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O erro de Eliana Cardoso

4 de novembro de 2016 - 22:43:57

Pensar em Guimarães Rosa como um simpatizante feminista avant la lettre é um disparate. Pô-lo como um combatente suposto contra o que ela chamou de “femicídio” (termo mais feio. Acho que tudo que vem das feministas é feio. Por que será?) é uma ideia completamente fora de lugar. Certo, nos contos de Sagarana os mulatos que não matam suas companheiras infiéis não o fazem porque o autor, de acordo com a crença dos letrados dos seus tempos, acha que mulatos e mulatas não são feitos para casar, são inconstantes como Lalino e são lascivos como forças da natureza.

O “homem cordial” brasileiro seria esse mulato em tudo e por tudo diferente dos brancos europeus, os portadores da civilização e da contenção dos instintos. Mulato era bom para ser pistoleiro e a mulata para ser prostituta ou vadia. Não serviam nem para trabalhos continuados e nem para formar famílias estáveis. O fato é que a obra inaugural de Guimarães Rosa incorpora, sem tirar nem pôr, essa visão do homem brasileiro. Bom lembrar que a obra foi escrita no auge do Estado Novo, que tinha até mesmo uma secretaria de Estado voltada para embranquecimento da raça brasileira (?).

Que bela política de desenvolvimento! A elite brasileira, toda ela, atribuía ao “brasileiro”, ou seja, ao mulato, e ao clima quente, os males da nação. O tempo se encarregou de negar essas besteiras, que se arrastaram desde o século XVIII como explicação última do subdesenvolvimento. Guimarães Rosa, genial como era, desembarcou desse besteirol racista ao produzir o belíssimo Grande Sertão, Veredas, cujo herói é um mulato bastardo.

Eliana Cardoso, cega com seu “femicídio” e seu feminismo, passou por cima dos fatos e nada viu. Só enxergou aquilo que quis ver. Certo que para ver o que aqui aponto teria que ler a obra toda e a as diversas nuances biográficas. Talvez não tenha feito isso. Não se pode é fazer uma leitura errada da obra do grande mineiro. A constante dos mulatos não matarem as mulheres nos contos de Guimarães Rosa em situação de infidelidade se dava pelo simples motivo de que mulatos não se importavam com o detalhe. Isso era coisa dos brancos civilizados.

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