tratavam dos mesmos problemas, com as mesmas lamúrias, a mesma conversinha fiada em primeira pessoa, como se o autor estivesse abrindo seu coração para o psicanalista ou, pior, para um dono de botequim.

Reações ao Decreto 8.243 — a sociedade ainda respira. Até quando?

A principal característica de um governo esquerdista é que ele jamais se contenta em governar de acordo com a ordem legal, instituída. Ele sempre acredita que detém a chave, a poção, a receita miraculosa para transformar o país no que, ele imagina, será o melhor dos mundos. O problema é que o melhor dos mundos, quando se trata da esquerda, está sempre próximo do que imaginamos ser o Inferno, quando não é o próprio Inferno.

A prova do que afirmo encontra-se não apenas na história das revoluções — vejam o Purgatório congelado no tempo em que Cuba se transformou, sobrevivendo graças à submissão de um povo sem esperança e sem armas e à propaganda esquerdista mundial, ou os milhões de crimes perpetrados pelo comunismo soviético —, mas também no presente, no cotidiano da sociedade brasileira, sequestrada, em grande parte, pelo pior tipo de populismo que já conhecemos, superior, em método e recursos, aos refinamentos do getulismo.

Quem pode descrever o horror?

Quem desejar conhecer um pouco da história de Anna Akhmátova, uma das raras inteligências que permaneceram altivas na Rússia comunista, deve ler Anna, a voz da Rússia – vida e obra de Anna Akhmátova (Editora Algol), escrito por Lauro Machado Coelho.

Por recomendação do meu caro Flávio Morgenstern, cujos artigos no Implicante.org são sempre imperdíveis, fui ler Anne Applebaum – e escolhi, para começar, o livro que concedeu a essa colunista do The Washington Post o Prêmio Pulitzer de não-ficção em 2004: Gulag: A History.

Anne Applebaum tem um estilo límpido e a leitura flui de maneira agradável – apesar de “agradável” não ser o adjetivo correto para qualificar um livro que narra a história dos campos de trabalho forçado da União Soviética, prática comunista semelhante aos campos de concentração do nazismo, mas, por razões que me parecem evidentes, pouco comentada num país como o nosso, no qual a intelectualidade em peso é formada por pessoas que consideram os Gulags um mal menor na gloriosa jornada comunista rumo ao Paraíso terreno.

Apontamentos sobre um bestiário — Olavo de Carvalho e “O imbecil coletivo”

Todos os que militaram na esquerda sabem o quanto Olavo está certo; sabem que tal contradição é reconhecida e exaltada, nas fileiras esquerdistas, com o descaramento típico dos que se consideram acima do bem e do mal – e, principalmente, acima de todos os seus semelhantes.

Passados quase vinte anos desde sua primeira edição, esgotado há pelo menos um triênio, O imbecil coletivo, de Olavo de Carvalho, continua a constranger e afrontar a intelligentsia esquerdista nacional, que se mostrou, até o momento, incapaz de realizar um debate à altura das proposições olavianas, preferindo encaramujar-se na mudez aparente, por meio da qual recusa o debate franco mas porta-se como velha alcoviteira.

Envolver seus oponentes num halo de silêncio e desprezo ou refutá-los utilizando argumentos ad hominem – nessas duas atitudes pusilânimes resume-se a estratégia da esquerda para derrotar aqueles que não rezam segundo o catecismo marxista-leninista. Veja-se, por exemplo, o tratamento ministrado a Gilberto Freyre durante décadas, o esquecimento a que se condenou Álvaro Lins (depois de abandonar o catolicismo, tornou-se marxista, mas nunca se submeteu a ditames partidários) e as críticas que Wilson Martins recebeu depois de morto, como a de Flora Süssekind, que propôs “matar mais uma vez” o crítico literário.[1] Em todos esses casos, contudo, as estratégias esquerdistas funcionaram apenas temporariamente: o reconhecimento de Freyre não pára de crescer; Lins volta a ser, gradualmente, estudado pelos jovens; e os sete volumes de A história da inteligência brasileira, de Martins, receberam nova edição, revista e atualizada, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. Veritas filia temporis, non auctoritatis [2] diziam, com razão, os antigos.