Encruzilhada colombiana: revés guerrilheiro, “reconciliação” e desmobilização

O tema da “reconciliação” na Colômbia vai-se transferindo de uma forma mais ou menos explícita ao centro dos debates e acontecimentos dentro desse país e em torno dele.

Com a libertação inesperada e espetacular de 15 reféns das FARC, o povo colombiano e suas atuais autoridades ganharam o que até o momento constitui uma das mais importantes batalhas psicológicas, políticas e militares contra as narco-guerrilhas que assolam a Colômbia desde há quatro décadas. Não obstante, segundo destacam diversos observadores, a justificada alegria ante a possibilidade de aproximação da paz não deveria deixar perder de vista que ainda podem faltar outras etapas para que a Colômbia chegue a uma paz estável e duradoura, vencendo completamente a guerra.

A rápida mudança de opinião na linguagem da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt, pouco depois de ser resgatada e posta em liberdade, serve de exemplo que ilustra a complexidade da psicologia humana e, ao mesmo tempo, serve de reflexão sobre eventuais mudanças análogas que possam se produzir não somente em nível individual como coletivo.

Deixando rapidamente para trás um primeiro momento de elogio às autoridades colombianas, e de justificação da arriscada ação de resgate, a Srª Betancourt passou a afirmar com ênfase que seu pensamento “sempre” será “de esquerda”, que é “necessária” uma negociação com as FARC e que as autoridades colombianas devem “abandonar a linguagem do ódio”; fez elogios a Chávez e chegou a justificar a existência das FARC com a velha tese de esquerda de que a causa da “violência” guerrilheira se encontraria na “injustiça social” e não nas próprias metas e métodos revolucionários, próprios de um sistema intrinsecamente perverso.

A ex-refém, que já é qualificada como “a Mandela colombiana”, como uma referência ao líder esquerdista sul-africano que, depois de sair da prisão chegou à presidência de seu país, foi mais longe ainda quando afirmou à BBC que “Uribe e não só Uribe, mas toda a Colômbia, devem corrigir algumas coisas”, no sentido do diálogo, da negociação e da reconciliação.

No contexto do pensamento da Srª Betancourt, essa “correção” que “toda a Colômbia” deveria realizar, nas atuais circunstâncias poderia redundar em uma perigosa desmobilização psicológica e ideológica de um país inteiro.

Neste momento, com relação à Colômbia, a palavra “reconciliação” está sendo pronunciada genericamente por diversas personalidades, desde setores diferentes, em nível nacional e internacional, embora sem que se especifique até o momento em que consistiria concretamente essa “reconciliação”. A ineludível interrogação que se coloca é: qual seria o significado que cada ator ou protagonista concede a essa palavra? Em seu sentido mais simples, “reconciliar-se” significa voltar a ser amigos aqueles que em algum momento, por alguma razão, deixaram de sê-lo.

Em que consistiria, concretamente, essa “reconciliação” em relação às FARC e a seus membros, conhecidos por sua crueldade e radicalização, os quais até o momento não deram nenhum sinal de arrependimento por seus crimes?

No plano religioso, Bento XVI, em suas primeiras palavras depois de ser informado da libertação dos 15 reféns, incluiu a meta da “reconciliação” na Colômbia, segundo transmitiu imediatamente à imprensa o Padre Lombardi, porta-voz da Santa Sé. O tema da “reconciliação” na Colômbia já havia sido abordado pelo Pontífice em diversas oportunidades, como por exemplo no Angelus de 3 de fevereiro pp., e também em mensagem aos bispos colombianos por ocasião do centenário da Conferência Episcopal desse país.

Por outro lado, em um plano que vai mais além do religioso e incursiona no sócio-político, os referidos bispos colombianos também têm insistido na reconciliação, e também no diálogo e na negociação. Pouco depois da libertação dos reféns, o até há pouco presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, monsenhor Luis Augusto Castro Quiroga, dirigiu-se às FARC manifestando-lhes que estudassem “com muita seriedade” a possibilidade de “dialogar” com o governo e acrescentou que no momento atual “a saída negociada é o melhor” para os guerrilheiros.

Também no plano político internacional a primeira atitude do presidente Lula, do Brasil, quando se produziu a libertação de Betancourt, foi a de emitir uma nota na qual chama à “reconciliação entre todos os colombianos”.

O tema da “reconciliação” na Colômbia vai-se transferindo dessa maneira, de uma forma mais ou menos explícita, ao centro dos debates e acontecimentos dentro desse país e em torno dele. É um tema sumamente delicado porque, como já se disse, se precisaria saber o quê é que cada um dos promotores da “reconciliação”, e os eventuais atores em jogo, entendem por “reconciliação”.

A preocupação provém do fato de que esta palavra, em si mesma tão notável, pode adquirir significados ambivalentes “talismânicos”, que contribuam para desmobilizar os colombianos no momento em que a guerrilha atravessa uma situação especialmente difícil, e a abertura de processos de reconciliação, negociações e diálogo poderia dar-lhe tempo para cicatrizar suas feridas psicológicas, políticas e militares.

Notas:

Tradução: Graça Salgueiro

Libertação dos seqüestrados: vitória da mente sobre a espada

Chávez e Correa ficam sem a jóia da coroa e por mais que “mediem de boa vontade” para a libertação dos demais seqüestrados, não poderão desfazer-se do rótulo de mandatários que apóiam o terrorismo.

Desde as primeiras guerras da humanidade os bandos em contenda utilizaram fraudes e ardis que, de metódicos êxitos táticos, redundaram em transcendentais golpes estratégicos que mudaram o rumo das guerras. Em síntese: vitórias da mente sobre a espada. Operações especiais de comandos terrestres com elevadas doses de ação psicológica, orientadas para anular a capacidade de luta do adversário e ganhar o apoio irrestrito da população civil.

Nem mais nem menos, é a cinematográfica libertação de 15 seqüestrados em poder das FARC, dentre eles Ingrid Betancourt – a jóia da coroa – que os conspiradores contra a Colômbia, Hugo Chávez, Rafael Correa, Piedad Córdoba, Daniel Ortega e o tortuoso governo francês de Sarkozy tinham como um ás dentro da manga.

É evidente que desde há vários dias os pró-terroristas governantes do Equador e da Venezuela, que estavam empenhados em tecer um arranjo imoral que os livrasse da grave responsabilidade encontrada nos computadores de Reyes, ridicularizassem o governo colombiano com a libertação dos seqüestrados graças a suas “gestões bonachonas” e imediatamente dessem luz verde para conceder o status de beligerância às FARC, com embaixadas e consulados incluídos em seus países.

A trama corria paralela com o exibicionismo politiqueiro da Corte que procurava desqualificar a legitimidade do mais popular de todos os governantes colombianos, depois do Libertador Simón Bolívar. Não obstante, a justiça tarda mas chega.

Como tem sido constante, desde a batalha de Boyacá até nossos dias, mais uma vez o Exército salvou a república que ele mesmo construiu. Sem protagonismo, sem espetaculosidades publicitárias, sem pedir nada em troca, os soldados da Colômbia executaram o golpe mais demolidor que as FARC receberam durante a última década.

A contundente operação reúne todos os elementos da perfeição e se coloca no nível do célebre cavalo de Tróia, o resgate de Mussolini no Sasso, Chavin de Huantar no Peru, o resgate de Entebe em 1976, a morte do almirante Yamamoto durante a Segunda Guerra Mundial, etc.

Nela se conjugam todos os ingredientes de um minucioso e disciplinado trabalho de inteligência militar, técnica e humana: emprego de sofisticados equipamentos técnicos para rastrear comunicações, aerofotografias, leituras por satélites, foto-interpretação, etc. Também inclui infiltração especializada sobre o núcleo do objetivo, seguimentos de pegadas, colocação de agentes em locais-chaves e direção sincronizada do esforço de busca da informação, apreciação permanente da situação, conhecimento do curso de mais provável adoção do adversário e oportunidade dos dados processados.

No nível operacional, o contundente golpe militar demonstra profissionalismo e treinamento tecnificado dos executores, maturidade para atuar no momento decisivo, ímpeto dos soldados enviados à histórica ação, coordenação milimétrica com as demais unidades comprometidas nos fechamentos e apoios imediatos, e decisão precisa, a partir de um sistemático trabalho de Estado Maior. A isto soma-se a experiência acumulada nos golpes contra Simón Trinidad, Sonia, Raúl Reyes, Acacio, Lozada, Martín Caballero, Jota Jota, a deserção de Karina e a tentadora oferta que conduziu um bandido a assassinar Iván Ríos.

Na ordem logística se evidencia precisão, coordenação, previsão total dos elementos requeridos para conduzir a operação até o final, sem que faltasse nenhum detalhe por catalogar.

E no aspecto psicológico, o intangível que define todas as guerras, a vitória é total para o Estado. A surpresa, produto do engano aos mestres do engano, demonstra que “os médicos também morrem” e que a capacidade operacional do Exército colombiano o coloca como o melhor, o mais capaz, o mais experimentado e o mais recursivo de todo o hemisfério latino-americano. Ao mesmo tempo, é uma tácita mensagem a Chávez para que medite e se dê conta de quem é a quem pretende agredir.

Os resultados desta exitosa operação marcam uma tendência de favorabilidade aberta ao programa de governo do presidente Uribe, corroboram sua estatura como líder e estadista, e definem os mais prováveis cursos de ação do panorama estratégico da guerra na Colômbia:

Chávez e Correa ficam sem a jóia da coroa e por mais que “mediem de boa vontade” para a libertação dos demais seqüestrados, não poderão desfazer-se do rótulo de mandatários que apóiam o terrorismo. A informação dos computadores revive com inusitada força. Os demais mandatários da América Latina vão se alinhar com o ganhador que é Uribe e os dois bocudos presidentes vizinhos vão encarar mais problemas com a oposição interna, agora que Evo Morales – outro de seus aliados – segue em franca queda livre.

O Secretariado das FARC tentará pressionar a troca humanitária com o resto dos seqüestrados, porém já não terá a conotação internacional que lhes iam dar seus cumpinchas na América Latina e o oportunista governo francês. Imediatamente lançarão ofensivas terroristas contra a infra-estrutura econômica, e tentarão atentar contra altos funcionários do Estado para aliviar a pressão.

O presidente Uribe terá o caminho livre para postular seu nome para um terceiro mandato de governo, orientado para a consolidação e o desenvolvimento sócio-econômico das zonas afetadas pela violência comunista.

Os republicanos terão marcado outro gol nos Estados Unidos, pois não é gratuito que depois da visita de McCain à Colômbia sejam libertados os três contratados seqüestrados. Isto, somado à extradição dos chefes da AUC, vai incidir no eleitorado do gigante do norte e na aprovação do TLC, pois ninguém que seja sensato entenderá como o congresso sinuoso e oportunista de maioria democrata dê as costas a seu melhor aliado. Ganham os republicanos e ganha a Colômbia.

Terroristas capturados como Martín Sombra e os três que tinham as provas de sobrevivência, que estavam na lista de espera, com certeza serão enviados com Cesar e seu comparsa para que respondam ante uma Corte Federal pelo seqüestro dos três contratados norte-americanos.

A França terá que assumir um papel mais sério e menos exibicionista. Dinamarca, Suécia e Noruega deverão perseguir os terroristas que abrigam em seus territórios. E muito mais. Entretanto, na Colômbia deve continuar com força o processo da FARC-política; não pode ficar só no papel.

Por outro lado, a mãe de Ingrid Betancourt terá de engolir as frases ofensivas com as quais desqualificava o presidente Uribe, ou ter o gesto de galhardia de oferecer desculpas públicas por sua conduta errônea. Igual atitude deve assumir o linguarudo senador Luis Eladio Pérez [1]. Ele está obrigado a reconhecer que seu falatório não era, nem mais nem menos, que por ordem das FARC.

Por razões de espaço não estendo mais o comentário. Porém, também há outros elementos dignos de resgatar e pôr em primeiro plano como elementos formativos das novas gerações: 1. A lealdade do Exército à Pátria; 2. A perseverança do presidente Uribe para acompanhar as instituições armadas, em que até antes de seu governo foi uma luta sem respaldo político dos governantes de turno.

Em síntese: a guerra se ganha com a mente e com a espada, porém sempre é a mente quem conduz os soldados à vitória. A Operação Xeque passará para a história universal como o dia em que a Colômbia deu a punhalada final à derrota militar, política e psicológica do projeto revolucionário armado do partido comunista colombiano.

Notas:

Fonte: www.cgfm.mil.co

Nota da Tradutora: O senador Luis Eladio Pérez, depois do sucesso das Forças Militares no resgate dos seqüestrados sem qualquer participação dos oportunistas Chávez, Correa e Piedad Córdoba, deu uma entrevista dizendo-se “perseguido” e “ameaçado de morte” pelas FARC e que por isto iria embora da Colômbia. Seu irmão confirmou que já havia partido sem dizer para onde, mas comenta-se que buscou refúgio na Venezuela de Chávez.

Tradução: Graça Salgueiro

Tá com medinho, “seu” Chávez? Então pede pra sair!

Chávez está com medo mas, como todos os líderes totalitários não se importa muito em perder coisas materiais, desde que não perca o poder.

“Os mitos desmoronam por si mesmos mas só podem ser totalmente
banidos pela verdade”.
Dmitri Volkogonov

O presidente Hugo Chávez está entrando em seu inferno astral mas conta com bons estrategistas que o ajudam a mudar o rumo da prosa quando a luz vermelha se acende. É característico de seu comportamento obsessivo-compulsivo falar o que pensa sem medir as palavras e de tomar atitudes, as mais absurdas e criminosas, sem prever as conseqüências que podem advir desses rompantes.

Dentre estes fatos os mais notórios dos últimos tempos são: a modificação de 69 artigos da Constituição, na qual foi derrotado no Referendum de 2 de dezembro de 2007; os destemperados rótulos e xingamentos ao presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, que considera um “cachorro do Império”; a solicitação ao mundo para acolher as FARC como um “agrupamento político beligerante”; o anúncio na Assembléia Nacional de que mastigava folhas de coca diariamente, ofertadas pelo cocalero Evo Morales, presidente da Bolívia; o minuto de silêncio em cadeia nacional pela morte de Raúl Reyes, e, finalmente, a criação da Lei do Sistema Nacional de Inteligência e Contra-Inteligência.

Esta Lei estabelece que todo cidadão fica obrigado a cooperar ilimitadamente com os novos órgãos de Inteligência, com os Conselhos Comunais chavistas e demais associações da militância e, em caso de negar-se a fazê-lo, será punido com uma condenação de dois a quatro anos de cárcere e se for funcionário público a pena é de quatro a seis anos de prisão. No Art. 19, a nova Lei autoriza o “emprego de qualquer meio especial ou técnico para a obtenção e processamento de informação”(Gaceta Oficial Nº 38.940 de 28 de maio de 2008), o que significa que os novos agentes secretos de Chávez podem interceptar correspondência, grampear ligações telefônicas, torturar para obter informação, seqüestrar, drogar, violentar, ameaçar, humilhar em público e até assassinar, tudo em nome da “Segurança Nacional”.

Quando esta Lei foi divulgada começaram as pressões, inclusive dentro das Forças Armadas, para anular esta aberração que Chávez criou utilizando-se das prerrogativas da Lei Habilitante. Uma semana depois, no programa dominical “Alô, Presidente”do dia 8 de junho, aparece um novo Chávez, conciliador, fazendo um mea culpa pelos “exageros” cometidos na tal Lei, alegando em sua defesa ter-se lembrado da tentativa de golpe liderado por ele em 1992 e que não fora, nem aceitaria, ser coagido para delatar quem quer que fosse porque isto era uma violação aos direitos humanos. Em vista deste “reconhecimento”, suspendeu a tal Lei até que fossem revistos alguns artigos.

Ainda no mesmo programa pediu que as FARC se desmobilizem e entreguem todos os reféns, porque a “guerra de guerrilhas é história” e “não se justifica derrocar um governo democraticamente eleito”. Dias depois foi a vez de Rafael Correa, o boneco de ventríloquo de Chávez, repetir o mesmo discurso cínico dizendo: “Por favor, já basta, deixem as armas, vamos ao diálogo político e diplomático para encontrar a paz. Dissemos isso 500 vezes”. (…) “Que futuro tem uma guerrilha que combate um governo democrático, ao menos em aparência, e que não tem nenhum apoio popular no século XXI?”.

Bem, esta solicitação de Chávez teve boa acolhida no governo colombiano e o presidente Uribe agradeceu o gesto de seu par venezuelano [1], passando por cima de todas as agressões e ofensas. Por outro lado, a Corte Suprema de Justiça da Colômbia solicitou à Scotland Yard que revisasse os computadores de Raúl Reyes para corroborar o informe da INTERPOL de que o material ali encontrado era autêntico e não fora violado, alterado ou suprimido.

O que se depreende de todas estas informações? Em primeiro lugar, Chávez pode ter iludido o mundo inteiro com estas declarações, parecendo ter recobrado a sensatez, mas não aos venezuelanos que o conhecem muito bem. Sua popularidade de dezembro até os dias de hoje despencou para risíveis 28% e este é um ano de eleições importantes, para prefeitos e governadores. Ele ainda aguarda o aval do Brasil para ingressar no MERCOSUL e ser defensor das FARC nesse momento depõe contra. Chávez sabe que as FARC estão em franco declínio – em decorrência do excelente trabalho realizado pelos orgãos de Segurança colombianos -, que contam com não mais que míseros 3% de apoio popular e que a Venezuela também é vítima deste bando terrorista por seqüestros, assassinatos e pelo tráfico de drogas e armas.

A Venezuela tem um dos índices de seqüestros mais elevados do mundo – muitos deles pelas mãos das FARC, que Chávez não reclama porque não rendem dividendos políticos – e os crimes por encomenda cresceram tanto, que já são uma das principais causas de morte no país. Por outro lado, os venezuelanos já foram vítimas da espionagem chavista – extra-oficialmente – através das famigeradas listas “Tascón” e “Maisanta” e continuam sendo perseguidos, ameaçados e encarcerados injustamente [2]. Chávez sabe, portanto, que está encurralado, que os venezuelanos o conhecem muito bem e já estão fartos de suas mentiras, de suas truculências e de vê-lo dizer uma coisa hoje para desmentir amanhã, se assim lhe for conveniente politicamente.

Por outro lado, já se sabe das ligações do PT e de funcionários do alto escalão do governo brasileiro com as FARC mas o presidente Lula, malgrado as substanciais provas de envolvimento através dos Encontros do Foro de São Paulo, será poupado, ou melhor, blindado, como vem sendo desde que assumiu o primeiro mandato em 2003.

A política, já disse alguém, é a “arte do possível”. Por isso Uribe fecha os olhos e poupa Lula de uma denúncia formal de envolvimento com as FARC, agradece a Chávez pelo seu pronunciamento e reata relações diplomáticas com o Equador. Por isso também, Rafael Correa mudou seu discurso porque sabe, tanto quanto Chávez, que corre o risco de entrar para a classificação de “países amigos de terroristas” dado pelos Estados Unidos e União Européia. Dependendo comercialmente dos Estados Unidos eles cedem, numa relação de amor e ódio, uma relação tão patológica quanto suas formas de governar.

Chávez está com medo mas, como todos os líderes totalit&aacut e;rios não se importa muito em perder coisas materiais, desde que não perca o poder. Por isso muda o discurso, torna-se compassivo, chora, apela, finge-se de amigo mas sobretudo mente; mente muito e vai continuar mentindo. E é por isto mesmo que este reconhecimento não pode ser simplesmente aceito e a página virada. Não! Se ele não pede para sair, tem que ser julgado e posto na cadeia pelos seus crimes, pois ele é parte dos problemas causados pelas FARC, não só na Colômbia mas em toda a América Latina.

Notas:

[1] Ouça o áudio do agradecimento em http://www.elpais.com/audios/internacional/Uribe/Quiero/reiterar/agradecimientos/Hugo/Chavez/csrcsrpor/20080615csrcsrint_1/Aes/

[2] http://www.payolibre.com/articulos/articulos2.php?id=1433

Escrito originalmente para o Jornal Inconfidência de Belo Horizonte

O blogueiro Fidel

Não fora os petrodólares do tiranete Hugo Chávez e a cobertura diplomática dada pelo Itamaraty Vermelho ao velho ditador Fidel Castro, a esta hora Cuba estaria vivendo num real clima de abertura democrática.

 

“A minha aspiração suprema é sentar-me a mesa para governar o mundo inteiro”

Confidência de Fidel Castro ao padre jesuíta Alberto Rojas

 

Fidel Castro, ora atravessando fase de senilidade mórbida, virou blogueiro. Ele está se valendo, por assim dizer, do avançado instrumental tecnológico desenvolvido pelo capitalismo, a internet, para destilar a sua tradicional verborragia totalitária. O velho ditador, famoso por colocar o povo cubano de castigo para ouvir suas intermináveis ladainhas antiamericanas, agora, com auxílio de funcionários do PC cubano, manda  recados e distribui puxões nas orelhas dos aliados que ousam lamentar as desditas políticas e sociais que afligem o infernal “paraíso caribenho”.

Semana passada, depois de cutucar o cantor “simpatizante” Caetano Veloso por causa da música “Baía de Guantánamo”, na qual se levanta de forma ambígua a intolerável questão dos direitos humanos na ilha-cárcere, o Vampiro do Caribe soltou o verbo para atacar os chanceleres da União Européia (UE) que derrubaram, com senões, as sanções diplomáticas impostas ao regime comunista de Cuba. A medida punitiva, como se sabe, foi tomada pela UE depois que Fidel Castro, em 2003, ordenou pessoalmente a prisão de 75 dissidentes políticos e a execução sumária de três nativos que pretendiam emigrar para os Estados Unidos.

Em vez de agradecer aos diplomatas puxa-sacos da UE, Fidel, como de hábito, esperneou por causa dos senões. No frigir dos ovos, deu-se o seguinte: para derrubar em caráter definitivo as sanções estabelecidas pelo bloco europeu contra a ilha, a Suécia, a Alemanha e os países ex-comunistas, fugindo ao consenso, exigiram sejam avaliadas ao cabo de um ano, a real condição dos direitos humanos em Cuba – e, por extensão, a verdadeira dimensão da abertura política do regime ditatorial ainda arbitrado pelo déspota pouco esclarecido. No entender da comissária das Relações Exteriores da UE, Benita Ferrero-Waldner, porta-voz da decisão, caso tudo permaneça como está, sem que ocorra em Cuba as urgentes reformas de abertura democrática, o bloco europeu volta a impor sanções punitivas, entre elas as que se reportam aos acordos de cooperação e empréstimos facilitados. A rigor, Dona Benita está com a razão: de fato, como acreditar num sujeito que é capaz de enganar o próprio Papa com ocas promessas de diálogo?

No uso bélico da Internet (site www.cubadebate.cu), Fidel Castro tachou a decisão conciliatória da UE de “hipócrita”, visto que, na sua paranóia, ela tem como meta “entregar a pátria (cubana) ao imperialismo”. Em seguida, num assomo de demência cínica, típica das personalidades doentias, depois de acusar os Estados Unidos de genocida, proferiu a mais deslavada mentira até hoje jamais expressa por qualquer ditador latino-americano – uma patacoada digna de encabeçar os anais da história universal da infâmia. O tirano teve o desplante de afirmar o seguinte: “Aqui (em Cuba) nunca torturamos ninguém, nem privamos ninguém da vida por métodos extrajudiciais”.

Caso alguns dos nossos leitores não saibam, Fidel Castro (e sua revolução socialista) é o responsável direto e indireto pela morte e desaparecimento de, no mínimo, 50 mil pessoas (dados do “Livro Negro do Comunismo”, editora Bertrand Brasil, Rio, 1999). Nas suas mais de 200 prisões de segurança máxima, entre as quais as sinistras masmorras de La Cabaña e Puerto Boniato, onde se processavam (e processam) torturas medievais e sevícias sem fim, foram executados centenas de prisioneiros em julgamentos sumários ou mesmo sem julgamento algum.

No seu livro “Contra Toda Esperança – As prisões políticas de Fidel Castro” (Editora InterMundo, 3ª Edição, 1988, São Paulo), o poeta cubano Armando Valadares, considerado pela Anistia Internacional como Prisioneiro de Consciência, relata como conviveu com a morte diária por pancadas de canos de ferro envoltos em mangueiras de borracha, a ingestão de fezes e o extermínio de prisioneiros – como na Alemanha Nazi – em laboratórios de experiência biológica. O próprio Valadares, depois de 22 anos de masmorra, três dos quais confinado numa cela-gaveta, saiu da prisão em cadeira de rodas (graças à gestão de François Mitterrand, então presidente da França).

Outro prisioneiro cubano, o escritor Pedro Juan Gutiérrez, dá conta dos horrores sofridos nas UMAP (Unidades Militares de Ayuda a la Produción), planejadas por Fidel, para onde eram levados os filhos de presos políticos, comerciantes, religiosos, artistas, homossexuais e órfãos (filhos de políticos executados pela revolução). Em tais “unidades de ajuda”, tornaram-se corriqueiras as lições de “reeducação ideológica” aplicadas no espaço das “tostadoras”, jaulas de grades de ferro em que o preso não podia deitar nem permanecer de pé, ficando sempre exposto ao calor do sol escaldante alternado com o frio das madrugadas chuvosas.

No mesmo dia em que o celerado Castro expressava suas barbaridades pela Internet, a realidade o desmentia: em Matanzas, nos arredores de Havana, oito dissidentes do regime foram presos quando se preparavam para realizar uma manifestação de protesto defronte ao Ministério do Interior. E em entrevista concedida em Berlim, depois de fugir da ilha-cárcere, o campeão olímpico de boxe Erislandy Lara – o mesmo que Tarso Genro (leia-se Lula) entregou às feras comunistas quando da realização dos jogos Pan-Americanos do Rio – foi preciso: “Estou feliz por estar na Alemanha, ansioso para me tornar profissional e ganhar o título mundial. Não quero falar sobre os detalhes de minha saída de Cuba, mas ali não se respeita os direitos das pessoas”.

Em suma: não fora os petrodólares do tiranete Hugo Chávez e a cobertura diplomática dada pelo Itamaraty Vermelho ao velho ditador, a esta hora Cuba estaria vivendo num real clima de abertura democrática. Mas como na agenda do Foro de São Paulo a ordem é beatificar Fidel, os cubanos, para atingir a liberdade, terão mesmo de enfrentar os tubarões do mar do Caribe.

ALBA – Alternativa Bolivariana para as Américas

Em 26 de março de 2008, ao desembarcar em Recife, onde se encontrou com o presidente Lula, Hugo Chávez defendeu a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul para a defesa da região, dizendo ser esse “o plano de Bolívar”.

A idéia original de formação da Alternativa Bolivariana para as Américas foi apresentada por Hugo Chávez em dezembro de 2001, durante a II Reunião de Cúpula dos Chefes de Estado e de Governo da Associação de Estados do Caribe, mas a instituição somente surgiu formalmente em dezembro de 2004, quando, em Havana, Fidel Castro e Hugo Chávez firmaram os protocolos de sua fundação.

Com a chegada de Evo Morales à presidência da Bolívia, esse país passou a fazer parte da entidade e, logo a seguir, Dominica, em janeiro de 2008 e Nicarágua, esta após o triunfo de Daniel Ortega nas eleições para a presidência.

O Equador, em 13 de junho de 2008, rejeitou a entrada na ALBA, segundo Nota do Ministério das Relações Exteriores, mas que “acompanha com atenção a iniciativa”.

Reunidos em Havana dias 27 e 28 de abril de 2005, Fidel Castro e Hugo Chávez firmaram um plano para o início de implementação da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), uma espécie de solidariedade econômica e financeira entre os dois países. Um Bloco de Poder Regional, conforme o denomina Hugo Chávez e seus aspones, dentre os quais o cientista político alemão Heinz Dieterich. A ALBA, pretende ser uma alternativa à ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), que persegue a liberação absoluta de bens, serviços e investimentos. A ALBA, por sua vez, estaria empenhada em lutar contra a pobreza e a exclusão social, segundo seus fundadores.

Foram 49 os acordos assinados entre Cuba e Venezuela.

Em 27 e 28 de abril de 2007, foi realizada em Barquisimeto, Venezuela, a V Reunião de Cúpula da ALBA, tendo como países observadores convidados o Uruguai, Equador, Dominica, Saint Kitts y Nevis, S. Vicente e Granada. Numeroso contingente cubano presta “colaboração” a países integrantes da ALBA: 39 mil na Venezuela, 2.300 na Bolívia e 58 na Nicarágua.

A VI Reunião de Cúpula da ALBA foi realizada em Caracas dias 24 e 25 de janeiro de 2008 com a presença dos países-membros e dos convidados Granada, S. Vicente, Antigua, Barbados, Saint Kitts y Nevis, Equador, Haiti, Uruguai e Honduras. Nessa oportunidade, Dominica foi integrada formalmente à ALBA.

Em janeiro de 2008, em seu programa semanal de rádio “Alô Presidente”, Hugo Chavez, acompanhado por Daniel Ortega, presidente a Nicarágua, propôs a criação de uma força armada conjunta da Alternativa Bolivariana para as Américas, com o objetivo de enfrentar uma hipotética agressão dos EUA. Então, já integravam a Alba, a Bolívia, Venezuela, Cuba, Dominica e Nicarágua.

Ainda em 26 de janeiro de 2008, Bolívia, Cuba, Venezuela e Nicarágua assinaram um documento fundando o Banco da ALBA, com um capital de US$ 1 bilhão, banco que deverá ser submetido a decisões políticas e não econômicas e financeiras, segundo disse o ministro venezuelano das Finanças, Rafael Isea.

Em um vídeo [*] que circula na Internet, citando Lula textualmente, Hugo Chávez disse que o Presidente do Brasil concorda formar um Conselho de Defesa e, em conseqüência, um exército bolivariano para enfrentar o inimigo comum, os EUA.

Em 26 de março de 2008, ao desembarcar em Recife, onde se encontrou com o presidente Lula, Hugo Chávez defendeu a criação de uma Organização do Tratado do Atlântico Sul para a defesa da região, dizendo ser esse “o plano de Bolívar”.

Em 23 de abril, no Palácio Miraflores, em Caracas, foi realizada uma reunião entre Hugo Chávez, Evo Morales, Daniel Ortega e Carlos Lage, vice-presidente de Cuba. O ponto principal da reunião foi sentir a solidariedade dos países da ALBA “ante os intentos separatistas da oligarquia na Bolívia”.

Foram essas as atividades da ALBA até o momento, atividades que certamente serão ofuscadas pela prioridade à formação da Unasul (União das Nações Sul-Americanas) constituída em reunião realizada dia 23 de maio de 2008, em Brasília, na qual o presidente Lula propôs – e não foi aprovada – a constituição de um Conselho de Defesa Regional, iniciativa que prevê a convergência do Mercosul e da Comunidade Andina de Nações. Essa idéia não aprovada deu origem à formação de um grupo de trabalho que deverá pronunciar-se sobre essa iniciativa nos próximos seis meses. Para muitos analistas o Conselho de Defesa Regional iria configurar um intento de criação da Organização do Tratado de Defesa do Atlântico Sul, o tal “plano de Bolívar”, citado por Chávez em 26 de março de 2008, em Recife.

Notas:

[*] http://www.dailymotion.com/video/x46u7g_alba-defensa_news

Hitler está aqui

O diário oficialista Últimas Notícias lançou ontem um balão de ensaio para medir a capacidade de resposta da sociedade, frente ao projeto chavista de estabelecer na Venezuela uma tirania com roupagem institucional. A reforma é calcada no que Hitler fez na Alemanha em circunstâncias iguais, quando a cidadania ainda tinha alguma força para resistir ao seu projeto de poder pessoal totalitário.

Segundo o diário oficialista, o MVR apresentaria à Assembléia Nacional uma reforma da Constituição que, sem dissimulação, porá nas mãos de Chávez todos os mecanismos de poder, com capacidade discrecional para encarcerar cidadãos civis e militares, fechar empresas, aprovar as leis que acomodem seu projeto e, assentado no terror, reeleger-se indefinidamente como o tem feito Fidel e o teria feito Hitler se os aliados não tivessem entrado em Berlim.

A emenda de 21 artigos converterá a Constituição em um instrumento de poder total do presidente sobre os indivíduos e a sociedade. É exata a “coincidência” entre esta reforma chavista e a que Hitler efetuou desde o poder, em circunstâncias exatamente iguais.

A mudança fundamental, estritamente copiada de Hitler, é que o presidente poderá prender sem julgamento prévio de mérito a generais e almirantes, o qual lhe permitirá aterrorizar a Força Armada e usá-la sem limitações para esmagar os cidadãos. Em seguida vêm os artigos dirigidos para, segundo a proposta do MVR, “…atacar com severidade e prontidão o procedimento dos grupos econômicos…”, com o qual Chávez poderá encarcerar indefinidamente os empresários que “não cooperem com seu regime”, e fechar suas empresas.

Se nesta reforma ainda resta algum resquício de liberdade, a “debilidade” será coberta rapidamente aprovando leis orgânicas específicas que preenchem o vazio e, se fizer falta, genéricas leis habilitantes (poder discrecional para o governante) por maioria simples. Este procedimento da maioria simples se considera inaceitável nos países democráticos, quando se trata de reformas estruturais, às quais em teoria democrática e lógica sã não podem ser impostas à maioria por uma minoria, muito embora esta seja a menor das minorias como é o caso do MVR na Assembléia.

Tudo isto será coroado aprovando a reeleição indefinida do presidente da República. Uma e outra vez, até o infinito, procedimento absolutamente eliminado em todas as constituições do mundo civilizado, pois o utilizam somente em nações primitivas onde um homem forte se eterniza no poder mediante o terror, como no passado fizeram os velhos ditadores latino-americanos.

O projeto será introduzido e aprovado em qualquer momento na Assembléia Nacional, eliminando definitivamente qualquer possibilidade de Liberdade e Democracia na Venezuela. É o mais trágico que ocorreu a um país do ocidente depois que desapareceram ditaduras como a de Trujillo… e o resultado pode ser ainda mais horrendo do que o de Cuba governada por Fidel Castro.

Notas:

Fonte: Coluna “A sangue frio”, diário El Nuevo País.

Tradução: Graça Salgueiro