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Uma visita à universidade

17 de maio de 2017 - 5:14:40

A conferência sobre os “mundos americano e muçulmano entre 1500 e 1900”.

Participei, no início do mês de abril, de uma conferência acadêmica de dois dias na Universidade da Pensilvânia, em parte pelo interesse na matéria (“Mundos Americanos e Muçulmanos entre 1500 e 1900”) e também para ver, em primeira mão, como anda o discurso nas ciências humanas na universidade contemporânea. Como fundador do Campus Watch, eu me pergunto se ele é tão ruim quanto os nossos pareceres sugerem ou se estamos diante de dados fora da curva.

A minha primeira impressão foi a de bem-estar intelectual. Um amplo consenso sobre uma base corrente de pressupostos liberais desencoraja opiniões divergentes. Há uma série de hierarquias:

– O moderno supera o antigo

РṆo Americanos Superam Americanos

– Mulheres Superam Homens

– Pele escura supera pele branca

РMṳulmanos superam aqueles que ṇo ṣo mṳulmanos

O termo “islamofobia” é usado como se fosse uma palavra normalmente utilizada na língua inglesa e não como ferramenta de propaganda para silenciar a crítica. Henry Jessup, proeminente missionário do Século XIX, foi chamado, de maneira anacrônica, de crítico feroz aos muçulmanos”.

Um professor canadense que vive atualmente na Costa Rica se sente ressentido porque o povo dos Estados Unidos “comanda” a palavra americano de modo que ela é usada apenas para os americanos. Um palestrante elogiou o debate por ele ter “problematizado a centralidade dos Estados Unidos”. Um moderador estava tão apreensivo em relação ao “centrismo dos Estados Unidos” que levantou a seguinte questão: “não seria adequado fazer disso um tópico? Há uma certa arrogância inerente” dos americanos ao estudarem os muçulmanos? Um frisson reverberou na plateia diante da menção do nome “Trump”, por outro lado, invocar Edward Said é previsivelmente festejado.

Minha segunda impressão diz respeito ao jargão. Ninguém fora do mundo acadêmico usa palavras como “problematizar”, “racializar” e “relativizar”, muito menos “historicizar a noção da imaginação”. (O que está acontecendo, por que esse substantivos se transformam em verbos com o finalizar?) O uso da palavra “e” no título da conferência gerou um debate considerável, (ele implica que os Estados Unidos e o mundo muçulmano são totalmente diferentes ou será que permite alguma coisa em comum?) a ponto disso vir a ser conhecido como “o problema do e”.

A terceira e a mais forte das impressões diz respeito à trivialidade, a tendência dos historiadores em evitar análises profundas em favor de insignificantes microtemas. Eles respondem a perguntas que ninguém faz. Esta propensão saltou aos olhos na conferência de UPenn. Análises com títulos de “húris de Byron nos Estados Unidos: Representações Visuais de Heroínas Muçulmanas na Galeria das Beldades de Byron” ou “Estrangeiros em Terras Estranhas: OS ‘Rebs e os Yanks’ na Citadela de Khedival” transformou o importante tema dos primórdios dos relacionamentos americanos/muçulmanos em uma série de obscuridades. O prêmio para a esquisitice, no entanto, vai para a “América do Bombo: A Visão da Energia das Ciências Humanas na Origem do Conto Americano Sobre o Oriente”.

Por outro lado, as questões mais interessantes, atraentes e proveitosas mal vieram à tona: o papel que os muçulmanos alfabetizados tiveram nos escravos africanos. O impacto da Rebelião Moro nas Filipinas na opinião dos EUA. O legado dos missionários protestantes no Oriente Médio. A percentagem de muçulmanos nas primeiras imigrações para o Oriente Médio. A maneira com que vendedores ambulantes se tornaram proprietários de lojas de produtos têxteis e depois, de forma desproporcional, proprietários de lojas de bebidas alcoólicas. O legado dos Shriners, oficialmente conhecidos como a Antiga Ordem Árabe dos Nobres do Santuário Místico, com suas imitações dos templos de Meca e outros motivos islâmicos.

A conferência foi anunciada como sendo de “graça e aberta ao público, mas era necessário se inscrever”, assim sendo eu me inscrevi, sinalizando desta maneira aos organizadores e palestrantes da minha presença. Não posso garantir, mas acho que isso foi devido à menção de Kambiz GhaneaBassiri do meu artigo de 1990 intitulado “Os Muçulmanos Estão Chegando! A citação Os Muçulmanos Estão Chegando!” foi em minha homenagem. Da mesma forma, a ordem repetida inúmeras vezes para que a conferência não fosse gravada nem em áudio nem em vídeo também parecia ter sido dirigida diretamente a mim. É uma exigência estranha para uma instituição acadêmica, que por sua própria natureza quer atingir um público mais amplo, contudo bastante compreensível, dada a freqüência com que o Campus Watch tem exposto os excessos dos estudos sobre o Oriente Médio por meio da gravação de eventos. Eu duvido que a proibição seja legalmente válida.

“Eu cresci no meio universitário (meu pai Richard é professor emérito), possuidor de um PhD em história medieval, de modo que eu imaginava inicialmente que o campus seria central na minha vida. Então, pelo fato dele (campus) ter-se radicalizado e eu não, minha ligação com o mundo acadêmico encolheu. Hoje em dia nas minhas ocasionais visitas eu invariavelmente me sinto alienado pela ala esquerda, pelo jargão e pela irrelevância arrogante. Embora esteja feliz de ter escapado das suas garras, eu me preocupo com o futuro (essa palavra novamente) do ensino superior americano. De modo que, sim, o Campus Watch está certo.

A rede de TV Fox News revelou que metade dos americanos estão preparados para uma mídia alternativa. Quando será que os educadores descobrirão que a mesma lógica se aplica às universidades?

Adendo:

(1) A conferência em UPenn gerou uma série de comentários jocosamente bizarros que eu não tinha citado no artigo por falta de espaço: “a islamofobia começou em Meca”, ao que tudo indica, é uma referência aos coraixitas da época de Maomé. “Missionários americanos faziam parte do aparato repressivo do Império Otomano sob o Sultão Abdul Hamid II”. Os “húris são cosmologicamente de pele branca” (seja lá o que isso signifique).

(2) A conferência mostrou o problema maior que eu acabei de relatar em “Historiadores Fora de Controle”: os historiadores ‘negligenciam os eventos decisivos da história do mundo moderno em favor de temas enigmáticos ou propaganda política de orientação esquerdista, principalmente comunista, às vezes as duas coisas’. Fiquei satisfeito em ouvir alguns palestrantes lamentando a ausência do que eles chamam de ‘grande narrativa’ histórica, ainda que estivessem preocupados que isso teria a dimensão de “nós e eles”, tanto assim que não se atreveram em lidar com ela.

(3) Nenhum conclave de acadêmicos seria pleno sem uma boa reclamação em relação ao mercado de trabalho. No nível macro houve muita angústia sobre o estado das coisas na América de Trump, especificamente quanto ao espectro da “islamofobia”. No nível micro um palestrante se queixou que, embora os artigos em coautoria sejam incentivados não ajudam no cargo, colocando de maneira mais poética: “o que é valorizado não é recompensado”.

Daniel Pipes (DanielPipes.org, @DanielPipes) é o presidente do Middle East Forum.
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  • Aaron DiBona

    kkkk, e’ preciso estomago forte pra entrar num evento deste tipo