Cultura


Umas ditaduras são mais iguais que as outras: Brasil-Mentira IV


Ele jura “abominar as gradações”, mas ele próprio gradua, só que em sentido inverso: odeia o mal menor e ama decididamente o pior dos piores.

O Sr. Dines não é burro, pessoalmente. Já provou isso em escritos excelentes. Ele encontra-se emburrecido e cego pelo apoio dos seus pares, que, quando o que ele diz coincide com os desejos deles, tratam de aceitá-lo imediatamente, reprimindo em si próprios e nos outros a mais elementar exigência analítica. Confirmado retroativamente pelo apoio deles, o Sr. Dines está autorizado a jamais perceber a enormidade do que disse. Ser “formador de opinião”, no Brasil de hoje, é isso. É expressar amores e repulsas com a irracionalidade de um cão que late, reforçado pelos ecos inumeráveis de uma orquestra canina.

Como se decompõe uma nação

Aceitar como válido que o erro de um sirva para justificar o erro de outro. Canonizar o deboche e debochar da virtude.

Em seu relatório de 2008, a International Transparency situa o Brasil em 80º lugar, com nota 3,5 sobre 10, no ranking da corrupção. Estamos nivelados com Burkina Faso, Marrocos, Arábia Saudita e Tailândia. Perdemos até para a Namíbia, Tunísia e Gana, países onde as práticas são consideradas mais corretas do que aqui. É constrangedor o que o mundo pensa de nós! Estou convencido, caro leitor, de que temos a obrigação moral de enfrentar essa pauta, refletindo sobre a realidade que os números refletem. É intenção deste artigo, portanto, identificar o que nos conduz a tão lamentável reconhecimento mundial.

Nerd Sem Máscara: O Papel da Ficção Nerd

 “Se os meios de mídia não tivessem influência até subconsciente nas pessoas, não se pagaria milhões para colocar a marca de um determinado produto, por segundos que seja, nas mãos de personagens principais de filme.”

Nós não conhecemos nada que um dia não tenhamos concebido como ao menos possível. O estabelecimento do que é apenas possível é a alçada da função poética do discurso. É assim que o mais acomodado burguês pode ter um vislumbre de luz ao ler a vida de um santo entrevendo não só na vida que serve de base à história, mas na própria expressão estética do texto, toda uma gama de potenciais existenciais que antes, literalmente, não imaginava.

A proibição de comparar: Brasil-Mentira III

Alberto Dines
Os meros fatos não alcançam as alturas do rigorismo platônico exigido pelo Sr. Dines.

Exemplos recentes da radical abolição do senso das proporções nas discussões públicas neste país, e da sua substituição por proclamações absolutistas rancorosas e pueris até à demência, aparecem em dois artigos do Observatório da Imprensa, publicação que, sublinhando o grotesco da situação, se autodefine não como um agente entre outros no jornalismo brasileiro, mas como um tribunal para o julgamento da idoneidade dos demais agentes.

Inversão retórica e realidade invertida: Brasil-Mentira II

Rousseau: ícone da auto-indulgência revolucionária
As figuras de linguagem servem precisamente para realçar certos aspectos da realidade, que o senso de proporcionalidade da experiência comum encobre. Mas quando o poder sugestivo de uma figura de linguagem começa, retroativamente, a encobrir a experiência comum, ela deixa de ser uma figura de linguagem, passa a ser uma afirmação literal, uma fé e até um dogma.

Enxergar nos criminosos a sombra da sociedade, portanto a projeção ampliada dos males latentes no próprio coração da maioria honesta, é tendência bem antiga da cultura ocidental. Quando François Villon, o poeta-assassino, vislumbra o seu próprio corpo de enforcado balançando no ar, não como testemunho de seus crimes, mas como um apelo à bondade das gerações futuras, sem lembrar-se de dizer uma palavra sequer em favor de suas vítimas, ele inaugura uma das inversões retóricas mais poderosas da modernidade: a relação de caridade estabelece-se agora como um vínculo direto entre a comunidade e o criminoso, fazendo-se abstração das vítimas. Estas não têm direito à caridade, nem do seu algoz, nem do futuro. Passando por cima dos assassinados, a Deusa História absolve os assassinos.

Falso amor à justiça: Brasil-Mentira I

É como se o brasileiro não acertasse jamais falar com a sua própria voz, sentindo-se antes compelido, por um intenso desejo de aprovação – também ele camuflado –, a imitar o tom das conveniências momentâneas.

Nação nenhuma tem o monopólio da imoralidade, mas algumas foram dotadas com uma quota extra que as torna exemplos de escolha numa investigação de filosofia moral. Ao incluir o Brasil entre elas, não tenho em vista as famosas taxas nominais de corrupção, onde, ao contrário, as comparações com outros países têm até um efeito consolador sobre as almas dos nossos compatriotas. Refiro-me a fenômenos de outra ordem, mais difíceis embora não impossíveis de quantificar. Já observei mais de uma vez que a nossa literatura de ficção, escassa em personagens de grandeza excepcional, santos, heróis ou monstros, é rica em figuras de minúsculos farsantes, mentirosos, fingidores compulsivos e semiloucos de vários matizes, que se abrigam numa esfera de irrealidade, fugindo da própria consciência. Com uma ou duas exceções, os personagens do maior e mais significativo dos nossos romancistas são todos assim. Também o são os de Lima Barreto, Raul Pompéia, Marques Rebelo, Annibal M. Machado e tantos outros, sendo até covardia lembrar a figura de Macunaíma, na qual os brasileiros se reconhecem tão facilmente, e cuja veracidade sociológica é atestada por um milhão de piadas populares que mostram os nossos conterrâneos em traços bem parecidos com os dele.

A técnica da insurreição e do golpe de Estado

Trotsky, tranqüilo, sorri: “A insurreição não é uma arte. É uma máquina. Para colocá-la em movimento são precisos técnicos, e só técnicos a poderiam, eventualmente, parar”.

Sou da linha trotskysta: revolução permanente“.
(Declaração do presidente Hugo Chávez em janeiro de 2007).

Na polêmica que se seguiu ao golpe de Estado ocorrido na Rússia em outubro de 1917, Lenin foi considerado o estrategista, o ideólogo, e Trotsky o criador da técnica do golpe de Estado.

O velho Chico: Buarque não vai além dos clichês em novo romance

chico
A sociedade brasileira que Chico Buarque apresenta foi extraída dos velhos manuais de historiografia e sociologia marxista, escritos pelo pai do autor, por Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes. Nada acrescenta a elas, além da linguagem da ficção, mas se trata de uma ficção que não ilumina nenhum aspecto da realidade.

É possível babar (e não chorar) pelo leite derramado? Sim, se o Leite derramado em questão for o romance de Chico Buarque de Hollanda. A imprensa paulista derramou litros de baba e tinta por ocasião do lançamento do livro, em 28 de março. O Caderno 2, de O Estado de S. Paulo, cedeu à obra sua capa e mais quatro páginas encomiásticas. A Ilustrada, da Folha, foi pelo mesmo caminho e a Veja também, embora bem mais parcimoniosa nos elogios.

Che: el argentino

Robert Weicha, agente da CIA em Santiago de Cuba, afirmava na Comissão de Justiça do Congresso,   depois da fuga de Batista: “Eu e meu staff éramos todos fidelistas. Todo mundo na CIA e todos no Departamento de Estado eram pró-Castro”.

Por insistência de um amigo cinéfilo, vi a primeira parte do filme-propaganda “Che” (Che: el argentino), de Steven Soderbergh, cineasta que faz hora e vez no pedaço faturando em cima de causas “politicamente corretas”. Vi, e logo me arrependi, pois o longo comercial sobre a revolução de Castro e aliados, para além de ser um enfadonho clichê, é também produto extremamente mentiroso. (A segunda parte da exegese sobre a guerrilha de Guevara na Bolívia, que leva mais duas horas, não me pegará: minha cota de tolerância se extinguiu).

Nerd Sem Máscara – O Inevitável Watchmen

Teria o governo o direito do monopólio do uso dos “super-seres”? E os governos reais teriam o direito de tirar o direito do cidadão de reagir contra os crimes que são cometidos contra ele? O super-herói, afinal, nada mais é que um cidadão que, dotado de armas fantasiosas ou poderes que as substituem, assume a tarefa de auto-defesa da sociedade. O próprio fato de serem forçados a se mascararem de alguma forma já demonstra que no século 20 este direito era cobiçado maliciosamente pelos governos centralistas, já que para simplesmente defenderem-se eles precisavam agir no anonimato.

Há um evento ofuscante no mundo nerd no momento e seu nome é Watchmen. Embora tenha saído no cinema após o sombrio Batman de Christopher Nolan, quem acompanha os quadrinhos sabe que a transição do gênero super-herói de um passatempo de crianças para um modelo arquétipo literário completo só foi possível graças ao Watchmen de Alan Moore, ao Cavaleiro das Trevas de Miller e o Sandman de Neil Gaiman. Com Watchmen traduzido fielmente para as telas, e a presença “espiritual” de Miller nos dois últimos filmes do Batman, fica faltando apenas uma adaptação da obra de Gaiman para o cinema. Considerando que a indústria se abriu para séries de vários capítulos como em Harry Potter, não é de todo absurdo pensar em uma série de filmes que narre a saga de Sandman.