1. Colunistas

Colômbia: Garzón, um camaleão a manipular a direita

17 de maio de 2017 - 15:53:54

Me preocupa muito a intervenção do hábil Angelino Garzón durante a 2ª Convenção do Centro Democrático (CD), no passado sábado 6 de maio, em Bogotá. Falo do fundo do discurso do ex-vice-presidente de Juan Manuel Santos, da mensagem subliminar que ele deixou nas mentes do auditório. Falo de sua maneira de oferecer desde essa tribuna sua própria candidatura presidencial, dizendo que não estava lá para se postular e que não representa nenhum partido político, mas deixando no imaginário dos 1.800 delegados a vaga idéia de que ele poderia ser o providencial “candidato forte” capaz de dirigir uma coalizão heterogênea e potente que ganhe em maio de 2018 a presidência da República, graças a uma receita mágica que ele trata de vender sob a etiqueta de “unidade dentro da diferença”.

A aparição de Angelino Garzón nesse evento do CD coincide com os chamados que o analista político John Mario González faz, que pretende dizer que o CD “ainda não tem” um “candidato forte”.

O não-candidato Angelino Garzón foi muito aplaudido quando disse algo que todos compartilhamos: que o CD deve ganhar as eleições presidenciais e legislativas de 2018. Entretanto, o problema de sua proposição é que ele repousa sobre uma política de alianças muito vasta na qual cabem todos, sobretudo os setores, grupelhos e partidos que militaram pelo SIM ante a perspectiva do plebiscito de 2 de outubro do ano passado, e que hoje militam pelo que as FARC chamam “a implementação dos acordos” de Havana, entre Santos e as FARC.

A isso se refere Angelino Garzón quando fala de “grande coalizão”, a qual só seria possível, segundo ele, se fizermos “a unidade dentro da diferença” para alcançar a “reconciliação”. Sem esse ingrediente incongruente de incluir os do NÃO e os do SIM não desencantados, a palavra “diferença” não teria sentido nem justificação.

Muito distinta é a unidade que preconizam a justo título os pré-candidatos que falaram ante a 2ª convenção do CD. O ex-procurador geral Alejandro Ordóñez Maldonado falou de um “acordo sobre o fundamental para derrocar o regime” pois, ele explica, com razão, “não basta ganhar as eleições de 2018”, pois impuseram ao país umas instituições bárbaras por conta do “processo de paz”. Rafael Nieto Loaiza propôs uma “grande aliança republicana” com os do campo do NÃO mais “os do SIM que se deram conta do erro em que estavam”, e com 85% da opinião pública que vê que o governo de Santos “é um desastre”. Iván Duque não explicou sua política de alianças e enfatizou, em tom exclusivista, que “o candidato [deve ser] genuinamente uribista”.

Em todo caso, nas acertadas concepções desses pré-candidatos não há lugar para aqueles indivíduos, grupos, partidos e setores que co-governam e que colaboraram com o governo de Juan Manuel Santos.

A história de Garzón é outra coisa. Ele não exclui de sua “grande coalizão” os que trabalham pela derrubada da institucionalidade colombiana. Ele pretende que com eles pode-se ir para um fenômeno de “reconciliação”. Angelino já está trabalhando nisso. Ele contou que se propõe a realizar em Cali, no próximo 26 de janeiro, um colóquio intitulado “A unidade na diferença para uma Colômbia reconciliada e com futuro”. Ante a 2ª convenção, Angelino pediu ao ex-presidente Uribe para ir a esse evento e fazer uma conferência sobre a teoria garzoniana da “unidade na diferença e a reconciliação na Colômbia”. Uribe aceitará jogar essa carta?

Muito hábil e muito audaz foi, pois, a aparição de Angelino Garzón na 2ª convenção do CD. Para mim é óbvio que os setores que Angelino representa compreendem que o triunfo eleitoral do CD em 2018 é inevitável e que eles serão impotentes ante a determinação dos eleitores (salvo se ocorrer algo extraordinário) e que nesse contexto eles devem subir nesse trem, mesmo que tenham que engolir sapos, para influenciar e, se for possível, determinar o rumo que tome a nova equipe de governo.

Angelino Garzón foi um dirigente do Partido Comunista Colombiano (PCC) e é conhecido por sua perícia camaleônica. Escalou importantes posições oficiais de todo tipo: ministro do Trabalho, governador de estado, embaixador em Genebra e vice-presidente da República (durante o primeiro governo de JM Santos). Ele foi, além disso, vice-presidente do partido União Patriótica (comunista), militante da Aliança Democrática M-19 (castrista), e Secretário Geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), federação sindical controlada pelo PCC. Anti-clerical notório, em 2015 Angelino foi candidato à Prefeitura de Cali com o aval do Partido de la U (santista). Em que pese a isso, o PCC não deixa de acusar o sistema colombiano de “excluir” e “perseguir os comunistas”. Angelino é um homem inteligente e de bom humor. É amigo de todo mundo e muitos políticos querem tê-lo a seu lado. Desde 1995, ele afirma que não milita em nenhum partido, embora não se saiba que tenha renunciado ao marxismo-leninismo.

Seríamos excessivamente suspicazes e de má-fé se dissermos que o objetivo de Angelino, que exagera no que faz a quantidade de componentes de sua “grande coalizão” e que reduz, ao mesmo tempo, a muito pouco a clareza sobre a orientação política central dessa “grande coalizão”, não é outro que o de fazer com que o CD chegue à presidência da República em 2018 comprometido com um objetivo deformado e nefasto?

O preço que teria que pagar para fazer a “grande coalizão”, a única que, segundo a pérfida crença que Garzón envia, permitiria ao CD ganhar a eleição presidencial em 2018, seria que o novo governo tenha o compromisso de não tocar em nada dos pactos Santos-FARC e que se embarque, sem abrir a boca, na aplicação e “implementação” rigorosa desses acordos.

Muitos terão notado que Angelino Garzón falou de tudo em seu discurso ante a convenção do CD. Até elogiou o triunfo do NÃO no plebiscito, embora ele militasse pelo SIM, e saudou a atividade de sua filha Ángela Garzón, vereadora de Bogotá pelo Centro Democrático, em favor do NÃO. O que ele certamente evitou foi abordar o tema central do que fazer ante os diabólicos de depredadores pactos Santos-FARC.

Essa “unidade dentro da diferença” tem, em conseqüência, um só objetivo: que o presidente eleito pela galáxia híbrida e indigesta impulsionada por Angelino Garzón não rechace, nem revogue, nem modifique os acordos de Havana, em honra da “reconciliação” nacional. Qualquer outra posição, como a exposta pelos pré-candidatos, começou a se qualificada de “sectária” pelo próprio Angelino. Foi a palavra que ele empregou no final, ao anunciar seu ato de 26 de janeiro.

Quem rechaçar a “grande coalizão” garzoniana será estigmatizado como “sectário” e como “inimigo da paz”, e “hostil à reconciliação”? Que nem lhes ocorra isso.

Há que admitir, a postura de Angelino é de ruptura com o querer do Centro Democrático. O ex-ministro Fernando Londoño Hoyos, presidente do CD, rechaça de plano, com razão, os acordos FARC-Santos e chama a despedaçá-los. Alejandro Ordóñez e Rafael Nieto dizem o mesmo. Iván Duque fala de fazer-lhe “corretivos”. Os discursos, plenos de excelentes idéias e fervor democrático de María del Rosario Guerra, Paloma Valencia e Carlos Holmes Trujillo, vão na mesma direção e marcam uma franca ruptura com os infames pactos cubanos. “É necessário voltar aos valores da pátria”, disse, em síntese, María del Rosario Guerra. Há que traçar um “novo rumo para a Colômbia”, lançou Paloma Valencia. “É preciso mudar o acordo com o terrorismo porque é ruim para a Colômbia”, sublinhou Carlos Holmes Trujillo.

Todos eles fustigaram e rechaçaram o atual desenho constitucional erigido por FARC-Santos. O objetivo principal de um governo do CD em 2018 deve ser, então, derrubar essa arquitetura e pactuar a paz sem ferir a justiça e o Estado de Direito, para que a Colômbia volte a ser livre e soberana.

Tradução: Graça Salgueiro

  • Fábio de Oliveira Schiavinoto

    Gostaria de saber por que um site que comporta artigos e informações tão importantes, elaborados por gente tão inteligente, contém tantos erros ortográficos. Nesse artigo, o professor Olavo usa errado o “porque” (“Mas por quê o silêncio geral — mesmo dos anticatólicos mais inflamados —
    sobre o problema incomparavelmente mais grave do celibato forçado?”). Por que “por quê”?. E também por que o “chapeuzinho” no verbo “ver”, forma do verbo ver conjugado na 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo?

  • Fábio de Oliveira Schiavinoto

    Gostaria de saber por que um site que comporta artigos e informações tão
    importantes, elaborados por gente tão inteligente, contém tantos erros
    sintáticos e ortográficos. Nesse artigo, o professor Olavo usa errado o “porque”
    (“Mas por quê o silêncio geral — mesmo dos anticatólicos mais inflamados

    sobre o problema incomparavelmente mais grave do celibato
    forçado?”). Por que “por quê”?. E também por que o “chapeuzinho” no
    verbo “ver” conjugado na 3.ª pessoa do plural do
    presente do indicativo?