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O uso político da psiquiatria: a luta antimanicomial

Fonte: HOSPITAL DE PSIQUIATRIA

(Iraci Schneider* – Jornal Mineiro de Psiquiatria – 08/2005)

Hoje em dia, no imaginário da maior parte das pessoas, a internação psiquiátrica é sinônimo de tratamento desumano e cruel, e sobretudo ineficaz.

Em artigo recente (este artigo é originalmente de 2001) publicado na revista Época, lê-se, em destaque, a notícia do falecimento prematuro de um notável (?) sanitarista de renome internacional (?), Dr. Capistrano. O autor louva a biografia e os feitos do sanitarista, com destaque para o seu pedigree de comunista de família, e a solicitação de ouvir a “Internacional” em seus últimos momentos de vida.

A notícia chama a atenção sobretudo, porque o destaque do trabalho do homenageado foi a “revolução antimanicomial” feita em Santos – a exemplo do que acontece, aos poucos, em tantos municípios brasileiros atualmente, e já aconteceu, há décadas, nos países democráticos mais bem sucedidos, sem qualquer alarde ou politização, como uma evolução assistencial natural decorrente da melhoria das terapêuticas disponíveis.

Isto nos traz de volta aos acontecimentos ao longo das décadas de 70 e 80, que alçaram um grupo de médicos, militantes de esquerda, ao controle progressivo da área de saúde no país todo, através da ocupação das entidades de classe da categoria e da reforma administrativa que redundou no atual SUS.

O tratamento psiquiátrico, sobretudo no momento da internação hospitalar, foi associado nos anos 70, à “repressão do sistema e de direitos de cidadania”, e o hospital psiquiátrico, pejorativamente chamado de manicômio, associado a uma câmara de torturas, com supressão da liberdade de expressão individual de pessoas originais. Os médicos psiquiatras foram associados a torturadores e agentes do sistema anti-direitos de cidadania.

Partiu-se de uma incontestável realidade: a precaríssima condição dada aos doentes mentais nos “manicômios” públicos – e em alguns hospitais conveniados ao falecido INAMPS – para fazer do “encarceramento” destes doentes uma triste paródia da supressão dos direitos individuais, imposta pelo “regime de exceção” agonizante.

Não havia ainda aqui, naquele tempo, na rede pública, as modalidades de tratamento extra-hospitalar já usadas no resto do mundo: hospitais-dia, pensões protegidas, centros de convivência. Isto poderia ser implantado naturalmente mas o grupo de militantes precisava de uma bandeira revolucionária, de um perfil redentor. Algo de apelo midiático que chocasse a população e chamasse a atenção, permitindo a entrada daquele grupo para dentro das instituições públicas de saúde, na perspectiva gramsciana de tomada gradual do aparelho do Estado.

O eletrochoque – procedimento terapêutico altamente eficaz, recomendado internacionalmente em todos os grande centros, pela OMS e por toda a psiquiatria moderna (há uma censura branca deste dado) indolor, e que não lesa, destrói, nem frita os neurônios de ninguém, foi subliminarmente relacionado aos choques aplicados pelos torturadores nos “porões da ditadura”. Aliás, o termo usado para se referir ao ambiente hospitalar psiquiátrico era – e ainda é – “os porões da loucura”.

Temia-se, à época, falar abertamente contra o regime. A psiquiatria foi a metáfora perfeita, bandeira escolhida a dedo como plataforma eleitoral, principalmente do grupo mineiro e do hoje deputado federal Paulo Delgado.

Importa lembrar que, nos primeiros anos da propaganda anti-manicomial no Brasil, só alguns tinham acesso à divulgação da imensa revolução tecnológica do chamado Primeiro Mundo que levou, na área da Psiquiatria, aos conhecimentos hoje familiares até aos ouvintes do Fantástico, a saber: as bases neuro-químicas do funcionamento cerebral e aos novos métodos de pesquisa dos processos orgânicos subjacentes às doenças mentais, ou seja, a demonstração científica, tão sonhada por Freud, das bases biológicas da ciência psiquiátrica.

Nós, os clínicos, sabíamos disso na nossa prática. Mas éramos “do sistema”, portanto suspeitos, “carcereiros” que medicavam (“embotavam”) pessoas e as internavam (“excluíam”). Dava-se a entender que a internação tinha caráter punitivo e o tratamento era, na realidade, uma repressão a serviço do sistema. Curiosamente, era este o padrão do que se fazia então no império soviético, onde os dissidentes eram internados e tratados como loucos. As denúncias desta violência eram arrasadoras e constantes nos congressos internacionais de psiquiatria. Estes fatos não se divulgavam, a não ser raramente, na mídia brasileira. O grupo anti-manicomial, cuja prática é bastante ruidosa, omitiu sistematicamente qualquer crítica a esta situação nos anos 70.

A doutrinação anti-psiquiatrica foi – e é – maciça nas escolas de medicina, enfermagem, psicologia e serviço social, e em alguns meios “intelectuais”. Hoje em dia, no imaginário da maior parte das pessoas, a internação psiquiátrica é sinônimo de tratamento desumano e cruel, e sobretudo ineficaz.

A doença mental, diziam, era uma ficção capitalista e burguesa. Na verdade, não existia a loucura que poderia ser vista como uma reação sadia a um sistema que não tolerava manifestações individuais de liberdade. A loucura era criativa, transgressora, desafiadora do status quo. (Michel Foucault era o livro de cabeceira). A loucura, “subversiva”, criadora, “de esquerda”, desafiava o Poder constituído, representado pelo hospital psiquiátrico e pela medicação anti-psicótica, estes “de direita”. Freud já estaria superado; entronizava-se Lacan.

Esta visão, romântica e absurdamente distante da devastação que decorre da loucura real, foi, via propaganda maciça e quase diária, durante anos, sendo assimilada e incorporada como um elemento de veracidade dos fatos. Atualmente, já não se diz mais loucura: usa- se, pudicamente, o galicismo “sofrimento mental”, que banaliza (denega?) o fenômeno, despojando-o de sua especificidade e troca o resultado pela causa.

Um grupo de psiquiatras mineiros ligados ao PCB e PC do B articulou a campanha que visava, na verdade, ocupar os cargos de diretoria dos hospitais psiquiátricos da rede pública e os cargos de decisão da FHEMIG (Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais), a diretoria das associações de classe, sindicatos, os cargos de supervisores das residências médicas e os cargos formadores de opinião em geral. A luta anti-manicomial foi apenas o pretexto, nada mais do que a mesma política de tomada do poder institucional na área médica que ocorria em outras especialidades e em todos os estados.

Tratava-se de um projeto nacional global, que trabalhou pelo desmonte do INAMPS e introdução do SUDS, que faliu por incompetência, corrupção e inviabilidade, transformando-se no atual SUS – já falido, com anos de desmandos político/administrativos referendados por comissões e “conselhos”, com “participantes da comunidade”, na realidade escolhidos a dedo pelos grupos instalados no poder.

A campanha anti-manicomial começou em nosso meio com uma série ininterrupta de reportagens dramáticas, ao longo de meses, mostrando fotos horripilantes e denunciando maus tratos nos hospitais psiquiátricos da rede pública. Aterrados, os diretores destas instituições abriram as portas aos detratores, como sinal de boa-fé, numa (vã) tentativa de minorar sua agressividade. Abriram literalmente as portas, alçando os médicos líderes das denúncias a cargos de direção e chefia sem qualquer concurso.

Estas reportagens foram inicialmente publicadas no jornal “Estado de Minas” ao longo da segunda metade da década de 70, para depois ganhar cunho nacional. Seu autor foi o jornalista Heron Firmino que, em conseqüência de seu trabalho, foi agraciado com o prêmio Esso de Jornalismo.

Muitos fizeram fama e fortuna com o tema, criando-se a “indústria da denúncia da indústria da loucura”. O deputado federal Paulo Delgado, cujo irmão é psiquiatra e sanitarista, fez sua carreira política ao escolher como bandeira a luta anti-manicomial.

Os militantes instalados na rede pública em cargos de direção nomearam centenas de companheiros em toda a rede pública.

Inútil tentar contestar, com argumentos científicos, os dados falseados plantados dia após dia na mídia e nas escolas por um organizado e aguerrido grupo de militantes: o bloqueio de informações era – e é ainda – rígido, tanto em certas redações, quanto no âmbito das associações de classe.

O modelo proposto foi a revolução anti-manicomial italiana, levada com sucesso (?) uma década antes (anos 60) por Basaglia, que propunha a desconstrução do modelo médico da Psiquiatria. Basaglia foi a Belo Horizonte para conferências e sua visita divulgada como um fato épico.

No imaginário das pessoas, psiquiatria, internação, hospital psiquiátrico (fala-se manicômio), tornou-se o local da violência e do horror.

Na medida em que a loucura – aliás, no novo jargão, o “sofrimento mental” – era “desmedicalizada”, tornava-se um fenômeno predominantemente sociológico, e com isso a abordagem do paciente podia ser feita por assistentes sociais, psicólogas, enfermeiras e tutti quanti, abrindo-se assim um novo mercado de trabalho para profissionais para-médicos, fortemente apoiados por seus conselhos de classe.

Basaglia era psiquiatra e comunista. Foi responsável pelo setor de psiquiatria de saúde pública italiana que, na década de 60, desmantelou o “modelo assistencial manicomial excludente” vigente na Itália e no resto do mundo até a descoberta, nos anos 50, dos medicamentos que fizeram na Psiquiatria a verdadeira revolução e permitiram, graças a seus espetaculares resultados terapêuticos, até então desconhecidos, a reintegração de milhares de pessoas ao convívio sócio-familiar.

Estes medicamentos são os neurolépticos, primeira linhagem de medicamentos anti-psicóticos introduzidos em 1952 na França, por Delay e Deniker, e que, pela primeira vez na história da Psiquiatria, agiam nos delírios e alucinações, bem como nas grandes agitações e transtornos de comportamento que, até então, levavam à segregação dos doentes.

Com a nova medicação redentora, os pacientes melhoraram dramaticamente e grande número deles, já aptos a uma vida extra-muros, podia ser devolvida à sociedade e suas famílias.

Basaglia faturou politicamente, nos anos 60, em cima deste extraordinário resultado terapêutico da década de 50, sem nunca mencioná-lo, sendo louvado como redentor dos excluídos e aprisionados do regime, com grande cobertura da imprensa; “liberou” os pacientes (já então fazendo uso das medicações neuréticas dos franceses), desmantelou as onerosas e, então, arcaicas instituições hospitalares italianas do pós-guerra dos ditos pacientes crônicos, que foram devolvidos a suas famílias e, em muitos casos, às ruas, quando não se adaptavam às novas instituições a que eram encaminhados.

Enquanto a especialidade psiquiátrica era usada como metáfora da repressão pela militância, estruturava-se no Brasil todo a rede que iria se consolidar nas décadas seguintes no controle das políticas e cargos de saúde do SUS em gestação, incluindo-se também no projeto todas as associações de classe médica e os cargos universitários formadores de opinião, dentro do projeto gramsciano de ocupação de espaços.

Formou-se o CPS – Comitê Popular de Saúde – que definia as diretrizes para o Movimento Médico Nacional, aprovadas por ocasião dos Encontros Nacionais de Entidades Médicas. No começo da década de 90, decidiu-se pelo fortalecimento da posição dos membros do CPS na administração superior do Ministério de Saúde, visando maior agilização e controle na implantação efetiva do SUS.

Os quadros do CPS deveriam ocupar ainda espaços importantes nos programas de implantação do SUS e, os parlamentares médicos “progressistas” eleitos para o Congresso, deveriam atuar nas Comissões de Saúde do Congresso Nacional. Este programa foi coordenado pelo médico e deputado federal Antônio Sérgio Arouca.

O SUS – prometida solução de todos os problemas da área da saúde – deu no que deu, com suas imensas verbas municipalizadas na mão de pequenos grupos políticos e de suas comissões, digamos, fiscalizadoras.

Ainda hoje, no entanto, volta e meia emerge o velho tema da luta anti-manicomial: leio no Estado de S. Paulo de 4 de janeiro, caderno 2, que um filme brasileiro, muito premiado em recente festival de Brasília, o “Bicho de 7 cabeças”, retoma as mesmas histórias de 30 anos atrás, (os horrores sofridos por um jovem numa internação psiquiátrica involuntária no que ele denomina um chiqueiro psiquiátrico) quando “Um estranho no ninho” emocionava as multidões. Diz o jornal que a diretora do filme se sensibilizou com o tema ao freqüentar um grupo de debates sobre cidadania e loucura.

Será que os gregos é que estavam com a razão, quando postulavam a circularidade da História?

*A autora é Psiquiatra Clínica

 

Reconstruindo New Orleans – e os EUA

por  Thomas Sowell

Para superar os piores momentos de uma crise são necessárias as grandes tradições morais da sociedade – aquelas tão elegantes de escarnecer, tão moderninho violar e as quais nossas próprias escolas ensinam os jovens a subestimar.

A devastação física causada pelo furação Katrina revelou, dolorosamente, a devastação moral de nosso tempo que levou aos saques generalizados em New Orleans, aos assaltos nos abrigos, aos estupros de garotas e aos tiros nos helicópteros de salvamento.

Quarenta anos atrás, houve um grande blackout em New York e em cidades do nordeste americano. Os cidadãos comuns foram para as interseções das ruas para controlar o tráfego. Todos se ajudaram mutuamente. Depois do blackout, a experiência deixou em todos sentimentos muito positivos em relação a seus semelhantes.

Anos mais tarde, outro blackout em New York levou a uma situação muito pior. E o que aconteceu agora em New Orleans foi ainda pior. Existiria uma tendência em tudo isso?

Medo, dor, desespero seriam justificáveis em pessoas cujas vidas fossem devastadas por eventos além de seu controle. Pesar pode ser compreensível naqueles que foram instados a evacuar a área e escolheram ficar. Ainda assim, a palavra que se houve daqueles que permaneceram é “raiva”.

Isso pode ser uma pista, não só para a ruptura da decência em New Orleans, mas para uma ampla degenerescência na sociedade americana, em décadas recentes. Por que as pessoas estão com raiva? E de quem?

Aparentemente, estão com raiva das autoridades governamentais, por não terem sido resgatadas mais cedo, ou melhor cuidadas, ou pela ruptura da lei e da ordem.

Não há dúvida de que, depois que a situação emergencial passar, surgirão muitas coisas que poderiam ter sido mais bem feitas. Mas, quem pode olhar para trás, honestamente, para sua própria vida, sem perceber muitas coisas que poderiam ter sido tratadas de forma mais conveniente? Apenas pensar sobre todos os erros que você cometeu na vida pode ser uma experiência de humildade, se não de humilhação.

Afinal, o governo é apenas um conjunto de seres humanos – políticos, juízes, burocratas, etc. Talvez, a razão pela qual ficamos tão freqüentemente desapontados é que esse grupo de pessoas tem feito promessas demais, aproveitando-se de nossa excessiva credulidade.

O governo não pode resolver todos os nossos problemas, mesmo em tempos normais, muito menos durante catástrofes da natureza que lembram ao homem o quão pequeno ele é, a despeito de todo o seu eloqüente discurso.

A função mais elementar do governo, a manutenção da lei e da ordem, se rompe quando enchentes e blackouts paralisam o sistema.

Durante os bons ou os maus tempos, a polícia não consegue policiar todo mundo. Ela pode, no máximo, controlar um pequeno segmento social. A vasta maioria das pessoas tem de controlar a si mesmas.

E é aí que entram as grandes tradições morais da sociedade – aquelas tradições morais de  que é tão elegante escarnecer, tão moderninho violar e as quais nossas próprias escolas ensinam os jovens a subestimar, dizendo que eles têm de desenvolver seus próprios padrões, ao invés de seguirem o que velhos bobões, como seus pais, lhes dizem.

Agora podemos ver o quanto custa esses padrões, “criados sob medida”, na crueldade e na anarquia de New Orleans.

Num mundo em que as pessoas exibem sua “independência”, seu “direito” de desprezar a autoridade moral e, algumas vezes, também a autoridade legal, a tragédia de New Orleans nos lembra o quanto somos, cada um de nós, dependentes, em nossas vidas, de milhões de outras pessoas que sequer vemos.

Milhares de pessoas de New Orleans serão salvas porque milhões de outras pessoas, delas desconhecidas, sentem-se obrigadas moralmente a virem em seu socorro, de todas as partes do país. As coisas que os “inteligentes” e os “sofisticados” escarnecem, são, em última análise, tudo que se interpõe entre nós e a completa devastação.

Qualquer um de nós poderia ter estado em New Orleans. E do que dependeríamos para salvar-nos? Ética situacional? Filosofia pós-moderna? A imprensa? Os advogados? A retórica da intelligentsia?

Não, nós dependeríamos das coisas que vão salvar os sobreviventes do furação Katrina, as mesmas coisas que os “inteligentes” vivem difamando.

New Orleans pode ser reconstruída e os diques podem ser reerguidos. Mas, podem os diques morais ser reerguidos, não só em New Orleans, mas em todo o país?

Notas:

Publicado por Townhall.com

Tradução: Antônio Emílio Angueth de Araújo.

Convocação lembra a de Collor, mas é chavismo em estado puro

por  Reinaldo Azevedo

Ao convocar sua militância para tomar as ruas o PT mimetiza no Brasil o que os seus congêneres de esquerda têm feito continente afora.

O PT, ficou claro na entrevista coletiva do presidente do partido, José Genoino, e do tesoureiro da legenda, Delúbio Soares, vai pedir à população que se vista de vermelho. Vai, em suma, pra galera. Delúbio especificou o público que ele espera estar presente no que chamaram de “ato em defesa do PT”: os filiados do partido, as ONGs, o MST e a “sociedade petista”, aqueles que, segundo ele, não sendo ligados à legenda, têm simpatia por ela. O ato, segundo os dirigentes, será em defesa do partido, mas também contra a corrupção no país. Não poderia ser mais orwelliano do que isso. É pura “novilíngua”: a coisa é o rigoroso contrário da palavra. Explicável: a distopia criada por George Orwell é parente moral da utopia petista. Estão todos em casa. Mas sigamos: eis aí. Chegou a hora de o PT brincar com o perigo. E ele, claro, brinca.

O último que conclamou a população a sair às ruas em defesa do governo foi Fernando Collor, naquele pedido patético para que os brasileiros se vestissem de verde e amarelo. No outro dia, o país estava coalhado de gente envergando luto. Não será ainda o caso desta vez. Até porque, à sua maneira, Delúbio e Genoino sabem o que fazem: parte dos que usaram preto contra Collor vestirá vermelho, desta vez, a favor de Lula. Muito bem: a similaridade com o ex-presidente se esgota aqui. A partir deste ponto, sai Collor, entra Hugo Chávez como inspiração do petismo. Àqueles sempre muito seduzidos e encantados com a conversão do PT à democracia, está sendo dada a primeira lição: esses caras não temem crise, não, senhores! Eles investem nela porque acreditam que, ao fim, saem sempre ganhando. Assim fizeram ao longo de 25 anos e foram bem-sucedidos.

Acuados por denúncias, descendo a ladeira da ética, dos bons costumes políticos, da decência, da funcionalidade, da governabilidade, restou o quê? Partir para a clivagem que sempre esteve subjacente ao discurso do próprio Lula: de um lado, o povo pobre, sedento de justiça; de outro, as elites. O ato proposto é um sinal de que eles se julgam prontos a ir para o confronto. Golpeiam as instituições; tratam o Parlamento como um lupanar; aparelham o Estado; privatizam o destino do país, colando-o ao do partido, e, ora vejam, na hora em que as coisas apertam, fazem o quê? Denunciam a desestabilização. Como se não fossem eles mesmos a desestabilizar o país, o governo e as próprias instituições.

Tudo isso estava escrito e inscrito na estrela. Alguns, como nós (e não fomos os únicos, felizmente), viram e acusaram o risco precocemente; outros perceberam, mas julgaram, sei lá, que o país deveria cumprir uma espécie de carma (eu, hein…); uns poucos, com certa soberba, acreditaram que a razão sempre triunfa no fim (o que é uma inverdade provada cotidianamente pela história); muitos, mais cínicos, apostaram que era possível encabrestar o petismo e ainda colher alguns lucros com isso.

Pois bem. Se é assim, então é chegada a hora de a sociedade civil não se deixar intimidar pelo apparatchik. Antes que prossiga, retomo, como parêntese, o que escrevi na edição anterior. Usando a expressão do colunista Antonio Fernandes do site e-agora (Notas:

Publicado por Primeira Leitura em 08/06/2005.

Para os sem terra, tudo. Para os militares, nada

Socialismo revolucionário, é o que a esquerda católica quer para o Brasil. Por isso ao MST tudo, aos militares nada.

Os fatos falam por si mesmos. De um lado bilhões gastos a fundo perdido numa Reforma Agrária cujo fracasso já esta amplamente documentado. Um de seus agentes, o MST é tratado com honras e muito dinheiro vindo de fora, dos cofres públicos e amplo apoio logístico dispensado por governos para sua mais recente marcha-demonstração de força e prestigio, onde não falta apoio da esquerda católica. Fazem escancaradamente doutrinação marxista durante a marcha e exibem uma arrogância como se fossem donos do país e estivessem acima da Lei. De outro lado, pobres senhoras dos militares são tratadas com indiferença e desdém.

Como a CPT e a esquerda católica tratam uma e outra entidade?

O comentário que segue nos dois próximos subtítulos é da jornalista Márcia Peltier no Jornal do Brasil:

Show 1

“A marcha do MST, que deverá chegar em Brasília dia 17, com seus 11 mil integrantes, tem uma logística invejável. Ambulância, carros de apoio, computadores, e um sistema de comunicação integrada com a imprensa, além de cestas básicas garantidas. É uma verdadeira caravana rolidei”.

Show 2

“Já o espetáculo das mulheres dos militares que estão acampadas na Esplanada do Ministério, está longe de ser um show. Sem apoio nenhum, uma das manifestantes passou mal, ontem, e não tinha sequer dinheiro para comprar remédio. Foi ajudada por um passante”.

Dois pesos e duas medidas

Os militares, homens da lei e do silêncio, sempre foram tratados como heróis da pátria. Não é de se esperar deles arrogância e muito menos descumprimento da lei. Acostumados ‘a hierarquia, sentem-se até constrangidos ao reivindicar algo para si mesmos. Suas mulheres estão em manifestação para pedir uma simples reposição salarial, enquanto seus maridos continuam trabalhando seja no Haiti, seja na Amazônia, seja no apoio ‘as Policias Estaduais, seja nos quartéis. Não nos consta que alguma Pastoral da CNBB esteja dando apoio a essas mulheres.

Do outro lado a baderna invasora, arrogante e acima das leis, recebe o apoio do Arcebispo de Goiânia, D.Washington Cruz, que procurou, no início do ano o Governador Marconi Perillo e conseguiu dele um amplo apoio logístico, sem o qual essa manifestação não conseguiria se realizar. Soma-se a esse apoio o da Prefeitura de Goiânia e diversas prefeituras por onde a marcha vai passando. Como, logicamente, não podem contar com apoio dos fazendeiros, vão invadindo onde precisam acampar. Já estão na oitava invasão.

Os custos dessa marcha não ficam nos que a mídia tem chamado a atenção. Segundo Jean Maria Tomazela, do jornal O Estado de São Paulo, “ o MST levou 11 meses para treinar 3 mil militantes em 23 Estados para os postos de comando, numa estrutura cuja hierarquia e disciplina se assemelham ‘as de um exército”. Quem custeou tudo isso?

A CPT – Comissão Pastoral da Terra está presente

Além da presença da CPT, outros grupos religiosos acompanham a marcha. O mais numeroso é o da Presença Solidária da CRB – Conferência dos Religiosos do Brasil, com 100 freiras acompanhando a marcha. Uma delas declarou que “nossa missão é estar onde o povo sofre”.

E as mulheres dos militares? Não sofrem? Onde estão as irmãs para confortá-las?

Doutrinação para uma nova sociedade

Durante as tardes, os “Marchantes” como são chamados, que receberam 10 mil mochilas contendo cadernos, caneta, cartilha da Reforma Agrária, livros de Karl Marx e Florestan Fernandes recebem doutrinação. Não faltam bandeiras com a imagem de Che Guevara, que encabeça a marcha ao lado da bandeira do Brasil, ou cartazes da “Brigada Olga Benário” entre outros ícones do comunismo internacional. Os temas das reuniões quase sempre envolvem questões ideológicas. Como esta de Pedro Simas, da Via Campesina:” Este é um momento de outras possibilidades, por isso colocamos nosso exército de trabalhadores nas ruas, para mudar a realidade que aí está e construir uma nova sociedade.

Um exército?

Cremos ler na consciência de nossos leitores: O MST não estaria preparando um exército  revolucionário? Eis o que relata Antonio Sepúlveda, jornalista do Jornal do Brasil: na marcha do MST “ dez mil radinhos garantem a pregação socialista e o toar de marcha político-militares e revolucionárias, transmitidas por um trio elétrico. Uma delas, a Marcha Brasil, tem um refrão politicamente explícito e literariamente medíocre: “Marcha Brasil, ergue a tua voz / Um novo país só depende de nós / Um país socialista queremos construir / Junto com o povo queremos resistir / É hora, camaradas / Não podemos desistir”. Não tiveram nem o cuidado de substituir o “camarada” soviético pelo “companheiro” petista!Também cantam hino de marcha que tem o refrão:  “um dia eu avistei uma bandeira em minha frente / o coração bateu muito forte, senti algo diferente / sua cor era vibrante, cor de sangue da gente”.

Pois é isso que a esquerda católica quer para o Brasil. Por isso ao MST tudo, aos militares nada.

Notas:

Publicado pelo boletim Sem Medo da Verdade.

Por que marcha o MST?

Por que marcha o MST? Por tudo, menos pela Reforma Agrária.

Não é pela reforma agrária que marchou sobre Brasília o MST. Ela, a reforma agrária, está em curso, a despeito da sua inutilidade e do desperdício de recursos escassos em que incorre. Também não é porque os seus militantes não estejam no governo. Seus membros são “o” governo, vez que o PT é a sua expressão política e tem a Presidência da República e o órgão que cuida do assunto, o INCRA, foi integralmente aparelhado pelo movimento, pondo-se a seu serviço.

Então, por quê? Por muitos motivos e aqui posso listar alguns; 1- pelo ativismo político inerente à sua dinâmica; 2- pelo palanque para a suas lideranças, que assim podem aparecer na mídia e também para o seu público interno; 3- porque essa é a sua profissão, o ativismo político. Muitos dos que marcham nunca viram uma roça de perto e até são remunerados como “marchadores”, a se crer no relato da imprensa; 4- porque acreditam na revolução socialista nos termos feitos na China (maoismo); 5- porque o espetáculo fanfarrão faz parte do processo político do movimento, que se alimenta de bravatas contra ordem estabelecida; 6- porque a organização da marcha tem muito de empreitada militar e o movimento nunca descartou o recurso à força para alcançar seus objetivos, daí seus contatos e apoios com guerrilheiros da Colômbia (FARC) e a manifesta simpatia por Cuba e Fidel Castro.

Então o que se vê é uma desordem pública “organizada”, que sob o império da lei não deveria acontecer. Do mesmo modo que organizam a marcha insensata, organizam invasões às propriedades privadas, rasgando a Constituição. Não podemos esquecer que se organizar em grupo para violar a lei é crime. Mais uma vez a omissão das autoridades é gritante, chegando ao inverso de governos bancarem com apoio logísticos e recursos de toda ordem a marcha da insensatez. Vemos o maior, o Poder Público, reclinar-se diante do menor, um grupo que outra coisa não pleiteia que não a destruição da ordem estabelecida.

O MST é como uma corda esticada sobre um abismo, qual o funâmbulo de Nietzsche. A qualquer momento poderá acontecer o acidente fatal, se Satã quiser repetir a peça que pregou ao filósofo amalucado: saltar sobre os marchadores, tirando-lhe o equilíbrio e precipitando a todos, e não apenas os marchadores, mas todo o País, no abismo. O Cão sempre atenta, diz o antigo brocardo.

É preocupante ver os aderentes de toda sorte, como aqueles ligados à ala esquerda da Igreja, políticos dos partidos esquerdistas de um modo geral, os bem pensantes esquerdistas de salão, que acham que assim podem acalmar a sua má consciência, tornando-se agentes da revolução, marchando alguns metros como se machassem em busca de um destino glorioso. Todos na corda bamba sobre o precipício, feitos palhaços de circo do interior, só que não há aqui salvaguardas nem rede protetora: um desequilíbrio que seja e será o fim da linha. É tudo que a comunalha deseja; é tudo que as pessoas de bem receiam e rezam para não acontecer.

Lula, Fidel e dissidentes

É muito estranho que um homem que afirma ser “sensível à dor humana” como Lula nada faça junto ao seu amigo Fidel Castro em favor dos que são oprimidos pela ditadura cubana.


“A tirania é um hábito, tem a propriedade de se desenvolver, e se dilata a tal ponto que acaba virando doença”

Fiodor Dostoievski

 

Com o dinheiro fácil dos empréstimos concedidos por Lula e doações de fartos créditos materiais do coronel Hugo Chávez, o ditador Fidel Castro, que se mostrava disposto a fazer “concessões democráticas” em troca de recursos externos, está partindo para a repressão total e, por extensão, aperta o torniquete em torno dos dissidentes políticos que ousam discordar do regime cubano: já são, agora, mais de 300 os “prisioneiros de consciência” que apodrecem nas 200 prisões de segurança máxima da ilha-cárcere, com destaque para as masmorras de Boniato e Kilo Prieto, pocilgas de 45 graus à sombra.

Em meados de abril, desesperado com a situação, o economista e jornalista Oscar Espinosa Chepe, uma figura emblemática da oposição cubana, escreveu carta ao presidente Lula da Silva solicitando apoio para a libertação de 61 presos do chamado “Grupo 75”, jornalistas trancafiados por Castro depois de denúncias contra os rigores do regime comunista de Cuba. Chepe, favorecido por problemas de saúde (e a pressão da Anistia Internacional) com uma “licença extra-penal”, foi claro e direto na carta (distribuída em Havana) enviada ao amigo brasileiro do provecto ditador: “Sr. Presidente: peço sua ajuda humanitária para a libertação imediata e incondicional dos 61 prisioneiros de consciência condenados a longas penas”.

Até agora Lula não deu resposta ao dissidente cubano e é completo o silêncio do embaixador do Brasil em Cuba, o ex-deputado petista Tilden Santiago, que, em casos semelhantes, dá sempre o calado como resposta – o que significa postar-se, por inferência, ao lado do regime totalitário de Fidel.

Mais próximo da ilha caribenha, no México, é desesperadora a situação de 66 cubanos que haviam sido detidos em alto-mar pela Marinha mexicana, todos desnorteados em precário barco de pesca. Os fugitivos da ilha-cárcere estão num alojamento do Instituto Nacional de Migração (INM), em Forte de Las Flores, Estado de Vera Cruz. E diante da possibilidade de serem repatriados, iniciaram greve de fome ao tempo em que exibem, pelas janelas, cartazes com apelos dramáticos: “Pelo amor de Deus: não nos deportem para Cuba, preferimos morrer aqui”. Ou ainda, em outro pedaço de papelão: “Não nos deportem; nos matarão em Cuba”.

Os fugitivos denunciam que não é possível viver no regime de exploração e precariedade vigentes na ilha, sem falar na opressão e na implacável vigilância da DGI, o centro de espionagem e informações da ditadura. “Fidel es un tirano!”, avaliam. O governador de Vera Cruz, Fidel Herrera, atendeu positivamente a um pedido do governo federal, visto que a Marinha do México não tem instalações para alojar os 66 fugitivos cubanos. Entrevistado pela imprensa, o governador foi sensível ao drama vivido pelos fugitivos: “Vamos buscar uma saída solidária”.

É muito estranho que Lula da Silva, o homem da lágrima copiosa, sempre sensível à dor humana (pelo menos assim o proclama) além de “amigo do peito” de Fidel Castro, ao qual já manifestou completa solidariedade, abrindo inclusive os cofres do BNDES para aliviar as carências da ilha-cárcere, é muito estranho, repito, que Lula se mostre insensível ao pedido de apoio de Oscar Espinosa Chepe, o emblemático dissidente cubano e permaneça no mais completo silêncio. Em outras oportunidades, personalidades menos votadas e diante de fatos semelhantes, pediram e obtiveram a complacência do senhor ditador. O próprio escritor Garcia Marques, amigo de Castro, tem a seu favor o fato inconteste de já ter ajudado a salvar inúmeros dissidentes políticos (ou pessoas do desagrado do regime), até mesmo do indefectível “paredón”. Por sua vez, a ação positiva do governador do Estado mexicano de Vera Cruz, o Sr. Herrera, demonstra que, no campo político, nem tudo está perdido e é sempre possível se tomar medidas inspiradas em “atos de consciência”.

No caso específico de Lula, o pedido de Chepe ainda é mais pertinente, visto que o Presidente metalúrgico vive de entoar, nas suas permanentes viagens e nos seus diuturnos discursos, os valores soberanos da democracia, da paz e do amor. Diante dos 61 prisioneiros de consciência, ameaçados por regime de fome e tortura nas masmorras de Boniato e Kilo Prieto, o presidente Lula, em vez do silêncio, tem a oportunidade única de fugir à retórica das palavras bombásticas e partir para a ação positiva de uma negociação justa e viável, e que pode significar a salvação de dezenas de vidas. O presidente, que já se disse um homem sem pecados, não pode ficar omisso e pecar pela omissão. Seria o mesmo que afirmar o sofisma de que a verdade, na política, é a mentira e a mentira, a paralaxe dos homens. E depois, sejamos rigorosamente verdadeiros: não será com a libertação e posterior deportação de 61 prisioneiros de consciência que a ditadura de Castro irá cair. Para mantê-la viva, pelo menos por tempo considerável, existirá sempre o apoio de países como Brasil e a Venezuela, que se esmeram, até com o sacrifício dos supremos valores da liberdade e dos direitos humanos, em escorar com atos e palavras, nos foros internacionais, uma tirania que apodrece apodrecendo os seus dissidentes e a própria significação do conceito de humanidade.

Por que não agir?

Colegas de crença

por  Thomas Sowell

Numa era de democracia, como podem viver juntas milhões de pessoas se cada uma acredita possuir o direito divino de impor sua vontade sobre as outras?

1o de março, 2005

Enquanto a mídia se concentra na crescente polêmica em Harvard, devido às declarações de seu reitor sobre as razões da baixa representação das mulheres nas ciências, um escândalo muito pior e muito mais significativo ocorreu na Universidade de Seattle, onde um grupo de estudantes impediu um Recrutador das Forças Armadas de encontrar-se com outros estudantes que queriam vê-lo.

Primeiramente, o reitor de tal universidade disse que os estudantes baderneiros deveriam desculpar-se. Mas a tempestade que se seguiu levou ao esperado recuo de que os administradores acadêmicos geralmente fazem uso nessas situações.

Uma estudante que fez parte da baderna explicou que ela não queria que ninguém fosse mandado para o exterior para ser assassinado. Aparentemente, nunca lhe ocorreu que o que ela queria não poderia ser imposto automaticamente sobre os outros, com ou sem violência e arruaça.

Nos tempos do direito divino dos reis, é até compreensível porque um determinado monarca poderia pensar que o que ele queria era tudo o que importava. Mas numa era de democracia, como podem viver juntas milhões de pessoas se cada uma acredita possuir o direito divino de impor sua vontade sobre as outras?

Certamente nosso sistema educacional falhou se não ensinou algo assim tão básico em lógica ou moralidade. Mas muitas de nossas escolas e universidades têm estado tão ocupadas em impor formas particulares de pensamento politicamente correto que elas nem sem importaram em explicar porque outras visões advindas de outros grupos não devem ser ignoradas intelectualmente ou desprezadas politicamente.

Quando as formas de propaganda política utilizadas nas instituições de ensino foram recentemente criticadas nessa coluna, um defensor dessas instituições enviou-me um e-mail, alegando que não havia nada errado em impor determinada crença, se estas fossem corretas.

Violando minha resolução de ano novo de parar de tentar discutir racionalmente com pessoas irracionais, eu repliquei, perguntando se este homem se sentiria bem em ser o membro de um júri que deveria votar, após ouvir apenas o lado da acusação ou da defesa.

Sua resposta foi que ele se sentiria – se as pessoas presentes em um lado do caso fossem as que ele conhecesse e confiasse.

Tal opinião é apenas aparentemente bizarra, pois, de fato, não é de nenhuma forma rara ou incomum, apesar de as pessoas que agem sobre tais bases não costumarem mostrar-se aos outros – ou mesmo provavelmente a elas mesmas. Eles não dizem que acreditam em determinadas pessoas acerca de determinados assuntos porque sentem simpatia pelas mesmas, mas é geralmente assim que eles reagem.

Um exemplo dessa estrutura de pensamento foi recontado em um recente ensaio de Ralph Toledano, que contou sua saga de jovem repórter, anos atrás, durante o caso envolvendo Notas:

Publicado por Townhall.com

Tradução: João Costa.

[*] Sobre Alger Hiss leia também A face sombria da ONU.

Acabando com a escravidão

por  Thomas Sowell

Nada poderia ser mais chocante e discordante da visão dos intelectuais de hoje do que o fato de que foram homens de negócios, dedicados líderes religiosos e imperialistas ocidentais que juntos destruíram a escravidão no mundo inteiro.

Para mim, a coisa mais chocante sobre a longa história da escravidão — que abrangeu o mundo inteiro e todas as raças — é que ninguém de nenhum país antes do século XVIII questionava com seriedade se a escravidão era certa ou errada. No fim do século XVIII, esse questionamento começou a aparecer na civilização ocidental, mas não surgiu em nenhum outro lugar do mundo.

Parece tão óbvio hoje que, como disse Abraham Lincoln, se a escravidão não é errada, então nada é errado. Mas nenhum país do mundo cria nisso três séculos atrás.

Um surpreendente livro recém publicado — “Bury the Chains” de Adam Hochschild — mostra as origens históricas do primeiro movimento anti-escravidão do mundo, que começou com uma reunião de 12 homens profundamente religiosos na cidade de Londres em 1787.

O livro recria o próprio mundo diferente daquele tempo, quando a escravidão era tão comum que a maioria das pessoas, de um modo ou de outro, nem ligava para isso. E também não ligavam para isso os principais líderes intelectuais, políticos e religiosos da Inglaterra ou de qualquer outro lugar do mundo.

Os 12 homens que formaram o primeiro movimento anti-escravidão do mundo viam sua tarefa como convencer as pessoas de seu país a pensar na questão da escravidão — a pensar nos fatos brutais e nas implicações morais desses fatos.

Eles achavam que seus esforços seriam suficientes para levar o público inglês — e no final até o próprio o Império Britânico — a ficar contra a escravidão. Embora a idéia deles fosse bem simples, foi exatamente isso o que aconteceu. Não aconteceu rapidamente e não aconteceu sem esbarrões com opositores insensíveis, pois na época os britânicos eram os maiores comerciantes de escravos do mundo e tal comércio criou grupos ricos e politicamente poderosos que defendiam a escravidão.

Apesar disso, o movimento anti-escravidão persistiu durante décadas de lutas e derrotas no Parlamento britânico até que acabaram obtendo uma proibição ao comércio internacional de escravos, e no fim uma proibição à própria escravidão em todo o Império Britânico.

Ainda mais impressionante, a Inglaterra se encarregou sozinha, como a principal potência naval do mundo, de policiar outras nações na questão da proibição ao comércio de escravos. Interceptando e abordando os navios de outros países em alto mar em busca de escravos, os britânicos se tornaram e permaneceram por mais de um século os policiais do mundo em seus esforços de dar uma basta no comércio de escravos.

Bury the Chains” apresenta essa história incrível só até a época da proibição da escravidão no Império Britânico. Esperamos  apenas que Adam Hochschild ou outro escritor prepare um livro igualmente dramático e convincente sobre a saga da luta mundial contra a escravidão.

Contudo, as chances não parecem boas. O primeiro movimento anti-escravidão foi liderado por pessoas que hoje seriam chamadas de “direita religiosa” e seu movimento foi criado por homens de negócios conservadores. Além disso, o que destruiu a escravidão nas nações não ocidentais foi o imperialismo ocidental.

Nada poderia ser mais chocante e discordante da visão dos intelectuais de hoje do que o fato de que foram homens de negócios, dedicados líderes religiosos e imperialistas ocidentais que juntos destruíram a escravidão no mundo inteiro. Mas como tal fato não se encaixa na visão desses intelectuais, é como se para eles tudo isso nunca tivesse ocorrido.

Os conceitos anti-escravidão acabaram se espalhando por toda a civilização ocidental, uma luta que se tornou mundial, colocando o Ocidente contra africanos, árabes, asiáticos e praticamente o mundo inteiro fora do Ocidente, que ainda não viam nada de errado na escravidão. Mas os imperialistas do Ocidente foram os primeiros a possuir armas a base de pólvora, dando-lhes a vantagem de eliminar a escravidão no Ocidente e em outros países.

Em comentário sobre “Bury the Chains”, o jornal Bury the Chains”, o jornal Bury the Chains”, o jornal notas:

Bury the Chains”, o jornal Townhall.com Tradução: Julio Severo.

O discurso de Lula

No seu último discurso na ONU, Lula, o Metamorfose Ambulante, repetiu as bobagens de sempre sobre globalização e pobreza: disse que o mundo de hoje é muito mais desigual do que o de dois séculos atrás (como se tal informação fosse relevante) e também afirmou que, para combater o terrorismo, é preciso lutar contra a fome no mundo.  O discurso de Lula nada tem a ver com a realidade dos fatos; o presidente apenas repetiu as idéias retrógradas do seu partido, que mantém o mesmo caráter autoritário e intervencionista, por mais que extremistas de esquerda pensem o contrário. Na verdade, Lula não mudou significativamente as suas idéias; adaptou-se às circunstâncias do momento, e alterou o seu discurso em um ou outro ponto irrelevante, que apenas engana quem não conhece a estratégia do seu partido, que consiste em dar  uma aparência de democrático a um governo que a cada dia aumenta mais o seu controle sobre a vida do cidadão.

Lula falou em desigualdade na comparação do mundo atual com aquele de dois séculos atrás, e não acrescentou outras informações que refutariam a sua afirmação de que o mundo atual é pior do que o de outrora. A tese de Lula, baseada na consideração de apenas um dado, a desigualdade, é completamente equivocada para a adequada compreensão das diferenças entre as duas épocas em questão. Pois a desigualdade em si não é problema; em um país livre, é natural que haja diferenças, que são resultado da dinâmica do mercado: uma empresa bem sucedida é aquela que satisfaz o consumidor, este sim, o soberano no capitalismo, enquanto no socialismo o soberano é o planejador. Tentar acabar com as desigualdades não é viável nem desejável, pois isso significaria passar por cima dos direitos individuais, já que o Estado precisaria usar a força para tirar de alguns para dar a outros. Além de tudo, a ação do Estado não produziria os efeitos desejados; pelo contrário, criaria uma classe de burocratas parasitários dedicados à distribuição de riqueza. Como afirmou Trotski, o próprio encarregado de distribuir a riqueza não esquecerá de si mesmo… Tal experiência já foi feita nos países socialistas, e os resultados foram catastróficos, mas hoje em dia os debates no Brasil são restritos a um horizonte histórico extremamente limitado. Tudo aquilo que aconteceu em outros lugares e outras épocas parece não ser importante na análise dos nossos problemas atuais, como se nada tivéssemos a aprender da experiência histórica do ser humano. A extrema importância que se dá ao tema da desigualdade é resultado de compreensão inadequada sobre o processo de geração de riquezas. Um país pode ser desigual e também ter ótimos índices de qualidade de vida para o conjunto da sua população. A desigualdade não é incompatível com bons indicadores sociais; pelo contrário, nos países que impuseram o igualitarismo é que não foi possível a geração de riqueza necessária para que se obtivesse um bom padrão de vida. Além disso, falar apenas em desigualdade, sem considerar as outras diferenças entre o mundo de hoje e o do passado, como o fez Lula, é desonestidade intelectual: pois o mundo atual, embora ainda tenha muitos problemas, é consideravelmente mais rico na comparação com qualquer outra época. E a expectativa de vida aumentou, com os progressos tecnológicos. Há ainda o fato de que no mundo de hoje, graças aos avanços tecnológicos, um trabalhador comum tem acesso a bens e serviços que os governantes mais poderosos de alguns séculos atrás sequer imaginavam. É bom lembrar que só não evoluíram os países que praticaram as medidas que o próprio Lula defendeu a vida inteira, como o intervencionismo estatal na economia.

Em relação ao terrorismo, Lula repetiu o seu discurso sobre a fome, que não produziu resultado algum no Brasil. O fracasso do Fome Zero não impediu que Lula propusesse a sua implantação em escala mundial, como se o mundo desse importância aos arrotos de um presidente que governa um país pouco significante sob o aspecto econômico, e, o que é pior, sob o aspecto cultural. As propostas de Lula só poderiam ser impostas por um governo mundial, que violasse a soberania dos países. Lula mostra uma ambição ilimitada de poder, além de ignorância sobre os assuntos que trata: terrorismo nada tem a ver com fome. Pelo contrário, os terroristas a cada dia são mais poderosos porque têm acesso a recursos financeiros e tecnológicos de que não dispunham há anos atrás. E se hoje o terrorismo é um problema cada vez mais preocupante, isso certamente não tem relação com fome: não são os famintos os responsáveis pelo terrorismo; são, sim, os governantes que têm fome de poder.

Hitler está aqui

O diário oficialista Últimas Notícias lançou ontem um balão de ensaio para medir a capacidade de resposta da sociedade, frente ao projeto chavista de estabelecer na Venezuela uma tirania com roupagem institucional. A reforma é calcada no que Hitler fez na Alemanha em circunstâncias iguais, quando a cidadania ainda tinha alguma força para resistir ao seu projeto de poder pessoal totalitário.

Segundo o diário oficialista, o MVR apresentaria à Assembléia Nacional uma reforma da Constituição que, sem dissimulação, porá nas mãos de Chávez todos os mecanismos de poder, com capacidade discrecional para encarcerar cidadãos civis e militares, fechar empresas, aprovar as leis que acomodem seu projeto e, assentado no terror, reeleger-se indefinidamente como o tem feito Fidel e o teria feito Hitler se os aliados não tivessem entrado em Berlim.

A emenda de 21 artigos converterá a Constituição em um instrumento de poder total do presidente sobre os indivíduos e a sociedade. É exata a “coincidência” entre esta reforma chavista e a que Hitler efetuou desde o poder, em circunstâncias exatamente iguais.

A mudança fundamental, estritamente copiada de Hitler, é que o presidente poderá prender sem julgamento prévio de mérito a generais e almirantes, o qual lhe permitirá aterrorizar a Força Armada e usá-la sem limitações para esmagar os cidadãos. Em seguida vêm os artigos dirigidos para, segundo a proposta do MVR, “…atacar com severidade e prontidão o procedimento dos grupos econômicos…”, com o qual Chávez poderá encarcerar indefinidamente os empresários que “não cooperem com seu regime”, e fechar suas empresas.

Se nesta reforma ainda resta algum resquício de liberdade, a “debilidade” será coberta rapidamente aprovando leis orgânicas específicas que preenchem o vazio e, se fizer falta, genéricas leis habilitantes (poder discrecional para o governante) por maioria simples. Este procedimento da maioria simples se considera inaceitável nos países democráticos, quando se trata de reformas estruturais, às quais em teoria democrática e lógica sã não podem ser impostas à maioria por uma minoria, muito embora esta seja a menor das minorias como é o caso do MVR na Assembléia.

Tudo isto será coroado aprovando a reeleição indefinida do presidente da República. Uma e outra vez, até o infinito, procedimento absolutamente eliminado em todas as constituições do mundo civilizado, pois o utilizam somente em nações primitivas onde um homem forte se eterniza no poder mediante o terror, como no passado fizeram os velhos ditadores latino-americanos.

O projeto será introduzido e aprovado em qualquer momento na Assembléia Nacional, eliminando definitivamente qualquer possibilidade de Liberdade e Democracia na Venezuela. É o mais trágico que ocorreu a um país do ocidente depois que desapareceram ditaduras como a de Trujillo… e o resultado pode ser ainda mais horrendo do que o de Cuba governada por Fidel Castro.

Notas:

Fonte: Coluna “A sangue frio”, diário El Nuevo País.

Tradução: Graça Salgueiro